Apartheid
mudou de forma: dinheiro expulsa pobres e xenofobia expulsa migrantes na África
do Sul
O
investimento imobiliário e a xenofobia são dois extremos do apartheid espacial na
África do Sul. Onde traçamos a fronteira? Dois acontecimentos recentes provaram
que a questão sobre quem pertence a qual lugar ainda está sendo decidida.
Em 30
de junho, em Durban, o movimento March and March disse a uma
multidão de mais de 5 mil pessoas que voltaria às ruas todas as
quintas-feiras durante seis meses, até que todos os migrantes sem documentação
entre eles tivessem ido embora.
Em 2 de
julho, o Tribunal
Constitucional decidiu que a Cidade do Cabo e o governo da província do
Cabo Ocidental haviam, durante uma década, descumprido seu dever constitucional
de criar moradias acessíveis dentro da cidade.
Em
2016, o governo do Cabo Ocidental vendeu uma
antiga escola especial desativada na Main Road, em Sea Point, para uma escola
judaica particular por R$ 135 milhões, desencadeando uma década de ativismo por
moradia que exigia a construção de habitação social no local.
A juíza
Nonkosi Mhlantla, ao proferir uma decisão unânime neste mês de julho, explicou
que a arquitetura
de uma cidade conta a história de sua alma e que a arquitetura da Cidade do
Cabo ainda conta uma história de divisão, de apartheid espacial.
A
localização, afirmou ela, não é uma consideração periférica na política
habitacional, mas parte integrante dela.
O
deslocamento e a alienação da população negra na África do Sul são anteriores à
democracia e ao apartheid, foram estruturais para o desenvolvimento da África
do Sul moderna e não chegarão ao fim com uma decisão judicial. Os preços dos
imóveis em Sea Point agora estão aproximadamente uma
vez e meia acima da mediana da cidade, contra 1,2 vez há uma década.
Um
quarto dos apartamentos do bairro já não são moradias, mas anúncios no Airbnb,
que cresceram quase 200% desde 2022. Mas o inquilino que não consegue mais
pagar o aluguel não desaparece. Muitos acabam nas áreas periféricas e nos
townships que o planejamento do apartheid construiu nas margens da cidade para
manter as áreas brancas e os distritos comerciais centrais afastados da
população negra.
Essas
periferias abrigam comunidades negras africanas e mestiças estabelecidas há
muito tempo e absorvem todos aqueles que são expulsos do centro pelos preços
dos imóveis, sejam cidadãos ou migrantes. Elas não são espaços exclusivamente
negros e tampouco são o único destino daqueles que são deslocados, mas
continuam sendo a parte mais desassistida da cidade: menos clínicas,
policiamento mais precário, serviços de água e eletricidade insuficientes e
escolas privadas dos recursos que recebem aquelas localizadas do outro lado da
rodovia.
O
antropólogo Kenneth Tafira descreve esse
tipo de proximidade imposta como “coabitação coercitiva”, uma população
crescente vivendo lado a lado porque não tem outro lugar para ficar,
pressionando áreas que já contam com poucos recursos. É precisamente essa
configuração, e não qualquer hostilidade inerente entre vizinhos, que torna tão
explosiva a tensão entre o cidadão excluído e o migrante excluído. A promessa
de dignidade da Constituição não é distribuída de maneira uniforme, e o
financiamento e os recursos da Cidade do Cabo mostram a quem ela chega. A
província se promove como uma porta de entrada para o capital estrangeiro que
desloca os moradores locais.
O
apartheid espacial, o deslocamento e a xenofobia na África do Sul são
acontecimentos históricos recorrentes. O pesquisador William Mpofu argumenta que
“o que é denominado xenofobia é, na realidade, racismo” — a mesma
lógica colonial que outrora separava os sul-africanos negros dos colonizadores
agora separa cidadãos de migrantes negros.
Em
KwaZulu-Natal, a mesma lógica colonial sobre quem tem permissão para ocupar
determinado espaço opera por inversão. Enquanto o mercado imobiliário da Cidade
do Cabo expulsa os pobres do centro para abrir espaço para a riqueza, o March
and March se organiza para expulsar os pobres estrangeiros do país como um
todo, entoando o
slogan: Mabahambe,
eles devem ir embora.
Seus
organizadores se reuniram com a Democratic Alliance, a ActionSA,
a Patriotic Alliance, o Inkatha Freedom Party e o
partido uMkhonto weSizwe, e seu fundador agradeceu a figuras do
ANC, incluindo o primeiro-ministro de Gauteng, do palco. Sabelo Ndlovu-Gatsheni observou que
“o nacionalismo tem um caráter nativista”, e cada partido, em seu próprio
dialeto, encontrou nesse movimento algo que vale a pena afirmar sobre
pertencimento.
As
respostas à migração estão, como argumenta o cientista político Audie Klotz, “intrinsecamente
ligadas à demarcação das fronteiras” traçadas sob o domínio colonial e
herdadas, quase sem questionamentos, pela democracia que o substituiu. As
barreiras para ser declarado um estrangeiro “legal” e “documentado” são a
língua (considere a diferença entre ser chamado de expatriado e de imigrante),
o dinheiro, a localização e a origem.
A
documentação é um privilégio construído sobre as histórias de guerra,
desapropriação e deslocamento que produzem os indocumentados em primeiro lugar.
Os sul-africanos sabem disso muito bem — e, ainda assim, encontram-se marchando
em direção a uma história que se repete.
Sea
Point e Durban estão em extremos diferentes da mesma realidade: o apartheid
espacial. Um desloca o morador local e abriga o estrangeiro. O outro desloca o
estrangeiro e aliena o morador local. Ambos se apoiam em uma história que o
país nunca desaprendeu: decidir qual corpo conquistou o direito de permanecer.
E isso levanta a questão: os africanos podem pertencer à África do Sul? E a
África do Sul pode pertencer à África?
¨
Bab el-Mandeb: como Eritreia e Djibuti foram alçados a
'peões importantes' no tabuleiro geopolítico?
Cerca
de 12% do comércio de petróleo mundial passa pelo estreito de Bab el-Mandeb,
que passou a receber mais atenção por conta dos conflitos no Oriente Médio,
elevando o status geopolítico de países menos lembrados no noticiário
internacional.
O
estreito de Bab el-Mandeb — em evidência desde o início da escalada de EUA e
Israel contra o Irã, que tem provocado instabilidade no estreito de Ormuz — tem
como ator principal no noticiário internacional uma nação do lado
oriental da costa,
o Iêmen. Porém, do lado africano, outros dois atores dividem a passagem do
espaço, que é considerado um dos pontos de estrangulamento do comércio
internacional: Djibuti e Eritreia.
Em
termos geográficos, os países estão em posição privilegiada e, em meio às
tensões internacionais, ambos foram alçados "da periferia para o
centro do sistema internacional", afirma ao Mundioka, podcast da
Sputnik Brasil, Orlando Mazuze, especialista em relações internacionais,
diplomacia e segurança marítima, diretor-executivo da Inviktus Research &
Consulting.
A
resposta a essa relevância tem sido respondida de dentro dos países. O
especialista conta que o governo do Djibuti, por exemplo, vem
trabalhando para melhorar sua infraestrutura e, consequentemente, a logística.
Afinal, o estreito de Bab el-Mandeb liga ao mar Vermelho, depois ao canal
de Suez para chegar ao continente europeu, além do acesso ao golfo de Áden para
chegar, portanto, ao oceano Índico.
Cerca
de 12% do comércio de petróleo mundial passa pelo estreito, que,
entretanto, também sofre com instabilidades devido a ataques houthis na região.
A ofensiva, segundo Mazuze, é prejudicial às ambições dos países africanos de
arrecadar fundos com a rota.
"O
conjunto de ataques, no final do dia, acaba prejudicando um possível ganho
financeiro dos países africanos."
Por
outro lado, a costa africana de Bab el-Mandeb também não goza de estabilidade
plena. A Eritreia, que já foi parte da Etiópia, é independente desde 1993
e não tem boas
relações com esta.
Adis Abeba, por sua vez, depende do corredor estratégico djibutiano.
A
separação, inclusive, tirou o acesso etíope ao porto de Assab. Segundo o
especialista, o porto atualmente é subtilizado e não gera um impacto comercial
importante para Asmara. "Notícias do passado mostram que a Etiópia já
chegou inclusive a dizer que se tiver que usar a força para recuperar esse
porto, assim fará", ressaltou o analista, apontando um contencioso.
Já no
caso do Djibuti, as tensões que envolvem o país são diferentes. Ao passo que a
nação abriga bases militares de grandes países como Estados Unidos, China,
França, Japão, Itália — o que, conforme avalia Charles Pennaforte,
professor de geopolítica e relações internacionais da Universidade Federal de
Pelotas (UFPel), garante retorno financeiro e o torna menos vulnerável a
ataques ou pressões —, colocar concorrentes lado a lado pode tornar o país alvo
de crises.
"Essa
convivência de opostos é extremamente complicada. Mas eu acredito que, para os
grupos políticos que comandam o país, essa mistura de interesses passa a ser
também um aspecto importante para transformar o país num peão geopolítico na
área. E também há a questão dos recursos, porque se não houvesse essas bases,
fatalmente a situação econômica que já não é maravilhosa seria extremamente
pior", explica ao Mundioka.
<><>
'Quem dominar o mar vai dominar o mundo'
Mazuze,
durante a entrevista, cita a frase do teórico norte-americano Alfred
Mahan para destacar: o Djibuti, hoje, não oferece somente acesso ao
estreito de Bab-el-Mandeb, ao Chifre da África, mas entrega algo raro, que é a
proximidade entre o continente africano e o Oriente Médio, também do mar
Vermelho ao oceano Índico.
Segundo
a Organização das Nações Unidas (ONU), o comércio marítimo responde por
cerca de 80% do volume de todo o comércio internacional. Em meio ao conflito no
Irã, Djibuti e Eritreia se tornam peões importantes no tabuleiro de xadrez
das relações internacionais, diz Pennaforte.
"Se
o estreito de Bab-el-Mandeb for fechado, o cenário piora de vez. Então, esse é
um fato geopolítico que decorre da presença norte-americana na guerra do
Irã", acrescenta.
Diante
desse cenário, Eritreia e Djibuti podem se beneficiar de mais recursos e de uma
perspectiva melhor do Ocidente em relação a eles, conclui o professor da UFPel.
¨
Por que a pirataria naval na África é um problema global
que afeta o Brasil? Analista explica
Atos de
pirataria voltam a desafiar a segurança marítima na região do Chifre da África,
e essa crise atinge a economia global. Os recentes sequestros de navios
mercantes em 2026 expõem a vulnerabilidade de uma das rotas comerciais mais
importantes do mundo. No combate aos piratas, até o Brasil somou esforços na
Força-Tarefa Combinada 151.
O
Brasil, uma das nações afetadas economicamente por raptos de embarcações, é um
dos países que integram a reação para combater esse tipo de crime, conforme
elucida Eden Pereira, analista internacional e pesquisador do Núcleo
Interdisciplinar de Estudos sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul
(NIEAAS), em entrevista à Sputnik Brasil.
"A
gente observa a importância daquela região [Chifre da África] em termos
internacionais, porque vários países buscam estar presentes.
Historicamente, aquela região é parte de toda uma disputa política entre as
potências, por isso que o Brasil também busca se colocar e se projetar, porque
acredita que também tem interesses", disse.
A
presença brasileira no cenário de hostilidade com sua Marinha é uma forma
também de se projetar como potência no Atlântico e politicamente no contexto dos
Estados africanos, como aponta o pesquisador, que também é doutorando em
história comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
"O
Brasil, enquanto potência no Atlântico Sul e país relevante, precisa estar
presente para tentar agir positivamente em termos políticos dentro do
continente africano. Estamos presentes não apenas nessas missões marítimas que
acontecem na Somália, mas também buscamos atuar no conflito do Congo para
facilitar o diálogo", comenta.
<><>
Chifre da África é importante para o fluxo de energia
A
principal consequência dos atos de pirataria é o encarecimento de fretes
marítimos e seguros de carga, custos que acabam sendo repassados
ao consumidor final no mundo, inclusive no setor energético, como ressalta o
professor.
"Isso
traz uma série de problemas para as companhias de transporte comercial. O
que a gente observa às vezes está muito associado ao sudoeste da
Ásia, pela proximidade com os grandes centros de produção de petróleo, e
também porque aquela área é essencial para o comércio de transporte de
energia", destaca.
Outro
ponto levantado por Pereira é que o desvio de navios para rotas mais
distantes, na tentativa de evitar ataques, atrasa as cadeias globais de
suprimentos, o que gera ainda mais transtornos.
"Para
além do transporte de energia, existem outras mercadorias que circulam naquela
região, principalmente vindas de países emergentes da Ásia Oriental, como
Índia, China e até Indonésia. Assim, há um grande encarecimento do
comércio e do fluxo navegacional entre o leste da Ásia e o oeste, que seria a
península euroasiática, a Europa e a parte ocidental da África, encarecendo o
transporte", observa.
<><>
Pirataria não pode ser considerada como terrorismo
Apesar
do alto grau de complexidade local, segundo Pereira, esses grupos não
devem ser tratados como terroristas, mas sim como um sintoma da profunda
vulnerabilidade social e econômica de países como a Somália.
"Quando
se relaciona terrorismo com pirataria, é uma forma também de justificar a
intervenção daquelas grandes potências na região. Diferentemente do terrorismo
na Somália, a pirataria não tem uma forma de organização
institucionalizada e unificada. Eles são grupos e unidades que operam de
maneira autônoma naquela região", conclui.
Além
das tensões geopolíticas que resultam em conflitos no sistema-mundo, problemas
de ordem regional também podem causar impactos globais. É o caso da pirataria
no Chifre da África: coordenada por grupos heterogêneos, ela causa
instabilidades em uma rota que, além de estratégica, funciona também como
uma das principais alternativas aos gargalos logísticos da navegação
mundial.
¨
África Austral: Como a Rússia e o BRICS cooperam e são
importantes para a região?
A
África Austral, também chamada de África Meridional, construiu relações
históricas com a Rússia, que ainda participa das dinâmicas na região,
principalmente através da figura da África do Sul, parceira de Moscou no BRICS.
Além da
África do Sul, compõem a região Angola, Botsuana, Lesoto, Madagascar, Malaui,
Ilhas Maurício, Moçambique, Namíbia, Essuatini, Zâmbia e Zimbábue.
As
relações com a Rússia atravessam diferentes momentos da história dos países. A
União Soviética, por exemplo, apoiou o Movimento Popular de Libertação de
Angola (MPLA) em 1975 na independência do país africano de Portugal.
Nesse
aspecto, Igor Borges Cunha, analista internacional pela Universidade de
Brasília, pesquisador do Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM),
ressalta que a memória das lutas de libertação ajudam a
compreender determinadas afinidades políticas com a União Soviética no passado.
Moçambique
foi outro país da região destacado pelos analistas ouvidos pelo Mundioka,
podcast da Sputnik Brasil, com ligações durante o processo de
independência. Segundo Carlos Mamboza, professor moçambicano e doutorando
do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF),
Maputo, após emancipar-se de Portugal, assumiu-se como um país de orientação
marxista-leninista, com muita proximidade à União Soviética.
Já no
contexto atual, segundo o pesquisador da UFF, o principal eixo relacional de
Moscou na África Austral é representado na figura de Pretória. A Rússia, por
exemplo, utiliza a tecnologia nuclear como instrumento
de cooperação econômica e de projeção estratégica. Conforme lembra o
pesquisador, os dois parceiros do BRICS, inclusive, têm acordos de cooperação
na área energética assinados.
"O
governo de Pretória procura manter uma política externa de autonomia
estratégica e mantém relações simultâneas entre Rússia, China, Estados Unidos e
outros atores", destaca.
Cunha
avalia que as nações africanas adotam uma ideia de multialinhamento,
"que é diferente do multilateralismo", explica. Trata-se, portanto,
de acordo com o especialista, em interesses não inteiramente baseados em
discutir e fortalecer as regras globais, mas "garantir que ele [o país]
pode ser parceiro comercial da China, parceiro militar dos Estados Unidos e
parceiro energético da Rússia, ao mesmo tempo, sem que nenhum deles exija
exclusividade", completa.
Mas em
relação à África Austral de modo geral, o analista aponta que o papel da
Rússia pode ser destacado em termos de "diplomacia, segurança,
energia, tecnologia, defesa e influência política na região".
No âmbito do BRICS, Mamboza avalia que
o posicionamento da África do Sul no grupo é importante para que alavanque os
países da África Austral, uma vez que Pretória é um ator importante na região —
apesar de confusões recentes por xenofobia em relação
a imigrantes,
destacado pelos entrevistados como um problema que pode comprometer a liderança
regional.
Entretanto,
relações com países como a China são importantes para atrair
investimentos para a região, em uma dinâmica diferente da que tinham com países
ocidentais na época da colonização. Agora, trata-se de uma lógica de
ganha-ganha, diz o pesquisador da UFF.
"Apesar
de existir uma interdependência assimétrica, onde as partes, apesar de terem
ganhos assimétricos, eles têm algum ganho, isso já é uma mudança de paradigma
em relação ao modelo de cooperação tradicional, no caso, o Ocidente".
Neste
caso, ele ressalta que a China deixa claro seus interesses e visa o
financiamento de infraestruturas que beneficiem o comércio e a logística na
região, deixando de lado interferências políticas, como historicamente
aconteceu com os países africanos nas relações com o Ocidente.
Embora
seja colocado que nesta relação de ganho mútuo a China tenha mais vantagens,
Mamboza defende que os estados africanos criem mecanismos internos para
capitalizar essa cooperação e, assim, equilibrar as vantagens e
impulsionar seus próprios ganhos.
Fonte:
Por Kawthar Jeewa, em Africa
Is a Country
- Tradução: Isabelle Paiva, para Diálogos do Sul Global/Sputnik Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário