Nem
banco nem Estado: agiotas levam dinheiro vivo aos bairros argentinos e voltam
para tomar bens e até casas
Na
Argentina “Há agiotas e agiotas”, diz Yamila. “Alguns se chamam Pago
Diario: são os que vêm de moto, emprestam uma quantia de dinheiro, não
importa se conhecem você ou não; vêm até sua casa para lhe dar o dinheiro.
Assim, depois sabem aonde precisam ir para cobrar de você. Esses são os mais
perigosos”, comenta. “Muitas vezes, quando alguém diz agiota, está falando de
narcotraficantes”, esclarece um dos integrantes das organizações sociais que
participa da conversa com o Página/12.
Agiotas.
Usurários. Traficantes. Soldadinhos. Sua casa. Entram. Pressão. Ficam com a
televisão. Ficam com a geladeira. Colocam duas estacas no terreno e ficam com o
lote. Mudanças às pressas. Sequestros extorsivos. Ameaças de incêndio.
Cada
bairro os chama de uma maneira diferente. Eles são o novo fim de um funil.
Expulsas do sistema de empréstimos bancários e das carteiras digitais pelo
acúmulo de dívidas, cada vez mais pessoas recorrem aos agiotas. Muitos estão
ligados a diferentes negócios da economia ilegal: drogas, jogos virtuais ou
clandestinos.
O
negócio cresce e causa terror nos bairros. Alguns nomes circulam de boca em
boca; outros chegam de moto. Há quem tenha agências de automóveis, empreste
para comerciantes ou depois fique com os bens. O velho banqueiro do jogo de
apostas (quinielero) sempre tinha outro agiota por trás, e esse ofício é
um dos que parecem estar se reconvertendo. São agiotas conhecidos, mas agora
surgem novos atores que sabem que não há dinheiro, emprestam e cobram taxas
“infinitas”, com juros de 10 mil ou 15 mil pesos por dia, o que pode
desestabilizar qualquer economia familiar. Ameaçam. Ficam rondando. E ficam com
as casas.
“Isso
vem crescendo”, diz Luci Cavallero, socióloga e militante da Movida Ciudad.
“Diante do esgotamento da possibilidade de obter créditos pelas carteiras
digitais, as pessoas recorrem aos agiotas dos bairros”, acrescenta.
Os
agiotas não surgiram agora, diz Luci. Historicamente, havia uma ou duas pessoas
que emprestavam dinheiro nos bairros. O novo é o surgimento de outros agiotas
que “já contam com o fato de haver uma falta total de liquidez nos bairros e
que simplesmente vão dividindo os territórios entre si. Você empresta aqui, eu
empresto aqui”.
São
novos atores e têm uma ligação muito mais orgânica com as economias ilegais:
não apenas com o tráfico de drogas, mas também com as apostas virtuais e
ilegais. “Emprestar dinheiro se transforma em um mecanismo pelo qual você faz
trabalhar o dinheiro que obtém de fontes ilícitas. Esse dinheiro que não
poderia entrar no circuito legal é oferecido na forma de empréstimo a pessoas
que estão passando por uma necessidade”, completa Cavallero.
<><>
Um caso de narcotráfico na Justiça
O
narcocrédito, como é chamado, é um mecanismo pelo qual uma pessoa que vende
drogas em um bairro popular ou em uma favela encontra a possibilidade de
emprestar dinheiro a juros usurários. Às vezes, os juros cobrados pelos
traficantes são mais baixos do que os das carteiras digitais. São todos
usuários, mas os traficantes são mais baratos.
Houve
um caso que chegou à Justiça. Um casal sequestrou uma de suas devedoras, uma
funcionária de uma pizzaria. Eles a mantiveram em cativeiro, sob ameaças e com
uma arma de fogo, e exigiram de seu marido e de seus patrões o pagamento de um
resgate: primeiro, 8 mil dólares; no final, 1,5 milhão de pesos.
O
processo, levado a julgamento pelo promotor federal Fernando Domínguez, mostra
cenas da deterioração econômica e social. Conversas por chat com ameaças,
empréstimos para pagar as despesas diárias com alimentos, moradia ou uma viagem
de formatura. Foram doze empréstimos ao todo entre fevereiro e março de 2026:
onze com taxas que duplicavam o capital emprestado.
