segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Ayahuasca: O sofrimento do espírito se cura na farmácia?

Notícias recentes em meios jornalísticos veicularam informações sobre investimentos bilionários de grandes empresas farmacêuticas para o desenvolvimento de medicamentos contra a depressão sintetizados com base no DMT (Dimetiltriptamina). O DMT é o alcaloide natural que se constitui como o princípio ativo da Ayahuasca, bebida originalmente indígena que integra práticas religiosas brasileiras como o Santo Daime, a União do Vegetal e diversas linhas xamânicas. O laboratório estadunidense Lilly realiza testes clínicos para a produção de spray nasal para tratamento de alcoolismo e depressão resistente a drogas convencionais. No Brasil, unidades de pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte também desenvolvem testes clínicos para a produção de um medicamento inalável à base de DMT, com a perspectiva de proporcionar acesso gratuito a tratamentos antidepressivos por meio do Sistema Único de Saúde.

O emprego das chamadas plantas de poder (substâncias vegetais que ao serem ingeridas pelo organismo humano provocam alterações da consciência) para tratamento médico não é exatamente uma novidade, pois a Ibogaína, princípio ativo extraído da planta africana Iboga, há alguns anos está presente em tratamentos contra o vício em drogas. Em contextos clínicos controlados, há resultados promissores para uso da Ibogaína no tratamento de drogadicção e alcoolismo. Mas é a primeira vez que um grande laboratório da indústria farmacêutica anuncia pesquisas bilionárias para a produção de medicamentos antidepressivos baseados em uma substância de fama psicodélica e alucinógena, própria a um conjunto de saberes ancestrais que desafia a lógica materialista e experimental que consagrou a ciência moderna e ocidental.

Em um momento histórico em que se atribui estatuto científico às plantas de poder, torna-se primordial esclarecer a impropriedade dos termos “alucinógeno” e “psicodélico” habitualmente empregados para designar os estados de alteração da consciência produzidos por tais substâncias vegetais. O termo “alucinógeno” se origina de abordagens psiquiátricas tradicionais que tendem a depreciar as experiências que desafiam a normalidade da percepção, e por isso é completamente inapropriado para designar os fenômenos de ampliação temporária do ego. Estes constituem um conjunto de alterações perceptivas que não correspondem às alucinações típicas de quadros psicóticos. O termo “psicodélico” apresenta o mérito de reconhecer a dimensão psicológica dos fenômenos, aceitando que elas não são meras ilusões, mas sim a personificação simbólica de conteúdos inconscientes. Porém, padece de um reducionismo neurobiológico que explica as experiências subjetivas que acompanham a alteração da consciência apenas como o resultado de alterações neuroquímicas do cérebro.

O termo “enteógeno” é o único adequado para compreender as alterações conscienciais provocadas pelas plantas de poder como manifestações divinas. Tratar a relação com as plantas de poder como uma experiência enteógena implica compreender que os fenômenos de expansão da consciência não são apenas alterações neuroquímicas do cérebro, nem o simples acesso a conteúdos inconscientes, mas sim o contato de ser humano com uma realidade espiritual habitualmente inacessível na vida cotidiana. Além disso, reconhecer a dimensão enteógena de tais fenômenos expõe a incapacidade do conhecimento científico para compreender o significado ontológico dessas experiências espirituais, ou seja, o que elas dizem sobre a essência da vida e do ser humano.

No que diz respeito ao tratamento da depressão, o emprego de medicamentos à base de DMT se restringe a uma compreensão mecanicista sobre o efeito da Ayahuasca, uma vez que reduz as alterações da consciência a seus aspectos neuroquímicos. Em virtude das limitações metodológicas da ciência ocidental, toda experiência subjetiva é entendida como efeito da ação de neurotransmissores nas correntes sanguíneas do cérebro, e não como fenômeno do espírito. Se recorrermos a uma metáfora filosófica da tradição indiana, é possível afirmar que, em virtude de sua metodologia empírica, a ciência é estruturalmente impossibilitada de retirar o véu de Maya, que diferencia a realidade material de uma outra realidade, que é de natureza essencialmente espiritual.

