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que restaurantes estão acabando com as gorjetas nos EUA
A
sommelier Caroline Kraetzer ganha US$ 40 (cerca de R$ 206) por hora, quase o
dobro do que recebe a maior parte dos profissionais do setor de serviços em São
Francisco, nos Estados Unidos.
O
restaurante em que ela trabalha, chamado La Cigale, cobra um valor fixo por
pessoa de US$ 140 (cerca de R$ 721) e faz parte de um pequeno grupo de
estabelecimentos que praticam preços mais altos para pagar salários melhores
sem aceitar gorjetas.
O local
informa aos seus clientes que "o que você vê é o que você paga. Não
aceitamos gorjetas. Suas palavras gentis e visitas futuras serão
suficientes."
Kraetzer
afirma que é bom não "depender mais da generosidade dos estranhos para
pagar as contas".
Ela
reconhece que atendentes em outros restaurantes podem ganhar muito dinheiro com
gorjetas, mas "você costuma chegar duas horas antes do serviço e,
novamente, quando você fecha, depois que os clientes forem embora. E você ganha
o salário base naquele período", explica ela.
O
debate em torno das gorjetas nos Estados Unidos é antigo e se deve a uma série
de particularidades do modelo de remuneração de quem trabalha em bares e
restaurantes no país.
Muitos
recebem um salário base (que nos EUA geralmente é calculado por hora de
trabalho) baixo, às vezes inferior ao valor do mínimo estadual ou federal,
considerando que as gorjetas que ganharem vão elevar a remuneração a um patamar
mais competitivo.
Normalmente
não há um percentual fixo sobre a conta, mas em grandes cidades como Nova York
ou São Francisco, por exemplo, o padrão para os clientes que consideram que
foram bem atendidos é deixar 20% do valor do que foi consumido como gorjeta.
Esse
modelo tem gerado uma série de discussões recentemente. De um lado, alguns
clientes se queixam de que a cultura americana de gorjetas foi longe demais e
hoje até totens de autosserviço abrem uma tela final para oferecer ao
consumidor a possibilidade de dar gorjeta.
De
outro lado, trabalhadores reclamam da falta de previsibilidade do salário e, no
caso especialmente das mulheres, de comportamentos inapropriados de clientes
que muitas vezes se veem inclinadas a tolerar por medo de não receberem gorjeta
no final do serviço.
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Justiça para os funcionários?
Do
outro lado dos Estados Unidos, Rachel Miller é a chef e proprietária do
Nightshade Noodle Bar na cidade de Lynn, em Massachusetts. Ela adotou o modelo
sem gorjetas cinco anos atrás, durante a reabertura do estabelecimento após a
pandemia de covid-19.
Sua
motivação foi criar um sistema mais justo para os funcionários da cozinha.
"As
pessoas se cansam e quebram a cabeça na cozinha", explica ela.
"Muitas
vezes, são as menos visíveis, menos celebradas e levam para casa uma fração do
que os funcionários da linha de frente ganham com gorjetas pelas mesmas horas
de trabalho."
Miller
conta que achava "profundamente inquietante" ver as gorjetas mais
altas irem para os funcionários homens brancos e gorjetas menores para os
demais empregados.
"As
gorjetas permitem que os clientes, conscientemente ou não, ofereçam pagamentos
diferentes às pessoas com base no gênero, raça ou sexualidade, e eu não estava
disposta a permitir que isso decidisse os ganhos da minha equipe."
Para
poder pagar salários mais altos aos seus funcionários, Miller aumentou os
preços do seu restaurante de cozinha franco-vietnamita.
Seu
menu degustação, agora, começa em US$ 102 (cerca de R$ 525) para sete pratos
antes das 18 horas e US$ 126 (cerca de R$ 649) para nove pratos.
"Nossos
preços são mais altos que os dos restaurantes similares porque incluem todo o
custo da remuneração adequada das pessoas", explica Miller. "Este é o
modelo que eu defendo."
