Ayahuasca:
O sofrimento do espírito se cura na farmácia?
Notícias
recentes em meios jornalísticos veicularam informações sobre investimentos
bilionários de grandes empresas farmacêuticas para o desenvolvimento de
medicamentos contra a depressão sintetizados com base no DMT
(Dimetiltriptamina). O DMT é o alcaloide natural que se constitui como o
princípio ativo da Ayahuasca, bebida originalmente indígena que integra
práticas religiosas brasileiras como o Santo Daime, a União do Vegetal e
diversas linhas xamânicas. O laboratório estadunidense Lilly realiza testes clínicos
para a produção de spray nasal para tratamento de alcoolismo e depressão
resistente a drogas convencionais. No Brasil, unidades de pesquisa da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte também desenvolvem testes clínicos
para a produção de um medicamento inalável à base de DMT, com a perspectiva de
proporcionar acesso gratuito a tratamentos antidepressivos por meio do Sistema
Único de Saúde.
O
emprego das chamadas plantas de poder (substâncias vegetais que ao serem
ingeridas pelo organismo humano provocam alterações da consciência) para
tratamento médico não é exatamente uma novidade, pois a Ibogaína, princípio
ativo extraído da planta africana Iboga, há alguns anos está presente em
tratamentos contra o vício em drogas. Em contextos clínicos controlados, há
resultados promissores para uso da Ibogaína no tratamento de drogadicção e
alcoolismo. Mas é a primeira vez que um grande laboratório da indústria
farmacêutica anuncia pesquisas bilionárias para a produção de medicamentos
antidepressivos baseados em uma substância de fama psicodélica e alucinógena,
própria a um conjunto de saberes ancestrais que desafia a lógica materialista e
experimental que consagrou a ciência moderna e ocidental.
Em um
momento histórico em que se atribui estatuto científico às plantas de poder,
torna-se primordial esclarecer a impropriedade dos termos “alucinógeno” e
“psicodélico” habitualmente empregados para designar os estados de alteração da
consciência produzidos por tais substâncias vegetais. O termo “alucinógeno” se
origina de abordagens psiquiátricas tradicionais que tendem a depreciar as
experiências que desafiam a normalidade da percepção, e por isso é
completamente inapropriado para designar os fenômenos de ampliação temporária
do ego. Estes constituem um conjunto de alterações perceptivas que não
correspondem às alucinações típicas de quadros psicóticos. O termo
“psicodélico” apresenta o mérito de reconhecer a dimensão psicológica dos
fenômenos, aceitando que elas não são meras ilusões, mas sim a personificação
simbólica de conteúdos inconscientes. Porém, padece de um reducionismo
neurobiológico que explica as experiências subjetivas que acompanham a
alteração da consciência apenas como o resultado de alterações neuroquímicas do
cérebro.
O termo
“enteógeno” é o único adequado para compreender as alterações conscienciais
provocadas pelas plantas de poder como manifestações divinas. Tratar a relação
com as plantas de poder como uma experiência enteógena implica compreender que
os fenômenos de expansão da consciência não são apenas alterações neuroquímicas
do cérebro, nem o simples acesso a conteúdos inconscientes, mas sim o contato
de ser humano com uma realidade espiritual habitualmente inacessível na vida
cotidiana. Além disso, reconhecer a dimensão enteógena de tais fenômenos expõe
a incapacidade do conhecimento científico para compreender o significado
ontológico dessas experiências espirituais, ou seja, o que elas dizem sobre a
essência da vida e do ser humano.
No que
diz respeito ao tratamento da depressão, o emprego de medicamentos à base de
DMT se restringe a uma compreensão mecanicista sobre o efeito da Ayahuasca, uma
vez que reduz as alterações da consciência a seus aspectos neuroquímicos. Em
virtude das limitações metodológicas da ciência ocidental, toda experiência
subjetiva é entendida como efeito da ação de neurotransmissores nas correntes
sanguíneas do cérebro, e não como fenômeno do espírito. Se recorrermos a uma
metáfora filosófica da tradição indiana, é possível afirmar que, em virtude de
sua metodologia empírica, a ciência é estruturalmente impossibilitada de
retirar o véu de Maya, que diferencia a realidade material de uma outra
realidade, que é de natureza essencialmente espiritual.
