Por
que a direita é mais forte quando não precisa defender sua própria agenda
Na matéria
publicada na quarta (25) pela RED, apresentamos os resultados da
pesquisa Percepções sobre a Economia Brasileira, realizada pela Ipsos para
o Global Fund for a New Economy (GFNE). O levantamento revelou um dado
particularmente importante para compreender a disputa política no
Brasil: parte expressiva do eleitorado que vota ou pode votar na direita
não necessariamente concorda com sua agenda econômica.
Isso
fica evidente quando os pesquisadores retiram da comparação os nomes de
partidos e candidatos e apresentam apenas diferentes propostas de governo. Uma
plataforma denominada “Nova Economia” — baseada na valorização dos salários,
contenção de preços abusivos, ampliação de direitos dos trabalhadores,
tributação dos muito ricos e proteção social — vence a plataforma de
direita por 59% a 27%.
O
resultado é ainda mais revelador entre os eleitores que desaprovam Lula. Quando
a alternativa é uma plataforma tradicional de centro-esquerda, a direita vence
nesse grupo por 65% a 23%. Mas, quando o confronto se dá com a “Nova
Economia”, sua vantagem praticamente desaparece: 45% a 40%.
Surge
daí o paradoxo que esta análise procura compreender: se uma parcela do
eleitorado que rejeita Lula prefere políticas econômicas mais próximas da
centro-esquerda do que da direita, por que continua votando — ou disposta a
votar — em candidatos de direita?
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A direita eleitoral é maior que a direita econômica
Os
demais resultados da Ipsos reforçam o paradoxo.
73%
apoiam o fim da escala 6×1, com jornada de 40 horas sem redução salarial.
66%
defendem a atuação do governo e da Petrobras para manter os combustíveis
acessíveis e 59% querem empresas estratégicas sob controle estatal.
Além
disso, 56% preferem que o governo priorize aquilo que considera melhor
para os brasileiros mesmo diante de reações negativas dos mercados financeiros,
e 53% apoiam a tributação das grandes fortunas para financiar investimentos
públicos.
A
pesquisa encontra ainda convergência entre quem aprova e quem desaprova Lula
sobre a necessidade de um Estado forte capaz de impulsionar o desenvolvimento.
Isso
não significa que o brasileiro seja “de esquerda”. Significa algo mais
interessante: o voto na direita não implica necessariamente adesão ao
liberalismo econômico.
Parte
de seu eleitorado quer proteção social, empresa pública, salário maior, redução
da jornada e presença ativa do Estado. A direita eleitoral brasileira é,
portanto, maior que a direita econômica.
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O bolso também explica essas preferências
A
própria pesquisa ajuda a entender por quê.
Entre
aqueles que avaliam negativamente a economia, 63% apontam preços e custo
de vida elevados, 57% mencionam impostos e 47% dizem que salários e renda
familiar são insuficientes para cobrir as despesas.
E 65%
associam a dificuldade dos brasileiros para quitar suas dívidas às altas taxas
de juros. Essa percepção praticamente atravessa as divisões partidárias.
São
preocupações muito concretas. O eleitor pode discutir ideologia na política,
mas experimenta a economia no supermercado, na conta de luz, no preço do
combustível, no salário, na prestação e nos juros.
É
justamente por isso que a plataforma chamada pela Ipsos de Nova Economia tem um
desempenho tão superior ao da centro-esquerda tradicional: ela traduz a disputa
econômica para problemas imediatamente reconhecíveis na vida cotidiana.
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Conservador na moral, intervencionista na economia
Mas
economia não determina sozinha o voto.
O Índice
de Conservadorismo Brasileiro 2025, do Ipsos-Ipec, colocou o Brasil em 0,652
numa escala que vai de zero, totalmente progressista, a 1, totalmente
conservador. Quase metade da população, 49%, foi classificada no grupo de alto
conservadorismo.
É
perfeitamente possível, portanto, encontrar um eleitor intervencionista na
economia e conservador nos costumes.
Ele
pode defender Petrobras estatal, programas sociais, salário maior e redução da
jornada e, simultaneamente, opor-se ao aborto ou a pautas progressistas
relacionadas a gênero, sexualidade e família.
É nesse
espaço que ganha importância a atuação política de setores evangélicos
conservadores, particularmente de lideranças neopentecostais.
Importantes
pastores, denominações e redes religiosas transformaram a defesa da chamada
família tradicional e o combate às pautas progressistas nos costumes em
instrumentos permanentes de mobilização contra a esquerda. A teologia da
prosperidade acrescenta, em algumas denominações, a valorização da prosperidade
material, do empreendedorismo e da iniciativa individual.
Assim, o
mesmo trabalhador que concorda com a centro-esquerda sobre salário, Petrobras
ou jornada pode votar na direita porque religião, família e costumes pesam mais
em sua decisão eleitoral.
