sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Díaz-Canel denuncia ‘guerra multidimensional’ dos EUA a Cuba: ‘sanções se transformam em genocídio’

O presidente cubano Miguel Díaz-Canel Bermúdez afirmou que as 176 medidas econômicas aprovadas pela Assembleia Nacional, 75% delas já com respaldo legal, buscam fortalecer a economia nacional e não são concessões aos Estados Unidos nem um abandono do processo socialista de construção no país caribenho.

“As 176 medidas econômicas anunciadas são resultado de um debate sobre melhorias que vem acontecendo há mais de 10 anos”, disse o chefe de Estado em entrevista ao jornal brasileiro Folha de São Paulo.

Explicando o contexto das transformações que receberam luz verde do Parlamento em junho, Díaz-Canel disse que a situação econômica atual deu maior urgência às mudanças que já estavam sendo estudadas, e defendeu a incorporação de diferentes atores econômicos como forma de aumentar a produção, atrair investimentos e gerar recursos para o desenvolvimento.

Entre as medidas estão aquelas que promovem maior participação do setor privado, novas possibilidades de investimento estrangeiro e a abertura aos investimentos de cubanos que vivem no exterior. Nesse sentido, o presidente enfatizou que os principais meios de produção permanecem nas mãos do Estado, e que os novos atores econômicos devem contribuir para o objetivo de aumentar a produção e gerar benefícios para a população.

Ele enfatizou que a justiça social continua sendo um princípio central do projeto cubano, o que também se reflete no pacote de transformações aprovado em junho, e que os programas sociais apoiados pelo orçamento estatal são mantidos.

Diaz-Canel negou que as medidas respondam às exigências de Washington. “Os Estados Unidos não têm moral para nos pedir concessões, nem estamos dispostos a fazê-las”, disse ele. Ele enfatizou que as reformas em andamento fazem parte de um processo nacional de melhoria econômica e não de uma negociação com o governo dos EUA.

<><> Cuba diante de uma possível intervenção militar dos EUA

Quando abordado sobre a possibilidade de uma intervenção militar dos EUA na ilha, o presidente Díaz-Canel respondeu: “Desta administração dos EUA podemos esperar qualquer coisa.”

Ele afirmou que Cuba é um país de paz, mas apontou que há uma retórica constante de ameaças, razão pela qual a ilha está se preparando com ações como o Dia da Defesa Nacional. Referindo-se às pressões militares contra a ilha, ele disse que “não temos alternativa a não ser resistir.” Questionado sobre o que aconteceria com ele pessoalmente em caso de ação militar, ele disse: “Se minha hora chegar, já chegou. Mas não será por fraqueza e covardia. Vai ser luta.”

<><> Cuba submetida a genocídio silencioso

Quando questionado sobre alertas de organizações internacionais, e até de congressistas norte-americanos, de que, sob as medidas coercitivas unilaterais dos EUA, o país caribenho está se tornando uma “Gaza silenciosa”, Díaz-Canel concordou e acrescentou que “estamos sujeitos a uma política de máxima pressão do governo dos EUA. Eles estão impondo uma guerra multidimensional a Cuba: ideológica, cultural, econômica e midiática.”

Após apontar que Washington busca a asfixia econômica do país para provocar uma explosão social e “que o povo, como consequência da insatisfação e das privações acumuladas, rompa com o governo cubano, o que levará à famosa queda da Revolução, que eles ansiavam e esperavam”, ele lembrou que a ilha é “a nação que tem sido sujeita a um bloqueio econômico por muito tempo, e não por qualquer Estado, mas pela maior potência mundial, que controla o comércio, as finanças e a economia.”

Trump, que durante seu primeiro mandato (2017-2021) impôs mais de 240 medidas contra Cuba, reforçou o cerco neste segundo mandato na Casa Branca, que inclui sucessivos pacotes de sanções e um bloqueio de petróleo.

