Como
escolher um candidato
Em 4 de
outubro próximo, cada eleitor brasileiro terá oportunidade de dar seis votos:
para presidente, para governador, para dois senadores, para deputado federal e
para deputado estadual (aqui em Brasília, distrital).
Temos
três sistemas eleitorais diferentes nestas eleições. Presidente e governador
são eleições majoritárias em dois turnos. Isto significa que, caso nenhum
candidato obtenha 50%+1 dos votos válidos, isto é, de todos os votos, excluídos
os brancos e nulos, os mais votados serão submetidos a uma segunda rodada de
sufrágios. Os senadores são definidos de forma majoritária em turno único: os
dois mais votados estão eleitos e pronto. São eleições mais simples, do ponto
de vista da escolha do eleitor.
Há
menos opções e muitas delas, na verdade a grande maioria, podem ser descartadas
de antemão. O processo seletivo é mais simples e há apenas decisões de caráter
estratégico a serem tomadas (como, eventualmente, votar num candidato menos
preferido para evitar a vitória de outro, mais despreferido).
As
eleições para deputado são as mais complicadas. O Brasil opera com o sistema de
representação proporcional em distritos multinominais com listas abertas. Isto
significa que em cada distrito elegemos vários deputados (as unidades da
federação são os distritos). Assim, temos centenas de opções para votar em
deputado federal ou deputado estadual/distrital.
As
vagas são distribuídas proporcionalmente, de acordo com a votação obtida por
cada partido ou federação partidária. A primeira distribuição das vagas
corresponde aos números inteiros da regra de três. Isto é, se nós temos 10
vagas de deputados e o partido ou federação ficou com 13% dos votos válidos,
ele teria 1,3 cadeira. Garantiu sua primeira vaga.
Como em
geral são muitos partidos disputando, há muita quebra (o que fica depois da
vírgula da regra de três). Não é incomum, nos estados menores, que metade ou
até mais das vagas fiquem em aberto depois da primeira distribuição. Então, são
feitas novas distribuições, seguindo o critério das maiores médias, que é
simples, mas eu não vou me dar ao trabalho explicar aqui.
Detalhe
importante: só os partidos ou federações partidárias que fizeram votação igual
ou superior a 80% da primeira vaga (o “quociente eleitoral”) disputam as
sobras. Os outros são excluídos, numa espécie de cláusula de barreira variável,
que é muito alta nas unidades da federação menores e muito baixa nas maiores
(10% dos votos válidos onde se elegem apenas 8 deputados federais, como Amapá
ou o Distrito Federal, mas apenas 1,1% para a bancada federal de São Paulo).
Pronto:
está feita a divisão de vagas por partidos e federações. Mas quais são os
candidatos efetivamente eleitos? Aí entra a característica final de nosso
sistema, o fato que as listas são abertas. Enquanto em outros países que adotam
a representação proporcional são os partidos que definem previamente quais são
os candidatos prioritários, que preencherão as vagas de representantes conforme
elas sejam conquistadas (e portanto os eleitores votam apenas no partido), no
Brasil os eleitores votam em candidatos individuais e é a quantidade de votos
populares obtidos que hierarquiza a lista. É isso que gera complexidade maior
para a escolha eleitoral.
Formalmente,
meu voto é primeiro do partido e depois do candidato. Na prática, os candidatos
fazem campanhas altamente personalizadas e é isso que orienta o voto do
eleitor. Os candidatos ficam numa posição paradoxal: precisam que seus
companheiros de partido façam boas votações, para garantir mais vagas para a
lista, mas ao mesmo tempo esses correligionários não podem fazer tantos votos
assim, a ponto de ficarem com as melhores posições. Mas o nosso sistema tem o
mérito de conceder mais poder para o eleitor e menos para as burocracias
partidárias.
Para
complicar, mudanças recentes na legislação eleitoral, na verdade em contradição
patente com a lógica do sistema, estabeleceram também exigências de votação
individual. Havia casos de candidatos com baixíssima votação pessoal, mas que
se elegiam porque a lista era beneficiada pela presença de um grande puxador de
votos – como Miguel Arraes, em Pernambuco, em 1990, ou Enéas Carneiro, em São
Paulo, em 2002. Tudo bem, porque o eleitor escolheu primeiro o partido, certo?
Não
para o legislador brasileiro, que introduziu uma votação mínima equivalente a
10% do quociente eleitoral para que um candidato possa ser eleito. Este mínimo
sobe para 20% no caso de disputa de sobras. Como, com isso, é possível que
ainda restem cadeiras não preenchidas depois da distribuição das sobras, há
agora uma terceira etapa, na qual, por decisão do STF, todas as cláusulas de
barreiras caem por terra.
