Por
que o Brasil não sabe quantos entregadores se acidentam no trabalho?
Após um
acidente, o entregador Silvio Luiz Pinheiro pensou em desistir da profissão.
Quando
entrou na central para devolver uma bicicleta alugada, ele ainda estava
machucado. O ombro doía, o braço quase não acompanhava os movimentos.
Pouco
antes, na Avenida Sumaré, na Zona Oeste de São Paulo, o freio dianteiro da
bicicleta elétrica havia travado de repente. Ele precisou desviar de pedestres
que estavam no meio da ciclovia. Com areia perto da pista, a bicicleta perdeu a
estabilidade, e ele caiu.
"Para
não machucar o rosto, eu coloquei o braço esquerdo na frente, um reflexo
natural que a gente tem", conta.
Ele
levou a bicicleta alugada até o balcão da central de locação, em Pinheiros,
também na Zona Oeste da capital paulista, explicou que estava devolvendo o
equipamento porque havia sofrido um acidente e esperou alguma reação.
Os
funcionários fizeram os procedimentos necessários, confirmaram a devolução e
encerraram o atendimento. A preocupação parecia ser apenas uma: registrar que a
bicicleta havia voltado, diz ele.
Este
foi o momento em que Silvio quase desistiu da profissão. "Foi uma coisa
muito fria", lembra. "A preocupação deles é você devolver a
bicicleta, pagar e não gerar muita preocupação para o aplicativo."
O
resultado foi a clavícula e o cotovelo machucados, e uma recuperação mais lenta
do que imaginava. "Eu achava que era uma lesão leve. Mas depois eu percebi
que mexer com o ombro foi difícil até para voltar a fazer atividade
física", diz. Hoje, ele avalia que está "99,9%" recuperado.
A
experiência fez Silvio abandonar temporariamente as entregas e voltar a um
emprego de carteira assinada em um restaurante. "Voltei para a CLT por
causa do convênio, porque a plataforma não te dá essa segurança."
Hoje,
ele voltou às entregas por aplicativo, atraído pelos benefícios de saúde do
ciclismo. Pré-diabético, descobriu que passar o dia pedalando o ajudava a
controlar o peso. E também lhe devolveu um prazer antigo, já que gosta da
bicicleta muito antes de ela virar instrumento de trabalho.
Silvio
gosta de trabalhar depois das 20h, quando os carros deixam de disputar cada
centímetro de asfalto. Há menos motoristas, menos calor e, segundo ele, um
risco menor de voltar para casa machucado.
Geralmente,
sua jornada se estende até meia-noite. Em dias bons, continua pedalando até uma
ou duas da manhã pelos bairros da República, da Santa Cecília e da Barra Funda.
O
acidente mudou sua forma de enxergar o trabalho, mas não eliminou os riscos.
Enquanto pedala, ele divide a atenção entre trânsito, pedestres e notificações
do aplicativo, tentando equilibrar velocidade e segurança a cada cruzamento.
Todos os dias, sai de casa com uma meta: faturar, idealmente, R$ 200. No
mínimo, R$ 100.
"A
gente anda com cuidado o tempo todo, mas é uma coisa que um dia pode acontecer.
Desde que não seja fatal, pode acontecer com qualquer um."
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Os acidentes que o Brasil não consegue contar
O
trabalho por aplicativos segue em expansão no Brasil. Em 2024, eram 1,7 milhão
de pessoas nessa modalidade, segundo o IBGE, o equivalente a 1,9% dos ocupados
no setor privado. Em dois anos, houve um crescimento de 25,4%, com a entrada de
mais 335 mil trabalhadores.
A
maioria atua no transporte de passageiros: são 58,3% (964 mil). Já os
entregadores representam 29,3% — ou seja, 485 mil pessoas. O grupo não é
homogêneo: os trabalhadores que atuam em entregas se dividem principalmente
pela idade e pelo veículo utilizado.
A renda
média dos trabalhadores plataformizados, na época, era de R$ 2.996 com jornadas
acima de 40 horas semanais. O rendimento médio da população brasileira atinge
R$ 3.367 em 2025.
Medir o
tamanho dos riscos que os entregadores enfrentam ainda é um desafio. O
principal obstáculo é a falta de dados oficiais que permitam identificar se uma
pessoa acidentada estava trabalhando no momento da ocorrência.
Sistemas
estaduais registram acidentes de trânsito, e o Ministério da Saúde reúne
notificações de atendimentos hospitalares.
No
Estado de São Paulo, um dos que mais concentram o uso de aplicativo, os dados
do Detran indicam que acidentes fatais envolvendo ciclistas cresceram nos
últimos cinco anos. Em 2021, foram registradas 320 situações que envolveram
mortes. Já em 2025, 409 — um aumento de 27,8% em cinco anos.
Esse
número se refere a ciclistas em geral, não especificamente a entregadores de
aplicativo, já que essas bases historicamente não diferenciam se os envolvidos
nos acidentes estavam trabalhando ou não.
Segundo
o procurador do trabalho Rodrigo Castilho, coordenador nacional de Combate às
Fraudes nas Relações de Trabalho do Ministério Público do Trabalho (MPT), essa
lacuna levou o órgão a criar um projeto estratégico voltado à subnotificação de
acidentes de trabalho entre trabalhadores plataformizados.
Os
formulários do sistema de saúde (Sinan) não registravam se a vítima trabalhava
para aplicativos — e, mais importante, se estava de fato em jornada de trabalho
no momento do acidente. Após o projeto, o Ministério da Saúde publicou, em
abril de 2025, uma nota técnica orientando profissionais de saúde a registrar
essa informação.
Mesmo
assim, um ano depois, não existem estatísticas consolidadas. "Não temos
ainda o dado compilado para saber se realmente esses agravos estão sendo
registrados", afirma Castilho. O próximo passo do MPT, segundo ele, é
verificar se a orientação está sendo de fato aplicada pelas unidades de saúde.
Para o
procurador, essa ausência de dados impede que o país conheça a real dimensão do
problema. "O senso comum é que esses agravos têm aumentado. Mas não temos
os dados compilados para traçar o perfil desse aumento."
Além
das falhas nos registros de saúde, Castilho aponta um segundo obstáculo: a
opacidade das próprias plataformas.
"As
empresas não vão fornecer o número de ciclistas acidentados trabalhando",
diz, classificando a situação como incomum na atuação do MPT.
"São
as únicas empresas que o Ministério Público do Trabalho não tem nenhuma
informação, porque, sob a alegação de que o algoritmo é como se fosse uma pedra
filosofal, um segredo que ninguém pode saber por conta da concorrência, nenhum
dado é prestado por essas empresas", continua o procurador do trabalho.
"Nem
ao menos o número de trabalhadores que estão ativos, quantos trabalhadores
realizam entregas por mais de doze horas por dia, por dez horas, por oito
horas. A gente não tem acesso a nenhum dado."
Milhares
de trabalhadores como Silvio seguem nas ruas todos os dias, em um setor que
ainda busca regulamentação específica. Em março de 2024, o governo federal
apresentou uma proposta de regulamentação para motoristas de aplicativo — mas
os entregadores ficaram de fora, e as negociações sobre essa categoria seguem
sem consenso.
Embora
muitos rejeitem a ideia de um vínculo empregatício tradicional, isso não
significa satisfação com a ausência de proteção social.
"Eu
acho que o entregador poderia ter uma ajuda no sentido de um convênio. A
plataforma tem condição de dar melhorias para o entregador e, às vezes, ela não
dá. Seja para o motoboy, seja para o ciclista, seja para o motorista de
carro", defende Silvio.
Para
Rodrigo Castilho, a vulnerabilidade não está apenas no atendimento imediato
após um acidente, mas na ausência de rede de proteção de longo prazo: o
empregado formal tem proteção previdenciária de aposentadoria e de afastamento
por doença, acidente ou invalidez temporária — cobertura que os seguros
oferecidos por algumas plataformas, geralmente restritos a morte, não
substituem.
Procuradas
pela BBC News Brasil, as plataformas afirmaram que a segurança dos entregadores
é prioridade.
O iFood
informou que não incentiva comportamentos de risco, que os tempos de entrega
consideram trânsito e distância, que entregadores podem recusar pedidos sem
prejuízo, e que oferece seguro para acidentes pessoais, auxílio financeiro
durante afastamentos e canal de comunicação de acidentes.
A
99Food disse que utiliza tecnologia para definir tempos de entrega, orienta o
respeito às leis de trânsito e oferece seguro contra acidentes pessoais com
cobertura durante o período conectado ao aplicativo.
Já a
Keeta afirmou que sua operação prioriza a segurança, que os prazos são
calculados sem estimular excesso de velocidade, e que mantém políticas de
prevenção de acidentes e cobertura securitária.
Para
Castilho, no entanto, falta comprovação: "A empresa alega. Mas eu não
tenho como nem confirmar, nem desconfirmar, a informação. Quantos trabalhadores
foram de fato beneficiados por essa assistência?"
Fonte:
BBC News Brasil

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