Por
que a guerra e não a revolução?
Carl
Schmitt, a quem Paolo Virno definia como “o Lênin da burguesia”, descreve, em
um breve escrito, o fundamento e o desenvolvimento de toda ordem política,
econômica e social por meio de três verbos: tomar/dividir/produzir. Seu
pressuposto é a apropriação violenta de recursos materiais e de seres humanos.
O modelo é, sem dúvida, a acumulação primitiva de Marx, amplamente citada, que
explica a origem “oculta” do capitalismo: predação, rapina, saque de terras, de
matérias-primas, de riquezas acumuladas por outras civilizações, apropriação
dos corpos de camponeses e mulheres na Europa, e dos corpos “indígenas” no
resto do mundo. Nessa apropriação/expropriação, o papel do Estado, em sua dupla
forma de poder político-militar e poder econômico (função da dívida pública,
diz Marx), é determinante. Esses dois conceitos são inseparáveis, razão pela
qual se deve falar da máquina Estado-Capital. É necessário lembrar sempre que o
Estado moderno nasce das guerras civis, para encerrá-las ou para impedi-las,
função à qual nunca renunciou. Com uma violência inaudita, realiza-se então a
divisão sobre aquilo que foi apropriado/expropriado, depredado, separando
proprietários e não proprietários que a produção pressupõe, mas não explica. A
tomada e a repartição instauram processos de constituição das classes dos
explorados e das classes dirigentes (a burguesia, que substitui a aristocracia
feudal, e o proletariado, que substitui os camponeses) e, portanto, de
imposição da relação de capital. Esse fato prevê uma multiplicidade de relações
de poder que são, em sua totalidade, dualismos, hierarquias entre quem manda e
quem obedece: capitalistas/operários, homens/mulheres, brancos/racializados. Somente
após o sucesso da guerra civil e de conquista a produção pode ser posta em
marcha. É por isso que não se deve começar a análise do capitalismo pela
produção de mercadorias, mas pelas classes e pela divisão entre proprietários e
não proprietários. Ora, o “surpreendente” é que essa não é a descrição de um
passado remoto compreendido entre os séculos XV e XVIII, mas o que a
administração estadunidense vem fazendo há alguns anos. Como sempre na
acumulação primitiva que se repete, tomar é o primeiro passo da estratégia:
apropriar-se dos recursos monetários e materiais dos Estados vassalos mediante
ameaça, intimidação e chantagem, como fazem todas as boas máfias: bilhões de
dólares arrancados por extorsão da Europa, Japão, Coreia do Sul, Arábia
Saudita, Índia, com tarifas, promessas de aquisição de matérias-primas
estadunidenses (energia) ou investimentos futuros a serem realizados nos
Estados Unidos.