Dito
isso, como escolher um candidato? Eu tendo a seguir um roteiro com cinco
critérios.
Primeiro,
não pertencer a um partido que abomino. Tenho que lembrar que, mesmo que a dona
Maria ou o seu João sejam muito bonzinhos e bem intencionados, cada voto neles
é um voto para sua lista partidária.
Segundo,
o compromisso com uma agenda prioritária. Se eu pudesse, faria uma lista de
pautas prioritárias que meu candidato deveria defender, incluindo a
descriminalização do aborto, o reforço da laicidade do Estado, a ruptura de
relações com o Estado genocida de Israel, o combate ao colapso climático, a
garantia do financiamento da pesquisa científica, a proibição das apostas
online, a taxação das grandes fortunas e, claro, a obrigatoriedade da
disponibilização de cardápios físicos em restaurantes, lanchonetes e bares.
Mas
tenho clareza de que seria pedir demais. Nem que eu mesmo me candidatasse – não
apenas porque eu não levo jeito para a coisa e porque certamente não seria
eleito (ver, abaixo, o quinto critério), mas também porque um único deputado
não seria capaz de atuar em todas essas frentes.
Eu
também gostaria de um candidato que não fizesse teatrinho nas redes sociais.
Acho incrivelmente constrangedor ver um pretenso representante do povo – meu
representante! – tentando fazer graça em palhaçadas mal ensaiadas, para
“engajar” o público. Talvez seja uma batalha perdida.
Então,
eu priorizo uma agenda minimalista. Com dois pontos. Um é a pauta para qual a
esquerda não encontra com a simpatia dos liberais “autênticos”, da mídia
“avançadinha” ou do centro “civilizado”: minha candidata ou meu candidato
precisa ter compromisso com a defesa dos direitos da classe trabalhadora, os
direitos que mais recuam por todo o mundo (segundo a pesquisa recente da
Confederação Sindical Internacional) e recuaram também significativamente no
Brasil nos últimos anos.
O outro
é a defesa efetiva da democracia e dos direitos individuais, diante da
visibilidade crescente de discursos que querem colonizar a esquerda a partir de
perspectivas autoritárias, quer em chave stalinista, quer em chave
identitarista.
Estamos
em um momento em que boa parte da esquerda parece resumir a questão da
representação à dimensão da representatividade. Não que esta última seja
irrelevante, de forma nenhuma. Mas a escolha de representantes com compromisso
programático claro e valores ético-políticos bem definidos é fundamental.
Daí meu
terceiro critério: ninguém se ilude achando que teremos um poder legislativo
muito diferente daquilo que é hoje. Continuaremos a ter uma extrema-direita
muito forte e belicosa. As bancadas de esquerda serão minoritárias, muito
minoritárias.
Por
isso precisamos de representantes experimentados na luta popular. Gente que vem
do sindicalismo, dos movimentos sociais, de alguma forma de militância e de
construção coletiva – em vez de influenciadores criados no burburinho das
redes. O embate discursivo é apenas um dos aspectos da atividade parlamentar. É
necessária também competência para formular políticas, negociar, fiscalizar o
exercício do poder, apoiar as mobilizações da sociedade civil.
Meu
quarto critério é quase redundante com esse terceiro. Quero escolher candidatos
que tenham disposição para o trabalho coletivo e resistam às tentações do
personalismo. A busca desenfreada por visibilidade pessoal é uma das
características que fazem com que, em algum momento, o sujeito acabe costeando
o alambrado, como diria Leonel Brizola. Os exemplos não faltam.
É uma
das coisas que me incomodam nessa campanha por uma “bancada da esquerda
radical”. Não estou falando dos nomes – tem gente ali que eu respeito muito,
outros que conheço pouco e também alguns que desprezo profundamente, não é esta
a questão. Mas a pregação por uma “bancada” leva a crer que precisamos de
parlamentares individuais alinhados com determinada posição.
Mas
precisamos é de um partido de esquerda radical (o que não quer dizer dogmático,
nem de longe). Esse, porém, ninguém quer construir. Não à custa de seus
projetos personalistas.
A outra
característica que leva o mesmo resultado – costear o alambrado – é o
dinheirismo. Em suma, parece que temos aqui mais um critério que desestimula o
voto em influencer.
Por
fim, eu espero votar em gente com chance se eleger. Na situação em que nos
encontramos, não podemos nos dar ao luxo de votar para marcar posição.
Fonte:
Por Luis Felipe Miguel, em A Terra é Redonda

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