“A
esquerda precisa fazer mais para imaginar o futuro”
A
apropriação crítica dos impactos da tecnologia sobre o trabalho e as
possibilidades de reorganização econômica pós-capitalista têm sido debates
centrais das ciências sociais contemporâneas. Nesse contexto, a obra
de Aaron Benanav emerge como uma das contribuições mais originais e
provocadoras da última década. Professor do Departamento de Global Development
na Universidade Cornell, Benanav combina história econômica, teoria social e
análise empírica para questionar narrativas dominantes sobre automação, desemprego
e o futuro do trabalho. Sua pesquisa percorre temas que vão desde a estagnação
econômica e a desindustrialização até as disputas em torno de tecnologia,
classe trabalhadora e democracia econômica.
Ao
longo de sua trajetória acadêmica, que inclui um doutorado em História pela
Universidade da Califórnia, Los Angeles, posições em instituições como a
Universidade Humboldt e a Universidade de Chicago, além de contribuições em
revistas e jornais acadêmicos e de grande circulação, como The New York
Times, The Guardian, The Nation e New
Left Review, Benanav consolidou-se como uma voz crítica que conecta passado
e futuro do capitalismo global.
A
chegada ao Brasil de seu livro Automação e o futuro do trabalho representa um
marco significativo, já que a obra tem ocupado lugar de destaque no debate
contemporâneo sobre tecnologia, emprego e dinâmica econômica global. Publicado
originalmente em inglês em 2020 sob o título Automation and the Future
of Work, o livro ganha agora uma edição em português pela Boitempo,
oferecendo ao público brasileiro uma análise crítica robusta dos mitos e
realidades que cercam a automação e o seu impacto sobre o mundo do trabalho.
Em vez
de aceitar as narrativas dominantes que atribuem a crise do emprego à
tecnologia em ascensão, Benanav reorienta a discussão para as contradições
estruturais do capitalismo moderno – em especial a estagnação econômica de
longo prazo, a desindustrialização e a incapacidade dos setores de serviços de
absorver plenamente a força de trabalho – e propõe reflexões profundas sobre
alternativas emancipatórias à lógica capitalista vigente.
LEIA A
ENTREVISTA:
·
Aaron, quais questões você está tentando responder no seu
livro e por que ele é relevante para os leitores brasileiros?
O livro
trata de como vivemos nesta era em que todos falam sobre automação e, agora,
sobre inteligência artificial, e da ideia de que estamos vivendo um período em
que tudo está se acelerando e ficando mais rápido – e como vamos acompanhar
todas essas mudanças. E o que eu escrevo no livro é que, na verdade, muitos
aspectos da nossa economia estão desacelerando e, de fato, estão estagnados. A
economia não está tanto destruindo muitos empregos, mas sim deixando de criar
muitos empregos.
Então,
no livro, eu tento entender essa tensão entre essas duas perspectivas, que você
também consegue perceber andando pelo Rio aqui. Essa sensação de que tudo
deveria estar mudando dinamicamente, mas que, de várias maneiras, parece muito
mais estagnado. E eu acho que o livro é muito relevante para o Brasil, que é um
país onde, me parece, a economia está tendo muita dificuldade para encontrar
esse motor de crescimento, e muito do livro é sobre isso.
·
O argumento central do livro desafia diretamente a
perspectiva que atribui um enorme poder social à automação na destruição de
empregos, embora ainda reconheça que a automação tem um impacto real. Você
poderia elaborar um pouco mais sobre isso, destacando quais setores são
realmente afetados e quais não são?
Quando
você lê sobre isso na mídia, parece que todos os empregos correm o risco de
serem eliminados pela automação e pela inteligência artificial. Mas, na
prática, muito poucos empregos estão sendo eliminados. E quando você pergunta:
“Bem, quais empregos estão desaparecendo?”, na verdade, muito poucas ocupações,
como categorias inteiras, estão desaparecendo. O que está acontecendo mais
concretamente é que os empregos estão mudando. Então, se você pensar na
transição dos taxistas para Uber e outros tipos de trabalhadores de plataforma,
os empregos ainda existem, mas o trabalho muda de caráter. Então, acho que
vemos muito dessa transformação digital do trabalho e, em muitos casos, ela
está tornando o trabalho pior.
E
avalio que, quando o Vale do Silício nos diz que esses empregos estão todos
desaparecendo, parcialmente isso serve para nos fazer sentir que não deveríamos
lutar para tornar esses empregos melhores. Mas, na verdade, precisamos, sim,
lutar para melhorá-los.
·
No livro, você argumenta sobre a ambiguidade das
propostas de renda básica universal, que atravessam todo o espectro político.