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A outra grande chave é a corrupção
Existe
um segundo instrumento capaz de deslocar a eleição do confronto entre programas
econômicos: a associação entre Lula, PT e corrupção.
Ela foi
construída durante mais de duas décadas, desde o chamado Mensalão e, sobretudo,
durante a Operação Lava Jato, quando denúncias, delações, investigações e
processos envolvendo o PT e Lula receberam cobertura contínua e
extraordinariamente intensa da grande mídia corporativa.
As
condenações que impediram Lula de disputar a eleição de 2018 foram
posteriormente anuladas, e o STF reconheceu a parcialidade de Sergio Moro no
processo do triplex. Mas decisões judiciais podem ser revertidas muito mais
rapidamente do que representações políticas sedimentadas durante anos.
Para
uma parcela do eleitorado, corrupção deixou de ser uma acusação contra
determinados dirigentes e transformou-se numa característica atribuída ao
próprio PT.
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O combate à corrupção também foi uma estratégia bolsonarista
Isso
torna inevitável outra pergunta: por que fatos e denúncias envolvendo Jair
Bolsonaro e sua família não produziram associação semelhante?
Jair
Bolsonaro fez do “combate à corrupção” um dos pilares de sua estratégia de
conquista do poder. Em 2018, apropriou-se politicamente do ambiente criado pela
Lava Jato e apresentou-se como adversário do sistema.
Essa
identidade convive, entretanto, com fatos que justificam escrutínio.
Uma
investigação jornalística do UOL identificou 107 imóveis negociados por
Jair Bolsonaro e familiares ao longo de três décadas, dos quais pelo menos 51
foram adquiridos total ou parcialmente com dinheiro em espécie.
Comprar
imóveis com dinheiro em espécie não é crime. Mas operações de grande magnitude
justificam perguntas sobre a origem dos recursos e sua compatibilidade com os
rendimentos conhecidos dos envolvidos.
O mesmo
vale para as suspeitas de rachadinhas no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro e
para suas relações com pessoas posteriormente associadas ao mundo do crime.
Relação não significa participação em crime, mas quem constrói sua
identidade pública em torno do combate à corrupção e à criminalidade deve estar
submetido a um padrão especialmente elevado de transparência e explicação.
Mais de
60 dias depois de prometer prestar contas dos recursos destinados ao filme
sobre a vida de seu pai — produção para a qual Daniel Vorcaro, personagem
central do escândalo do Banco Master, foi procurado para aportar recursos —,
Flávio Bolsonaro ainda não apresentou publicamente os esclarecimentos
prometidos. Persistem questionamentos sobre a origem, a destinação e a
utilização do dinheiro e suspeitas de apropriação indevida de parte dos
recursos. Apesar disso, o episódio não produziu, até agora, queda significativa
em suas intenções de voto.
A
questão política está justamente aí: o discurso anticorrupção dos Bolsonaro não
deve ser confundido com descrição objetiva de sua trajetória. Foi também
uma estratégia de construção de identidade.
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Corrupção precisa virar identidade
Uma
nova denúncia envolvendo Lula chega a uma parcela do eleitorado que já possui
uma narrativa pronta para recebê-la. Ela pode ser interpretada simplesmente
como confirmação: “é o PT novamente”.
Com
Bolsonaro acontece algo diferente.
Seu
movimento construiu a identidade inversa: Bolsonaro seria justamente o
adversário do PT, da “corrupção” e do “sistema”.
Uma
acusação contra Lula pode, portanto, confirmar uma crença existente. Uma
acusação contra Bolsonaro precisa primeiro romper uma crença existente.
Além
disso, o bolsonarismo dispõe de um ecossistema próprio de comunicação capaz de
reinterpretar acusações como perseguição da imprensa, do STF, da esquerda ou do
“sistema”.
Corrupção,
portanto, não produz automaticamente uma identidade eleitoral. Essa identidade
é politicamente construída.
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Collor: moralização antes de liberalização
A
história eleitoral brasileira oferece pistas importantes sobre esse mecanismo.
Em
1989, Fernando Collor não escondeu inteiramente sua agenda econômica. Sua
campanha defendia a modernização econômica e a redução da presença do Estado.
Mas seu personagem político de maior apelo foi outro: o “caçador de
marajás”, adversário dos privilégios do funcionalismo e da corrupção do governo
Sarney.
A
eleição terminou ainda marcada por ataques pessoais e morais a Lula e pela
edição manipulatória feita pela Rede Globo do último debate entre os dois
candidatos.
Collor
oferecia uma agenda liberalizante, mas chegou ao eleitor principalmente como
personagem “moralizador” e “antissistema”.
A
diferença é importante.
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FHC: a estabilidade antes das privatizações
Em
1994, o mecanismo foi diferente.
