Ex-comandante
da Aeronáutica: Escolha de generais para Defesa alimentou trama golpista
Carlos
Baptista Júnior, brigadeiro e ex-comandante da Aeronáutica, se tornou durante o
julgamento da tentativa de golpe de Estado, em
2025, testemunha central de como o ex-presidente Jair Bolsonaro planejou
permanecer ilegalmente no poder. Em setembro, ele lança “Eu disse não! – Uma
trincheira antigolpista”, pela editora Autêntica, obra na qual ele detalha a
experiência durante o governo Bolsonaro.
<><>
Confira a entrevista:
·
O senhor abriu o livro falando sobre o dia em que foi à PF
para prestar um depoimento. É uma curiosidade que muitas pessoas tiveram desde
o momento em que o depoimento veio à tona: por que só naquele momento?
Brigadeiro
Baptista Júnior — Quando
passei o comando, no dia 2 de janeiro, mudei para um apartamento de um amigo na
Asa Sul. Acompanhei o 8 de janeiro tendo a visão dos helicópteros sobrevoando
e, logicamente, pela televisão. Vi que aquilo era algo muito grave e,
imediatamente após aquilo muitos desses fatos foram incluídos nos inquéritos
que haviam sido abertos em 2019. E então, eu não estava preparado para receber
aquela intimação. Mas eu sabia que ia acontecer uma análise de todos esses
fatos e que eu certamente estaria envolvido.
·
O senhor teve vontade de procurar a Polícia Federal ou a
Procuradoria-Geral da República antes daquele momento, ou realmente só esperou
ser chamado?
Eu
esperei ser chamado. Foi quando se abriu a petição 12.100, né? Que estava
ligada a um dos inquéritos abertos lá atrás, em 2019.
·
Mas, enfim, como ex-comandante da Aeronáutica e como
cidadão brasileiro, o senhor não teve vontade de denunciar tudo isso antes
daquele momento?
Eu já
previa que isso ia acontecer. Talvez, por isso, nunca tive a iniciativa de
procurar uma autoridade policial para fazer uma denúncia espontânea.
·
É que surgiu um questionamento sobre o momento em que
isso veio à tona, porque as pessoas não o conheciam. O senhor é uma
pessoa discreta. O general Freire Gomes também. Então, quando surgiram os dois
depoimentos, o do senhor e o dele, lá em março de 2024 — um ano e pouco depois
de todos os eventos —, ficou a dúvida se os senhores falaram só porque foram
chamados pela Polícia Federal ou se foi realmente uma responsabilidade assumida
com o Estado brasileiro ao revelar tudo aquilo.
Há
muita gente que faz julgamentos a partir do seu próprio ponto de vista, da sua
percepção. Até hoje temos pessoas que nos acusam de termos prevaricado por não
termos dado ordem de prisão ao presidente. Quem diz isso teria que estar lá
dentro. É muito difícil, hoje, do ar-condicionado, do fato já resolvido, fazer
esse tipo de julgamento, né? Isso passou. A nossa decisão foi tomada e a
história evoluiu, como sabemos.
·
Há algum momento que o senhor destaca ao longo do seu
livro em que se sente a evolução da escalada golpista? Há algum momento
que o senhor marca como aquele em que teve certeza de que se tentaria um golpe
de Estado?
Hoje eu
conheço muito mais do que conhecia naquela época. Mas, pela minha percepção ao
vivo dos fatos, o que mais me chamou a atenção foi a participação do
presidente. O primeiro fato que me chamou a atenção foi a presença dele no
aniversário do Exército, em frente ao Forte Apache — o quartel-general do
Exército —, numa manifestação que pedia intervenção militar. O presidente subiu
na carroceria de uma viatura para participar da manifestação. Aquilo não foi
bom. Algum tempo depois, quando o general Fernando ainda era ministro da
Defesa, houve na Praça dos Três Poderes, uma manifestação contra o STF e outras
demandas de parte da população. Eu sempre tomo muito cuidado ao falar da
população e do povo, porque muita gente está sequestrando o que é o povo. E o
presidente fez um sobrevoo de helicóptero — era o helicóptero da Força Aérea,
camuflado, não o branco dele, com a porta aberta, da foto do dia seguinte. Era
ele, com o general Fernando, sobrevoando a manifestação. Posso citar a escolha
de um ministro militar após outro no Ministério da Defesa, e o desfile de
blindados da Marinha em frente ao Palácio do Planalto. Hoje, depois de tudo que
li, percebo que muitos jornalistas acham que o presidente Bolsonaro já assumiu
com um espírito, ou uma estratégia de longo prazo, de permanecer no poder,
ganhando ou não as eleições. Eu sempre discordei disso, embora respeite essa
visão. Mas foi crescendo, né? O 7 de Setembro na Avenida Paulista… Eu fui
lutando para demover essa ideia o tempo todo. Onde vi que realmente existia
alguma coisa foi no dia 14 de dezembro, quando a minuta foi apresentada aos
três comandantes.