“Fomos incluídos em uma lista de países que supostamente apoiam o terrorismo, o que é falso. Isso nos excluiu de todo o sistema de relações econômicas e financeiras globais”, lembrou Díaz-Canel, acrescentando que, durante o mandato atual de Trump, o bloqueio foi internacionalizado por meio do mecanismo de sanções secundárias, que pune empresas de qualquer outro país que tenham relações comerciais com Cuba.

“Em sete meses, apenas um petroleiro entrou no país, vindo da Federação Russa, com ajuda humanitária de 100.000 toneladas de petróleo bruto. Desde então, nenhum combustível entrou mais, o que piorou a situação e afetou a vida de homens e mulheres cubanos. Quando não há energia, não há eletricidade, não há água, nem transporte. A vida doméstica fica complicada. O confinamento paralisa a economia. Ninguém no mundo pode sobreviver sem energia”, disse ele.

“Uma rede de sanções e pressões coercitivas foi construída que restringe o funcionamento do país e isso está se transformando em genocídio”, denunciou o presidente.

<><> Bloqueio de Cuba: do déficit de megawatts à morte de crianças

Ele explicou que, durante o bloqueio do petróleo, imposto em janeiro pela administração Trump, “não podíamos usar 1.400 megawatts [diários] devido à falta de combustível. Se tivéssemos usado essa capacidade, os apagões incômodos e prolongados que ocorrem em Cuba teriam sido reduzidos para aproximadamente três horas por dia.”

Abordando outras consequências do bloqueio do petróleo, ele disse que “ficamos sem a energia necessária para a vida familiar, para processos e serviços de produção, para saúde, educação e transporte”, e especificou que atualmente há uma lista de espera com mais de 98.000 pacientes para cirurgias, incluindo 12.000 crianças.

Há também mais de 117.000 pacientes com câncer, incluindo aproximadamente 1.200 crianças, que não recebem tratamento contra o câncer, e mais de 3.000 pessoas “para as quais temos dificuldades em garantir o tratamento para hemodiálise”.

“Já existem mais de 64.000 crianças com calendários de vacinação atrasados, o que é sem precedentes. A mortalidade infantil, que era de quatro a cinco mortes por mil nascimentos vivos, uma taxa típica de países desenvolvidos, mais que dobrou. Essas são mortes infantis. Mortes que poderiam ter sido evitadas, já que sabemos como evitá-las”, disse o presidente.

A pressão dos Estados Unidos também causa escassez de medicamentos e suprimentos para a saúde pública. “Devido à pressão dos EUA sobre as empresas de navegação [ameaçadas de sanções por Trump caso transportem mercadorias para Cuba], atualmente temos milhares de contêineres em diferentes portos ao redor do mundo que não chegam ao país”, denunciou Díaz-Canel.

Ele explicou que esses recipientes encalhados contêm alimentos, peças sobressalentes para o sistema elétrico, sistemas fotovoltaicos e matérias-primas para a produção de medicamentos. “Só podemos cobrir 30% da lista básica de medicamentos”, disse ele.

<><> Díaz-Canel: “Esta nação não se rende”

Após lembrar que, além disso, a pressão da Casa Branca fez com que a maioria das empresas de turismo que tinham investimentos em Cuba se retirassem, o que levou ao fechamento de 50% dos hotéis e ao desemprego de cerca de 27.000 funcionários do setor de turismo, o presidente disse: “Se somos tão incapazes, inepto, ineficiente, por que nos bloquear? Não seria melhor nos deixarmos cair sozinhos?”

Díaz-Canel reconheceu que Cuba está hoje em “uma situação complexa”, mas destacou a “enorme criatividade e resiliência heroica do povo cubano” e que “buscamos alternativas e travamos uma luta constante para superar essas adversidades por meio de nosso próprio esforço e talento.”

“Sem eletricidade, nossos médicos e enfermeiros chegam aos hospitais todos os dias para salvar vidas. Sem eletricidade, nossos professores completaram o ano letivo e mais de 30.000 estudantes universitários se formaram”, disse ele.