Contudo, qualquer pessoa que tenha compreendido com seriedade a força da Ayahuasca, sabe que o processo de expansão da consciência por ela induzido é de natureza essencialmente espiritual. Para nos expressarmos em termos espiritualistas, o sujeito somente consegue vencer a depressão se, com a ajuda da Ayahuasca, ele propuser a si mesmo a dificílima tarefa de enfrentar suas próprias sombras e elevar sua “vibração espiritual”. Se não houver essa compreensão espiritual do processo, ele poderá se beneficiar de modestos picos de paz de espírito e até de euforia, proporcionados pelas cápsulas de DMT sintetizado, para depois retornar à síndrome depressiva. Ao consumir DMT sem esse entendimento de natureza espiritual, a pessoa permanecerá vulnerável aos chamados “gatilhos depressivos” do cotidiano, pois drogas farmacêuticas não fazem milagres, muito menos afastam os obsessores espirituais, que muitas vezes são fiéis companheiros de antigas paisagens pelo planeta Terra. A indústria farmacêutica não está investindo bilhões de dólares à toa, pois seus executivos sabem muito bem que existe uma imensa demanda focada na ilusão de que o sofrimento do espírito se origina apenas de desequilíbrios químicos no cérebro.

O abismo entre o “psicodélico” e o “enteógeno” expõe desdobramentos muito interessantes. No fundo, o que estamos assistindo é um (des) encontro de duas lógicas distintas e até mesmo opostas, pois de um lado vemos a ciência ocidental moderna, experimental e de base materialista (do “ver” para “crer” e da repetição como condição do sucesso metodológico), e do outro lado, tradições imemoriais que preservaram um conjunto de saberes que desafia essa lógica científica materialista e experimental. Só para imaginarmos, quantas tentativas e erros de combinações de plantas da floresta amazônica seriam necessárias para chegar na “receita” que produz a Ayahuasca? Em outros termos, “misteriosamente”, a “receita” dessa tecnologia amazônica já existia, e fora recebida do mundo espiritual sem a necessidade de infindáveis combinações de plantas, como um cientista faria para produzir o chá de Ayahuasca. Isso nos leva ao tema de um necessário diálogo entre essas duas lógicas, mas não para que a medicina da floresta adquira validação científica, pois ela é autônoma, alquímica, e seu acesso à dimensão espiritual situada para além do véu de Maya é irredutível ao empirismo da ciência. O maior beneficiado por esse diálogo seria a própria ciência, que teria a oportunidade de integrar dimensões do conhecimento atualmente interditadas por seu caráter “Outro” e “Estrangeiro”.

A medicina da floresta congrega diversos saberes indígenas ancestrais e encontrou, por meio de dois grandes brasileiros do século passado, Mestre Raimundo Irineu Serra e Mestre José Gabriel da Costa, a oportunidade de sua popularização em centros rurais e urbanos da sociedade burguesa. Os efeitos espirituais induzidos pela Ayahuasca remetem a experiências irredutivelmente subjetivas e pessoais, cuja essência é intraduzível em palavras, e completamente inacessível a objetivações matemáticas. As experiências enteógenas próprias a seus rituais suscitam a suspensão e transformação das estruturas ordinárias da consciência pelas quais o mundo aparece, e são os seus potenciais de reconciliação com a dimensão espiritual mais profunda do humano que tornam possível a superação da depressão. O consumo de pílulas antidepressivas de DMT não proporcionará a iluminação espiritual que é peculiar aos rituais com Ayahuasca, mas é claro que a simples perspectiva de amenizar o sofrimento emocional justifica plenamente as pesquisas atualmente em curso.

Sob o impacto da força da Ayahuasca, mesmo a consciência do mais presunçoso cientista vacilaria em depreciar como mera “bobagem” os saberes espirituais alternativos que escapam à métrica rígida dos catálogos científicos. Lembrando a lucidez de nosso Carlos Drummond, “o grande mundo está crescendo todos os dias, então meu coração também pode crescer, meu coração cresce dez metros e explode. Ó vida futura! Nós te criaremos”.

 

Fonte: Por Sinésio Ferraz Bueno e Genivaldo de Souza Santos, em Outras Palavras

 

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