O
que disse Lula na entrevista à TV Globo
A
entrevista com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na TV Globo nesta
quinta-feira (27/8) começou com o assunto que paira sobre a campanha de
reeleição do petista: as investigações a respeito de supostas irregularidades
cometidas por seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido
como Lulinha.
Questionado
pelos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos, Lula classificou como
"ilações" as acusações que estão circulando contra Lulinha.
"Ali
não tem nenhuma acusação. São ilações, ilações, ilações tiradas de telefonemas.
Eu conheço isso muito bem porque já vivi isso", afirmou o presidente,
referindo-se à Operação Lava-Jato, que o levou à prisão.
O
petista prometeu que Lulinha "não será protegido" por ser seu filho.
"Se
o Fábio cometeu qualquer ilícito, qualquer ilícito, ele terá que pagar como
qualquer cidadão brasileiro. Eu não vou afastar a delegado da Polícia Federal.
Eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja beneficiado."
Apesar
de afirmar que seu filho terá que provar sua inocência, o presidente disse ter
"certeza" que isso será demonstrado.
Lula,
que busca um quarto mandato, disse ainda que não fará intervenção na Polícia
Federal por conta das investigações contra seu filho.
"Eu
não vou afastar delegado da Polícia Federal. Eu não vou fazer qualquer
movimento para que meu filho seja beneficiado (...) portanto, ele tem obrigação
de não ter feito erro. Eu estou muito tranquilo como presidente da República.
Tudo o que for preciso fazer no âmbito da polícia e da Justiça para apurar
[será feito]. Será dada toda e qualquer garantia", disse o petista.
Lulinha
é alvo de três
inquéritos instaurados pela Polícia Federal (PF) e autorizados
pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
O
primeiro investiga se Lulinha tentou favorecer Antônio Carlos Camilo Antunes,
conhecido como "Careca do INSS", a obter contratos com o Ministério
da Saúde para o fornecimento de produtos à base de cannabis medicinal.
O
segundo é uma investigação que apura se Lulinha atuou para beneficiar a empresa
3Structure It LTDA para obter contratos junto à Empresa de Tecnologia e
Informações da Previdência (Dataprev), que é uma estatal federal.
O
terceiro investiga a suposta atuação conjunta de Lulinha, do ex-chefe de
gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, e da
empresária Roberta Luchsinger para favorecer empresas interessadas em contratos
com o Ministério da Saúde. Ela é amiga pessoal da Lulinha e sua família.
Lula
também foi questionado sobre as suspeitas sobre a atuação de Luchsinger, que,
segundo relatórios da PF divulgados pela imprensa nos últimos dias, teria pago
R$ 249 mil em despesas do ex-chefe de gabinete do petista.
"Não
é adequado. É totalmente errado. E o Marcola sabe do erro que ele cometeu,
porque não é esse o papel do chefe de gabinete. Ele sabe disso. Ele sabe da
importância de chefe de gabinete", afirmou Lula.
O
presidente disse, no entanto, que acredita na explicação apresentada por
Marcola, de que o valor pago por Luchsinger seria fruto de um empréstimo
pessoal.
Lula
afirmou também ter questionado por que o auxiliar não o procurou ao enfrentar o
problema.
"Eu
disse para ele: 'Cara, eu sou quase que nem seu pai. Por que que você não falou
comigo? Por que você não falou comigo do problema que você estava tendo?'"
Lula
disse ainda estar "muito deprimido e muito chateado" com o episódio e
afirmou que eventuais erros deverão ser punidos.
"O
meu filho sabe que não poderia cometer nenhum erro. Se cometeu, vai pagar. O
Marcola sabe que não poderia cometer nenhum erro. Se cometeu, vai pagar. É
assim que funciona."
Trechos
de um relatório da PF obtidos pela revista Veja apontam que Roberta e Lulinha
trocaram mensagens sobre um encontro entre Roberta e o então
secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger Barbosa.
O
objetivo do encontro, segundo a PF, seria viabilizar a venda de produtos à base
de cannabis medicinal.