·
Brigadeiro, o senhor também acha que essa opção de
indicar generais para o comando do Ministério da Defesa contribuiu para que
esse processo golpista?
O
Ministério da Defesa foi criado em 1999, a exemplo de todos os países do mundo,
para estabelecer o controle civil sobre a instituição militar. E aqui eu não
estou falando de a pessoa ser civil ou militar — apesar disso importar. Nos
Estados Unidos, por exemplo, você pode colocar um militar, mas desde que ele
esteja há sete anos na reserva, porque tirar um general, um almirante ou um
brigadeiro quatro estrelas que estava na reserva até o mês passado e colocá-lo
como ministro da Defesa — muito dificilmente ele terá uma visão homogênea das
três forças em todos os aspectos: de emprego, de prioridade orçamentária e de
visão operacional. Nos Estados Unidos, a pessoa precisa ficar sete anos na
reserva para poder assumir o cargo. Aqui, tivemos Joaquim Silva e Luna, que é
muito meu amigo — hoje prefeito de Foz do Iguaçu —, um excelente oficial. Não
estou julgando a capacidade de nenhum deles, mas tivemos quatro
oficiais-generais do Exército, de quatro estrelas, seguidamente como ministro
da Defesa. Acho que isso não é bom. E acho que vem de uma visão do presidente
Bolsonaro: desde a criação do Ministério, ele fez campanha contra, com ataques
ao presidente Fernando Henrique. Ele via isso como uma estratégia para tirar os
militares das decisões de primeiro e segundo escalão, o que eu discordo
completamente.
·
O senhor relata no livro que se sentiu muito
desconfortável na reunião de acompanhamento da apuração do primeiro turno da
eleição de 2022 dentro do Ministério da Defesa. E, um pouco antes, também conta
que ocorreram inúmeras reuniões ao longo de 2022, sempre com o mesmo tema da
questão eleitoral. Ainda que o senhor só tenha tido certeza da tentativa do
golpe no dia 14, já sentia, antes disso, que essa mistura entre política e
Executivo estava criando esse clima golpista?
Não
tenho dúvida. Comento no livro que, principalmente, após 31 de março de 2022,
quando o general Braga Netto se desincompatibilizou para ser candidato a
vice-presidente na chapa do ex-presidente Jair Bolsonaro e assumiu o general
Paulo Sérgio, o tema básico do Ministério da Defesa foi o que forçou as Forças
Armadas a se envolverem nesses temas. O trabalho do general Paulo Sérgio,
durante todo o tempo em que foi ministro, foi muito dedicado ao processo
eleitoral. Isso certamente não faz parte das atribuições das Forças Armadas,
embora elas sempre possam ajudar no processo eleitoral — como o ITA, a Abin ou
a área de TI da Polícia Federal ajudavam, e como todos os órgãos dos partidos
também ajudavam. O problema é que houve uma ligação, ou uma condição imposta
pelo presidente — essa é a minha percepção, com base no que ele disse — de que
só reconheceria o resultado se fosse aprovado pelas Forças Armadas. E aí foge
demais do papel institucional das Forças Armadas.
·
Ao mesmo tempo em que havia essa pressão sobre o
relatório das Forças Armadas — quer dizer, na medida em que a conclusão do
trabalho feito pelas Forças Armadas era de que não havia nada de errado, mas
também se sentiu obrigado a dizer que não podia afirmar que não achou erro
nenhum —, o senhor poderia falar um pouco sobre essa pressão que houve para a
emissão daquele relatório?
