segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Por que a guerra e não a revolução?

Carl Schmitt, a quem Paolo Virno definia como “o Lênin da burguesia”, descreve, em um breve escrito, o fundamento e o desenvolvimento de toda ordem política, econômica e social por meio de três verbos: tomar/dividir/produzir. Seu pressuposto é a apropriação violenta de recursos materiais e de seres humanos. O modelo é, sem dúvida, a acumulação primitiva de Marx, amplamente citada, que explica a origem “oculta” do capitalismo: predação, rapina, saque de terras, de matérias-primas, de riquezas acumuladas por outras civilizações, apropriação dos corpos de camponeses e mulheres na Europa, e dos corpos “indígenas” no resto do mundo. Nessa apropriação/expropriação, o papel do Estado, em sua dupla forma de poder político-militar e poder econômico (função da dívida pública, diz Marx), é determinante. Esses dois conceitos são inseparáveis, razão pela qual se deve falar da máquina Estado-Capital. É necessário lembrar sempre que o Estado moderno nasce das guerras civis, para encerrá-las ou para impedi-las, função à qual nunca renunciou. Com uma violência inaudita, realiza-se então a divisão sobre aquilo que foi apropriado/expropriado, depredado, separando proprietários e não proprietários que a produção pressupõe, mas não explica. A tomada e a repartição instauram processos de constituição das classes dos explorados e das classes dirigentes (a burguesia, que substitui a aristocracia feudal, e o proletariado, que substitui os camponeses) e, portanto, de imposição da relação de capital. Esse fato prevê uma multiplicidade de relações de poder que são, em sua totalidade, dualismos, hierarquias entre quem manda e quem obedece: capitalistas/operários, homens/mulheres, brancos/racializados. Somente após o sucesso da guerra civil e de conquista a produção pode ser posta em marcha. É por isso que não se deve começar a análise do capitalismo pela produção de mercadorias, mas pelas classes e pela divisão entre proprietários e não proprietários. Ora, o “surpreendente” é que essa não é a descrição de um passado remoto compreendido entre os séculos XV e XVIII, mas o que a administração estadunidense vem fazendo há alguns anos. Como sempre na acumulação primitiva que se repete, tomar é o primeiro passo da estratégia: apropriar-se dos recursos monetários e materiais dos Estados vassalos mediante ameaça, intimidação e chantagem, como fazem todas as boas máfias: bilhões de dólares arrancados por extorsão da Europa, Japão, Coreia do Sul, Arábia Saudita, Índia, com tarifas, promessas de aquisição de matérias-primas estadunidenses (energia) ou investimentos futuros a serem realizados nos Estados Unidos.

A ordem jurídica e econômica que os próprios estadunidenses haviam imposto nos anos setenta do século passado (estado de exceção planetário fundado sobre as leis especiais daquela década, outra grande fase de acumulação primitiva e de guerra civil ocidental completamente apagada da memória) é suspensa; o que conta é apenas a força econômica, política, mas sobretudo a força armada. O direito e as normas sociais serão instituídos depois, quando se estabelecer uma nova “normalidade” e o vencedor os impuser aos vencidos. Enquanto se toma, se expropria, se rouba, se deve dividir; enquanto se combate os Estados não submetidos, os BRICS, a estratégia da administração estadunidense deve destruir as velhas classes e produzir outras novas (neutralizar, dividir, dominar o proletariado e gerar um confronto sem quartel dentro das elites estadunidenses, entre globalistas, neoconservadores, isolacionistas, etc.). Quando Trump convocou oitocentos dos oficiais mais importantes do exército dos EUA, disse claramente que deveriam se preparar para a luta contra o inimigo interno. Algo que foi posto em prática imediatamente em Minneapolis. E aqui reencontramos as três guerras de conquista e de apropriação dos corpos próprias da acumulação primitiva: guerras raciais (contra os imigrantes e os não brancos), de gênero (contra a “cultura woke”) e de classe (apesar da retórica pró-operária de Trump, favorece-se por todos os meios os super-ricos, os monopólios e as finanças). Então o Estado desempenha um papel fundamental como centro de coordenação e composição dos distintos centros de poder, com o objetivo de salvar o capitalismo (o dólar), sobrecarregado pela acumulação de dívidas insustentáveis (públicas, privadas, financeiras) e pela emergência dos BRICS e de suas economias que pretendem se libertar do dólar. O resultado dessa estratégia política deve ser a reindustrialização, o que confirma mais uma vez que “a produção” vem depois que tenham sido estabelecidas, pela força, relações de poder entre Estados e relações de poder com o proletariado (tanto interno quanto internacional). A depredação da guerra comercial (tarifas, imposição de investimentos nos Estados Unidos, etc.) é insuficiente sequer para estabilizar minimamente as diversas dívidas estadunidenses, dado que o maior peso (90%) é suportado pelas empresas e pelos consumidores dos Estados Unidos.