Marcola
entrou no radar das investigações depois que a PF identificou que Luchsinger
pagou despesas em nome do ex-chefe de gabinete do presidente. Em nota, Marcola
disse que os pagamentos fizeram parte de um empréstimo pessoal feito pela
empresária e negou ter praticado qualquer irregularidade.
A
defesa de Lulinha também vem negando o envolvimento do filho do presidente em
crimes ou condutas indevidas.
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Lula descarta privatizar os Correios
Em
outro ponto da entrevista, o jornalista César Tralli questionou sobre o
prejuízo acumulado dos Correios nos últimos anos, outra empresa estatal do
governo federal. Nos últimos quatro anos, esse prejuízo chegou a R$ 15 bilhões.
Lula
atribuiu a crise pela qual a empresa passa a mudanças no mercado de entrega de
encomendas, com a entrada de companhias privadas, brasileiras e estrangeiras.
"A
crise dos Correios é que ele não se adaptou aos novos tempos. Surgiu muita
empresa de fazer entrega e os Correios ficaram na mesmice (...) Se for
necessário a gente fazer associação com empresas brasileiras ou estrangeiras,
nós faremos, porque a gente quer os Correios junto com qualquer outra
empresa", afirmou.
Em
seguida, Tralli questionou se Lula cogitava a possibilidade de privatizar os
Correios, defendida por setores do mercado financeiro e defendida durante o governo do
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Lula,
no entanto, rejeitou a ideia.
"O
senhor não considera vender [os Correios]?", indagou o jornalista.
"Não
considero vender os Correios", disse o petista.
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Caso Master e Jaques Wagner
Lula
foi questionado sobre as menções ao senador Jaques Wagner (PT-BA) em
investigações do caso Banco Master. O presidente respondeu que "tem muita
gente nesse país" envolvida no escândalo, mas afirmou acreditar na
honestidade do senador petista, que busca a reeleição ao cargo.
Wagner
era líder do governo no Senado e se afastou da função após tornar-se alvo de
investigações da PF relacionadas ao Master.
Lula
tem feito campanha a favor da reeleição de Wagner para o Senado, o que foi
questionado na entrevista à TV Globo.
"Até
agora, não está provado que o Wagner tem relação com o Banco Master",
argumentou o presidente.
"O
que eu não posso admitir é aceitar que eu possa fazer política vivendo de
ilações todo santo dia."
"Eu
tenho consciência que o Wagner é honesto. Se ele cometeu um desvio, vai
acontecer com ele o que vai acontecer com qualquer pessoa: vai pagar o preço do
erro que cometeu. Eu não sou uma pessoa que mudo de calçada quando encontro o
amigo que está sendo acusado de alguma coisa. Não. Até que se prove o
contrário, todos são inocentes."
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Segurança Pública
Os
jornalistas também questionaram Lula sobre um dos pontos que mais preocupa o
eleitor brasileiro segundo pesquisas de opinião pública: segurança pública.
Renata
Vasconcellos questionou Lula sobre por quê o PT, que governou Brasil por 17
anos, não conseguiu conter o avanço do crime organizado no país.
Lula
começou sua resposta dizendo que a Constituição Federal de 1988 teria retirado
poderes do governo federal e atribuiu aos Estados as principais
responsabilidades em relação à segurança pública.
Lula
prometeu que, caso a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) for aprovada pelo
Congresso Nacional, ele criará o Ministério da Segurança Pública.
Segundo
ele, esta medida irá melhorar a atuação do governo no combate ao crime
organizado.
"Na
hora que for aprovar a PEC da Segurança Pública, eu crio o Ministério da
Segurança Pública. Por que eu vou criar o ministério? Porque, primeiro, eu
quero estabelecer qual é a participação de cada ente federado na segurança
pública. (Definir) qual vai ser o papel da União, qual vai ter o papel do
Estado e qual vai ser o papel do município. Porque aí sim, a gente vai
trabalhar muito forte", afirmou.
Lula
defendeu que o governo faça investimentos em inteligência e voltou a dizer que
encaminhou uma proposta ao governo dos Estados Unidos para o combate ao crime
organizado no país.