Os
investigadores não conseguiram provar uma conexão com a economia ilegal do
narcotráfico, embora tivessem uma forte suspeita de que assim fosse.
Além do
narcotráfico, existem outras fontes de empréstimos territoriais. Também estão
as agências de automóveis: não as grandes agências, mas oficinas menores, com
cinco ou seis carros, que compram e vendem e geram dinheiro que depois saem
para oferecer.
<><>
Eva: a dívida em casa
Eva é
pedreira, mãe e estudante. Trabalhou em um restaurante de Puerto Madero até
sete anos atrás, quando foi demitida durante uma gravidez. Depois, se
reinventou. Aprendeu seu novo ofício no bairro onde vive, um assentamento de
seis quarteirões na região oeste da Grande Buenos Aires. A cooperativa
construiu as casas e assumiu outros trabalhos. Com o governo de Javier Milei, o trabalho parou e
ela se endividou.
— A
situação ficou feia. Eu mantenho os cartões de crédito porque, para o
trabalhador, eles são um tesouro precioso — diz. — Nós os utilizávamos em
dezembro, como para dizer: bom, o que vamos comprar?
Talvez
pintar a casa, comprar uma geladeira, em casos muito especiais. Mas, desde que
Milei assumiu, as coisas foram piorando e o trabalho começou a diminuir.
O
cartão deixou de pagar bens duráveis e passou a pagar as idas e vindas ao
supermercado. Um problema de saúde no ano passado acabou tirando-a do mercado
de trabalho.
— Por
que você não pede uns trocados para determinada pessoa que não cobra tanto, mas
pelo menos vai lhe emprestar e não exige documentos? — sugeriram a ela no
bairro.
Eva
tinha uma “bola de neve” de dívida no cartão: 1,2 milhão de pesos. Aceitou. No
começo, pediu ao agiota 200 mil pesos e, um mês depois, devolveu 400 mil.
Depois pediu 500 mil e, um mês depois, pediram-lhe um milhão. Não conseguiu
devolver nada. Um dia, saiu para trabalhar e seu filho ligou para ela.
— Ele
me disse que havia um homem que tinha entrado em casa e perguntava por mim —
diz. — Ele foi até os fundos, olhou de um lado para o outro, perguntou a que
horas eu voltava, a que horas eu saía. Meu filho não respondeu, apenas deu meu
número: claramente, o homem não tinha boas intenções.
Eva deu
um nome a eles: “agiotas usurários”.
— Dei a
eles um nome vulgar, mas eles merecem: são agiotas usurários porque emprestam
dinheiro sabendo que poderão tirar de você tudo o que quiserem e continuar
gerando ainda mais miséria em sua vida.
E diz:
—
Obviamente, quem vem pressionar você não é quem lhe emprestou o dinheiro. Ele
manda um monte de soldados que trabalham para ele: não importa se você tem
filhos, se está doente, se é aposentado. Eles sabem que vão pressionar você uma
ou duas vezes e que, na terceira, vão colocar duas estacas no terreno: em
alguns casos, ficam diretamente com as casas; em outros, esvaziam a casa; se
você tiver um veículo, eles o levam.
<><>
O fim do funil
Que
dimensão isso tem? Quantos são? Quais são os dados? Hernán Letcher, do CEPA,
sustenta que isso faz parte da precarização do endividamento.
“Neste
momento, o aumento da inadimplência com os bancos começou a desacelerar — diz
—, mas, quando você olha de perto, o banco resolveu seu problema porque não
empresta mais e essa pessoa inadimplente se vira e pega dinheiro da carteira
digital ou do agiota e paga o banco.”
O
circuito é um funil de três partes: banco, carteiras digitais e agiota.
Primeiro um, depois outro e, no final, os agiotas. A dívida das famílias
cresceu violentamente de novembro de 2024 a junho de 2026: passou de 2,5 para
12,8, quatro vezes mais do que a das empresas. Hoje, a tomada de crédito
desacelerou, mas a dívida informal cresce, com dois problemas: o dado
desaparece — bancos e carteiras digitais têm rastreabilidade; o agiota, não — e
surge o problema da dívida e dos juros.
