Existe
uma psicanálise brasileira?
É desde
o título que o leitor é lançado a passar certa porteira: Psicanálise nos
trópicos é combinação significante que inscreve o calor, a efervescência da
mistura, o transbordamento de sentidos da vida tropical que nos é própria.
Temos em mãos um livro que recusa a friagem dos manuais e admite uma
psicanálise em transpiração contínua e prolongada, climatizada pela língua e
pelo corpo de um território que nunca coube inteiramente – ainda bem! – nas
gramáticas do Norte global. Autor de vasta obra, Christian Dunker discorre
sobre os itinerários tantas vezes labirínticos do movimento lacaniano no Brasil
com desenvoltura.
Já na
primeira página o leitor se aquenta e se achega na rede da história. Aqui o tom
é bem menos autobiográfico, como o de Freud em 1925, e parece mais uma inflexão
memorialística, como a da primeira parte de Memória, história e diálogo
psicanalítico de Marie Langer ou, arrisco dizer, do movimento autoral de
Wilhelm Reich em A função do orgasmo. Como se comprometer com uma história a
que o próprio autor que lemos pertenceu? Com o perdão da platitude, afirmo:
primeiro, lendo. Depois, preferencialmente, relendo. Que se tenha a coragem e a
humildade para ler e tirar os pés historiográficos do chão, até porque é com
eles, os tais pés, que estamos pensando. É nessa flutuação ambígua entre
testemunho e documento, nessa forma de narrar regando interpretações, que este
livro extrapola o movimento lacaniano stricto sensu para fazer sobressair a
história da psicanálise no Brasil.
Um
livro único, mas não só. São diversas as continuidades elencadas pelo próprio
autor ao menos desde seu primeiro livro vencedor do Prêmio Jabuti, há quinze
anos, Estrutura e constituição da clínica psicanalítica, continuidades estas
“desmuradas” no axial Mal-estar, sofrimento e sintoma, ora gestadas
coletivamente nos livros do Latesfip, ora dialogadas com os gringos por meio de
publicações internacionais de alto impacto, até finalmente confluírem nos mais
recentes Lacan e a democracia e O estilo de Lacan. Consagra-se em Psicanálise
nos trópicos uma credibilidade inconteste, fruto da atuação nas mais diversas
frentes da vi(n)da intelectual – da academia às mídias digitais –, constituindo
uma posição de autoria que talvez jamais caiba em qualquer lista de escritos
mais ou menos exaustiva. Portanto, melhor será concluir este texto lembrando de
quando apresentei ao Christian (aqui a intimidade me permite dispensar o
sobrenome) uma canção fabulosa chamada “Baião de Lacan”, dos geniais Guinga e
Aldir Blanc. Tamanho foi o entusiasmo da descoberta que Christian recortou
parte da letra para torná-la epígrafe de “Psicanálise e modernidade
brasileira”, capítulo excepcional de Mal-estar, sofrimento e sintoma.
Coube a
mim, outrora aluno e orientando, hoje colega docente na USP e, acima de tudo,
amigo e interlocutor, escrever este texto para a capa. Fiz isso não como quem
encara o sol cegante cara a cara, na chave do comentário
reconstruindo-argumentos-principais e seus quetais. Prefiro mirar de soslaio o
sol pelo reflexo n’água, como quem aborda o inconsciente – e escreve a
história. “A ideia de que o verdadeiro ¬Lacan não é nem o último, nem o que
fala francês, nem o que nos colonizou, mas o que virá, começa a ganhar força”:
eis o belo prognóstico com o qual este livro se conclui. Que ele nos inspire a
leitura e as releituras, que seja um convite acalorado para um banho de
sol.
Fonte:
Por Rafael Alves Lima, no Blog da Boitempo

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