O
jornalismo do século XXI ainda reproduz desigualdades do século XX
O
debate sobre a volta da obrigatoriedade do diploma de Jornalismo está no centro
das discussões públicas brasileiras após manifestações de ministros do Supremo
Tribunal Federal (STF) favoráveis à rediscussão da decisão de 2009, que
derrubou essa exigência para o exercício da profissão. A discussão reaparece em
um contexto marcado pela crise de confiança nas instituições, pela expansão das
redes sociais, pela desinformação e pela profunda transformação das formas de
produzir e consumir informação na era digital.
A
questão, porém, corre o risco de ser reduzida a uma falsa escolha: de um lado,
aqueles que defendem a formação profissional como compromisso com a qualidade,
a ética e a responsabilidade sobre a informação; de outro, aqueles que
interpretam qualquer tentativa de regulamentação como uma ameaça à liberdade de
expressão.
Li com
atenção o artigo de Ivana Bentes, As viúvas de Gutenberg e o Jornalismo no
século XXI, que defende que o jornalismo contemporâneo não será fortalecido
restringindo quem pode ou não exercer a atividade. Também acompanhei o artigo
de Samira de Castro, presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ),
publicado na Folha de São Paulo, defendendo a formação superior em Jornalismo
como parte da responsabilidade profissional da atividade e não como uma
limitação à liberdade de expressão.
Existe
um ponto de convergência entre essas posições: o diploma, isoladamente, não
resolverá a crise da informação. A desinformação não nasce apenas da ausência
de uma credencial profissional. Ela está relacionada a um ecossistema mais
amplo, marcado por plataformas digitais, modelos de negócio baseados na
economia da atenção, algoritmos de recomendação, concentração econômica e,
agora, inteligência artificial generativa.
Mas
justamente por isso precisamos ampliar a pergunta: o jornalismo mudou
tecnologicamente, mas democratizou, na mesma velocidade, as condições para
exercê-lo?
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As portas podem estar abertas. As condições de permanência, não
O fim
de uma barreira formal de entrada não elimina automaticamente as barreiras
econômicas, raciais, territoriais e sociais que determinam quem consegue
ingressar e permanecer no jornalismo.
Quando
comunicadores indígenas, jornalistas negros, periféricos e redes comunitárias
são apresentados como exemplos daqueles que poderiam ser prejudicados pela
regulamentação profissional, precisamos inverter a pergunta: por que não
discutimos também seu direito à formação, remuneração, financiamento, segurança
e proteção para permanecer na profissão?
Uma
liderança indígena não precisa de diploma para falar sobre seu território. Um
morador de favela não precisa de autorização profissional para documentar uma
violação de direitos. Comunicação é um direito.
Mas o
exercício profissional do jornalismo envolve responsabilidades específicas:
apuração, verificação, contextualização, ética e compromisso com o interesse
público. Liberdade de expressão e profissão jornalística não são sinônimos.
A
desigualdade já atravessa o próprio jornalismo. O Perfil do Jornalista
Brasileiro de 2021, mostrou que pessoas negras representavam 30% dos
jornalistas, enquanto as pessoas brancas correspondiam a 68% nos ambientes de
trabalho. Na sustentabilidade das iniciativas independentes, uma pesquisa
realizada no Brasil, no âmbito do programa AGILE, da Thomson Foundation, com
coordenação da Rede de Jornalistas Pretos, mostrou que 60% das organizações
participantes tinham faturamento anual inferior a R$ 500 mil e 26% não possuíam
receita. A pesquisa também evidenciou desafios estruturais enfrentados por
essas iniciativas, como dificuldades de acesso a financiamento, fortalecimento
da gestão e construção de modelos sustentáveis de longo prazo.
Esses
dados revelam uma contradição: justamente os grupos que ampliaram a diversidade
de vozes no ecossistema informacional são também aqueles que encontram maiores
obstáculos para transformar o direito de comunicar em uma atividade
sustentável, com estrutura, segurança e continuidade.
