Uma
democracia socio-ecológica
Com a
crise geral das democracias e face aos ataques do fascismo e da extrema direita
à la Donald Trump estamos em busca de uma democrcia enriquecida que atenda às
mudanças ecológicas e geopolíticas que estão em curso.Especialmente monetarizão
da política e a uberização da vida. Vale sempre o pressuposto básico de
qualquer tipo de democracia: o que interessa a todos deve poder ser decidido
por todos, seja diretamente, seja por representantes. Estamos em busca de um
novo tipo de democracia.
Hoje
está se impondo o projeto de uma democracia ecológico-social ou na formulação
de Michael Löwy e seu grupo de um ecosocialismo. Essa compreensão nos obriga
superar um limite interno ao discurso clássico da democracia: o fato de ser
ainda antropocêntrica e sociocêntrica, vale dizer, centrada apenas nos cidadãos
e na sociedade. Eles são reducionistas, pois o ser humano não é um centro
exclusivo, nem mesmo a sociedade, como se todos os demais seres somente
ganhassem sentido enquanto ordenados a ele e à sociedade.
Ser
humano e sociedade constituem um elo, entre outros, da corrente da vida. Sem as
relações com a biosfera, com o meio-ambiente e com as precondições
físico-químicas não existem nem subsistem. Elementos tão importantes, devem ser
incluidos em nossa compreensão de democracia contemporânea na era da
conscientização ecológica e planetária segundo a qual natureza, ser humano e
sociedade estão indossoluvelmente unidos de sorte que possuem um mesmo destino
comum.
A
perspectiva ecológico-social ou ecosocialista tem, ademais, o condão de inserir
a democracia na lógica geral das coisas. Sabemos hoje pelas ciências da Terra e
da vida que a lei básica que continua atuando na constituição do universo e de
todos os eco-sistemas é a cooperação, a sinergia, a simbiose e a relação de
todos com todos em todos os momentos e circunstâncias. Mesmo a sobrevivência do
mais apto pela seleção natural de Darwin, em parte válida no reino dos vivos,
se inscreve dentro desta lei universal. Por ela se garante a diversidade e se
inclui também o mais fraco que no jôgo das inter-retro-relações tem chances e
direito de estar sobre a Terra.
A
singularidade do ser humano consiste no fato de comparecer como ser de
socialidade, de cooperação e de convivialidade,como bem viram os chilenos
Maturana e Varela.Tal singularidade aparece melhor quando o comparamos com os
símios superiores dos quais nos diferenciamos em apenas 1,6% da carga genética.
Estes também possuem vida societária. Mas se orientam pela lógica da dominação
e da hierarquização. Ao surgir o ser humano, há alguns milhões de anos, ao
invés da competitividade e da subjugação entra a funcionar a cooperação.
Esse
1,6% de ácidos nucléicos e de bases fosfatadas que nos diferenciam, funda o
humano enquanto humano, como ser de cooperação.
Ora, a
socio-democracia é o valor e o regime de convivência que melhor se adequa à
ordem geral das coisas e da natureza humana cooperativa e societária. Aquilo
que vem inscrito em sua natureza é transformado em projeto político-social
consciente, fundamento da democracia: a cooperação e a solidariedade sem
restrições. Realizar a democracia, da melhor forma que pudermos, significa
avançar mais e mais para do reino do especificamente humano. Significa
re-ligar-se também mais profundamente ao todo e à Terra.
Cosmólogos
vêm afirmando com insistência que há de se entender a vida como um momento da
história evolutiva do universo, quando a matéria, colocada longe de seu
equilíbrio (caos generativo), se complexifica e se auto-organiza. A vida humana
é um capítulo da história da vida. Como humanos, consoante o mito antigo do
cuidado,(que é da essência do humano) viemos do húmus (humus=homo); por isso
somos fundamentalmente Terra que em seu evoluir chegou ao momento de sentir, de
pensar, de amar e de venerar. Não vivemos apenas sobre a Terra. Somos a própria
Terra que sente, pensa, ama e venera.
Em
razão disso, notáveis astrofísicos e biólogos como Lovelock, Margullis,
Sathouri, Swimme e Berry, juristas como Zaffaroni e ecologistas como o nosso
Lutzenberg entre outros, sustentam que a Terra é um super-organismo vivo.
Mostra tal equilíbrio em todos os seus elementos físico-químicos que somente um
ser vivo pode revelar. Chamam-na de Gaia, nome mitológico dos gregos para
sinalisar a Terra como vivente, ou Pacha Mama dos povos originários.
Se
assim é, então a Terra é portadora de subjetividade, de direitos e de relativa
autonomia, tanto ela, quanto os eco-sistemas que a compõem. Há a dignitas
Terrae, a dignidade da Terra que reclama respeito e cuidado.
Impõe-se
uma ampliação da personalidade jurídica à Terra, às aguas e às florestas. Bem
disse o pensador Michel Serres: “A Declaração dos Direitos do Homem teve o
mérito de dizer ‘todos os homens têm direitos’ e o defeito de pensar ‘só os
homens”. Os indígenas, os escravos e as mulheres tiverem que lutar para serem
incluidos em ‘todos os homens”. E hoje esta luta inclui a inteira natureza com
seus subsistemas, também sujeitos de direitos e, por isso, novos membros da
sociedade ampliada.
Pelo
fato de termos criado a ameaça de destruição da Terra-Gaia, com o antropoceno,
necroceno e ultimamente pelo piroceno (queimadas em todo o planeta), não
podemos mais exclui-la do novo pacto social planetário, base da sociedade
mundial que queremos sócio-democrática ou ecosocialista.
Hobbes,
Locke, Rouseau e Kant, em seu contrato social, davam por descontado o futuro da
Terra, garantido pelas forças diretivas do universo. Hoje não é mais assim. Sem
a Gaia, não há mais base para nenhum tipo de cidadania e de democracia. Se
quisermos sobreviver juntos, a democracia tem de ser também biocracia, numa
palavra, democracia ecológico-social ou ecosocial que assume a preservação da
Terra, incluindo-a no pacto social.
Foi em
razão desta consciência que o movimento do MST e da agroecologia estão
desenvolvendo semelhante compreensão da sócio-democracia. Ai se trata de uma
nova relação interativa do ser humano com a natureza na qual ambos se vêem
incluidos.
Uma
cidade não vive apenas de cidadãos, instituições e serviços sociais. Nela vivem
também paisagens, árvores, pássaros, animais, montanhas, pedras, águas, rios,
lagos, mares, atmosfera, ar, estrelas no firmamento, o sol e a lua.
Sem
tais realidades morerríamos de solidão,como diz o sábio indígena Seattle em
1854. São os novos cidadãos com os quais devemos aprender a conviver em
harmonia. Faz-se mister uma educação ecológica para que os humanos aprendam a
acolher todos os seres como con-cidadãos, no respeito, na justa relação e na
irmandade universal.
Eis o
surgir da democracia ecológico-social, e do ecosocialismo, enriquecimento
necessário da democracia clássica em tempos de nova consciência ecológica, dos
riscos da inteligência artificial autônoma e de responsabilidade pelo futuro
comum da Terra e da humanidade.
Fonte:
Por Leonardo Boff, em A Terra é Redonda

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