Bem,
durante esse período tivemos três presidentes do TSE: primeiro o ministro
Fachin, depois Barroso e, por último, Alexandre de Moraes. Os três ministros
abriram a possibilidade de as Forças Armadas se aprofundarem no sistema, né? E
aí tínhamos, de um lado — e eu nunca vi dolo nisso —, a necessidade de os
militares, se fossem participar de algum tipo de fiscalização, se aprofundarem
muito rapidamente num sistema que não é simples. Então o Ministério da Defesa
começou a criar demandas para conhecer e, digamos, melhorar ou fechar portas
para um possível acesso não autorizado ao sistema. E o TSE, por sua vez, estava
espremido pelo tempo. Quando chegou o segundo turno, o relatório não foi feito;
depois do primeiro turno, foi cobrado pelo TCU, e o Ministério da Defesa não
entregou. Conto no livro que, entre não dar nenhuma informação sobre o primeiro
turno e dar todas as informações correndo o risco de ainda haver algum erro, eu
achava que existia uma possibilidade intermediária. Cheguei a sugerir ao
ministro da Defesa para fazer algumas audiências públicas. Isso não foi aceito.
A comissão estava um pouco reticente em fazer um relatório final do primeiro
turno, e assim fomos até o dia nove. Então, se você pegar o período após o
segundo turno — desde a primeira reunião com o presidente Bolsonaro, quando ele
se manifestou por dois minutos, ali no Alvorada, sobre o segundo turno, até o
dia nove, quando o relatório foi entregue —, foi um clima muito tenso, né?
Tivemos aquelas apresentações do argentino Fernando Cerimedo e outras tantas
descobertas — entre aspas — de fraudes. Isso tudo foi muito cansativo e exigiu
bastante trabalho de checagem, e nós checamos: a equipe de fiscalização checou
todas as descobertas. No dia nove, foi apresentado o relatório final dizendo
que não havia sido detectado, em todos os processos de fiscalização, qualquer
desvio ou imprecisão. No mesmo dia nove, o TSE agradeceu publicamente e
ratificou que as Forças Armadas não haviam encontrado nada e que estavam
apoiando a lisura do processo. Quando chega o dia dez — isso é público, foi
mencionado no julgamento do STF, e o próprio ministro Paulo Sérgio disse que se
arrependia disso — ele envia o que vou chamar de réplica: um documento público
ao TSE dizendo que, embora tivessem mandado um relatório no dia anterior
afirmando que não encontraram nada, isso não queria dizer que não pudesse ter
havido irregularidade. Isso foi muito ruim, e a partir daí o clima ficou bem
pior, a partir do dia 11.
·
O senhor relata desde o primeiro depoimento que deu à PF
que, em certo ponto dessas discussões, o general Freire Gomes chegou a dizer ao
ex-presidente Jair Bolsonaro algo como “se o senhor continuar assim, eu vou ter
que prendê-lo”. Isso também aparece no seu livro. O que o senhor acha que
aconteceu para que o próprio general Freire Gomes recuasse dessa afirmação?
Juliana,
não é uma frase simples de se esquecer. Como tenho dito, o general é uma pessoa
muito polida, de excelente trato, mas ele sabia que era o comandante do
Exército, né? As pessoas distorceram a frase que tenho relatado — foi
exatamente a frase que escutei. Não foi voz de prisão, não foi dita em tom de
ironia, tampouco em tom de ameaça. Foi dentro de uma conversa institucional da
cúpula militar com o presidente, que começava a se exaltar. Acho que a
declaração dele na Polícia Federal vai bem nesse sentido. E deixo aqui
registrado que, até hoje, eu e o general Freire Gomes somos muito amigos e
temos contatos periódicos — isso não abalou nossa amizade. Estávamos discutindo
possibilidades de estados de exceção, como o que foi usado para tirar os
caminhões que bloqueavam as estradas. E foi isso, a partir do dia 11: estávamos
discutindo a possibilidade de estado de sítio, estado de defesa. E já havíamos
colocado para o presidente, naquela mesa, desde o primeiro dia: “Se o senhor
tem alguma intenção de decretar um estado de exceção, já está na hora — ou já
estamos atrasados — para chamar aqui o vice-presidente, o presidente do Senado,
o presidente da Câmara. Este não é um assunto que se discuta apenas com o
ministro da Defesa e os comandantes das Forças. “Cadê o ministro da Justiça?