Fernando
Henrique Cardoso tinha, sim, um programa que incluía privatizações, abertura ao
capital estrangeiro e reformas do Estado.
Mas o
grande ativo eleitoral de FHC foi o Plano Real.
Lula
liderava as pesquisas até meados de 1994. Com a implantação da nova moeda, a
queda da inflação e a recuperação imediata do poder de compra, Fernando
Henrique avançou rapidamente e venceu no primeiro turno, com 54,3% dos votos
válidos contra 27% de Lula.
Em
1998, voltou a derrotá-lo no primeiro turno apresentando-se, em meio à
instabilidade internacional, como o candidato capaz de preservar a estabilidade
conquistada pelo Real.
As
privatizações foram parte importante dos governos FHC. Mas sua extraordinária
vantagem eleitoral foi construída inicialmente sobre uma experiência econômica
imediatamente compreensível para milhões de brasileiros: o fim da
hiperinflação. Estudos sobre seu governo também distinguem a estabilização
monetária, que estruturou seu primeiro mandato, das reformas e privatizações
implementadas a partir dela.
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Bolsonaro: antipetismo antes de Paulo Guedes
Em
2018, a lógica voltou a mudar.
O país
chegou à eleição depois do Mensalão, da Lava Jato, do impeachment de Dilma
Rousseff e da prisão de Lula, então impedido de concorrer.
Nesse
ambiente, Bolsonaro apropriou-se da bandeira anticorrupção e combinou-a com
antipetismo, segurança pública, conservadorismo moral e discurso antissistema.
Pesquisas acadêmicas sobre aquele período destacam justamente a combinação
entre Lava Jato, antipetismo e desconfiança nas instituições políticas na
ascensão bolsonarista.
Seu
programa econômico liberal, personificado por Paulo Guedes, estava presente.
Mas é difícil sustentar que milhões de brasileiros tenham aderido a Bolsonaro
principalmente porque desejavam privatizações, redução do Estado ou uma reforma
econômica liberal.
A
coalizão eleitoral era muito mais ampla do que isso.
E os
resultados atuais da Ipsos ajudam a compreender por quê: é perfeitamente
possível votar na direita e continuar querendo Estado forte, Petrobras pública
e proteção social.
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Três vitórias, três caminhos
Collor,
FHC e Bolsonaro chegaram ao Planalto por caminhos diferentes.
Collor
explorou principalmente a moralização da política e o combate aos
privilégios.
FHC
teve como força extraordinária a estabilidade monetária e o fim da
inflação.
Bolsonaro
reuniu antipetismo, corrupção, conservadorismo moral, segurança e rejeição
ao sistema político.
Nenhum
desses casos demonstra que propostas liberais sejam eleitoralmente
irrelevantes. Collor e FHC efetivamente as defenderam, e Bolsonaro possuía um
programa econômico claramente liberal.
O ponto
é outro.
Não foi
necessário transformar o liberalismo econômico em paixão majoritária para
construir maiorias eleitorais de direita.
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A questão decisiva é sobre o que será a eleição
É aí
que a pesquisa econômica da Ipsos apresentada pela RED ganha significado
político maior.
Ela
mostra que parcelas majoritárias da população defendem Estado forte, Petrobras
pública, proteção social, melhores salários, redução da jornada e limites ao
poder dos mercados.
Mas
parte desse mesmo eleitorado é conservadora nos costumes. E sobre ela atua
ainda uma associação entre PT e corrupção sedimentada durante duas décadas.
É nessa
combinação que a direita encontra seu terreno mais favorável.
Ela não
precisa convencer o trabalhador a privatizar a Petrobras, preservar a escala
6×1 ou entregar mais poder ao mercado financeiro se conseguir convencê-lo de
que votar contra Lula significa combater a corrupção e defender sua religião,
sua família e seus valores.
Esse é
um dos principais desafios de Lula em 2026.
Se a
eleição for sobre salário, custo de vida, jornada, juros, Petrobras, programas
sociais e tributação dos muito ricos, os dados da Ipsos indicam um terreno
difícil para a direita.
Se for
transformada novamente num julgamento moral de Lula e do PT, a disputa ocorre
em condições completamente diferentes.
A
experiência de 1989, 1994, 1998 e 2018 sugere ainda uma conclusão
adicional: eleições não são necessariamente vencidas pelo programa que
será executado no governo, mas pela questão que consegue organizar a escolha do
eleitor naquele momento.
Collor
teve os marajás. FHC, o Real. Bolsonaro, o antipetismo, a corrupção e o
conservadorismo.
Em
2026, portanto, a questão decisiva talvez não seja apenas quem possui as
propostas mais populares.
Será
quem conseguirá definir sobre o que o eleitor estará votando.
Fonte:
Por Benedito Tadeu César, em Brasil 247

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