A ordem
jurídica e econômica que os próprios estadunidenses haviam imposto nos anos
setenta do século passado (estado de exceção planetário fundado sobre as leis
especiais daquela década, outra grande fase de acumulação primitiva e de guerra
civil ocidental completamente apagada da memória) é suspensa; o que conta é
apenas a força econômica, política, mas sobretudo a força armada. O direito e
as normas sociais serão instituídos depois, quando se estabelecer uma nova
“normalidade” e o vencedor os impuser aos vencidos. Enquanto se toma, se
expropria, se rouba, se deve dividir; enquanto se combate os Estados não
submetidos, os BRICS, a estratégia da administração estadunidense deve destruir
as velhas classes e produzir outras novas (neutralizar, dividir, dominar o
proletariado e gerar um confronto sem quartel dentro das elites estadunidenses,
entre globalistas, neoconservadores, isolacionistas, etc.). Quando Trump
convocou oitocentos dos oficiais mais importantes do exército dos EUA, disse
claramente que deveriam se preparar para a luta contra o inimigo interno. Algo
que foi posto em prática imediatamente em Minneapolis. E aqui reencontramos as
três guerras de conquista e de apropriação dos corpos próprias da acumulação
primitiva: guerras raciais (contra os imigrantes e os não brancos), de gênero
(contra a “cultura woke”) e de classe (apesar da retórica pró-operária de
Trump, favorece-se por todos os meios os super-ricos, os monopólios e as
finanças). Então o Estado desempenha um papel fundamental como centro de coordenação
e composição dos distintos centros de poder, com o objetivo de salvar o
capitalismo (o dólar), sobrecarregado pela acumulação de dívidas insustentáveis
(públicas, privadas, financeiras) e pela emergência dos BRICS e de suas
economias que pretendem se libertar do dólar. O resultado dessa estratégia
política deve ser a reindustrialização, o que confirma mais uma vez que “a
produção” vem depois que tenham sido estabelecidas, pela força, relações de
poder entre Estados e relações de poder com o proletariado (tanto interno
quanto internacional). A depredação da guerra comercial (tarifas, imposição de
investimentos nos Estados Unidos, etc.) é insuficiente sequer para estabilizar
minimamente as diversas dívidas estadunidenses, dado que o maior peso (90%) é
suportado pelas empresas e pelos consumidores dos Estados Unidos.
A
consequência direta dessa situação é a guerra contra o Irã. A energia fóssil e
o problema da desdolarização do mercado de energia (que se compra e se vende
sem passar pelo dólar) são os objetivos principais. Tomar o controle (trata-se
sempre de “tomar” pela força) da extração e da circulação mundial do petróleo e
gás (Venezuela, Nigéria, Irã, etc.) para enfraquecer a China, alimentar as
sempre instáveis bolhas financeiras, servir de base para a montanha de dinheiro
especulativo, tentar deter a fuga do dólar como moeda de troca (até as
monarquias do Golfo preferem o ouro, e as bombas também servem para
“convidá-las” a voltar aos petrodólares). O objetivo monetário e financeiro
fixado no início de maio não foi alcançado; pelo contrário, as monarquias do
Golfo não são capazes de manter em funcionamento o circuito do petrodólar
porque precisam de dólares para reparar os danos causados pelos mísseis
iranianos e, portanto, já não podem investi-los nos Estados Unidos. Para
impedir que as petromonarquias vendam títulos estadunidenses, com o risco de
derrubar o esquema Ponzi sobre o qual se sustenta o sistema financeiro, o
Tesouro dos EUA está utilizando swaps, fornecendo dólares em troca
de moedas locais. O Federal Reserve é forçado a recorrer a algo que parece se
assemelhar a um novo quantitative easing, flexibilização
quantitativa que corre o risco de se estender para além do Golfo. A quantidade
de dinheiro necessária para a operação tornará o capitalismo financeiro ainda
mais frágil e imprevisível, sem ter resolvido nenhum dos problemas do declínio
do dólar.
Os
mercados de ações estadunidenses bateram todos os recordes durante esta guerra,
mas as crises vêm do mercado de dívida (das dívidas) e os juros devidos aos
credores não fazem senão aumentar. Do que se fala menos é que o produto mais
exportado pelos estadunidenses é o ouro (quase o dobro das exportações de
energia e de produtos farmacêuticos e duas vezes e meia mais que as de motores
aeronáuticos), que se dirige à China passando pela Suíça. A venda maciça desse
ativo refúgio e a direção que toma dizem muito sobre as relações de força
atuais. Desde o início da guerra no Irã, os pagamentos comerciais
internacionais que transitam pelo sistema chinês aumentaram vertiginosamente, o
que agrava ainda mais a futura crise do dólar. Trump parece não se preocupar
com a grave recessão que provocará seu bloqueio do Estreito de Ormuz (o aumento
dos preços se soma à escassez de combustíveis fósseis), convencido de que os
Estados Unidos se sairão melhor do que o resto do mundo. Mas os Estados Unidos
desmoronam sem o fluxo regular de capitais (e mercadorias) do exterior. Como em
toda talassocracia, o controle dos estreitos, passagem obrigatória para os
navios que transportam 80% das mercadorias mundiais, é fundamental. Também sob
esse ponto de vista, o poder estadunidense está diminuindo. Não é capaz de
abrir o Estreito de Ormuz e não controla Bab el-Mandeb. Preocupada, a
administração está acelerando a assinatura de novos acordos com os países que
compõem os Estreitos de Gibraltar e Malaca.