Passa-se
de uma dívida bancária com juros de 180% ao ano, com possibilidade de
renegociação, para uma carteira digital com juros de até 1.400% e, finalmente,
para o agiota do bairro, com juros infinitos, que podem ser cobrados até com o
forno de uma casa.
Quantas
são as pessoas afetadas? Como não há maneira de rastrear isso, não há
estatísticas, não há nenhum registro: é um buraco negro. Os escritórios de
advocacia, em geral, ligam para os inadimplentes e até os assediam; esses
agiotas mandam alguém pressionar diretamente, com soldadinhos ou seja lá quem
for, diz Letcher. “E aí você tem um problema sério porque não apenas não há
registro, o problema é como resolver isso: como faço para registrar se o
dinheiro foi emprestado pelos colombianos de não sei onde?”
No
bairro de Eva, há vários casos. Um vizinho perdeu o carro para um agiota que
agora circula com ele. Uma família perdeu metade de seu terreno para um agiota
que construiu ali um complexo de quatro quitinetes, com banheiro, cozinha e
sala de jantar, e um quarto no andar de cima. Outra mulher perdeu sua parte do
terreno e, por enquanto, tem uma cerca e o início de uma obra. Eva, por
precaução, deixou sua moto durante algum tempo na casa de sua mãe.
Hoje,
as pessoas do bairro estão desesperadas, diz ela. Não conseguem pensar com
clareza.
—
Depois de ter passado por tudo isso e ter saído dessa confusão, eu digo: o que
será que eu tinha na cabeça para conseguir entrar nesse círculo e sair ilesa?
Porque acho que saí.
<><>
Marta: professora, aposentada e assediada
Marta
acaba de voltar do hospital com problemas de pressão: ficou com 19 por 11
durante todo o dia. É aposentada e, às vezes, não dorme. Agora vive com o
filho. Tem dez agiotas que ficam “dando voltas” durante o dia, como um zumbido.
Querem cobrar dívidas com juros de 10 mil pesos por dia. Ficam parados na porta
de sua casa e batem.
— Há um
que me colocou juros de 15 mil pesos por dia — diz. — Já lhe entreguei
dinheiro, ele me pede eletrodomésticos. Dei a ele um micro-ondas que comprei e
entrei em outro crédito para poder entregá-lo.
O homem
não parou por aí.
— Agora
ele está me assediando por causa de uma caixa de som que não sei como comprar,
mas vou ter que fazê-lo porque não consigo explicar a você o assédio daqueles
que vêm à minha casa.
A
dívida começou há algum tempo, quando decidiu comemorar o aniversário do filho,
que também havia se formado. Pediu um crédito, mas, como recebia uma
aposentadoria mínima da Província e tinha um problema no Veraz por causa de um
cartão, precisou recorrer a um agiota. O problema começou ali e se transformou
em uma “roda imparável” que a mantém o tempo todo à beira do precipício.
“Conheço
um que empresta dinheiro”, disse-lhe um vizinho quando tudo começou.
Agora,
todos são agiotas que estão fora do sistema financeiro formal. Nem bancos nem
carteiras digitais.
— Os
meus são todos particulares e não sei se isso não é pior — diz —, porque você
vive ameaçada o tempo todo. É algo que dá medo. Medo de sair na rua, você não
sabe se vai encontrá-lo.
—
Levaram alguma coisa de sua casa?
— Não,
não — diz Marta. — Tive que comprar algo novo para eles, o micro-ondas, porque
não queriam o da minha casa.
Na
cidade, a violência aumenta da mesma maneira. Luci Cavallero menciona dois
casos. Um agiota ameaçou uma mulher dizendo que levaria seus filhos para
trabalhar para ele. Poderia se tratar de uma rede de exploração sexual com as
meninas e de utilização dos meninos como soldadinhos de uma economia ilegal
associada ao tráfico de drogas. Em outro caso, uma mulher foi intimidada por um
agiota que rondava sua casa e ameaçava incendiá-la.
Diante
da primeira ameaça, a organização fez uma arrecadação com o bairro para que a
mulher pudesse pagar a dívida. No segundo caso, fizeram uma denúncia criminal.
