A
geopolítica das infraestruturas estratégicas
Durante
as últimas três décadas consolidou-se uma narrativa segundo a qual a
globalização inauguraria uma nova etapa da história, marcada pela progressiva
perda de importância das fronteiras nacionais, redução da capacidade de
intervenção dos Estados e crescente autonomia dos mercados.
A
intensificação do comércio internacional, a fragmentação das cadeias globais de
valor, a financeirização da economia e a revolução digital pareciam confirmar a
hipótese de que a geografia seria progressivamente substituída pelos fluxos de
capitais, mercadorias, pessoas e informações como fundamento da organização
econômica e política mundial. Em larga medida, predominou a expectativa de que
a interdependência econômica reduziria os conflitos geopolíticos e consolidaria
uma ordem internacional cada vez mais integrada (Rodrik, 2011).
Recentes
acontecimentos, entretanto, colocaram essa interpretação em xeque. Da crise
econômica de 2008 à pandemia da COVID-19, ratificou-se a vulnerabilidade
estrutural das cadeias globais de suprimentos com o recrudescimento das guerras
ao redor do mundo recolocando energia, alimentos e logística no centro da
disputa entre potências. A crescente rivalidade entre Estados Unidos e China
intensificou a competição sobre semicondutores, inteligência artificial e
telecomunicações.
A
emergência climática transformou minerais críticos, biodiversidade, água e
capacidade energética em ativos estratégicos. Paralelamente, governos que
durante décadas defenderam a redução da intervenção estatal agora passam a
adotar políticas industriais agressivas, ampliam subsídios públicos,
reorganizam cadeias produtivas e investem em ciência, infraestrutura e
tecnologia (Tooze, 2021; Mazzucato, 2021).
Hodiernamente,
recursos aparentemente desconectados passaram a ocupar posição central nas
disputas internacionais. Semicondutores, terras raras, cabos submarinos,
satélites, data centers, computação em nuvem, inteligência artificial, redes
elétricas, universidades, centros públicos de pesquisa, infraestrutura
logística, biodiversidade, energia limpa e capacidade computacional deixaram de
constituir agendas setoriais para integrar uma mesma arquitetura do poder.
O
conflito geopolítico desloca-se, progressivamente, para o domínio dessas
infraestruturas estratégicas concentrando capacidades de inovação, coordenação
econômica, autonomia tecnológica e projeção internacional.
Giovanni
Arrighi (2007) aprofunda essa perspectiva ao demonstrar que as transições
hegemônicas não decorrem apenas da ascensão ou do declínio de Estados
nacionais, mas da reorganização das bases materiais da acumulação em escala
mundial. Sob essa ótica, talvez a principal novidade do presente não seja
propriamente a ascensão da China ou o relativo declínio dos Estados Unidos, mas
a transformação da própria infraestrutura sobre a qual se organiza a hegemonia
contemporânea.
A
competição internacional desloca-se progressivamente do controle dos fluxos
para o controle das infraestruturas que tornam esses fluxos possíveis. O que
parece emergir é um novo padrão histórico de produção do poder, no qual a
capacidade de controlar infraestruturas críticas – científicas, tecnológicas,
energéticas, logísticas, ambientais e informacionais – converte-se no principal
fundamento da acumulação e da hegemonia deste século XXI.
A
inteligência artificial tornou-se o símbolo mais visível dessa transformação.
Contudo, sua capacidade de produzir riqueza ou influência não decorre
exclusivamente dos algoritmos. Modelos avançados de inteligência artificial
dependem de uma cadeia material extraordinariamente complexa: capacidade
computacional, semicondutores de última geração, energia abundante e estável,
sistemas de refrigeração, minerais críticos, cabos submarinos, satélites,
centros de pesquisa, universidades, mão de obra altamente qualificada e
vultosos investimentos públicos e privados.