A
apropriação do petróleo iraniano deveria ter dado lugar a uma nova “divisão” do
poder mundial. As relações de força estão mudando em termos reais, mas não
necessariamente a favor dos Estados Unidos e de Israel. Os Emirados Árabes
Unidos se retiraram da OPEP, enquanto a Arábia Saudita está chegando a acordos
com o Irã e os Houthis. A guerra transformou o Irã em uma potência política na
Ásia Ocidental, o que é exatamente o oposto do objetivo almejado no início da
guerra. Assim como a guerra na Ucrânia consolidou as relações entre China e
Rússia, a guerra contra o Irã parece ter fortalecido os BRICS (a aliança entre
China, Irã e Rússia). A multipolaridade está se consolidando, reforçada pela
guerra, mas não se manifesta como uma simples competição entre potências; é
provável, em vez disso, que se tenha superado outro limiar, o que poderia levar
a uma aceleração da guerra mundial por partes. A China está começando a ficar
nervosa, respondendo com firmeza à estratégia estadunidense (Venezuela, Irã,
Guatemala, sanções contra suas refinarias, a vontade de reafirmar a América
Latina como o “quintal dos fundos”, etc.). O Partido Comunista Chinês será
forçado a reconhecer que o lema de Mao “um se divide em dois” volta a ser mais
atual do que o de Confúcio, “dois se recompõem em um” (“todos vivemos sob o
mesmo céu”). É possível um declínio pacífico e controlado do império
estadunidense?
Guerra,
finanças e combustíveis fósseis (e certamente a inteligência artificial)
constituem a última tentativa de preservar a hegemonia global estadunidense e
impor o projeto israelense em uma região estratégica. A guerra infinita dos
Estados Unidos, já não contra o terrorismo, mas contra os BRICS, está
transformando a Europa em uma Grande Ucrânia que, por ordem estadunidense, deve
se armar às custas de seu próprio Estado social para continuar a guerra contra
as “autocracias”. A administração militarizou tudo (o dólar, o acesso ao seu
mercado, os meios de pagamento, as comunicações, etc.), transformando a
economia em um regime de guerra. Se o Ocidente, sob a égide dos Estados Unidos,
perder esta batalha, após a da Ucrânia, seu declínio será acelerado. Aconteça o
que acontecer, esta guerra marcou definitivamente o fim da financeirização
baseada no dólar, condenou o capitalismo rentista (hipocritamente rotulado como
neoliberalismo e, portanto, como campeão da liberdade) e pôs fim à globalização
liderada pelos Estados Unidos. O projeto de transformar os Estados Unidos no
cérebro (estratégico e especulativo) e a Ásia no braço (produtivo e
subordinado), uma variante do colonialismo clássico, fracassou. Esses processos
são irreversíveis e as guerras ocidentais só podem retardá-los ou acelerá-los. As
modalidades de depredação, conquista e afirmação política por meio da força
armada se encarnam em Gaza, onde o ato de “tomar”, isto é, o genocídio, o
colonialismo, a supremacia branca e a violência armada, é levado ao extremo.
Gaza é agora o modelo tático de guerra adotado pelos Estados Unidos e Israel em
todos os conflitos que travam no mundo. A operação “Board for Peace” para a
“divisão imobiliária” em Gaza deveria ser o núcleo de uma nova ordem mundial,
cuja primeira ação significativa pela paz é uma nova guerra. O isolacionismo de
Trump, em apenas um ano, levou ao bombardeio de oito países, confirmando assim
a impossibilidade de os Estados Unidos se retirarem para sua própria esfera de
influência (o “grande espaço”), embora esta abranja o mundo ocidental por
completo.