A
possibilidade de publicar se democratizou muito mais rapidamente do que as
condições materiais para viver da produção de informação de interesse público.
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A tecnologia mudou. A vulnerabilidade também se digitalizou
No
século passado, a concentração dos meios de produção estabelecia limites claros
para quem poderia produzir e distribuir informação em escala. As tecnologias
digitais reduziram essas barreiras, mas não eliminaram as desigualdades.
No
artigo Desinformação se torna o novo marcador social da desigualdade, publicado
no Le Monde Diplomatique Brasil, argumentei que a desinformação não afeta todas
as pessoas da mesma maneira. Em sociedades atravessadas por desigualdades
raciais, econômicas, territoriais e de gênero, o acesso desigual à informação
confiável também distribui de forma desigual riscos, oportunidades e capacidade
de tomar decisões.
Essa
perspectiva aproxima integridade informacional, jornalismo e direitos humanos.
Jornalistas investigam corrupção, denunciam violações, tornam políticas
públicas compreensíveis, cobrem emergências climáticas e produzem informações
que orientam decisões individuais e coletivas.
Quando
uma comunidade tem menos acesso ao jornalismo local, menos profissionais em
condições de investigar seus problemas e menos recursos para produzir
informação a partir do próprio território, não estamos apenas diante de uma
desigualdade midiática. Estamos diante de uma desigualdade no acesso a
direitos.
A
pandemia de Covid-19 mostrou como a informação confiável pode influenciar
decisões relacionadas à prevenção, vacinação e proteção da vida. Com a
intensificação da crise climática e dos eventos extremos, o jornalismo local e
as informações produzidas a partir dos territórios tornam-se essenciais para
orientar decisões sobre riscos, deslocamentos, saúde e acesso a políticas
públicas.
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A inteligência artificial torna essa discussão ainda mais urgente
A
expansão da inteligência artificial adiciona uma nova camada ao debate.
Sistemas de IA são desenvolvidos e utilizados dentro de ambientes
informacionais atravessados por disputas de poder, desigualdades e diferentes
níveis de visibilidade social.
Por
isso, uma governança responsável da inteligência artificial também depende de
um ambiente informacional saudável, diverso e íntegro.
Se os
conhecimentos, dados e conteúdos que circulam na sociedade carregam
invisibilizações históricas e desigualdades, essas assimetrias podem ser
reproduzidas nos sistemas tecnológicos construídos a partir deles.
Não
basta discutir transparência algorítmica, regulação de plataformas ou
responsabilidade das empresas de tecnologia. É preciso discutir também quem
produz a informação que sustenta esse ecossistema, em quais condições e com
quais garantias.
A
inteligência artificial pode ampliar capacidades jornalísticas, especialmente
para pequenos veículos e profissionais independentes, mas também pode
aprofundar desigualdades quando reproduz vieses, concentra poder tecnológico e
aumenta a precarização do trabalho informacional.
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Não basta abrir portas. É preciso garantir condições para atravessá-las
Portanto,
não: o diploma sozinho não resolverá a crise do jornalismo ou da desinformação.
Mas
reconhecer essa limitação não significa tornar formação, profissionalização e
proteção irrelevantes. A questão do século XXI, não é apenas quem pode produzir
informação, mas quem consegue fazê-lo com responsabilidade, remuneração,
segurança e continuidade.
Se
informação confiável é parte do exercício de direitos e se queremos uma
sociedade preparada para a era da inteligência artificial, precisamos garantir
que quem produz jornalismo de interesse público – especialmente grupos
historicamente vulnerabilizados – tenha condições reais de existir, permanecer
e transformar comunicação em uma prática sustentável. O desafio não é apenas
democratizar a entrada no jornalismo. É democratizar as condições de
permanência.
Fonte:
Por Marcelle Chagas, em Le Monde

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