No Brasil, essa demanda certamente é vista como uma posição de esquerda, talvez
até de esquerda radical. Você poderia elaborar sobre essa ambiguidade política
que o livro aponta?
No
livro, eu explico que não devemos tratar a renda básica e programas como o
Bolsa Família como uma bala de prata, como uma solução definitiva para os
problemas. Mas isso não significa que esses programas não tenham um papel
importante. Na verdade, eu acho que, muitas vezes, o Estado de bem-estar social
– especialmente nos Estados Unidos – é muito punitivo. Ele faz com que as
pessoas pobres precisem se esforçar muito para conseguir acesso à ajuda. Então,
acho que há algo muito positivo na ideia de tornar os programas sociais mais
universais e de fazer com que ajudem mais as pessoas pobres e aquelas que
precisam de assistência imediata.
Não
acho que haja necessariamente algo ruim nisso. De fato, existe algo bastante
positivo em defender uma ampliação da ajuda aos pobres e seu acesso à renda
básica universal. Mas o problema é que isso não vai resolver nossos problemas.
E, como imagino que vocês já vejam aqui no Brasil, se a economia mais ampla não
estiver crescendo rapidamente, então até mesmo esses programas passam a
enfrentar muitas pressões por austeridade e redução da assistência. Então,
apenas ter uma renda básica, por si só, não vai resolver os problemas maiores
da economia.
·
Em seu livro, você utiliza a expressão “greve do capital”
para se referir ao fato de que, nas últimas décadas, o capital tende a
permanecer ocioso ou a ser direcionado para aplicações financeiras, compra de
ações, aquisição de ativos e outras formas de valorização que não implicam a
criação de novos postos de trabalho. Esse tema nos pareceu particularmente
difícil de resolver politicamente. Que caminho você sugeriria para superar essa
verdadeira trincheira do poder de classe?
Diria
que esse é um bom exemplo, porque se você tem uma renda básica, ela pode ajudar
a aliviar parte da pobreza e da privação, mas não consegue resolver o problema
de que, numa economia como esta, os capitalistas simplesmente não estão
investindo. E eles usam sua capacidade de reter investimentos para dizer ao
governo: “Vocês precisam criar um ambiente de negócios melhor para nós.
Precisam reduzir proteções trabalhistas. Precisam remover regulações ambientais
e assim por diante, para que fiquemos mais encorajados a investir.”
E eu
penso que esse é um problema realmente difícil. A solução, na minha visão, é
aumentar fortemente o investimento público e deslocar o investimento privado
lucrativo em direção a essa forma mais pública de investimento. E aí você pode
investir na construção da infraestrutura de que as pessoas realmente precisam
para viver boas vidas. Acho que pode haver uma luta real entre o setor privado
e o setor público. Mas isso é muito difícil de fazer, porque o Estado está
majoritariamente a serviço do capital, então ele só quer melhorar as coisas
para os ricos, em vez de enfrentar o poder deles.
·
Uma seção incomum em livros críticos sobre o capitalismo
que o seu livro oferece é o capítulo seis, “Necessidade e liberdade”, no qual
você delineia os contornos de uma sociedade pós-escassez. Qual foi sua intenção
ao incluir esse capítulo no livro?
Uma das
razões pelas quais fiquei muito interessado no debate sobre automação e IA é
que as pessoas que falam sobre isso oferecem alguma visão de futuro que
deveríamos tentar alcançar. Elas dizem: “Olhem, não deveríamos nos opor a essas
tecnologias que podem acabar com empregos, porque talvez um dia possamos viver
num mundo em que não precisemos trabalhar e possamos aproveitar a vida e
encontrar sentido nela de outra forma.”
E
acredito que há algo muito bonito nessa ideia, nessa tentativa de imaginar um
futuro melhor. Eu só acho que o futuro que eles oferecem está errado. Não é um
futuro em direção ao qual estamos caminhando nem um futuro que faça sentido
tentar construir. Mas podemos imaginar outros futuros que não exigem que a
inteligência artificial elimine todos os empregos e planeje toda a economia
para nós. Podemos imaginar outros futuros que ainda sejam muito bons sem
precisar disso.
Assim,
no livro, tento explicar o que significaria viver num mundo no qual usamos a
tecnologia para nos ajudar a viver vidas com dignidade e segurança, vidas numa
economia ecologicamente mais sustentável, em que todos trabalhem menos e tenham
acesso ao que precisam. Mas esse também é um mundo em que compartilhamos tanto
os fardos do trabalho quanto os frutos desse trabalho.