A
Terceira Guerra Mundial em curso está pondo fim à ordem mundial surgida da
Segunda. Já não tem a forma que teve na primeira metade do século XX, mas se
estende no tempo e no espaço (uma descontinuidade espaço-temporal, uma “guerra
mundial fragmentada” segundo a definição papal). Se se centralizar no tempo e
no espaço, corre o risco de degenerar em um conflito nuclear. A guerra civil
global, mesmo em sua nova forma, continua sendo a matriz da ação política. O
que se depreende como fundamental desta análise da situação atual é o seguinte:
o capitalismo é um confronto entre forças, um campo de oposições e hostilidades
radicais. Antes de ser uma economia, um modo de produção, o capitalismo é uma
estratégia. Encontramos confirmação desta nossa concepção em Fernand Braudel. O
capitalismo tem a capacidade de “monitorar incessantemente a situação para
poder intervir nela”, sabendo “conhecer e poder escolher o campo de ação […] é
precisamente a capacidade de criar uma estratégia e manejar os tempos para
mudá-la que define a superioridade capitalista”. O capitalismo não se
desenvolve por fases (mercadorias-troca, indústria, finanças), como acreditava
Marx, porque “nasceu financeiro”, e sua força reside justamente na capacidade
estratégica “de passar quase instantaneamente de uma forma a outra, de um setor
a outro, em caso de crise grave ou de forte diminuição das taxas de lucro”. No
último século e meio, o capitalismo passou do capitalismo industrial para a
hegemonia do capital financeiro na virada dos séculos XIX e XX; entre 1945 e
1970 voltou a ser dominantemente industrial, para retornar, após 1970, às
finanças. Hoje em dia, as decisões estratégicas já não podem ser tomadas com
tanta facilidade, porque não existe uma hegemonia unilateral; os BRICS o
impedem, enquanto o capitalismo financeiro estadunidense se encontra em uma
situação de superperformance da especulação, presságio de uma nova crise
sistêmica.
A
teoria de Braudel nos oferece a possibilidade de compreender um grande problema
estratégico, que está na origem da derrota histórica do movimento operário e da
revolução. Marx diz que é necessário abandonar a esfera do mercado para
adentrar os segredos da produção, em cujo limiar está escrito: “No admittance
except on business” (Proibida a entrada salvo por negócios). Braudel, por sua
vez, aconselha abandonar o mercado para penetrar nos arcanos das finanças, onde
a produção não passa de uma oportuna ocasião para mandar e especular. O
problema: no primeiro caso, dentro da produção estão os operários que podem
bloqueá-la; no segundo caso, estão apenas os capitalistas e o Estado, o que
lhes permite romper o “compromisso” com o movimento operário, cuja força
depende da indústria, e organizar a secessão dos ricos. É imprescindível
elaborar uma estratégia para esta nova situação, mas ainda não conseguimos
fazê-lo.
Na
segunda parte do livro, perguntamo-nos precisamente sobre este problema
estratégico: por que não se vê nenhuma revolução no horizonte, apesar de
existirem condições objetivamente favoráveis? No centro da resposta, difícil de
formular, há, talvez, três problemas principais: a questão do poder, a questão
da multiplicidade do proletariado e a questão do saber estratégico. Esses três
problemas convergem no problema: a natureza do conflito revolucionário e sua
organização. A teoria crítica e os novos movimentos posteriores a 1968 tendem a
se concentrar no ciclo de acumulação do capital, ampliando a perspectiva
marxista, já que, ao lado da exploração da classe operária, abordam a
exploração e o domínio sobre as mulheres, sobre os colonizados racializados,
sobre a “terra”, embora deixando de lado o ciclo estratégico da revolução e do
poder. Este último se dá como força que, ao mesmo tempo, alimenta e supera
essas formas de domínio e de exploração porque funciona como poder global, como
“totalidade dividida” ou “impossível”. Dividida, porque o conflito a atravessa
constantemente; impossível, porque busca continuamente a totalização sem nunca
chegar a realizá-la, sempre impedida pelas oposições entre Estados ou pelos
diversos componentes do proletariado. O exercício desse poder global é duplo:
interno, contra o proletariado, e externo, contra outros Estados. Os que
disputam a hegemonia são já apenas os grandes Estados cuja soberania é exercida
sobre grandes espaços.
