sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Musculação reduz pressão arterial se praticada dois ou três dias por semana com carga moderada a alta

O treinamento de força – praticado com carga de moderada a vigorosa, dois ou três dias por semana – é uma boa estratégia para diminuir a pressão arterial. A conclusão é de um estudo brasileiro publicado na revista Scientific Reports.

Os mecanismos de diminuição da pressão arterial por meio de atividades aeróbicas têm sido bem estudados. No entanto, existem poucas investigações sobre o exercício de força, como essa conduzida por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Sob a coordenação de Giovana Rampazzo Teixeira, professora do Departamento de Educação Física da Unesp de Presidente Prudente, o grupo conduziu uma revisão sistemática da literatura científica sobre o tema com meta-análise – tipo de estudo considerado padrão-ouro em nível de evidência. O objetivo foi verificar a intensidade, o volume e a duração do treinamento que garantiriam os melhores resultados.

A pesquisa contou com a colaboração de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e foi financiada pela FAPESP por meio de três projetos (21/14514-2, 20/15324-0 e 19/11924-5).

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo e a hipertensão arterial responde por 13,8% delas. A condição é considerada um problema quando os níveis ficam acima de 140 milímetros de mercúrio (mmHg) de pressão arterial sistólica e acima de 90 mmHg de pressão diastólica. Trata-se de uma doença multifatorial, desencadeada por hábitos como sedentarismo, má alimentação, consumo de álcool e tabagismo.

Já se sabia que o treinamento de força era uma opção terapêutica, mas havia, até então, pouca certeza sobre os protocolos mais eficientes. Com uma amostragem de 253 participantes, com média de idade de 59 anos, foi feita a análise com base em uma série de ensaios controlados que avaliaram o efeito do treinamento por oito semanas ou mais.

“Focamos em estabelecer o volume e a intensidade que fossem suficientes para alcançar uma redução significativa de valores da pressão arterial. Em média, o treinamento de força realizado em oito a dez semanas foi suficiente para uma redução de 10 mmHg sistólico e 4,79 mmHg diastólico”, conta Teixeira à Agência FAPESP.

O estudo mostrou que resultados efetivos eram observados por volta da 20ª sessão de treinamento e os efeitos hipotensivos benéficos duravam até 14 semanas mesmo depois que os exercícios eram interrompidos – fase chamada de destreinamento.

“Na prática clínica ou até no dia a dia das academias, os profissionais que depararem com um sujeito hipertenso poderão usar o treinamento de força como tratamento não farmacológico para hipertensão arterial, sabendo quais são as variáveis necessárias para que isso seja alcançado e sempre levando em consideração os objetivos da pessoa”, explica a pesquisadora.

<><> Análise sistemática

Durante muito tempo apenas o treinamento aeróbio era indicado para o tratamento da hipertensão arterial e, por isso, os estudos moleculares eram quase que inteiramente restritos a essa modalidade.

“Recentemente, o treinamento de força entrou nas Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial, mas muito ainda deve ser investigado para que tenhamos evidências mais robustas. As perspectivas de novos estudos se baseiam nos mediadores moleculares que são os responsáveis por essa redução da pressão arterial em nível vascular e sanguíneo durante o treinamento de força”, pondera Teixeira.

A revisão sistemática foi a forma como os pesquisadores puderam analisar a amplitude e a robustez de evidências sobre o potencial do treinamento de força. Revisões anteriores verificaram que havia algum efeito, porém, o trabalho agora publicado fornece evidências adicionais importantes, como intensidade da carga, volume e frequência semanal. Os pesquisadores reuniram inicialmente 21.132 artigos, dos quais 54 cumpriam critérios para análise de texto completo. Destes, 14 foram considerados relevantes para a revisão.

O efeito mais vantajoso foi observado em protocolos com intensidade de carga moderada a vigorosa, acima de60% da carga usada para uma repetição máxima, a mais intensa suportada pelo indivíduo. Ou seja, se a máxima carga com a qual consegue fazer uma única repetição é de 10 quilos, a carga mais vantajosa de treino estava acima de 6 quilos. Outra observação importante foi atestar que a frequência deve ser de pelo menos duas vezes por semana, mantida por, no mínimo, oito semanas.

A maioria dos estudos da revisão abrangeu pessoas entre 60 e 68 anos, com apenas dois estudos incluindo uma população mais jovem (entre 18 e 46 anos). Sete estudos incluíram pacientes de ambos os sexos, em outros sete estudos a amostra foi composta apenas por mulheres e um dos trabalhos incluiu apenas homens.

Observando os subgrupos, também foi descoberto que o efeito da intervenção está relacionado à idade. Aqueles entre 18 e 50 anos apresentaram efeitos hipotensores consideravelmente maiores em comparação à faixa etária entre 51 e 70 anos. “De toda forma, o treinamento de força pode ser realizado em qualquer idade, pois mesmo em pessoas mais velhas há benefícios hipotensivos”, atestam os pesquisadores.

Estudos futuros devem desvendar os mecanismos celulares e moleculares responsáveis pela diminuição da pressão arterial em decorrência do treinamento de força. O que se sabe é que durante a atividade física há aumento da frequência cardíaca, aumento do diâmetro dos vasos sanguíneos (vasodilatação), maior fluxo sanguíneo e aumento da produção de óxido nítrico (composto com efeito vasodilatador). Em longo prazo, o exercício promove adaptações, como diminuição da frequência cardíaca de repouso, melhora da eficiência cardíaca e aumento do volume máximo de oxigênio que o organismo consegue absorver a cada respiração (VO2máx).