Então,
sim, no meu ponto de vista, a esquerda precisa fazer mais para imaginar esse
futuro, especialmente depois do fracasso do socialismo de Estado no século XX.
Acho que precisamos fazer mais para imaginar e apresentar às pessoas uma visão
positiva do que poderia vir a seguir.
·
Existe uma crítica implícita aos marxistas contemporâneos
nessa seção, como se você estivesse sugerindo que o pensamento revolucionário
carece de criatividade e precisa sonhar mais? Está correto?
Penso
que isso é verdade. Acho que realmente precisamos sonhar mais. Marx disse algo
como: quando o movimento da classe trabalhadora estiver mais desenvolvido, não
precisaremos mais de utopias. Mas, na verdade, depois da morte de Marx, no
final do século XIX, justamente quando o movimento operário estava ficando
muito forte, foi quando surgiram todas essas imaginações utópicas.
E, de
fato, o livro mais popular na Alemanha entre os membros do Partido Social-Democrata
no final do século XIX não era O capital, de Marx, mas
sim Mulher e socialismo, de August Bebel, que apresentava toda uma
visão de futuro que se tornou muito poderosa para as pessoas. Então acho que
deveríamos escrever livros sobre “mulheres e socialismo” hoje, mas também
livros sobre como esse futuro poderia ser no século XXI. Acho isso importante.
·
Como você responderia à crítica de que seu livro
apresenta, assim como os autores que você critica, uma posição utópica e não
imanente?
Acredito
que, quando vivemos tempos em que a economia está bastante estagnada e há muita
luta social que não consegue encontrar um programa coerente e inspirador, a
demanda por algo assim corresponde muito ao espírito do momento. E algo que
percebi é que, justamente quando comecei a trabalhar nisso, muitas outras
pessoas também começaram, porque isso parece uma necessidade do nosso tempo, de
uma forma que me parece muito conectada às lutas sociais, e não algo externo a
elas.
·
Na sua visão, quais deveriam ser as principais tarefas da
reflexão marxista hoje?
Creio
ser um pouco difícil para mim dizer o que isso significaria aqui no Brasil.
Muitas vezes, essas questões são muito contextuais, e é importante respeitar a
autonomia da organização política e as particularidades de cada lugar. Então,
eu teria um pouco de cautela com isso.
Mas eu
diria que, nos Estados Unidos, minha experiência é que entramos numa era em que
ser crítico do Vale do Silício e dos grandes magnatas da tecnologia se tornou
algo bastante difundido. As críticas ao capitalismo já são muito conhecidas. E,
na verdade, avançar para uma abordagem mais construtiva, em que não apenas
dizemos o que está errado na sociedade, mas também o que queremos construir,
parece muito importante agora, pelo menos onde eu vivo.
·
As plataformas digitais e os algoritmos representam uma
nova fase do capitalismo ou apenas novas formas de gerir o trabalho precário?
Acho
que são novas formas de gerir o trabalho precário. Sou muito cético em relação
às ideias de que entramos numa fase de tecnofeudalismo ou capitalismo rentista,
ou a essas tentativas de nomear a era com um novo termo. Acho apenas que o
capitalismo continua existindo num período de baixo crescimento e estagnação.
E, em
períodos assim, acredito que as empresas fazem um esforço especial para
encontrar tecnologias que aumentem a exploração, retirem renda dos
trabalhadores e a transfiram para os capitalistas. Há muito menos espaço para
qualquer tipo de pacto social ou negociação e muito mais esforço para
introduzir tecnologias que enfraqueçam o trabalho. E não avalio que isso seja
algo especial de uma nova era. É apenas uma característica do capitalismo.
Agora, as tecnologias digitais se tornaram a principal ferramenta para fazer
isso, mas usar novas tecnologias para suprimir as demandas dos trabalhadores
acontece há duzentos anos.
·
A expansão do trabalho informal e precário é resultado da
tecnologia ou da estagnação econômica?
Creio
ser importante dizer que isso decorre de muitas coisas. A expansão do trabalho
informal e precário aconteceu ao longo de todo o século XX – obviamente mais na
segunda metade do século XX – e continuou até hoje. E muitos fatores estiveram
envolvidos. Houve a expulsão do trabalho agrícola do campo, a expansão
demográfica das populações urbanas, as falhas da industrialização em empregar
muitas pessoas nas áreas urbanas e a desindustrialização precoce, especialmente
no Brasil, mas também em toda a América Latina nos anos 1980.
Então,
penso que a produção desse tipo de setor de baixos salários, baixa renda, baixo
crescimento de produtividade, majoritariamente de serviços e alguma atividade
industrial informal e precária já acontece há muito tempo. E acho que a
emergência da economia de plataformas apenas apresenta uma nova forma de
organizar esse trabalho para o capital, mas não é diretamente responsável pela
produção dessas populações.