Ao
separar poder e violência (Arendt, Weil, Foucault, etc.), o pensamento crítico
reduz o primeiro a “governança”, a “poder brando”. Pelo contrário, seja qual
for a modalidade que adote, o poder é sempre inseparável do uso da força, da
ação militar dirigida para o interior do Estado (monopólio legítimo da força,
polícia) ou para o exterior (enfrentamento imperialista). A máquina
Capital-Estado é, desde o século XV, imperialista porque, desde então, se
caracteriza pela exportação de capitais. Samir Amin acrescenta que sempre foi
imperialista por ser desde sempre colonialista.
Segundo
problema: a multiplicidade do proletariado e de suas formas de luta fica sempre
presa nesses dualismos. É capturada pelas diversas hierarquias de exploração e
de domínio e pelos dualismos do exercício global do poder. Pensar em “fazer a
multiplicidade” sem destruir não apenas os dualismos homem/mulher,
brancos/racializados, patrão/trabalhador, mas também os dualismos globais
(internos e externos) é a grande ingenuidade do pensamento crítico e dos
movimentos surgidos após 68. E aqui voltamos ao início do texto. Ainda hoje é
impossível produzir uma mudança significativa, fundar uma nova ordem
político-econômica, sem “expropriar os expropriadores”. Não se trata de repetir
ritualmente a fórmula marxiana, mas da consciência de que não é crível propor,
como se fez nos últimos cinquenta anos, instalar o comum, fazer proliferar as
diferenças, produzir formas de vida, praticar o êxodo, inventar linhas de fuga
sem passar pelo “tomar”.
Não se
distribui sem tomar (ilusão dos socialistas que lutam por uma distribuição mais
justa), como tampouco se deve confiar no desenvolvimento da produção (ilusão
dos economicistas, entre os quais se contam os marxismos ocidentais), solução
inadequada porque o aumento das forças produtivas se dá aceitando as relações
de poder estabelecidas pela sucessão das acumulações primitivas, que impõem,
uma e outra vez, quem manda (eles) e quem obedece (nós). A expropriação da
“apropriação financeira” que acumulou riquezas astronômicas, concentradas em
pouquíssimas mãos, conduzida por predadores cujo modelo é a camarilha montada
por Epstein (predador ao mesmo tempo financeiro, sexual e profundamente
racista, expressão paradigmática dos padrões do capitalismo rentista) é a
condição indispensável para qualquer mudança. Assim nos deparamos com os
indivíduos celebrados pelo liberalismo, mas à frente de imensas concentrações
monopolistas de riqueza e poder, favorecidas e construídas por instituições
como o mercado e a concorrência, que funcionam exatamente ao contrário do que
nos conta a ideologia neoliberal e ordoliberal. A depredação financeira, se
deixada por conta própria, é tão massiva e invasiva que não pode senão
desembocar na destruição econômica, moral, social e ambiental, e na
autodestruição do próprio capitalismo.