“É uma situação extremamente complexa, de sofrimento, na qual vemos a perversidade de um governo tão poderoso quanto o dos Estados Unidos, que sacrifica o povo cubano na tentativa de subjugar uma nação. E esta nação não se rende, este povo não se rende”, concluiu o chefe de Estado cubano.

¨      Cuba condena extensão do bloqueio dos EUA até setembro de 2027: ‘asfixia nação inteira’

O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodriguez, condenou veementemente a decisão do governo dos Estados Unidos de estender o bloqueio econômico, comercial e financeiro contra a ilha por mais um ano. Nas redes sociais nesta terça-feira (25/08), o chanceler descreveu a medida como “genocida” ao reiterar que ela tem sido mantida contra o povo cubano por mais de seis décadas” e, agora, pretende sufocar ainda mais o país caribenho.

“A renovação da chamada Lei de Comércio com o Inimigo até setembro de 2027 não é um ato administrativo menor, mas é a confirmação de que Washington persiste com o objetivo de asfixiar uma nação inteira. Essa extensão chegou no momento mais cruel da ofensiva dos EUA contra Cuba em anos”, afirmou.

A reação do diplomata cubano responde à prorrogação ordenada pelo presidente norte-americano Donald Trump, que estendeu o cerco contra a ilha até a data mencionada.

“Determino que o exercício contínuo desses poderes em relação a Cuba por um ano é do interesse nacional dos Estados Unidos… Estendo por um ano, até 14 de setembro de 2027, o exercício de tais poderes em relação a Cuba, conforme estabelecido no Regulamento de Controle de Bens de Cuba, 31 C.F.R. Parte 515″, diz um documento divulgado no mesmo dia pela Casa Branca.

O arcabouço das sanções imperiais tem seus antecedentes em 1960, quando Washington estabeleceu as primeiras restrições em resposta à nacionalização das propriedades de empresas norte-americanas após o triunfo da Revolução Cubana em 1959. A medida, então, foi endurecida em 1962 até se tornar um bloqueio comercial quase total, que depois foi codificado e aplicado por meio de instrumentos legais como a Lei Helms-Burton de 1996.

Apesar desta lei enfrentar rejeição da comunidade internacional, ela permanece em vigor por mais de seis décadas.

Por sua vez, as autoridades cubanas atribuem esse cerco financeiro, comercial e tecnológico, somado ao bloqueio energético intensificado desde janeiro deste ano, por ordem de Trump, a principal causa das escassez sofridas pela população cubana. Somente neste ano, foram seis rodadas de embargos adicionais à ilha caribenha.

¨      Socialismo e capitalismo: o duplo padrão do jornalismo contra Cuba. Por Ricardo Queiroz Pinheiro

O liberalismo de gabinete do jornalismo brasileiro produziu mais uma pérola. Eu nem sabia, ontem dei de testa com a “corajosa” entrevista (sim, eu li isso em comentários) que a badalada Mônica Bergamo fez no último sábado (23/08) com Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba. 

Quando a colunista do diário paulistano pergunta a Díaz-Canel se uma economia de mercado não produziria riqueza com maior facilidade, ela não está simplesmente sendo dura com o presidente cubano. Está retirando Cuba de sua história. Desaparecem mais de seis décadas de embargo, a posição dos Estados Unidos no sistema financeiro mundial, as sanções que atingem empresas de terceiros países, as dificuldades de acesso a crédito, tecnologia, combustível e mercados. Resta uma ilha abstrata, colocada diante de uma escolha igualmente abstrata: socialismo ou mercado. A pergunta parece econômica, mas seu pressuposto é ideológico. Se Cuba sofre, procura-se a causa dentro do socialismo; aquilo que o país sofre de fora transforma-se em pequeno contexto esquecível.

