O
caso Appio e a vingança do TRF4
A
decisão do Tribunal Regional Federal da 4a região (TRF4), de punir o juiz
Eduardo Appio com a pena de expulsão sem remuneração da carreira de magistrado,
mostra até onde vai o uso arbitrário de força corporativa.
Appio
foi acusado de levar de um supermercado três garrafas de vinho de 500 reais. Um
gesto impensado, possivelmente por estar embriagado. É uma punição inédita, de
acordo com a nova regulamentação do Conselho Nacional de Justiça. A severidade
da punição denota mais do que o desejo de justiça e fica próximo do desejo de
vingança.
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Festa da cueca
Em 19
de novembro de 2003, 8 ou 9 desembargadores do TRF-4 se reuniram na suíte
presidencial do Hotel Bourbon (cinco estrelas), no centro de Curitiba, com
garotas de programa vinculadas a uma casa de prostituição — encontro apelidado
internamente de “Festa da Cueca”. O evento foi filmado por uma câmera escondida
no prendedor de gravata de um dos advogados presentes.
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Por que voltou à tona agora
Em 3 de
dezembro de 2025, a Polícia Federal apreendeu o vídeo durante operação na 13ª
Vara Federal de Curitiba — vara que era comandada por Sérgio Moro durante os
anos cruciais da Operação Lava Jato. A operação foi determinada pelo ministro
Dias Toffoli, do STF, e teve como foco investigar suspeitas de que informações
confidenciais eram usadas para pressionar decisões judiciais na vara.
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A alegação central
Segundo
o delator Tony Garcia — que se apresenta como agente infiltrado recrutado por
Moro para coletar informações e gravações comprometedoras a fim de coagir
magistrados —, o vídeo teria sido usado como instrumento de chantagem judicial
para pressionar desembargadores do TRF-4 a não reverterem decisões de Moro. O
advogado Roberto Bertholdo, cujo sócio teria feito a gravação, confirmou em
entrevista a existência e circulação das gravações entre pessoas próximas a
Moro, descrevendo o material como ferramenta para “proteger ou ameaçar”
desembargadores.
Até
hoje não houve nenhum desdobramento legal para apurar a acusação. Vários
desembargadores suspeitos participaram do linchamento legal de Eduardo Appio.
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O desmonte da República de Curitiba
A
chegada do juiz federal Eduardo Appio à titularidade da 13ª Vara Federal de
Curitiba, em fevereiro de 2023, representou o primeiro abalo real no modelo de
exceção que governou a República de Curitiba por quase uma década.
Ao
contrário de seus antecessores — Sérgio Moro, Gabriela Hardt e Luiz Antônio
Bonat —, que mantiveram a vara como um tribunal de inquisição e feudo
político-corporativo, Appio ingressou com a determinação de aplicar o devido
processo legal, garantir o contraditório e, sobretudo, abrir a caixa-preta das
contas e dos métodos da Lava Jato.
O
estopim da reação corporativa deu-se quando Appio colocou em marcha duas
frentes inaceitáveis para o lavajatismo:
1. A auditoria patrimonial e financeira dos
acordos: O escrutínio sobre os bilhões de reais movimentados em acordos de
leniência, multas e repasses clandestinos geridos em conluio entre procuradores
e a magistratura (a chamada “fundação privada da Lava Jato”).
2. A oitiva pública de Rodrigo Tacla Duran:
Em março de 2023, Appio ouviu o advogado Tacla Duran, que denunciou sob
juramento um esquema de extorsão praticado por advogados ligados ao entorno de
Sergio Moro (em especial o padrinho de casamento de Moro, Carlos Zucolotto
Júnior) em troca de facilidades em acordos de delação.
A
partir desse momento, o aparato do TRF4 foi mobilizado em regime de urgência
para estancar a sangria. O desembargador Marcelo Malucelli — pai de João
Eduardo Malucelli, sócio e genro de Sergio Moro — tentou restabelecer a prisão
de Tacla Duran contra decisão do STF.
Exposta
a promiscuidade familiar, a corporação montou a armadilha do suposto telefonema
gravado para afastar sumariamente Appio, devolvendo a 13ª Vara interinamente às
mãos de Gabriela Hardt.