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Falta de gorjetas pode aumentar os custos
Mas nem
todos os restaurantes que adotaram o modelo sem gorjetas conseguiram manter o
sistema.
O
restaurante Talulla, na cidade de Cambridge, também em Massachusetts, eliminou
as gorjetas em 2020 para poder pagar seus funcionários de forma mais
igualitária. Mas retornou ao sistema antigo em setembro do ano passado.
"Tentamos
manter nosso modelo sem gorjetas simplesmente aumentando os preços do cardápio
em 23%", conta uma das proprietárias, Danielle Ayer. "Mas só
conseguimos sustentar este sistema nos meses de inverno."
"Operar
um restaurante sem gorjetas, de forma geral, é mais caro", segundo ela.
Isso
ocorre porque as gorjetas não são contabilizadas na receita do restaurante, ao
contrário do aumento dos preços do cardápio. Ou seja, quando um estabelecimento
aumenta seus preços para pagar melhor seus funcionários, sua receita também
cresce e, com ela, o imposto sobre as vendas.
O
professor de gestão de alimentos e bebidas William Michael Lynn, da
Universidade Cornell, nos Estados Unidos, é o autor do livro The Psychology of
Tipping ("A psicologia das gorjetas", em tradução literal).
Para
ele, o problema dos restaurantes sem gorjetas é que os clientes têm dificuldade
de entender a matemática do sistema.
"Preços
mais altos no cardápio fazem com que o jantar pareça mais caro, pois as pessoas
não levam em consideração que não estão mais dando gorjetas", explica ele.
"Isso gera redução da demanda."
Em Nova
York, o restaurante vegetariano Dirt Candy foi um dos primeiros a eliminar as
gorjetas, em 2015.
"Eu
queria que fosse mais igualitário para todos", conta a chef e proprietária
do estabelecimento, Amanda Cohen. Ela agora paga aos seus funcionários cerca de
US$ 30 (R$ 155) por hora.
Cohen
afirma que muitos clientes "têm uma surpresa agradável quando percebem que
não precisam dar gorjetas de 20% do total da conta".
A
cineasta Cassidy Van der Kamp é a autora do documentário Tipless ("Sem
gorjeta", em tradução literal).
Disponível
no YouTube, a produção foi inspirada na sua própria experiência ao trabalhar em
um restaurante em Oakland, no Estado americano da Califórnia, que adotou o
sistema sem gorjetas.
Outros
atendentes se demitiram, mas Van der Kamp decidiu permanecer. Inicialmente, ela
ganhava cerca de US$ 10 (R$ 52) por hora mais gorjetas, e passou a receber US$
21 (cerca de R$ 108) por hora, após a mudança.
"Pela
primeira vez, tive estabilidade, pois sabia quanto estava ganhando... e não
precisava olhar para uma gorjeta pequena e ficar imaginando o que havia feito
de errado."
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'Cansaço de gorjetas'
Van der
Kamp gostou da mudança, mas Lynn afirma que um dos maiores desafios para mudar
o sistema é que pode ser difícil atrair e reter garçons que gostam de receber
gorjetas.
Mas vem
crescendo nos últimos tempos o chamado "cansaço de dar gorjetas". As
pessoas estão cada vez mais incomodadas por precisar pagar altas gratificações.
Será que isso poderá levar mais restaurantes a suspender esta prática?
"Apesar
do cansaço das gorjetas, não acho que elas serão eliminadas em larga escala em
breve, pois as desvantagens econômicas da sua eliminação superam as
vantagens", segundo Lynn.
De
volta ao Nightshade Noodle Bar, Miller não se arrepende da decisão. Para ela,
"a avaliação mais clara é que os funcionários permanecem".
"A
rotatividade neste setor é enorme e temos pessoas que estão aqui desde que
fizemos a mudança. Ela se mostrou muito bem recebida pelos clientes e pela
equipe."
Fonte:
BBC News

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