A
denominada economia digital, frequentemente apresentada como expressão de um
capitalismo imaterial, repousa, paradoxalmente, sobre uma materialidade sem
precedentes. Quanto mais sofisticadas se tornam as tecnologias, maior é sua
dependência em relação à infraestrutura física, disponibilidade energética e
localização estratégica. Grandes centros de processamento de dados instalam-se
onde há abundância de eletricidade, acesso à água para resfriamento e
estabilidade institucional.
A
fabricação de semicondutores concentra-se em poucos territórios capazes de
reunir conhecimento científico, capacidade industrial e investimentos
bilionários. Minerais como lítio, cobalto, nióbio e terras raras deixaram de
ser simples commodities para converter-se em elementos centrais da competição
geopolítica. Em vez do desaparecimento do território, assiste-se ao retorno da
geografia como fundamento do poder (Santos, 2006).
Essa
reconfiguração exige rever um dos pressupostos mais difundidos do pensamento
econômico contemporâneo: a separação entre Estado e mercado. Karl Polanyi
(2000) já advertia que a ideia de um mercado autorregulado constituía uma
construção ideológica. Mercados nunca existiram autonomamente, dependeram –
desde sua origem – de decisões políticas, instituições jurídicas,
infraestrutura pública e formas específicas de intervenção estatal.
A
conjuntura contemporânea confirma de maneira eloquente essa percepção. Os
maiores programas de investimento em semicondutores, inteligência artificial,
energia renovável e infraestrutura tecnológica são conduzidos diretamente pelos
Estados nacionais. O CHIPS and Science Act, nos Estados Unidos, os programas de
autonomia tecnológica da China e a política industrial da União Europeia
voltada às cadeias críticas revelam uma tendência comum: inovação deixou de ser
apenas estratégia empresarial para converter-se em política de Estado
(Mazzucato, 2021).
Essa
mudança também obriga a reinterpretar o papel das grandes empresas de
tecnologia. Frequentemente, as Big Techs são analisadas apenas como corporações
privadas dotadas de extraordinário poder econômico. Essa descrição é correta,
mas insuficiente. Sua relevância decorre menos do volume de capital que
acumulam do que da posição estrutural que ocupam na organização da economia
contemporânea.
Plataformas
de computação em nuvem sustentam bancos, universidades, hospitais, governos e
cadeias produtivas globais, enquanto sistemas operacionais estruturam
ecossistemas inteiros de inovação e modelos de inteligência artificial passam a
integrar decisões financeiras, industriais, científicas e militares. Essas
empresas não apenas participam dos mercados, mas também administram
infraestruturas indispensáveis ao funcionamento deles.
A
elevada interdependência produzida pela globalização não eliminou as relações
de poder, ao contrário, criou novas formas de coerção. Redes financeiras,
sistemas digitais, plataformas tecnológicas e cadeias logísticas altamente
concentradas podem ser convertidas em instrumentos de pressão geopolítica. Os
mesmos canais que permitem a circulação global de informações, capitais e
mercadorias tornam-se mecanismos de vigilância, bloqueio, sanções econômicas e
controle tecnológico (Silveira,2025). A globalização – portanto – não dissolveu
o poder, mas reorganizou sua arquitetura.
Sob
essa perspectiva, o conflito contemporâneo extrapola em muito a competição
comercial. Carl Schmitt (2015) afirmava que o político se constitui pela
distinção entre amigo e inimigo. No século XXI, essa distinção manifesta-se
cada vez menos nos campos de batalha convencionais e cada vez mais na definição
de quem terá acesso às tecnologias críticas, aos semicondutores mais avançados,
às plataformas digitais, às infraestruturas de comunicação e às cadeias globais
de inovação. A guerra permanece presente, mas desloca-se progressivamente para
o terreno econômico, tecnológico e informacional.
Entretanto,
como nos lembra Antonio Gramsci (2002), nenhuma hegemonia se sustenta
exclusivamente pela coerção. O poder duradouro exige direção intelectual e
moral, capacidade de organizar consensos e produção de legitimidade. Essa
observação permanece decisiva para compreender o presente. As disputas em torno
da transição energética, da governança da inteligência artificial, da segurança
climática ou da autonomia estratégica não dizem respeito apenas à formulação de
políticas públicas.