A consequência direta dessa situação é a guerra contra o Irã. A energia fóssil e o problema da desdolarização do mercado de energia (que se compra e se vende sem passar pelo dólar) são os objetivos principais. Tomar o controle (trata-se sempre de “tomar” pela força) da extração e da circulação mundial do petróleo e gás (Venezuela, Nigéria, Irã, etc.) para enfraquecer a China, alimentar as sempre instáveis bolhas financeiras, servir de base para a montanha de dinheiro especulativo, tentar deter a fuga do dólar como moeda de troca (até as monarquias do Golfo preferem o ouro, e as bombas também servem para “convidá-las” a voltar aos petrodólares). O objetivo monetário e financeiro fixado no início de maio não foi alcançado; pelo contrário, as monarquias do Golfo não são capazes de manter em funcionamento o circuito do petrodólar porque precisam de dólares para reparar os danos causados pelos mísseis iranianos e, portanto, já não podem investi-los nos Estados Unidos. Para impedir que as petromonarquias vendam títulos estadunidenses, com o risco de derrubar o esquema Ponzi sobre o qual se sustenta o sistema financeiro, o Tesouro dos EUA está utilizando swaps, fornecendo dólares em troca de moedas locais. O Federal Reserve é forçado a recorrer a algo que parece se assemelhar a um novo quantitative easing, flexibilização quantitativa que corre o risco de se estender para além do Golfo. A quantidade de dinheiro necessária para a operação tornará o capitalismo financeiro ainda mais frágil e imprevisível, sem ter resolvido nenhum dos problemas do declínio do dólar.

Os mercados de ações estadunidenses bateram todos os recordes durante esta guerra, mas as crises vêm do mercado de dívida (das dívidas) e os juros devidos aos credores não fazem senão aumentar. Do que se fala menos é que o produto mais exportado pelos estadunidenses é o ouro (quase o dobro das exportações de energia e de produtos farmacêuticos e duas vezes e meia mais que as de motores aeronáuticos), que se dirige à China passando pela Suíça. A venda maciça desse ativo refúgio e a direção que toma dizem muito sobre as relações de força atuais. Desde o início da guerra no Irã, os pagamentos comerciais internacionais que transitam pelo sistema chinês aumentaram vertiginosamente, o que agrava ainda mais a futura crise do dólar. Trump parece não se preocupar com a grave recessão que provocará seu bloqueio do Estreito de Ormuz (o aumento dos preços se soma à escassez de combustíveis fósseis), convencido de que os Estados Unidos se sairão melhor do que o resto do mundo. Mas os Estados Unidos desmoronam sem o fluxo regular de capitais (e mercadorias) do exterior. Como em toda talassocracia, o controle dos estreitos, passagem obrigatória para os navios que transportam 80% das mercadorias mundiais, é fundamental. Também sob esse ponto de vista, o poder estadunidense está diminuindo. Não é capaz de abrir o Estreito de Ormuz e não controla Bab el-Mandeb. Preocupada, a administração está acelerando a assinatura de novos acordos com os países que compõem os Estreitos de Gibraltar e Malaca.

A apropriação do petróleo iraniano deveria ter dado lugar a uma nova “divisão” do poder mundial. As relações de força estão mudando em termos reais, mas não necessariamente a favor dos Estados Unidos e de Israel. Os Emirados Árabes Unidos se retiraram da OPEP, enquanto a Arábia Saudita está chegando a acordos com o Irã e os Houthis. A guerra transformou o Irã em uma potência política na Ásia Ocidental, o que é exatamente o oposto do objetivo almejado no início da guerra. Assim como a guerra na Ucrânia consolidou as relações entre China e Rússia, a guerra contra o Irã parece ter fortalecido os BRICS (a aliança entre China, Irã e Rússia). A multipolaridade está se consolidando, reforçada pela guerra, mas não se manifesta como uma simples competição entre potências; é provável, em vez disso, que se tenha superado outro limiar, o que poderia levar a uma aceleração da guerra mundial por partes. A China está começando a ficar nervosa, respondendo com firmeza à estratégia estadunidense (Venezuela, Irã, Guatemala, sanções contra suas refinarias, a vontade de reafirmar a América Latina como o “quintal dos fundos”, etc.). O Partido Comunista Chinês será forçado a reconhecer que o lema de Mao “um se divide em dois” volta a ser mais atual do que o de Confúcio, “dois se recompõem em um” (“todos vivemos sob o mesmo céu”). É possível um declínio pacífico e controlado do império estadunidense?

