Como
a caça conservadora ao voto feminino alimenta a violência contra a mulher
Maioria
entre o eleitorado brasileiro, as mulheres estão no centro de uma ofensiva que
cresce nas redes sociais. Falas disfarçadas de opinião política questionam o
espaço feminino na vida pública e se misturam a ataques de ódio envolvendo
desqualificações, ameaças ou associações a contextos de violência sexual –
justamente no período em que a participação delas nas urnas se torna decisiva.
O voto
feminino foi reconhecido no Brasil pelo Código Eleitoral de 1932. Antes disso,
propostas de participação de mulheres na política enfrentaram resistência e
argumentos de que elas não teriam a mesma capacidade intelectual dos homens.
Quase cem anos depois, a discussão mudou de linguagem e plataforma, mas não
desapareceu e encontra eco em várias partes do mundo.
Na
primeira semana de julho deste ano, um vídeo da influenciadora bolsonarista
Pietra Bertolazzi ganhou projeção em todo o país por mostrá-la se juntando a
uma campanha contra o voto feminino. “Sou contra”, disse, ao se referir ao voto
de mulheres, bem como ao feminismo. O movimento espelha manifestações entoadas
pela extrema direita em outros países, em especial, nos Estados Unidos.
No dia
21 do mesmo mês, o influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo retomou
declaração feita por Jair Bolsonaro contra a deputada Maria do Rosário (PT-RS)
em 2014, quando disse que não estupraria Maria do Rosário porque ela “não
merecia”, em referência à aparência da parlamentar. Figueiredo classificou como
“genialidade” a fala de Bolsonaro e utilizou o episódio para atacar novamente a
deputada, bem como a parlamentar Jandira Feghali (PCdoB-RJ).
O caso
chegou à esfera judicial. Em agosto, a desembargadora do Tribunal Regional
Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS), Vânia Heck, classificou a manifestação
como misógina e determinou que o Google removesse trechos da transmissão por
propaganda eleitoral antecipada negativa contra Maria do Rosário. Na decisão, a
magistrada afirmou que as referências a Jandira Feghali não eram de competência
da Corte gaúcha.
O link
mencionado na ação foi retirado do ar. No entanto, cortes que replicam as falas
de Figueiredo continuam disponíveis no canal do próprio influenciador.
Procurado, o Google respondeu que a empresa cumpriu integralmente a decisão
judicial.
“O
YouTube é uma plataforma aberta, comprometida com a liberdade de expressão, com
a integridade do debate público e atua em conformidade com a legislação. Agimos
prontamente ao sermos notificados sobre violações à lei local, avaliando e
processando ordens judiciais e notificações que atendam aos requisitos legais”,
disse.
O
episódio envolvendo Figueiredo expôs, ainda, outra camada do discurso contra a
participação feminina na política. Em uma segunda transmissão analisada pela
Justiça, o influenciador afirmou que mulheres “votam estatisticamente muito
mal”, especialmente “as solteiras”. Nesse caso, a magistrada reconheceu a
presença de “linguagem grosseira, sexista e socialmente reprovável”, mas não
determinou a retirada imediata da gravação.
Print
de transmissão do influenciador de extrema direita Paulo Figueiredo no YouTube
Para a
professora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Psicodinâmica do Trabalho
Feminino (Psitrafem) da Universidade de Brasília (UnB) Carla Antloga, o
discurso contrário ao voto feminino e outras “manifestações misóginas” não são
casos isolados, mas representam a “reativação de argumentos históricos que
defendiam a exclusão das mulheres da vida política”.
Nesse
contexto, conforme relatou, falas como as de Paulo Figueiredo funcionam como
uma tentativa de silenciar mulheres que ocupam espaços públicos e políticos. “A
pesquisadora Rita Segato vai chamar isso de ‘pedagogia da crueldade’”, disse
Antloga. “[É] o uso da violência sexual verbalizada como piada que termina
cumprindo uma função de ensinar para todas as mulheres que, se elas ocuparem a
cena política, se falarem ou se manifestarem, [o ataque] também pode acontecer
com elas. Por isso, [o termo] ‘pedagógica’, usado no sentido de ensinar por
meio da crueldade”, explicou.
A
professora ressalta que a violência contra a mulher utilizada como linguagem
política não é um evento exclusivamente brasileiro. Para ela, o fenômeno está
relacionado a uma “articulação internacional entre fundamentalismo religioso,
extrema direita e populismo autoritário”.
Esses
discursos, segundo Antloga, não foram criados pelas redes sociais, mas
encontraram nelas um ambiente de disseminação e radicalização “por meio de
algoritmos que dão a impressão de que essas ideias são compartilhadas por uma
multidão”. “Uma coisa é importante a gente entender: violência como linguagem
não é uma exceção. A violência como linguagem é a regra”, resumiu.
A
violência contra a mulher utilizada como linguagem política é um fenômeno que
está relacionado a uma “articulação internacional entre fundamentalismo
religioso, extrema direita e populismo autoritário”
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Violência silenciosa e “importada”
Pesquisadores
da Fundação Getúlio Vargas (FGV) analisaram 7 milhões de conteúdos trocados em
85 grupos no Telegram desde 2015. As comunidades fazem parte do que a equipe
chama de “machosfera”, ambientes de formação política virtual, compostos
predominantemente por homens, nos quais são compartilhados discursos misóginos
e de ordem social.
As
manifestações contra o voto feminino em 18 desses grupos, realizados entre 2020
e 2026, motivaram um estudo à parte de Julie Ricard, Mario Aquino Alves e Ergon
Cugler. Nesse universo, 87% do conteúdo trocado nesses grupos repetia veredito
negativo ao direito por meio de declarações como “um dos maiores erros da
sociedade ocidental”.
A
deslegitimação do voto feminino, segundo a pesquisa, “se alimenta diretamente
do repertório norte-americano”. O estudo cita o compartilhamento de “ideias
importadas” e picos em publicações nas comunidades, como ocorreu após uma
repostagem feita pelo secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, em
2025. O conteúdo defendia a revogação da 19ª Emenda – que proíbe a negativa ou
restrição do direito de voto por qualquer estado com base no gênero.
Para a
doutora em ciências políticas e doutoranda em história na Universidade de
Brasília (UnB) Ana Prestes, o discurso não é propriamente sobre a capacidade
das mulheres de votar, mas sobre a autonomia feminina.
“Historicamente,
esse foi justamente um dos argumentos utilizados contra o sufrágio feminino e o
direito da mulher de votar e ser votada. Durante muito tempo, se afirmou que a
família deveria ter uma única representação política e que essa representação caberia
ao pai, ao marido, ao irmão mais velho, ou seja, a algum homem destacado no
núcleo familiar. A mulher estaria representada politicamente por ele”,
explicou. É esse o argumento que vem sendo requentado em discussões para tentar
instituir o “voto familiar”.
Segundo
Prestes, essa também seria uma tentativa de limitar a própria cidadania
feminina. “Quanto mais as mulheres conquistam autonomia econômica, sexual,
familiar e política, mais aparecem movimentos que pretendem restaurar
hierarquias que pareciam ser superadas. Portanto, não é contraditório que
discursos contra direitos femininos apareçam justamente depois de décadas de
avanços. Em alguma medida, eles aparecem justamente por causa desses avanços”,
disse a doutora.
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Violência de gênero on e offline
Para
Prestes, as redes sociais contribuem para esse cenário de violência de gênero
ao criarem uma “espécie de economia política da indignação”. “Quanto mais
ofensiva, chocante ou polarizadora é uma declaração, maior a possibilidade de
circulação, comentários, compartilhamentos e engajamento. A misoginia pode,
ainda, transformar-se em produto de engajamento no ambiente digital. Há
influenciadores que constroem audiência transgredindo deliberadamente limites
do que antes seria considerado aceitável no debate público”, explicou.
De
acordo com Prestes, o comportamento criminoso segue um padrão: primeiro é dito
algo aparentemente absurdo nas redes, depois a fala vira meme, discussão,
conteúdo e controvérsia: “Pela repetição, determinadas ideias começam a entrar
no repertório do debate público”.
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Doutora em ciência política
No
Brasil, a Lei nº 14.192/21 define a violência política de gênero como qualquer
ação ou omissão que tenha como objetivo impedir, dificultar, desvalorizar ou
anular o exercício dos direitos políticos das mulheres. Esse tipo de violência
pode atingir tanto candidatas quanto mulheres que já ocupam cargos eletivos.
De
acordo com a legislação, esse tipo de violência pode se manifestar por meio de
ameaças, assédio físico ou psicológico, constrangimento, discriminação,
humilhação e perseguição. Nesses casos, a lei prevê pena de um a quatro anos de
prisão, além de multa. Punição que pode ser aumentada em até um terço quando a
vítima estiver grávida, tiver mais de 60 anos ou for pessoa com deficiência.
O crime
cometido por meio digital também sofre elevação na pena. Apesar da existência
da lei, ataques a mulheres que tentam ocupar espaço na vida pública continuam
frequentes, especialmente na internet.
Em
julho de 2025, por exemplo, o Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA)
manteve a sentença condenatória de um homem identificado como Elton Carlos do
Nascimento por violência política de gênero contra uma vereadora de Primavera
(PA). Em uma transmissão ao vivo no Facebook, ele proferiu ofensas misóginas
contra a parlamentar com o objetivo de constrangê-la e dificultar o exercício
de seu mandato.
A
ocorrência do crime foi comprovada por vídeos, e a autoria foi confirmada a
partir de depoimentos de testemunhas. O réu foi condenado a dois anos de prisão
e pagamento de multa – pena substituída por prestação de serviços à comunidade.
A
Agência Pública procurou Elton por meio do telefone de um dos advogados que o
representou na ação, mas não obteve sucesso. Em caso de manifestação este
espaço será atualizado.
Mesmo
no ambiente físico e entre colegas de mandato, os casos de violência política
de gênero passam longe de incomuns. No início de agosto, o Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) condenou o ex-vereador de Nova Friburgo (RJ) José Sebastião
Rabello (Solidariedade), conhecido como Zezinho do Caminhão, por humilhar uma
colega durante uma discussão na Comissão de Saúde da Câmara.
Após a
vereadora apresentar emenda exigindo critérios técnicos para nomeações em uma
clínica psiquiátrica, Rabello a xingou de vagabunda, mentirosa, sem competência
e disse que a isolaria politicamente, interação presenciada por testemunhas.
O
Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Rio de Janeiro chegou a considerar as
provas insuficientes para a caracterização da violência política de gênero, mas
o TSE reconheceu a prática e declarou a inelegibilidade do político pelo prazo
de oito anos. Ele também teve os direitos políticos suspensos.
Zezinho
do Caminhão foi procurado por mensagem em seu perfil oficial nas redes sociais,
mas não respondeu aos questionamentos da reportagem. Em caso de manifestação,
este espaço será atualizado.
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A voz feminina no parlamento brasileiro
Em
2022, 107 parlamentares mulheres foram eleitas para vagas no Congresso
Nacional, representando 18% do total de 594 cadeiras — sendo 91 deputadas
federais e 16 senadoras.
Apesar
do aumento da presença feminina na política, em comparação com legislaturas
anteriores, a atuação das parlamentares não é homogênea quando o assunto são
políticas de enfrentamento à violência contra a mulher.
Um dos
episódios que ilustrou a divergência foi a votação do agora sancionado Projeto
de Lei nº 3.880/24, que passou a reconhecer a chamada violência vicária —
quando o agressor atinge filhos, familiares ou pessoas próximas para provocar
sofrimento na mulher — como modalidade de violência doméstica e familiar.
Durante
análise no Plenário, algumas deputadas se opuseram ao projeto. Entre elas,
Julia Zanatta (PL-SC). Em declaração de voto contra a inclusão da violência na
Lei Maria da Penha, a parlamentar defendeu que a legislação deveria considerar
homens e mulheres como potenciais vítimas e agressores.
Para a
doutoranda em Ciência Política na Universidade de São Paulo (USP) Carolina
Bianchini Bonini, a presença de mais mulheres no parlamento é democraticamente
relevante “sobretudo porque a política brasileira foi historicamente construída
como um espaço masculino”: “Mas a presença de mulheres, por si só, não
significa que haverá defesa de políticas feministas ou de direitos das
mulheres”.
Segundo
Bonini, existe, ainda, uma disputa social pelo significado de “defender as
mulheres”. “Uma parlamentar conservadora pode não se perceber como alguém
contrária aos direitos femininos. Ela pode afirmar que está protegendo
mulheres, crianças ou famílias, mas partir de uma concepção completamente
diferente sobre gênero, sexualidade, autonomia e sobre quais devem ser as
funções do Estado”, disse.
Para a
especialista, a questão é entender quais projetos de sociedade as parlamentares
representam. “Ampliar numericamente a presença feminina é fundamental, mas
representação política não pode ser analisada contando corpos. Precisamos
perguntar quais mulheres chegam ao poder, quais interesses representam, quais
desigualdades reconhecem e quais políticas ajudam a construir”, finalizou.
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PL da Misoginia: Resistência enfrenta até vozes femininas
Tramita
no Congresso Nacional o Projeto de Lei (PL) 896/23, cujo objetivo é justamente
garantir punição mais severa para manifestações misóginas. De autoria da
senadora Ana Paula Lobato (PSB/MA), a proposta quer incluir a misoginia – ódio,
desprezo ou aversão direcionados às mulheres – entre os crimes previstos na Lei
do Racismo.
Em
março deste ano, o Senado aprovou o substitutivo do PL por 67 votos a zero. Em
seguida, enviou a matéria à Câmara. Na Casa Legislativa, no entanto, o texto
encontrou resistência.
Um
grupo de trabalho formado por parlamentares de diferentes partidos foi criado e
discutiu a proposta durante maio e junho. Em 1º de julho, a Câmara aprovou por
293 votos a 158, com três abstenções, o regime de urgência para o projeto.
Os
partidos Liberal, Novo e Missão orientaram seus parlamentares a votarem contra
a redação. Uma das vozes mais contundentes contra a proposta foi a de Zanatta.
Em discurso oficial, a deputada afirmou que o texto teria conceitos subjetivos
e poderia transformar opiniões e convicções religiosas em matéria penal, além
de produzir censura. O texto aprovado pelo Senado, contudo, apenas define
misoginia como conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres.
Júlia
Zanatta foi procurada por e-mail e por meio de sua assessoria, mas não
respondeu aos questionamentos na reportagem. O espaço segue aberto para
manifestação e será atualizado em caso de resposta.
À
Pública, a professora e pesquisadora da UnB, Carla Antloga, avalia que vincular
o PL da Misoginia à criminalização da opinião é uma “distorção completa de uma
lógica civilizatória”. “Primeiro que misoginia não é opinião”, pontuou. “A
gente tem que entender que o patriarcado é uma estrutura que pode ser
sustentada por qualquer pessoa que se beneficie dela, inclusive por mulheres.”
“Nós
temos várias pesquisas e evidências de que muitas mulheres que ascendem na
política e que são de bancadas religiosas e conservadoras, frequentemente vão
consolidar sua viabilidade eleitoral justamente por reforçarem pautas
antifemininas e antifeministas. Isso as torna porta-vozes muito eficazes desse
discurso dos colegas homens, porque a fala delas termina carregando uma
legitimidade que o discurso masculino sozinho não tem”, declarou.
Fonte:
Por Jéssica Ribeiro, da Agencia Pública

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