Constituem
também disputas pela definição das categorias através das quais a ordem
internacional será compreendida e legitimada. A hegemonia contemporânea não se
exerce apenas pelo controle das infraestruturas materiais, mas igualmente pela
capacidade de definir os significados políticos que lhes conferem legitimidade.
Desse
modo, a reorganização do capitalismo contemporâneo não representa um simples
retorno do Estado nem o abandono da globalização. O que se observa é uma nova
configuração histórica em que Estados, grandes corporações tecnológicas,
sistemas científicos e infraestruturas críticas tornam-se progressivamente
indissociáveis. A economia política internacional deixa de gravitar
prioritariamente em torno da expansão dos mercados e passa a organizar-se em
torno da construção, proteção e controle das infraestruturas estratégicas que
tornam possível a própria acumulação de capital.
E o
Brasil nesse contexto desafiador? Poucos países reúnem simultaneamente um
conjunto de ativos comparável ao nosso. O Brasil concentra a maior floresta
tropical do planeta, uma das maiores reservas de água doce, uma matriz elétrica
predominantemente renovável, importantes jazidas de minerais críticos
indispensáveis à transição energética, uma agricultura altamente tecnificada e
o sistema científico mais robusto da América Latina.
Nenhum
desses elementos, isoladamente, garante protagonismo internacional. Entretanto,
quando observados em conjunto, revelam que o Brasil dispõe precisamente de
recursos que passaram a ocupar posição central na reorganização da economia
mundial.
O
problema reside no fato de que continuamos interpretando esses ativos por meio
de categorias herdadas de outra etapa do desenvolvimento capitalista. Ainda
debatemos commodities como se estivéssemos diante do mesmo mercado
internacional dos anos 1990, concebemos política industrial quase
exclusivamente como proteção tarifária ou substituição de importações, tratamos
ciência, educação, energia, política ambiental, defesa, inovação e política
externa como agendas setoriais relativamente independentes.
O atual
movimento da economia mundial aponta exatamente na direção oposta: a integração
dessas dimensões tornou-se o principal fator de competitividade nacional.
Esse
descompasso pode se constituir no maior risco estratégico brasileiro. Países
não perdem relevância apenas porque dispõem de menos recursos naturais ou menor
capacidade produtiva. Perdem relevância quando deixam de compreender a natureza
histórica das transformações em curso. Em diferentes momentos da história,
mudanças na base técnica da produção redefiniram as hierarquias internacionais.
A
Revolução Industrial alterou profundamente a distribuição do poder no século
XIX; a revolução científico-tecnológica reorganizou a hegemonia norte-americana
no século XX após a Segunda Guerra Mundial. E agora, no século XXI, a transição
impulsionada pela convergência entre inteligência artificial, biotecnologia,
computação avançada, transição energética e infraestrutura digital, parece
inaugurar uma transformação de magnitude semelhante.
Celso
Furtado (1961;1974) antecipou parte desse problema ao demonstrar que o
subdesenvolvimento não representa uma etapa preliminar do desenvolvimento, mas
uma forma específica de inserção na economia mundial. O núcleo da questão nunca
foi simplesmente produzir mais riqueza, mas controlar os segmentos da economia
capazes de gerar progresso técnico, inovação e autonomia decisória.
Exportar
lítio não significa dominar a indústria de baterias, possuir terras raras não
implica controlar a fabricação de semicondutores, gerar energia renovável não
assegura liderança em inteligência artificial e deter extraordinária
biodiversidade não conduz automaticamente ao protagonismo em bioeconomia ou
biotecnologia. O valor econômico desloca-se progressivamente dos recursos em si
para as capacidades científicas, industriais e tecnológicas que permitem
transformá-los em conhecimento, propriedade intelectual e inovação.
É
justamente nesse ponto que a teoria da dependência recupera notável atualidade.
Ruy Mauro Marini (1973) analisava uma economia mundial estruturada pela divisão
entre centros industrializados e periferias exportadoras de produtos primários.
O cenário contemporâneo tornou-se mais complexo, mas conserva lógica
semelhante.
A
principal riqueza já não se concentra apenas na produção industrial –
deslocou-se para algoritmos, plataformas digitais, sistemas operacionais,
propriedade intelectual, infraestrutura computacional, grandes bases de dados e
capacidade científica. A dependência assume, assim, novas formas.
O risco brasileiro não consiste apenas em
continuar exportando commodities e importando manufaturas, mas em fornecer
energia limpa, biodiversidade, minerais estratégicos e dados enquanto economias
centrais concentram inteligência artificial, computação avançada, biotecnologia
e plataformas digitais. Consolidaremos, portanto, um contexto de colonialismo
digital? Este é o nosso desafio atual.
Essa
transformação exige igualmente uma revisão do próprio conceito de
desenvolvimento. Durante décadas, crescimento econômico foi tratado como
objetivo suficiente da política pública. Hoje, contudo, crescimento
desacompanhado da construção de capacidades tecnológicas pode aprofundar
relações de dependência em vez de superá-las. A experiência recente das
principais economias demonstra que cadeias produtivas intensivas em
conhecimento não emergem espontaneamente da liberalização dos mercados.
Pelo
contrário, resultam de estratégias nacionais persistentes que articulam
financiamento público, universidades, centros de pesquisa, política industrial,
compras governamentais, planejamento de longo prazo e capacidade empresarial.
Como sustenta Mazzucato (2014; 2022), as grandes revoluções tecnológicas
contemporâneas foram impulsionadas por Estados capazes de assumir riscos que o
setor privado, isoladamente, jamais assumiria.
Poucos
países – como o Brasil – reúnem condições tão favoráveis para participar da
reorganização da economia mundial. Entretanto, recursos naturais, posição
geográfica ou abundância energética jamais produziram desenvolvimento por si
mesmos. A história econômica demonstra que riqueza potencial somente se
converte em poder quando articulada por instituições capazes de transformar
recursos em conhecimento, tecnologia, capacidade produtiva e autonomia
política. Em última instância, desenvolvimento continua sendo uma questão de
organização institucional e de projeto de soberania nacional.
É
justamente por isso que o debate brasileiro precisa mudar de eixo. A pergunta
decisiva já não é apenas quanto o país cresce, exporta ou arrecada. Também não
basta discutir qual setor receberá incentivos ou quais reformas econômicas
serão implementadas. A questão estratégica tornou-se outra: quais capacidades
nacionais o Brasil pretende construir nas próximas décadas?
Quais
tecnologias considera essenciais? Que papel atribuirá às universidades
públicas, aos institutos de pesquisa, à política industrial, à Amazônia, à
bioeconomia, à transição energética e à soberania digital? Em outras palavras,
será capaz de controlar as infraestruturas que produzirão riqueza e poder no
século XXI ou limitar-se-á a abastecer aqueles que as controlam? Este é o
desafio do Brasil neste século.
Talvez
a principal transformação do século XXI não seja a ascensão de uma nova
potência nem a emergência de uma tecnologia específica. O que mudou foi a
própria forma histórica de produzir poder. O centro de gravidade do capitalismo
deslocou-se dos fluxos para as infraestruturas que tornam esses fluxos
possíveis. Enquanto continuarmos interpretando essa transformação com
categorias formuladas para a economia política do século XX, permaneceremos
discutindo as consequências sem compreender a natureza da mudança.
O
século XX foi organizado pelo domínio dos fluxos. O século XXI será definido
pelo controle das infraestruturas que tornam esses fluxos possíveis. Quem
compreender essa mudança compreenderá a nova geografia do poder. Quem não a
compreender continuará discutindo um mundo que já deixou de existir. Um projeto
nacional de desenvolvimento terá que enfrentar essas questões.
Fonte:
Por Jarbas Ricardo Cunha, em A Terra é Redonda

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