Cadê o Advogado-Geral da União?” Foi dentro desse contexto de discutir uma
hipótese que o general disse ao presidente, no depoimento à Polícia Federal,
algo como: “Se o senhor fizer isso sem os pressupostos e sem o processo adequado,
vou ter que prendê-lo.” Então, acho que é uma frase forte demais para um
ouvinte presente esquecer.
·
Vamos falar da mudança de comportamento do general Paulo
Sérgio, ex-ministro da Defesa. Ao longo das nossas conversas — já entrevistei o
senhor anteriormente, me parece — e também pelos depoimentos, fiquei com a
impressão de que havia uma posição próxima, mais ou menos alinhada, entre o
senhor, o general Freire Gomes e o general Paulo Sérgio. Mas, em algum momento,
isso muda, e resulta na reunião do dia 14, em que o general Paulo Sérgio chega
com a minuta golpista. O que pode ter ocorrido?
Coloco
no livro que, desde o início, quando nos envolvemos com as comissões de
Transparência Eleitoral, éramos um grupo de cinco: os três comandantes, o chefe
do Estado-Maior Conjunto, general Laerte, e o general Paulo Sérgio. Em
determinado momento, o general Laerte parou de frequentar essas reuniões.
Aquilo me incomodou, embora eu saiba que as atribuições do chefe do
Estado-Maior Conjunto são inúmeras. Inicialmente, achei que ele pudesse estar
em viagem, mas logo depois vi que não era isso — que ele havia sido dispensado
daquele grupo. Levei isso ao general Paulo Sérgio e recebi uma resposta que não
me deixou confortável. Só soube, agora, ao escrever o livro, que a desculpa que
o general Paulo Sérgio deu foi que o afastamento dele fora por sugestão ou
solicitação dos comandantes de Força. Fiquei muito incomodado. Perguntei ao
general Freire Gomes: “Você solicitou o afastamento do Laerte daquelas
reuniões?” Ele disse que não. Então não sei qual foi a razão — por que houve
essa iniciativa do general Paulo Sérgio de afastá-lo — e isso hoje me deixa com
uma dúvida muito grande. Depois, passo para a reunião de 5 de julho — ele
também já falou sobre isso durante seu depoimento no STF, sobre a maneira como
se referiu, em voz alta, a “linha de contato” e a “avançar sobre o inimigo”.
Acho que foi apenas uma colocação inadequada da parte dele. Acho que ele estava
se referindo às demandas para melhorar o sistema de fiscalização, diante
da impossibilidade de o TSE, tão próximo da eleição, colocar em teste todas as
urnas que achávamos que poderiam melhorar o processo. E acho que ele se
expressou de maneira inadequada, mas eu não achava que aquilo representasse uma
vontade dele de dar, ou apoiar, um golpe de Estado. Poderia representar uma
vontade de permanecer no cargo, mas não através do apoio a um golpe. Isso foi
evoluindo: percebi o desconforto dele com o desfile de blindados da
Marinha; e em todas as nossas reuniões no Ministério da Defesa. Sua
participação foi sempre no sentido de tentar demover o presidente Bolsonaro de
fazer algo diferente de deixar o Palácio da Alvorada e entregar o cargo. Até
que chegamos ao 14 de dezembro, e eu lamento essa característica que ele
apresentou, um comportamento de dubiedade entre reprovar qualquer ato ilegal do
presidente Bolsonaro e, ao mesmo tempo, apresentar para nós uma minuta de
golpe, né? E lamento porque acho que ele não era um golpista. Ele apresentou
para nós uma minuta de golpe, com o objetivo, segundo ele — e podemos acreditar
ou não —, de tentar uma unanimidade nas Forças Armadas. Mas foi muito grave,
por qualquer razão: se tivéssemos dito sim… Então é isso que trago para dentro
do livro: essa dubiedade entre o comportamento dele e algumas de suas decisões.
·
O senhor ouviu falar que o general Paulo Sérgio estaria
arrependido de não ter tentado uma colaboração premiada para resolver sua
participação — quer dizer, assumir a parte dele, mas sem arcar com coisas que
não seriam exatamente da responsabilidade dele?
Acho
que, num inquérito e num processo sobre um fato tão sério, que exige uma
resposta imediata de tanta gente, faço uma crítica: por exemplo, participei de
todas as oitivas, e nunca ninguém perguntou ao general Paulo Sérgio algo que
poderia ter relação com o que você está falando, sobre ele ter se arrependido
de não ter feito a delação premiada. Nenhum advogado do general Paulo Sérgio,
nem o Ministério Público ou ministro do STF, fez a ele a pergunta que me
parecia que um dos treze deveria fazer: como essa minuta chegou às suas mãos?
Quem lhe entregou? Ou seja, nenhuma das partes — nem a acusação, nem a defesa,
nem os juízes — perguntou isso. Isso poderia ser um atenuante, por exemplo,
porque não acho que aquilo tenha partido dele. O general Freire Gomes olhou a
minuta, leu, e, no depoimento, disse que ela era semelhante à que foi
apresentada na reunião do dia 7 de dezembro, da qual eu não participei, e
também semelhante à que foi encontrada na casa do Anderson Torres. E jamais perguntaram
ao Paulo Sérgio, pelo menos oficialmente, quem lhe entregara aquela minuta.
Acho que isso poderia ter sido um atenuante para ele, se ele tivesse querido
falar.
·
O senhor acha que hoje ainda vivemos uma tentativa de
golpe de Estado? Como o senhor vê essa interferência dos Estados Unidos? E o
senhor teme uma nova escalada golpista neste ano?
Não,
não vejo. No mundo ideal, deontológico, do dever-ser, cada país deveria
respeitar integralmente os problemas internos dos outros. Logicamente, isso não
existe, né? Há a guerra ideológica — hoje tenho muito medo dessas
classificações de esquerda ou direita —, mas as guerras ideológicas levam a
blocos ideológicos que tentam também dominar áreas fora do seu território
nacional. Então, a participação de políticos brasileiros tentando influenciar
eleições, por exemplo, dos países vizinhos, ocorre há muito tempo, né? Em todos
os matizes políticos. E isso é indesejável. Posso citar um caso aqui, para não
parecer que estou sendo parcial: a tentativa de apoio do presidente Lula nas
eleições da Argentina, e também a dos Estados Unidos na própria Argentina — um lado
pela direita, outro pela esquerda. No mundo ideal, isso não deveria ser feito,
mas, no mundo político como ele é, isso acontece. Já a participação física de
pessoas dos Estados Unidos nessas eleições, eu não acredito, e não vejo a menor
possibilidade de um movimento golpista para apoiar qualquer coisa. Acho que
deixamos bem claro que as Forças Armadas não vão se envolver nesse tipo de
quebra da legalidade. Essa geração, pelo menos, está cada vez mais distante de
todo processo golpista e de tantos movimentos da nossa história republicana. E
o que tem que acontecer é o que digo no último capítulo do livro: nós somos os
vilões e as vítimas do nosso próprio destino. Tudo começa no voto. Estamos
vendo hoje uma campanha eleitoral de dois blocos populistas que sequer
colocaram na mesa um plano de governo, né? Estão indo com as bolhas —
verdadeiras ou falsas — daqueles que os apoiam ou os repelem. Mas não acho que
haverá qualquer interferência além do que já se observa de qualquer país
externo aqui, nem dos Estados Unidos.
·
O senhor acha que esse processo fortaleceu as Forças
Armadas?
A curto
prazo… Acho que o processo em si, os fatos em si, fortalecem as Forças Armadas.