"Aprovamos
uma lei de anti-facção e estamos trabalhando a questão do combate ao crime
organizado. Por isso eu fui levar pro (Donald) Trump uma proposta por escrito.
Se os EUA quiserem trabalhar junto com o Brasil para combater o narcotráfico, o
crime organizado, o Brasil está pronto e preparado (...) o meu desejo é
recuperar o território do povo. Aquela rua é do povo do Rio, não é do bandido.
A escola é do povo, não é do bandido", disse.
A
menção ao governo Trump acontece três meses depois de o governo dos Estados
Unidos designar as
facções brasileiras Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC) como
organizações terroristas. A medida contrariou o governo Lula que,
nos bastidores, defende que esta designação poderia abrir espaço para
intervenções militares norte-americanas em território brasileiro.
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Dívida pública
A
jornalista Renata Vasconcellos questionou o presidente sobre a trajetória da
dívida pública em seu governo — a dívida em relação ao PIB subiu 10 pontos
percentuais durante o mandato atual do petista, chegando a quase 82%.
"Eu
pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar
essa pergunta falando diferente", respondeu Lula. Em seguida, ele defendeu
a gestão da sua política econômica, inclusive em mandatos passados e elencou
entre suas marcas a realização de superávit primário durante oito anos nos seus
dois primeiros governos. É o resultado positivo das contas públicas quando o
governo arrecada mais do que gasta, desconsiderando o pagamento dos juros da
dívida.
O
presidente afirmou que a dívida pública chegou a tamanho percentual do PIB
devido aos juros altos e à estagnação do crescimento nos governos anteriores ao
seu.
"Você
sabe quando é que o PIB voltou a crescer acima de 2%, Renata? Quando eu voltei
à Presidência da República. Você se esquece que eu deixei esse país crescendo
7,5% em 2010? E quando eu voltei, ele estava crescendo 1%?", indagou,
acrescentando que, comparado a países como Estados Unidos, Japão e Itália, uma
dívida de 80% do PIB "não é muito".
Lula
afirmou que, neste ano, haverá superávit primário de 0,1%. Perguntado sobre a
necessidade de ajustes fiscais e do corte de gastos obrigatórios, o presidente
não respondeu diretamente como faria essas mudanças.
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Quem é Lula?
Luiz
Inácio Lula da Silva tem 80 anos de idade e busca o seu quarto mandato como
presidente da República. Ele já presidiu o país por dois mandatos consecutivos,
entre 2003 e 2011.
O
petista se classifica como um político de esquerda e defende maior participação
do Estado na economia, políticas de distribuição de renda e a ampliação de
programas sociais.
Na
política externa, Lula costuma defender o multilateralismo, parcerias com
países fora do eixo Estados Unidos-Europa e a criação de foros como os BRICS,
grupo que hoje tem 11 países e que foi fundado por Brasil, Rússia, China e
Índia.
Nascido
em Garanhuns, no interior de Pernambuco, ele migrou ainda criança com a família
para São Paulo, no início dos anos 1950. Foi lá que ele começou a trabalhar
como metalúrgico e deu início à sua carreira sindical e política.
Lula
ganhou projeção nacional no final da década de 1970, quando presidiu o
Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e liderou greves de trabalhadores da
região conhecida como ABC Paulista durante a ditadura militar.
Em
1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), legenda à qual
continua filiado.
Em
1986, ele foi eleito deputado federal por São Paulo e participou da Assembleia
Nacional Constituinte, responsável pela elaboração da Constituição de 1988.
Esta é
a sétima vez que Lula disputa as eleições presidenciais. A primeira foi em
1989, quando foi derrotado no segundo turno por Fernando Collor de Mello, que
era filiado ao agora extinto Partido da Renovação Nacional (PRN).
Em
1994, ele chegou a liderar pesquisas de intenção de voto durante parte do
período eleitoral, mas foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que
aproveitou a popularidade pela implantação do Plano Real.
Lula
voltou a disputar as eleições em 1998, mas foi derrotado novamente por Fernando
Henrique, no primeiro turno.