A
Movida Ciudad trabalha há um ano com pessoas endividadas em assembleias,
oferecendo orientação e apoio em saúde mental, e busca levar a discussão aos
bairros populares, como a Villa 31 ou a 21-24. Para Cavallero, uma denúncia
criminal é importante, mas não é suficiente: é necessária uma rede de apoio nos
bairros para aqueles que denunciam.
“É mais
importante o acompanhamento das organizações porque a Justiça e os advogados
não estão dentro do bairro e, então, as pessoas que denunciam ficam à mercê das
represálias que esses grupos possam tomar”, explica. “É claro que o
acompanhamento jurídico é importante, mas não é suficiente. E isso me faz
lembrar muito da violência de gênero que essa pergunta nos apresentava: ‘Que
dispositivos precisam ser criados nos bairros para dar uma solução
multidisciplinar?’”
<><>
Yamila: o agiota na porta da sua casa
Yamila
começou a militar com um grupo de endividados. Pegou um crédito de 20 mil pesos
para a SUBE e a dívida cresceu tanto que, um dia, atingiu o limite do cartão
Naranja, seu único tesouro, com o qual compra comida para os filhos. Pagou o
total enquanto pôde, até que pediu um empréstimo no bairro.
Mãe,
decoradora e agora cozinheira em uma casa, vive em Lomas de Zamora, onde há
agiotas de todos os tipos.
“Eles
emprestam uma quantia de dinheiro que você pega: 500 mil pesos, mas tem que
devolver um milhão. E esse milhão, como você devolve? E depois você tem o
agiota na porta da sua casa o tempo todo. Graças a Deus, essa situação não
aconteceu comigo, mas aqui no bairro a maioria está desesperada, tentando
descobrir de onde pode tirar dinheiro para pagar.”
Fidel
Ruiz é o coordenador de formação da La Poderosa. Antes de chegar ao ponto de
tirar as coisas da sua casa — diz — existe uma etapa anterior: eles ficam, por
exemplo, com o cartão da Asignación Universal.
Fidel
acredita que os projetos de lei sobre endividamento são úteis, mas não são
suficientes, porque o verdadeiro problema é estrutural.
“Aqui,
a Cidade aprovou um projeto de Leandro Santoro para pessoas que estão
endividadas, e também um de Pitu Salvatierra, mas os governos não estão
pensando em nenhuma política pública que possa salvaguardar a vida integral
desses vizinhos e vizinhas. Porque cortam a educação, cortam a saúde, cortam
programas sociais, cortam tudo de você, mas depois colocam a culpa em você por
estar se endividando.”
<><>
A crueldade de quem empresta
Do
outro lado, também há algo novo: uma espécie de “nada disso é um problema nem
está errado”. Hernán Letcher republicou alguns anúncios de agiotas. Entre eles,
uma câmera em primeira pessoa mostra uma caminhonete enquanto uma voz conta que
eles vão buscar um fogão em uma casa.
Grande
Buenos Aires. Rua de terra. A mulher não conseguiu pagar, diz a voz. Queria
ligar para a Defesa do Consumidor e para o juiz, mas pressionamos e
pressionamos o máximo que pudemos e nada — continua —, agora estamos indo
buscar o fogão.
Plano
seguinte: a casa de destino, de dia, área externa. A caminhonete dá ré. Fogão
sendo carregado. E o grupo dá meia-volta e vai embora como se nada tivesse
acontecido.
Vídeo
dois. Outra moto. Outra câmera em primeira pessoa. Voz em off. Um anúncio:
“Empréstimos de 70 K, lucro de 35 K”. O rapaz-câmera avança por outra paisagem
parecida com a primeira, enquanto passa o anúncio e convida a acompanhá-lo
nessa espécie de passeio de adrenalina ao vivo.
“Há uma
lógica de contar a crueldade pelo lado de quem empresta dinheiro”, diz Letcher.
“Há uma crueldade evidentemente própria da etapa política que indica que, pelo
menos para uma parte, nada disso é um problema nem está errado, e quase, quase
isso é visto como algo positivo. Como você promove seu negócio de empréstimos
me mostrando isso?”
Fonte:
Por Alejandra Dandan, em Página 12 - Tradução: Isabelle Paiva, para Diálogos do
Sul Global

Nenhum comentário:
Postar um comentário