sexta-feira, 28 de agosto de 2026

É possível derrotar o capitalismo?

Há décadas, as narrativas dominantes sobre este sistema em que vivemos o apresentam como o único possível: glorificado pelas direitas ou aceito com resignação por aqueles que se apresentam como seus adversários políticos, mas que apenas propõem introduzir algumas regulações episódicas e limitadas à tirania dos grandes capitalistas. Às maiorias nos é reservado o consumo sob demanda de filmes e séries distópicas em plataformas de streaming monetizadas: ficções povoadas por personagens extravagantes que encarnam os ressentimentos de milhões, vinganças planejadas por heróis solitários ou futuros atrozes que nos convidam a aceitar, com resignação, o presente tal como é. 

Então, é possível saltar o cerco desses sentidos estabelecidos, atravessar a fronteira que nos impõe esse discurso dominante e deixar a imaginação voar de verdade? É possível derrotar esse pessimismo que nos prefere conformistas, céticos ou cínicos e liberar a capacidade de projetar outra vida, outra sociedade, outras relações, que hoje estão enclausuradas?

Podemos desafiar a cosmovisão das classes dominantes que se estabelece como o senso comum de toda a sociedade? Somos capazes de imaginar e fazer outros imaginarem a possibilidade de uma nova hegemonia impulsionada pela classe majoritária que move o mundo, encabeçando uma aliança com os setores das classes médias, com a juventude que se rebela, com os movimentos sociais que lutam contra as opressões e a depredação do planeta, para finalmente derrotar o capitalismo? Em diferentes momentos da história, também artistas, cientistas e até personalidades que vêm das classes acomodadas, mas renegam a ordem social que consideram repugnante, abraçam as revoluções que libertam também a criatividade e sensibilidade humanas. 

Somos de esquerda porque foi assim que a história batizou aqueles que carregam as bandeiras do novo, quando, na grande Revolução Francesa de 1789, a assembleia constituinte debatia calorosamente qual deveria ser o poder do rei Luís XVI. E enquanto os nobres, o clero e os leais à coroa se sentavam à direita de quem presidia a assembleia, os assentos da esquerda eram ocupados pelos representantes do povo, que exigiam uma transformação radical. Uma divisão espacial fortuita, cujo significado continua vigente: entre aqueles que querem conservar os privilégios das classes dominantes e aqueles como nós, que queremos revolucionar tudo.

Somos de esquerda porque, nessa vida que vivemos, imaginamos outra que realmente merece ser vivida e lutamos por ela. Porque rejeitamos a destruição do planeta e que o desperdício de uns poucos se sustente na fome de milhões. Porque nos opomos ao crescimento do racismo, ao machismo que mata, ao trabalho que nos adoece e ao fato de que a solidão e as crises sejam nossos únicos destinos. Porque nos recusamos a naturalizar as injustiças, as desigualdades e iniquidades, e tampouco aceitamos que sejam imutáveis. Porque estamos alertas também contra a maquinaria infernal da (des)informação, que, de tanto nos bombardear com a espetacularização do horror, nos entorpece, adormece e anestesia diante de tanta crueldade inadmissível. Porque não aceitamos de braços cruzados que a desigualdade alcance níveis obscenos, insuportáveis, trágicos; nem que nos convidem a descarregar a angústia e a ira que isso nos provoca em outros mais frágeis e vulneráveis. Porque sentimos repulsa por essa degradação infinita das democracias, com corrupção e negociatas entre a casta política e o empresariado, suas limitações para as maiorias populares, que não mandam nem decidem. Porque lutamos por uma democracia de outro tipo, verdadeiramente radical, que só pode ser alcançada com base na igualdade política e econômica. E porque rejeitamos, também, aqueles que apenas pregam o conformismo, a resignação ou a submissão. 

Somos de esquerda porque tudo isso nos revolta e nos impulsiona a querer transformá-lo. E porque percebemos que é necessário nos organizar para travar as batalhas que nos são impostas, do outro lado, por aqueles que contam seu patrimônio em bilhões de dólares, diamantes, ouro, propriedades, investimentos, grandes extensões de terra e, sobretudo, tempo: o tempo que roubam, cotidianamente, das nossas vidas.

Nós, que somos de esquerda, costumamos ser caricaturados como utópicos, otimistas irrefreáveis, que acreditam que “a revolução virá” e que o futuro socialista da humanidade é inevitável. Para dizer a verdade, algumas vertentes de esquerdas pensaram assim durante o século XX, mas esse não é o nosso caso. Porque, se sustentássemos isso, então sentaríamos placidamente para esperar que os acontecimentos se desenrolassem! Que sentido teria sermos militantes ativos em nossas ideias se o socialismo estivesse inscrito em um devir predeterminado?