Contudo,
qualquer pessoa que tenha compreendido com seriedade a força da Ayahuasca, sabe
que o processo de expansão da consciência por ela induzido é de natureza
essencialmente espiritual. Para nos expressarmos em termos espiritualistas, o
sujeito somente consegue vencer a depressão se, com a ajuda da Ayahuasca, ele
propuser a si mesmo a dificílima tarefa de enfrentar suas próprias sombras e
elevar sua “vibração espiritual”. Se não houver essa compreensão espiritual do
processo, ele poderá se beneficiar de modestos picos de paz de espírito e até
de euforia, proporcionados pelas cápsulas de DMT sintetizado, para depois
retornar à síndrome depressiva. Ao consumir DMT sem esse entendimento de
natureza espiritual, a pessoa permanecerá vulnerável aos chamados “gatilhos
depressivos” do cotidiano, pois drogas farmacêuticas não fazem milagres, muito
menos afastam os obsessores espirituais, que muitas vezes são fiéis
companheiros de antigas paisagens pelo planeta Terra. A indústria farmacêutica
não está investindo bilhões de dólares à toa, pois seus executivos sabem muito
bem que existe uma imensa demanda focada na ilusão de que o sofrimento do
espírito se origina apenas de desequilíbrios químicos no cérebro.
O
abismo entre o “psicodélico” e o “enteógeno” expõe desdobramentos muito
interessantes. No fundo, o que estamos assistindo é um (des) encontro de duas
lógicas distintas e até mesmo opostas, pois de um lado vemos a ciência
ocidental moderna, experimental e de base materialista (do “ver” para “crer” e
da repetição como condição do sucesso metodológico), e do outro lado, tradições
imemoriais que preservaram um conjunto de saberes que desafia essa lógica
científica materialista e experimental. Só para imaginarmos, quantas tentativas
e erros de combinações de plantas da floresta amazônica seriam necessárias para
chegar na “receita” que produz a Ayahuasca? Em outros termos,
“misteriosamente”, a “receita” dessa tecnologia amazônica já existia, e fora
recebida do mundo espiritual sem a necessidade de infindáveis combinações de
plantas, como um cientista faria para produzir o chá de Ayahuasca. Isso nos
leva ao tema de um necessário diálogo entre essas duas lógicas, mas não para
que a medicina da floresta adquira validação científica, pois ela é autônoma,
alquímica, e seu acesso à dimensão espiritual situada para além do véu de Maya
é irredutível ao empirismo da ciência. O maior beneficiado por esse diálogo
seria a própria ciência, que teria a oportunidade de integrar dimensões do
conhecimento atualmente interditadas por seu caráter “Outro” e “Estrangeiro”.
A
medicina da floresta congrega diversos saberes indígenas ancestrais e
encontrou, por meio de dois grandes brasileiros do século passado, Mestre
Raimundo Irineu Serra e Mestre José Gabriel da Costa, a oportunidade de sua
popularização em centros rurais e urbanos da sociedade burguesa. Os efeitos
espirituais induzidos pela Ayahuasca remetem a experiências irredutivelmente
subjetivas e pessoais, cuja essência é intraduzível em palavras, e
completamente inacessível a objetivações matemáticas. As experiências enteógenas
próprias a seus rituais suscitam a suspensão e transformação das estruturas
ordinárias da consciência pelas quais o mundo aparece, e são os seus potenciais
de reconciliação com a dimensão espiritual mais profunda do humano que tornam
possível a superação da depressão. O consumo de pílulas antidepressivas de DMT
não proporcionará a iluminação espiritual que é peculiar aos rituais com
Ayahuasca, mas é claro que a simples perspectiva de amenizar o sofrimento
emocional justifica plenamente as pesquisas atualmente em curso.
Sob o
impacto da força da Ayahuasca, mesmo a consciência do mais presunçoso cientista
vacilaria em depreciar como mera “bobagem” os saberes espirituais alternativos
que escapam à métrica rígida dos catálogos científicos. Lembrando a lucidez de
nosso Carlos Drummond, “o grande mundo está crescendo todos os dias, então meu
coração também pode crescer, meu coração cresce dez metros e explode. Ó vida
futura! Nós te criaremos”.
Fonte:
Por Sinésio Ferraz Bueno e Genivaldo de Souza Santos, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário