segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Como o desmatamento na Amazônia eleva o risco de doenças graves

Pesquisas realizadas no Acre mostram como o desmatamento na Amazônia eleva o risco de leishmaniose e doença de Chagas. Cientistas descobriram que áreas devastadas há mais tempo concentram mais mosquitos-palha, vetores da leishmaniose. Paisagens com menor cobertura florestal também aumentam a chance de barbeiros estarem infectados pelo parasita de Chagas perto de moradias.

Os resultados, publicados nas revistas Parasites & Vectors e PLOS One, são de uma investigação liderada pelo biólogo Gabriel Laporta, do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC (FMABC). A pesquisa ajuda a entender os mecanismos de transmissão de infecções e pode aprimorar a vigilância epidemiológica.

Um terceiro trabalho do mesmo grupo, divulgado em 2025, já havia detectado maior risco de malária em áreas parcialmente degradadas, com 50% de cobertura. Leishmaniose, malária e Chagas são consideradas endêmicas na Amazônia e estão na lista de doenças tropicais negligenciadas (DTNs) da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os levantamentos de campo ocorreram em 2022 e 2024 em um assentamento rural em Cruzeiro do Sul, segundo maior município do Acre. O local enfrenta pressão constante de desmatamento. Os cientistas avaliaram paisagens desde florestas preservadas até áreas totalmente desmatadas.

<><> Leishmaniose e o tempo de ocupação

No estudo sobre leishmaniose cutânea, a abundância de mosquitos-palha se mostrou mais ligada a quando ocorreu o desmatamento do que à cobertura florestal. Os vetores conseguiram se estabelecer e permanecer por anos em ambientes modificados, com a quantidade aumentando à medida que os assentamentos se estabilizam.

A pesquisa identificou que a espécie dominante do vetor é a Nyssomyia antunesi. A leishmaniose é uma doença parasitária que provoca feridas na pele e pode evoluir para lesões nas mucosas. Em casos graves, a forma visceral afeta órgãos internos.

<><> Chagas: um perigo mais próximo

Para a doença de Chagas, o estudo mostrou que barbeiros infectados pelo parasita Trypanosoma cruzi ficam em palmeiras próximas às residências, e não necessariamente as colonizam. O desmatamento aproxima as pessoas do ciclo silvestre do vetor.

Em paisagens muito desmatadas, a distância entre a palmeira e a casa influencia a frequência de insetos contaminados. Quanto menor essa distância, maior a probabilidade de encontrá-los. A doença pode causar febre e, sem tratamento, problemas no coração e no sistema digestivo.

As pesquisas tiveram financiamento da Fapesp e do Programa Iniciativa Amazônia+10. Agora, Laporta iniciou uma nova etapa do estudo, que visa restaurar áreas degradadas com espécies nativas amazônicas para medir, ao longo do tempo, as variáveis de saúde. A comunidade local participará do plantio.

“Não adianta somente desvendar o mecanismo ou a associação entre as coisas. É preciso criar maneiras de agir”, afirma o biólogo. O grupo conta com cientistas de várias especialidades e busca contribuir para a formação de novos pesquisadores, incluindo desde alunos da iniciação científica até os de mestrado e pós-doutorado.

•        O escudo invisível da Amazônia contra 27 doenças

Uma pesquisa publicada na revista Communications Earth and Environment, do grupo Nature, revela que municípios da região amazônica mais próximos de florestas preservadas em terras indígenas apresentam menor incidência de doenças respiratórias e cardiovasculares relacionadas a incêndios florestais e menores riscos de enfermidades transmitidas por insetos e animais, como malária, leishmaniose e doença de Chagas.

O estudo analisa 20 anos de dados, sobre 27 problemas de saúde em oito países amazônicos — Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa — e concluiu que os territórios indígenas, especialmente os legalmente reconhecidos, funcionam como barreiras de proteção e são essenciais para combater as mudanças climáticas, reduzir a poluição do ar causada pelas queimadas, a perda da biodiversidade e diminuir a disseminação de doenças que criam riscos imediatos e generalizados à saúde.

"As florestas indígenas na Amazônia trazem benefícios à saúde de milhões de pessoas. Sabemos há muito tempo que a floresta tropical abriga plantas e animais medicinais que curaram inúmeras doenças. Este estudo oferece novas evidências de que as próprias florestas são um bálsamo para as ameaças aos pulmões e ao coração das pessoas, relacionadas a incêndios, e também contra doenças como malária e febre maculosa", afirmou Paula Prist, da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Entre 2001 e 2019, foram registrados quase 30 milhões de casos de doenças ligadas a incêndios, zoonoses e enfermidades transmitidas por vetores no bioma amazônico. Só na Amazônia brasileira, estima-se que os focos florestais tenham provocado, em média, 2.906 mortes prematuras por ano entre 2002 e 2011.

A exposição a esses incêndios leva ao aumento de sintomas respiratórios, doenças cardíacas, derrame, enfisema e câncer de pulmão, além de bronquite, asma, dor no peito e problemas pulmonares cardíacos croônicos.

Os pesquisadores destacam que o desmatamento e os incêndios criminosos são os principais fatores de risco, ampliados pelos efeitos da crise climática e estão em constante aumento devido à expansão agressiva da agricultura, à exploração de petróleo e a grandes projetos de infraestrutura, como estradas e usinas hidrelétricas. A alteração no uso da terra cria bordas florestais e força vetores, hospedeiros e patógenos a viverem mais próximos dos humanos, aumentando os riscos de transmissão de doenças infecciosas zoonóticas

Já os Territórios Índigenas (TIs) bem conservados atuam como filtros naturais contra a fumaça e como barreiras sanitárias contra a propagação de doenças, sendo ainda cruciais para manutenção do ecossistema, como o fornecimento de água doce, sequestro de carbono e regulação climática.

 

Fonte: Agência Fapesp/Nature

 

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