Guerra, finanças e combustíveis fósseis (e certamente a inteligência artificial) constituem a última tentativa de preservar a hegemonia global estadunidense e impor o projeto israelense em uma região estratégica. A guerra infinita dos Estados Unidos, já não contra o terrorismo, mas contra os BRICS, está transformando a Europa em uma Grande Ucrânia que, por ordem estadunidense, deve se armar às custas de seu próprio Estado social para continuar a guerra contra as “autocracias”. A administração militarizou tudo (o dólar, o acesso ao seu mercado, os meios de pagamento, as comunicações, etc.), transformando a economia em um regime de guerra. Se o Ocidente, sob a égide dos Estados Unidos, perder esta batalha, após a da Ucrânia, seu declínio será acelerado. Aconteça o que acontecer, esta guerra marcou definitivamente o fim da financeirização baseada no dólar, condenou o capitalismo rentista (hipocritamente rotulado como neoliberalismo e, portanto, como campeão da liberdade) e pôs fim à globalização liderada pelos Estados Unidos. O projeto de transformar os Estados Unidos no cérebro (estratégico e especulativo) e a Ásia no braço (produtivo e subordinado), uma variante do colonialismo clássico, fracassou. Esses processos são irreversíveis e as guerras ocidentais só podem retardá-los ou acelerá-los. As modalidades de depredação, conquista e afirmação política por meio da força armada se encarnam em Gaza, onde o ato de “tomar”, isto é, o genocídio, o colonialismo, a supremacia branca e a violência armada, é levado ao extremo. Gaza é agora o modelo tático de guerra adotado pelos Estados Unidos e Israel em todos os conflitos que travam no mundo. A operação “Board for Peace” para a “divisão imobiliária” em Gaza deveria ser o núcleo de uma nova ordem mundial, cuja primeira ação significativa pela paz é uma nova guerra. O isolacionismo de Trump, em apenas um ano, levou ao bombardeio de oito países, confirmando assim a impossibilidade de os Estados Unidos se retirarem para sua própria esfera de influência (o “grande espaço”), embora esta abranja o mundo ocidental por completo.

A Terceira Guerra Mundial em curso está pondo fim à ordem mundial surgida da Segunda. Já não tem a forma que teve na primeira metade do século XX, mas se estende no tempo e no espaço (uma descontinuidade espaço-temporal, uma “guerra mundial fragmentada” segundo a definição papal). Se se centralizar no tempo e no espaço, corre o risco de degenerar em um conflito nuclear. A guerra civil global, mesmo em sua nova forma, continua sendo a matriz da ação política. O que se depreende como fundamental desta análise da situação atual é o seguinte: o capitalismo é um confronto entre forças, um campo de oposições e hostilidades radicais. Antes de ser uma economia, um modo de produção, o capitalismo é uma estratégia. Encontramos confirmação desta nossa concepção em Fernand Braudel. O capitalismo tem a capacidade de “monitorar incessantemente a situação para poder intervir nela”, sabendo “conhecer e poder escolher o campo de ação […] é precisamente a capacidade de criar uma estratégia e manejar os tempos para mudá-la que define a superioridade capitalista”. O capitalismo não se desenvolve por fases (mercadorias-troca, indústria, finanças), como acreditava Marx, porque “nasceu financeiro”, e sua força reside justamente na capacidade estratégica “de passar quase instantaneamente de uma forma a outra, de um setor a outro, em caso de crise grave ou de forte diminuição das taxas de lucro”. No último século e meio, o capitalismo passou do capitalismo industrial para a hegemonia do capital financeiro na virada dos séculos XIX e XX; entre 1945 e 1970 voltou a ser dominantemente industrial, para retornar, após 1970, às finanças. Hoje em dia, as decisões estratégicas já não podem ser tomadas com tanta facilidade, porque não existe uma hegemonia unilateral; os BRICS o impedem, enquanto o capitalismo financeiro estadunidense se encontra em uma situação de superperformance da especulação, presságio de uma nova crise sistêmica.