Ao contrário, não está definido de antemão como terminarão essas batalhas entre nós e eles. Ainda é preciso travá-las, para honrar a memória das gerações passadas, para legar um mundo melhor às gerações futuras; mas, sobretudo, para defender a alegria em um presente colonizado pelas paixões tristes. Não é verdade que nossas reivindicações sejam impossíveis, como querem nos fazer acreditar. Existem condições materiais para erguer uma sociedade sem exploração nem opressão. Sua concretização dependerá do resultado da luta. Por isso, é preciso ser de esquerda. Além disso, como sustentar a vitalidade do presente senão conspirando coletivamente, todos os dias, para impedir que essa pequena minoria de privilegiados que nos domina consiga o que quer?

¨      Saudade de um país quebrado: tabloide neoliberal não se cansa de louvar Malan e Armínio. Por Paulo Henrique Arantes

O Estadão insiste, em editorial na terça-feira (25), em louvar as figuras de Pedro Malan e Armínio Fraga, respectivamente ministro da Fazenda e presidente do Banco Central nos anos em que a Presidência da República do Brasil foi exercida pelo “Príncipe dos Sociólogos”, Fernando Henrique Cardoso, promovido a “Rei dos Neoliberais” em razão de seu governo. O ex-jornalão do Limão, ora tabloide, reafirma sua devoção aos economistas fernandinos e ironiza o fato de o atual titular da Fazenda, Dario Durigan, procurá-los para uma conversa sobre a situação fiscal. Gesto de cinismo de um governo perdulário, entende o periódico udenista.

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Explicar a essa turma que existem coisas mais importantes na economia de um país do que o rigor fiscal, a despeito de certas regras que merecem ser cumpridas, é dar murro em ponta de faca. Necessário, contudo, é indagar por que editorialistas adoram tanto certos economistas, os quais deram com os burros n’água, e odeiam outros, cuja atuação resultou em melhora da vida da população. Afinal, para que serve a economia se não para melhorar a vida das pessoas?

A predominância de neoliberais na imprensa brasileira é notória, mas o time não deveria ignorar dados históricos. É preciso salientar que, quando se recorre ao FMI por causa de forte fuga de capitais e crise cambial, tem-se um país quebrado. Foi assim com FHC, Malan e Armínio.

O Estadão mantém-se cego perante a História e recomenda aos seus oráculos: “Malan e Arminio poderiam ensinar a Durigan que os juros são altos porque o mercado cobra cada vez mais caro para financiar um governo que sistematicamente gasta mais do que arrecada e não demonstra compromisso com o equilíbrio fiscal”.

Quando FHC assumiu a Presidência da República, em 1995, a dívida pública era de R$ 153,4 bilhões. Em abril de 2002, no fim do seu governo, era de R$ 684,6 bilhões – um aumento de 346%. Que equilíbrio espetacular!

Durante os governos do “Rei dos Neoliberais”, sob assessoria dos oráculos Malan e Armínio, a média de crescimento do PIB foi de 2%. A falta de investimento em infraestrutura acarretou um monumental apagão elétrico. Para compensar os prejuízos às empresas, o governo baixou uma Medida Provisória transferindo a conta do racionamento de energia aos consumidores.

A partir de questionável tese para evitar o colapso do sistema financeiro, FHC criou o Proer e socorreu os bancos. À época, disse que o custo da filantropia era de 1% do PIB. Posteriormente, os ex-presidentes do Banco Central Gustavo Loyola e Gustavo Franco estimaram a ajuda em 3% do PIB. Já economistas da Cepal apontaram 12,3% do PIB como o custo da benemerência, algo em torno de R$ 111 bilhões. Não se ouviu estridência do Estadão, por talvez não imaginar melhor destino a tamanha imensidão de dinheiro público.

A privatização do Sistema Telebrás foi um capítulo especial da era FHC. Grampos no BNDES flagraram conversas do seu presidente, André Lara Resende, com o então ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros. A dupla articulava apoio da Previ – o fundo de pensão do Banco do Brasil – ao consórcio liderado pelo banco Opportunity, que tinha Pérsio Arida, amigo de ambos, como sócio. Deu em nada, claro, porque privatizar é o objetivo final dos austericidas, custe o que e a quem custar.

Fernando Henrique Cardoso reelegeu-se em 1998 após segurar a paridade real-dólar. Eleição ganha, foi obrigado a desvalorizar a moeda brasileira. Houve indícios de vazamento de informações pelo Banco Central: o então deputado Aloizio Mercadante, do PT, divulgou uma lista com o nome de 24 bancos que obtiveram enormes lucros com a mudança cambial e outros quatro que registraram movimentação especulativa suspeita às vésperas do anúncio da medida.

 

Fonte: Por Myriam Bregman, em The Intercept/Brasil 247

 

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