Não é preciso negar os problemas internos cubanos para perceber a desonestidade desse enquadramento. Cuba tem burocracia, baixa produtividade, dificuldades de gestão e contradições que devem ser discutidas. O próprio Díaz-Canel admite problemas internos. A questão é outra: que espécie de análise econômica elimina justamente as condições nas quais uma economia existe? Países não produzem riqueza em laboratórios. Estão inseridos em relações internacionais profundamente desiguais, dependem de crédito, comércio, energia, tecnologia, transporte, sistemas de pagamento e decisões tomadas muito além de suas fronteiras.

Perguntar se “o mercado” resolveria Cuba sem perguntar se esse mercado viria acompanhado do fim do embargo equivale a comparar duas situações que jamais existiram sob as mesmas condições. Não é economia básica. É um contrafactual viciado e desonesto, para não dizer preguiçoso. 

Dois dias depois da entrevista, o editorial da própria Folha tornou mais claro o enquadramento que a pergunta apenas insinuava. O jornal reconhece que o embargo norte-americano agrava a situação cubana, critica sua intensificação por Donald Trump e, em seguida, devolve o peso explicativo ao que chama de política econômica “anacrônica” e de modelo socialista “insustentável”.

Díaz-Canel aparece já no título auxiliar como “líder da ditadura”, e Cuba como país que padeceria sob um “modelo estatizante”.  É uma operação conhecida: a admissão  da violência externa para imediatamente reduzi-la a agravante de menor escala. O sistema econômico cubano permanece sentado no banco dos réus; a potência que há décadas procura estrangular materialmente essa experiência aparece como uma variável lateral.

Há uma curiosa geografia moral nesse vocabulário. “Ditadura”, “autocracia”, “regime” são palavras distribuídas com uma facilidade extraordinária quando se trata de governos que desafiam os Estados Unidos. Já governos aliados de Washington podem prender opositores, esmagar movimentos sociais, financiar guerras, bombardear populações ou restringir liberdades sem que sua posição no sistema internacional seja reduzida à natureza de seu regime com a mesma constância.

Qual é a cartilha de redação usada, na qual determinadas categorias políticas aparecem como essência de alguns países enquanto, em outros, violações igualmente graves são tratadas como problemas específicos de governos, conjunturas ou políticas públicas? A linguagem também organiza o mundo. E o jornalismo, quando naturaliza essa distribuição desigual das palavras, participa dessa organização.

O ponto mais incômodo continua sendo o embargo. Se o socialismo cubano é economicamente inviável por sua própria natureza, por que foi necessário submetê-lo durante mais de sessenta anos a uma política destinada justamente a limitar seu funcionamento?

Há uma contradição elementar aí. Impõem-se obstáculos ao comércio, ao financiamento, aos investimentos e ao abastecimento; quando aparecem escassez, baixa produtividade e deterioração econômica, esses resultados são apresentados como prova do fracasso intrínseco do sistema que foi submetido às restrições. A intervenção deixa de fazer parte da explicação depois de produzir efeitos sobre o objeto explicado. É como quebrar as pernas de alguém e depois utilizar sua dificuldade para caminhar como demonstração de uma incapacidade natural.

Talvez seja esse o problema mais profundo daquela pergunta de Mônica Bergamo. Ela revela uma forma de imaginar a economia mundial na qual o capitalismo desaparece como sistema histórico e reaparece simplesmente como realidade. O mercado não precisa explicar seus centros de poder, suas periferias, suas guerras, sanções, monopólios tecnológicos ou desigualdades de origem. Ele é apresentado como horizonte neutro, naturalizado. 

O socialismo, ao contrário, deve responder sozinho por cada apagão, cada escassez e cada dificuldade produzida dentro de uma pequena ilha submetida à hostilidade da maior potência econômica e militar do continente. É nesse ponto que uma pergunta aparentemente inocente deixa de ser apenas uma pergunta ruim. Torna-se uma forma de desonestidade intelectual: apaga as relações que deveriam ser explicadas e chama o resultado desse apagamento de realidade.

Lacaios são lacaios. 

A propósito, Viva Cuba!

 

Fonte: Opera Mundi

 

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