Na
verdade, países que apresentam crescimento econômico mais acelerado veem o
setor informal diminuir. Então, isso é realmente um fenômeno de demanda
insuficiente por trabalho e crescimento insuficiente.
·
Nesse sentido, como analisar a dinâmica do excedente de
trabalho, especificamente na América Latina?
Sabemos
que os marxistas latino-americanos vêm analisando isso há muito tempo, desde os
anos 1960. Houve, especialmente na Argentina e em outros países da região,
diversas teorias marxistas sobre marginalidade e população excedente. Naquela
época, muitos analisavam isso em termos de uma espécie de capitalismo
monopolista e da teoria da dependência. Hoje existem também as teorias do
neoextrativismo, que procuram explicar essa dinâmica especificamente na América
Latina.
O que
considero útil nessas abordagens é que todas elas ajudam a explicar por que tem
sido tão difícil fazer com que as elites empresariais e políticas
latino-americanas apoiem até mesmo um programa desenvolvimentista moderado.
Existe uma pressão muito forte para manter tudo dentro dessa lógica
extrativista.
Então,
acho que há uma produção intelectual muito importante vinda da América Latina
para explicar esse fenômeno de maneira específica. Talvez o meu trabalho ajude
a situar isso dentro de um contexto mais global, porque as pressões que existem
aqui também estão ocorrendo em várias partes do mundo.
·
Se o problema central é a estagnação econômica e não
simplesmente a automação, quais seriam as respostas políticas mais adequadas?
Como eu
disse antes, considero muito importante respeitar a autonomia da política em
diferentes regiões. Por isso, não sou a pessoa mais indicada para dizer o que
as pessoas deveriam fazer aqui.
Mas, no
livro, desenvolvo uma ideia que chamo de “conquista da produção”. Defendo que é
importante não apenas lutar por programas de bem-estar social de inspiração
social-democrata, mas realmente disputar o controle do Estado e transformar a
economia.
Acredito
que um amplo programa de investimento público, capaz de construir a
infraestrutura necessária para uma economia muito mais orientada para o
bem-estar, poderia confrontar de forma séria o poder do capital de moldar a
nossa sociedade.
Mas
penso que, em última instância, somente quando conseguirmos deslocar plenamente
o capital e construir uma economia verdadeiramente pública, haverá potencial
para alcançarmos um mundo semelhante ao que descrevo no último capítulo do meu
livro.
É um
problema difícil, mas considero fundamental que lutemos por essas
transformações.
·
Para finalizar, você poderia nos fornecer uma pista,
mesmo correndo o risco de dar um spoiler, sobre o que está
escrevendo a respeito dos cenários de pós-capitalismo?
O
último capítulo do livro sobre a automação serviu como ponto de partida para um
trabalho que venho desenvolvendo há cinco anos, com o objetivo de construir uma
explicação muito mais completa.
E, na
verdade, daqui a algumas semanas será publicado um programa de transição
bastante detalhado sobre como passar de uma sociedade capitalista para um
futuro socialista. Acredito que esse programa não apenas garantiria às pessoas
aquilo de que necessitam, mas também lhes daria condições reais de participar
da construção da economia e da sociedade em que vivem, de forma verdadeiramente
democrática.
No novo
trabalho, apresento esse programa de transformação. Para mim, portanto, não
basta ter uma visão de futuro. É preciso mostrar como essa visão pode orientar
uma política capaz de nos conduzir efetivamente a esse novo mundo.
Penso
que a grande dificuldade na América Latina, e também em muitas outras partes do
mundo, é o elevado grau de dependência em relação à economia global. Isso torna
muito difícil promover mudanças em um único país, ou mesmo regionalmente, sem
transformar também a ordem internacional, especialmente a ordem monetária e
financeira internacional, que considero um dos principais obstáculos para que
qualquer região consiga romper com essa dependência.
Acho
que vimos isso acontecer na América Latina, onde houve diferentes momentos e
ondas de governos e movimentos de esquerda que enfrentaram enormes dificuldades
para consolidar um caminho alternativo de desenvolvimento.
Portanto,
essas são questões extremamente difíceis, mas, justamente por serem as mais
importantes, é nelas que devemos concentrar nossa atenção.
Fonte:
Entrevista com Aaron Benanav, por Marco Aurélio Santana (UFRJ), Tiago
Magaldi (Unesp), Alexandre Fraga (Uerj) e Renata Monteiro (UFRJ), no Blog da
Boitemp

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