Entre as limitações destacadas pelos pesquisadores está a inclusão de pacientes que faziam uso de anti-hipertensivos em 11 dos 14 estudos, como β-bloqueadores, diuréticos, bloqueadores dos canais de cálcio e inibidores da enzima conversora de angiotensina. Há também o fato de alguns artigos utilizarem homens e mulheres no mesmo grupo de intervenção, o que impede a análise de acordo com o sexo.

•        Musculação reprograma células do fígado e ajuda a reverter danos da obesidade. Por Maria Fernanda Ziegler

Estudo desenvolvido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostra que os benefícios da musculação vão além do ganho de músculos e da perda de gordura. Em experimentos com camundongos, os pesquisadores observaram que o treinamento de força induz uma verdadeira reprogramação molecular no fígado. A descoberta ajuda a entender como a prática modula o funcionamento do genoma para mitigar a doença hepática esteatótica – condição caracterizada pelo acúmulo de gordura no órgão e intimamente ligada ao surgimento do diabetes tipo 2.

“Queríamos entender como algo que ocorre nos músculos poderia interferir e beneficiar um problema no fígado. Para isso, fomos investigar o cerne do metabolismo, que é o nosso DNA. O objetivo foi compreender como a obesidade agride esse DNA e, depois, como a musculação consegue protegê-lo”, relata Leandro Pereira de Moura, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA-Unicamp) e coordenador da pesquisa, em entrevista à Agência FAPESP.

Os resultados do estudo, apoiado pela FAPESP, foram divulgados em novembro na revista Life Sciences.

Para descobrir como o trabalho muscular impacta o fígado, a pesquisa focou na epigenética. Essa área da ciência avalia de que forma fatores externos – como hábitos de vida e condições ambientais – alteram o funcionamento dos genes sem modificar o código do DNA.

Um dos fenômenos epigenéticos mais estudados é a metilação do DNA. Ela consiste na adição de uma molécula química (o grupo metil) na chamada região promotora do gene, que funciona como o “botão de ligar”. Essa marcação química atua como uma barreira física que torna o gene menos acessível para as enzimas da célula, inibindo a sua atividade.

Nos experimentos com roedores, os pesquisadores verificaram que oito semanas de musculação foram suficientes para alterar a metilação do gene MTCH2 (homólogo 2 do transportador mitocondrial), que está fortemente envolvido na forma como o fígado processa e utiliza a energia.

Como explica Moura, a obesidade obriga o fígado a trabalhar em um ambiente tóxico. O excesso de gordura se acumula nos hepatócitos – as principais células do fígado –, desencadeando uma inflamação crônica e falhas nas mitocôndrias, que são as “usinas de energia” celulares. O fígado busca se regenerar, mas, sem energia suficiente, esse processo falha. O tecido sadio vai sendo substituído por tecido cicatricial (fibrose) em um processo que destrói aos poucos a função do órgão. É nesse cenário de estresse extremo que o corpo desregula o funcionamento do gene MTCH2, acelerando ainda mais a progressão da doença.

Nos experimentos com os camundongos treinados, os cientistas observaram algo intrigante: embora as células do fígado até emitissem o comando genético (RNA mensageiro) para ativar o MTCH2, a quantidade final da proteína ligada a esse gene diminuiu. Segundo Moura, isso ocorre porque a musculação devolveu a capacidade energética ao órgão e reduziu a inflamação. Ao perceber que o ambiente não era mais tóxico, o organismo desligou o “modo de emergência”. Sem o estresse celular e os sinais de autodestruição, o próprio corpo bloqueou as etapas finais de formação dessa proteína.

<><> Resistência à insulina

Um dos papéis do fígado é ajudar a manter estável o nível de açúcar no sangue (glicemia) para garantir o funcionamento de todos os órgãos, principalmente do cérebro. Sob o comando da insulina, o fígado armazena o açúcar excedente logo após as refeições na forma de glicogênio; já nos períodos de jejum, ele libera essa reserva de volta na corrente sanguínea. Em condições normais, a insulina funciona como um mensageiro que avisa o fígado para parar de liberar glicose quando o corpo já está abastecido. Mas quando o órgão está sufocado pela gordura e inflamado, ele desenvolve resistência à insulina, ou seja, fica “surdo” a esse aviso e continua mandando açúcar para a circulação. Um dos achados da pesquisa é que, nos roedores obesos que praticaram treinamento de força, o fígado recuperou a sensibilidade à insulina.

Os resultados também indicam que a atividade física inibiu a ação de enzimas que causam a fibrose e o crescimento celular desordenado. E impulsionou a produção de ATP5, proteína essencial para a geração de energia mitocondrial. “Com energia abundante, as células saem do estado de alerta e deixam de ativar o gene MTCH2, favorecendo a regeneração do tecido”, resume Moura. “Levantar pesos fortalece não só os músculos, mas também controla como o DNA do fígado funciona.”

 

Fonte: Por Ricardo Muniz em Agência FAPESP

 

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