A teoria de Braudel nos oferece a possibilidade de compreender um grande problema estratégico, que está na origem da derrota histórica do movimento operário e da revolução. Marx diz que é necessário abandonar a esfera do mercado para adentrar os segredos da produção, em cujo limiar está escrito: “No admittance except on business” (Proibida a entrada salvo por negócios). Braudel, por sua vez, aconselha abandonar o mercado para penetrar nos arcanos das finanças, onde a produção não passa de uma oportuna ocasião para mandar e especular. O problema: no primeiro caso, dentro da produção estão os operários que podem bloqueá-la; no segundo caso, estão apenas os capitalistas e o Estado, o que lhes permite romper o “compromisso” com o movimento operário, cuja força depende da indústria, e organizar a secessão dos ricos. É imprescindível elaborar uma estratégia para esta nova situação, mas ainda não conseguimos fazê-lo.

Na segunda parte do livro, perguntamo-nos precisamente sobre este problema estratégico: por que não se vê nenhuma revolução no horizonte, apesar de existirem condições objetivamente favoráveis? No centro da resposta, difícil de formular, há, talvez, três problemas principais: a questão do poder, a questão da multiplicidade do proletariado e a questão do saber estratégico. Esses três problemas convergem no problema: a natureza do conflito revolucionário e sua organização. A teoria crítica e os novos movimentos posteriores a 1968 tendem a se concentrar no ciclo de acumulação do capital, ampliando a perspectiva marxista, já que, ao lado da exploração da classe operária, abordam a exploração e o domínio sobre as mulheres, sobre os colonizados racializados, sobre a “terra”, embora deixando de lado o ciclo estratégico da revolução e do poder. Este último se dá como força que, ao mesmo tempo, alimenta e supera essas formas de domínio e de exploração porque funciona como poder global, como “totalidade dividida” ou “impossível”. Dividida, porque o conflito a atravessa constantemente; impossível, porque busca continuamente a totalização sem nunca chegar a realizá-la, sempre impedida pelas oposições entre Estados ou pelos diversos componentes do proletariado. O exercício desse poder global é duplo: interno, contra o proletariado, e externo, contra outros Estados. Os que disputam a hegemonia são já apenas os grandes Estados cuja soberania é exercida sobre grandes espaços.

Ao separar poder e violência (Arendt, Weil, Foucault, etc.), o pensamento crítico reduz o primeiro a “governança”, a “poder brando”. Pelo contrário, seja qual for a modalidade que adote, o poder é sempre inseparável do uso da força, da ação militar dirigida para o interior do Estado (monopólio legítimo da força, polícia) ou para o exterior (enfrentamento imperialista). A máquina Capital-Estado é, desde o século XV, imperialista porque, desde então, se caracteriza pela exportação de capitais. Samir Amin acrescenta que sempre foi imperialista por ser desde sempre colonialista.

Segundo problema: a multiplicidade do proletariado e de suas formas de luta fica sempre presa nesses dualismos. É capturada pelas diversas hierarquias de exploração e de domínio e pelos dualismos do exercício global do poder. Pensar em “fazer a multiplicidade” sem destruir não apenas os dualismos homem/mulher, brancos/racializados, patrão/trabalhador, mas também os dualismos globais (internos e externos) é a grande ingenuidade do pensamento crítico e dos movimentos surgidos após 68. E aqui voltamos ao início do texto. Ainda hoje é impossível produzir uma mudança significativa, fundar uma nova ordem político-econômica, sem “expropriar os expropriadores”. Não se trata de repetir ritualmente a fórmula marxiana, mas da consciência de que não é crível propor, como se fez nos últimos cinquenta anos, instalar o comum, fazer proliferar as diferenças, produzir formas de vida, praticar o êxodo, inventar linhas de fuga sem passar pelo “tomar”.

Não se distribui sem tomar (ilusão dos socialistas que lutam por uma distribuição mais justa), como tampouco se deve confiar no desenvolvimento da produção (ilusão dos economicistas, entre os quais se contam os marxismos ocidentais), solução inadequada porque o aumento das forças produtivas se dá aceitando as relações de poder estabelecidas pela sucessão das acumulações primitivas, que impõem, uma e outra vez, quem manda (eles) e quem obedece (nós). A expropriação da “apropriação financeira” que acumulou riquezas astronômicas, concentradas em pouquíssimas mãos, conduzida por predadores cujo modelo é a camarilha montada por Epstein (predador ao mesmo tempo financeiro, sexual e profundamente racista, expressão paradigmática dos padrões do capitalismo rentista) é a condição indispensável para qualquer mudança. Assim nos deparamos com os indivíduos celebrados pelo liberalismo, mas à frente de imensas concentrações monopolistas de riqueza e poder, favorecidas e construídas por instituições como o mercado e a concorrência, que funcionam exatamente ao contrário do que nos conta a ideologia neoliberal e ordoliberal. A depredação financeira, se deixada por conta própria, é tão massiva e invasiva que não pode senão desembocar na destruição econômica, moral, social e ambiental, e na autodestruição do próprio capitalismo.