Outra coisa é a percepção das Forças Armadas — ou seja, uma coisa é que, hoje,
as Forças Armadas estão mais fortes, mais cientes de suas atribuições
constitucionais; os mais novos viram, nas decisões dos três comandos, uma
postura legalista, orientada pela Constituição e pelas leis. Outra coisa é a
fortaleza das Forças Armadas: isso não está necessariamente se refletindo, a
curto prazo, no grau de confiança que a população tem nelas. A confiabilidade
das Forças Armadas tem um pico de alta no início do governo Bolsonaro, e, a
partir dali, vem caindo — e agora teve uma leve recuperação. E, a longo prazo,
sempre tivemos, em relação às Forças Armadas, uma desconfiança por parte
daqueles que tiveram algum tipo de restrição aos governos militares, ao golpe
de 64. No início do livro, não faço essa distinção entre golpe, movimento
e revolução — cada um desses nomes serve para não cumprir a lei, e são dados de
acordo com as intenções e preferências de cada um. Mas o governo militar, de 64
a 81, trouxe para as Forças Armadas uma desconfiança de parte da população,
principalmente da parte mais à esquerda do espectro. O que aconteceu agora foi
que não só os revolucionários de esquerda, mas também os reacionários de
direita, passaram a culpar as Forças Armadas pelo não golpe, ou por não terem
mantido o presidente Bolsonaro no poder. O que dissemos foi que não haveria uma
quebra constitucional — não à manutenção, na Presidência da República, do
candidato que perdeu, dentro da regra do jogo estabelecida. E não estou dizendo
que não existam ainda muitos crimes eleitorais no Brasil: comunidades
pressionadas pela milícia ou pelo narcotráfico, quilombolas, indígenas, áreas
mais distantes da fiscalização. Isso não quer dizer, em momento algum, que não
aceitar um golpe nos ligue diretamente a qualquer outro governo. As Forças
Armadas não tinham a intenção de dar um recado de que estão ligadas ao governo
A, B ou C. O recado foi: dissemos não ao golpe. Mas isso não significa que
concordamos com todos os desmandos, com toda a corrupção, com todos os desvios
do nosso país. Isso é secular, e temos que encontrar uma maneira de sair disso.
No livro, sugiro que comecemos a pensar em sair dos populismos, que são, antes
de mais nada, egoístas — não visam o bem comum.
·
O que levou o senhor a escrever um livro para contar sua
história?
Eu
sempre tive vontade de escrever um livro, mas nunca havia chegado a faísca —
não tinha tocado meu coração, né? Nessas doze horas em que fui muito bem
recebido na Polícia Federal, por todos, pelo delegado Fábio — foi um clima de
cortesia, mas também, logicamente, um clima de inquérito; aquilo não era uma
reunião de amigos, era um clima de inquérito, em que tive que manter a
concentração durante quase doze horas, muito já se sabia, tendo em vista a
delação do tenente-coronel Cid —, quando terminou, por volta de uma e meia da
manhã, dois agentes bem mais novos do que meus filhos, numa conversa mais
informal, de cinco ou dez minutos, disseram: “Brigadeiro, o que estamos vendo
aqui, o que já sabemos, o que já apuramos, o que o senhor acaba de contar —
isso devia ficar como ensinamento para as gerações futuras.” Aquilo ficou como
uma semente no meu coração. Algum tempo depois, assistindo a um programa de
televisão, o Andrei Roman, presidente da Atlas Intel, apresentou duas pesquisas
que havia feito sobre o tema “golpe de Estado”. A primeira, feita entre 6 e 9
de janeiro de 2023 — lembrando que o 8 de janeiro está no meio desse período —,
trouxe números assustadores: 39,7% da população não acreditava que Lula tivesse
tido mais votos do que Bolsonaro; 37% achava que, se o presidente Bolsonaro
tivesse lançado mão de algum artifício para não passar o governo ao presidente
eleito, isso seria aceitável e não seria interpretado, por esses 37%, como um
golpe de Estado. E o terceiro ponto é que, dois anos depois — e aí já estávamos
em meio à Ação Penal 2008, que julgou o Núcleo 1, no qual estava o presidente
Bolsonaro —, ou seja, já tínhamos conhecimento de muitas coisas que haviam
ocorrido, já tínhamos os testemunhos do Ministério Público e da defesa de cada
um, uma nova pesquisa mostrou que ainda 30% da nossa população achava que um
golpe de Estado seria aceitável. Isso me pareceu muito preocupante, e eu me
perguntei o que poderia fazer para discutir isso. Fico muito contente de ter
conseguido chegar ao final desse livro — não é fácil escrever um livro de 240
páginas com responsabilidade, elegância, fatos, provas e análises. É bem mais
difícil do que uma agressão feita num grupo de WhatsApp, ou uma análise leviana
numa rede social. E a última pergunta que me fazem, sobre isso, é por que
lançá-lo no período pré-eleitoral. Primeiro, porque eu não podia escrever e
publicar enquanto estava na ativa. Segundo, porque também era desaconselhado
publicar um livro durante o período das ações penais no STF — ficaria muito
estranho eu publicar logo depois de ter sido testemunha. E terceiro, porque
precisei de tempo para escrever. Não é um livro para defender A ou B, nem para
fazer qualquer propaganda eleitoral.
Fonte:
Por Juliana Dal Piva, em ICL Notícias

Nenhum comentário:
Postar um comentário