Foi
necessária a intervenção da Corregedoria Nacional de Justiça, conduzida pelo
ministro Luis Felipe Salomão, para desnudar o conluio: a correição
extraordinária do CNJ confirmou a gestão caótica de recursos, o aparelhamento
de varas federais e o desvio de finalidade, culminando no afastamento
disciplinar de Gabriela Hardt e dos desembargadores do TRF4.
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A correição do CNJ
Em
resposta à escalada no Paraná, o ministro Luis Felipe Salomão, corregedor
nacional de Justiça, deflagrou uma correição extraordinária na 13ª Vara e na 8ª
Turma do TRF4 entre maio e setembro de 2023.
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Principais conclusões do relatório do CNJ:
• Gestão clandestina de bilhões: O CNJ
identificou um “sistema de cashback” e gestão caótica de mais de R$ 2,8 bilhões
de acordos de leniência, sem controle formal da Caixa ou do Tesouro, destinados
à criação da fundação privada da Lava Jato.
• Aparelhamento da vara: Constatou-se que
Gabriela Hardt e magistrados do TRF4 (Thompson Flores e Loraci Flores) atuaram
de forma coordenada para burlar decisões do STF e afastar Appio justamente para
abafar a auditoria interna.
• Afastamentos no CNJ: Salomão determinou
o afastamento cautelar de Gabriela Hardt, Thompson Flores e Loraci Flores por
violação de deveres funcionais e conspiração institucional.
• O desfecho de Appio: Em outubro de 2023,
o CNJ mediou um acordo no qual Appio concordou em ser removido para a 18ª Vara
Federal de Curitiba (matéria previdenciária), encerrando os procedimentos
disciplinares. Em seguida, o ministro Dias Toffoli anulou todos os atos de
suspeição que o TRF4 havia forjado contra Appio.
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Dois pesos, duas medidas
Tem-se,
de um lado, um juiz que, em momento de piração, apossou-se de três garrafas de
vinho. Do outro, desembargadores que participaram da “Festa da Cueca” e um
esquema montado para se apossar das verbas indenizatórias da Lava Jato.
Mais
que isso: manobras subversivas para desobedecer ordens emanada do Supremo
Tribunal Federal. A juíza Gabriela Hardt foi acusada diretamente de proteger a
criação da Fundação Lava Jato, criada para administrar bilhões da Lava Jato.
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Acusação central: montagem de esquema para criar a “Fundação Lava Jato”
Segundo
apuração da Polícia Federal (delegado Élzio Vicente da Silva) que embasou o
processo disciplinar do CNJ, Gabriela Hardt — juíza substituta de Moro na 13ª
Vara Federal de Curitiba — teria atuado em conluio com Sergio Moro e Deltan
Dallagnol para “desviar cerca de R$ 2,5 bilhões da União com o objetivo de
criar uma fundação privada voltada a interesses dos próprios envolvidos”.
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Cronologia da conduta apontada
• O esquema teria começado em 20/11/2015,
com cooperação irregular com autoridades americanas, e culminado em 25/01/2019,
quando Hardt homologou o “acordo de assunção de compromissos” que transferiria
recursos à fundação.
• O relatório do CNJ apontou que Hardt
recebeu a minuta do acordo antes mesmo de sua apresentação oficial e discutiu
informalmente sua aprovação com Moro e Dallagnol via WhatsApp.
• O acordo foi homologado menos de 48
horas após apresentado, sem consulta à União ou a outras autoridades
competentes.
• O plano só não se consumou por decisão
do STF, segundo o próprio CNJ.
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Desfecho até agora
Em 4 de
agosto de 2026, o CNJ formou maioria para afastar Hardt do cargo por dois anos
— decisão que veio depois de uma revogação anterior de afastamento cautelar
determinado pelo corregedor Luís Felipe Salomão. O próprio CNJ sugeriu a
necessidade de investigação criminal para apurar mais a fundo a conduta dos
três, Hardt, Sérgio Moro e Deltan Dallagnol.
Hardt
foi afastada por dois anos, mantidos os vencimentos proporcionais. Os
desembargadores que cometeram a subversão de não acatar determinação do STF
foram afastados por apenas 60 dias.
A
punição de Appio foi um evidente ato de vingança contra quem ajudou a desmontar
o bunker.
• A imprensa quer eleger Flávio Bolsonaro
Há dois
projetos de país em curso: um democrático e outro capaz de destruir qualquer
veleidade de construção de uma Nação minimamente civilizada.