A expropriação produzida pelas diversas revoluções do século XX é o resultado de uma estratégia, terceiro problema, capaz de organizar e gerir a força, já que se trata de um ato que não pode ser negociado, mas apenas imposto. Ter uma estratégia significa, principalmente, duas coisas. Em primeiro lugar, começar a distinguir entre ciclo de acumulação e ciclo estratégico. O primeiro compreende as relações de poder capitalista/operário, homem/mulher, branco/racializado. O segundo, as lutas e a organização para a destruição do poder global interno (guerra civil aberta ou subterrânea) e externo (imperialista). Entre ambos existe uma relação de continuidade, mas também de ruptura, de descontinuidade. A passagem do ciclo de acumulação para o ciclo da revolução constitui precisamente o objeto do saber estratégico, hoje completamente anulado porque a tradição revolucionária do século XX, que marcou o início do fim do colonialismo e do Ocidente, em vez de ser objeto de um balanço crítico (as revoluções foram feitas pelos camponeses e não pelos operários, já que as forças produtivas eram as menos desenvolvidas, etc.), foi, apesar de constituir a única experiência de grandes estratégias do lado proletário, simplesmente rejeitada. Em segundo lugar, estratégia significa também gestão da relação entre acontecimento e processo, capacidade de encadear a ruptura instantânea (revolta, tumulto, insurreição) e o tempo mais longo da acumulação da força e da desestabilização e desestruturação do poder. Há cinquenta anos, voltamos a cair na época das meras revoltas, no tempo das derrotas sem futuro, dos proletários sem revolução. Os únicos que conservaram e transmitiram com zelo seu pensamento estratégico e seu ódio de classe foram nossos inimigos e por isso vencem e continuarão vencendo (ou se autodestruindo). Sem a invenção de um novo ciclo estratégico da revolução, nosso destino é a servidão. O pensamento crítico, mas também os movimentos feministas, decoloniais, ecológicos e o que resta do movimento operário, agem como se a nova ordem desejada não tivesse como premissa o tomar e o dividir e, portanto, a organização para impô-los. O poder sexual, racial e econômico do homem branco é inseparável do ciclo estratégico do capital e de seu uso da força. Mais ainda, a continuidade dessas formas de poder sobre os corpos encontra seu pleno exercício nas classes que gerem o poder global.

A subjetivação não pode limitar-se a ser ética (cuidado de si, diferenciação das subjetividades, práticas de liberdade, relação consigo mesmo, etc.), porque deve mover-se entre o ciclo da acumulação e o ciclo estratégico, entre a continuidade e a descontinuidade das duas modalidades de subjetivação: subjetivação contra o poder econômico, sexual e racial, e subjetivação estratégica contra os poderes globais.

A realidade do enfrentamento de classes imperialista nos impõe esta verdade: o capitalismo não é apreensível nem através do “único” da transcendência hobbesiana, nem através da “multiplicidade” spinozista da imanência. Sua primeira realidade é o duplo: a divisão, a polaridade, a oposição, a hostilidade. A condição para retomar um discurso e uma prática de ruptura é pensar e organizar as relações entre o duplo e a multiplicidade em vez de opô-los, com o propósito, objetivamente “irrealista”, por enquanto, de construir uma estratégia política que tenha em conta os três verbos com os quais começamos, tomar, dividir, produzir, e o fato de que estes constituem a política do capitalismo financeiro. A racionalidade irracional do capitalismo implica formas de subjetivação que nos períodos de “acumulação primitiva” se chamam Hitler, Mussolini, Trump, Milei e a classe dirigente de Epstein. No capitalismo, a loucura é, como a guerra, estrutural. O único limite real dessa vontade de potência destrutiva e autodestrutiva foi a revolução. Uma vez derrotada, a lógica racional irracional se desdobrou sem nenhum obstáculo. A revolução impossível é uma necessidade vital que até os ecologistas deveriam ser capazes de compreender.

 

Fonte: Por Mauricio Lazzarato - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

 

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