Em
2002, com um discurso mais voltado ao centro, Lula venceu sua primeira eleição
presidencial e passou a governar o país a partir de 2003. Ele foi reeleito em
2006 e deixou o cargo, em 2010, com índices de aprovação acima dos 80%, segundo
pesquisas de opinião pública.
Na
época, ele usou sua popularidade para apoiar e eleger sua ex-ministra da Casa
Civil, Dilma Rousseff (PT), em 2010 e 2014.
Os dois
primeiros governos de Lula ficaram marcados pela expansão de programas sociais,
como o Bolsa Família, pela adoção de uma política de valorização do salário
mínimo e por um período de crescimento econômico impulsionado pelo aumento no
consumo interno e pela alta no preço internacional de commodities produzidas
pelo Brasil, como soja, carne e minério de ferro.
O
período, porém, também foi marcado por denúncias de casos de corrupção. Em
2005, veio à tona o caso conhecido como Mensalão, que apontou para o pagamento
de parlamentares da base governista em troca de apoio político no Congresso
Nacional.
Lula
sempre negou ter conhecimento das irregularidades e não foi denunciado no
processo, mas importantes aliados vinculados ao PT foram condenados e levados à
prisão. Entre eles estavam o ex-presidente do PT, José Genoíno, o ex-deputado
federal João Paulo Cunha, e o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.
Anos
depois, investigações da Operação Lava Jato atingiram novamente o PT,
executivos de grandes empreiteiras e dirigentes de empresas estatais como a
Petrobras.
Os
investigadores e delatores apontaram a existência de um esquema de pagamento de
vantagens indevidas, seja por meio de propina ou por meio de doações eleitorais
regulares por empreiteiras em troca de contratos públicos com o governo ou
estatais.
Lula
foi investigado pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público Federal
(MPF) por diversos crimes, entre eles lavagem de dinheiro, corrupção e tráfico
de influência. Ele sempre negou ter conhecimento sobre o esquema e afirma, até
hoje, que as suspeitas levantadas sobre ele eram fruto de perseguição política.
Entre
2017 e 2018, ele foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. Suas
condenações foram confirmadas em segunda instância. Mesmo assim, em 2018, ele
foi lançado como candidato do PT à Presidência da República.
Em
abril de 2018, no entanto, ele foi preso e acabou impedido de prosseguir na
disputa.
Lula
ficou preso por 580 dias, entre abril de 2018 e novembro de 2019, e não pôde
disputar a eleição presidencial de 2018.
Em
2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as condenações ao concluir que a
13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os casos.
Com
isso, Lula recuperou seus direitos políticos, e, em 2022, disputou e venceu, em
segundo turno, as eleições para presidente da República, derrotando Jair
Bolsonaro (PL), que buscava a reeleição.
O
petista recebeu 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Bolsonaro.
Em seu
terceiro mandato, ele retomou programas lançados em seus dois primeiros
mandatos como Minha Casa, Minha Vida, voltado para habitação.
Durante
seu governo, o Congresso também aprovou trechos da reforma tributária e ampliou
a faixa de isenção do Imposto de Renda.
Por
outro lado, seus adversários criticam o aumento das despesas públicas, a
situação das contas federais e o aumento no custo de vida.
Lula,
em contrapartida, atribui parte das dificuldades econômicas ao cenário
internacional e afirma que seu governo recuperou políticas públicas abandonadas
durante a gestão Bolsonaro.
Lula
lidera em intenções de voto no primeiro turno, com 39%, considerando os
resultados das pesquisas divulgadas até esta quinta-feira (27/8).
A
estimativa é do Agregador de
Pesquisas da BBC News Brasil, que compila os levantamentos das
instituições Datafolha, Quaest, AtlasIntel, MDA, Gerp, entre outros, e calcula
uma espécie de média para a intenção de voto de cada candidato.
Depois
de Lula, vêm Flávio Bolsonaro, com 34%; Ronaldo Caiado, com 4%; Renan Santos,
com 4%; e Pablo Marçal, com 3%. Veja aqui os
resultados completos.
Fonte:
BBC News Brasil

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