A
expropriação produzida pelas diversas revoluções do século XX é o resultado de
uma estratégia, terceiro problema, capaz de organizar e gerir a força, já que
se trata de um ato que não pode ser negociado, mas apenas imposto. Ter uma
estratégia significa, principalmente, duas coisas. Em primeiro lugar, começar a
distinguir entre ciclo de acumulação e ciclo estratégico. O primeiro compreende
as relações de poder capitalista/operário, homem/mulher, branco/racializado. O
segundo, as lutas e a organização para a destruição do poder global interno
(guerra civil aberta ou subterrânea) e externo (imperialista). Entre ambos
existe uma relação de continuidade, mas também de ruptura, de descontinuidade.
A passagem do ciclo de acumulação para o ciclo da revolução constitui
precisamente o objeto do saber estratégico, hoje completamente anulado porque a
tradição revolucionária do século XX, que marcou o início do fim do
colonialismo e do Ocidente, em vez de ser objeto de um balanço crítico (as
revoluções foram feitas pelos camponeses e não pelos operários, já que as
forças produtivas eram as menos desenvolvidas, etc.), foi, apesar de constituir
a única experiência de grandes estratégias do lado proletário, simplesmente
rejeitada. Em segundo lugar, estratégia significa também gestão da relação
entre acontecimento e processo, capacidade de encadear a ruptura instantânea
(revolta, tumulto, insurreição) e o tempo mais longo da acumulação da força e
da desestabilização e desestruturação do poder. Há cinquenta anos, voltamos a
cair na época das meras revoltas, no tempo das derrotas sem futuro, dos
proletários sem revolução. Os únicos que conservaram e transmitiram com zelo
seu pensamento estratégico e seu ódio de classe foram nossos inimigos e por
isso vencem e continuarão vencendo (ou se autodestruindo). Sem a invenção de um
novo ciclo estratégico da revolução, nosso destino é a servidão. O pensamento
crítico, mas também os movimentos feministas, decoloniais, ecológicos e o que
resta do movimento operário, agem como se a nova ordem desejada não tivesse
como premissa o tomar e o dividir e, portanto, a organização para impô-los. O
poder sexual, racial e econômico do homem branco é inseparável do ciclo
estratégico do capital e de seu uso da força. Mais ainda, a continuidade dessas
formas de poder sobre os corpos encontra seu pleno exercício nas classes que
gerem o poder global.
A
subjetivação não pode limitar-se a ser ética (cuidado de si, diferenciação das
subjetividades, práticas de liberdade, relação consigo mesmo, etc.), porque
deve mover-se entre o ciclo da acumulação e o ciclo estratégico, entre a
continuidade e a descontinuidade das duas modalidades de subjetivação:
subjetivação contra o poder econômico, sexual e racial, e subjetivação
estratégica contra os poderes globais.
A
realidade do enfrentamento de classes imperialista nos impõe esta verdade: o
capitalismo não é apreensível nem através do “único” da transcendência
hobbesiana, nem através da “multiplicidade” spinozista da imanência. Sua
primeira realidade é o duplo: a divisão, a polaridade, a oposição, a
hostilidade. A condição para retomar um discurso e uma prática de ruptura é
pensar e organizar as relações entre o duplo e a multiplicidade em vez de
opô-los, com o propósito, objetivamente “irrealista”, por enquanto, de
construir uma estratégia política que tenha em conta os três verbos com os
quais começamos, tomar, dividir, produzir, e o fato de que estes constituem a
política do capitalismo financeiro. A racionalidade irracional do capitalismo
implica formas de subjetivação que nos períodos de “acumulação primitiva” se
chamam Hitler, Mussolini, Trump, Milei e a classe dirigente de Epstein. No
capitalismo, a loucura é, como a guerra, estrutural. O único limite real dessa
vontade de potência destrutiva e autodestrutiva foi a revolução. Uma vez
derrotada, a lógica racional irracional se desdobrou sem nenhum obstáculo. A
revolução impossível é uma necessidade vital que até os ecologistas deveriam
ser capazes de compreender.
Fonte:
Por Mauricio Lazzarato - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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