Uma
eventual eleição de Flávio Bolsonaro criaria o seguinte cenário:
• Subordinação total aos Estados Unidos,
na condição de colônia.
Significaria
abrir mão de qualquer propósito de industrialização, de avanço tecnológico e de
políticas de inclusão. A lógica colonial é a extração de riquezas e de
matérias-primas (terras raras, alimentos sem processamento, minérios) para
processamento nos Estados Unidos.
Significa
fechar definitivamente o mercado de trabalho para os filhos da classe média,
com a extinção de postos na engenharia, na indústria e no comércio e destruir
as políticas de inclusão dos filhos das classes pobres. Diplomas e cursos
universitários não garantirão mais empregos de qualidade.
• Campo aberto para o crime organizado.
O país
paga até hoje o preço da eleição de Jair Bolsonaro. O mercado financeiro foi
tomado pelo crime organizado, pela lavagem de dinheiro e pela sonegação. Não se
trata de previsão, mas de fatos concretos. Organizações barra-pesadas assumiram
o controle do Congresso. E a falta de limites chegou até o Ministro indicado
por Bolsonaro para a Suprema Corte.
A
família Bolsonaro está intimamente ligada ao crime organizado, seja à milícia
do Rio das Pedras, seja às organizações criminosas que ganharam musculatura nos
últimos anos. O caso Cláudio Castro é explícito.
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O papel da mídia
O
segundo ponto a se analisar é o papel da mídia. Nenhum jornalista, repórter,
editor, diretor ou dono de grupo de comunicação tem a menor dúvida de que a
equiparação do caso Fábio Luís ao de Flávio Bolsonaro é um embuste ciclópico.
Pior: se ajudar na eleição de Flávio, se perpetuará através dos tempos, não
poupando diretores de redação, colunistas e editores que se lambuzaram com essa
tese.
A
hecatombe, de ume eventual eleição de Flávio, será atribuída não apenas aos que
sujarem as canetas e teclados com essa manobra, mas àqueles que, antes disso,
ajudaram a alimentar o ovo da serpente, da Operação Lava Jato.
Pessoal,
não é pouca coisa. Se vocês forem bem-sucedidos nessa manobra de colocar uma
organização criminosa no comando do país, responderão não apenas perante a
opinião pública, mas perante seus filhos e familiares, que pagarão a conta.
Alguns
se safarão indo estudar ou buscar empregos melhor qualificados no exterior. Mas
a grande maioria pagará a conta dessa enorme irresponsabilidade de burlar a
opinião pública em favor de um miliciano.
Há
muitos defeitos a se apontar em Lula, embora grande parte de sua inação se deva
à falta de condições políticas, num modelo destroçado pela Lava Jato e pelas
redes sociais. Mas ele representa o campo democrático — assim como Fernando
Henrique representava, bem como Mário Covas, Franco Montoro, Ulysses Guimarães
e Tancredo Neves.
Apoiando
Flávio Bolsonaro com essa manobra, vocês estarão jogando no lixo quarenta e
cinco anos de luta democrática e de tentativa hercúlea de erguer um país dos
escombros de uma sociedade civil destroçada pela ditadura e por séculos de uma
República mal formada.
Estamos
prestes a ingressar na mais decisiva luta política da história, aquela que
marcará o destino do país, como nação autônoma ou como uma possessão dos
Estados Unidos, um Porto Rico com mais riquezas minerais.
O mundo
atravessa uma mudança estrutural e colocou o Brasil em uma encruzilhada
definitiva: a democracia ou a barbárie.
Às
vezes minhas filhas indagam quando pretendo parar. Dá um cansaço, um desânimo.
Mundo e Brasil enfrentam um momento de ruptura. As novas tecnologias, a
desconstrução das sociedades por uma financeirização feroz e, agora, pela
extração de riqueza pelas plataformas, trazem uma enorme incógnita pela frente.
Algumas
vezes penso que é hora de parar, de largar a luta, preparar o livro de
memórias, aproveitar os anos que me restam.
Aí, me
lembro da música de Celso Viáfora, e, a exemplo de Charles Laughton em
“Testemunha de acusação”, ligo o computador e volto à luta.
Fonte:
Por Luís Nassif, no Jornal GGN

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