Machosfera:
Músculos, corações explosivos e mentes aflitas
A foto
no perfil do Instagram apresenta um corpo compacto, em que os bíceps
hipertrofiados saltam aos olhos – e parecem saltar até aos próprios braços,
tamanha a desproporção. A pele que os recobre parece que vai estourar de tão
esticada e as veias e tendões se destacam, formando um estranho desenho em 3D.
Se a imagem equivale à fisionomia de alguém real ou não, é algo que já não é
tão evidente. Com o desenvolvimento da Inteligência Artificial Generativa, as
fronteiras entre o que existe materialmente e o que se reduz ao universo
digital foram borradas – e, para uma parcela da sociedade, talvez nem se queira
mais delimitá-las. A busca por um corpo
ideal não é algo novo. Cada época da história teve seus padrões relativos ao
que é ou não desejável para os seres humanos do sexo masculino e feminino. O
terror do uso do espartilho pelas mulheres no período medieval, espremendo seus
abdômens para moldar uma cintura idealizada, demonstra que nem sempre esses
padrões eram minimamente saudáveis. No mundo capetalista, essa padronização
(que não precisa ser única e pode ter nichos junto a determinados públicos)
está atrelada não apenas ao poder e ao status, mas à geração de robustos
rendimentos financeiros, através de um mercado em constante mutação. Se uma pessoa que tem pernas grossas
desembolsa uma grana parruda para comprar produtos zero, na esperança de
“obter” pernas mais delgadas; e outra se mata no levantamento de peso porque
tem pernas delgadas e deseja o contrário, certamente “alguéns” estão lucrando
(e muito!) com o estímulo a essa insatisfação generalizada na sociedade. Existe
até quem lucre nas duas pontas, ganhando com a venda do que contribui para
gerar o problema e com a venda do que poderia atenuá-lo, como acontece
frequentemente na indústria química, que produz, ao mesmo tempo, o veneno
tascado na comida e o remédio para controlar seus efeitos horrorosos na saúde.
Voltando
à esfera do desejo, gerar descontentamento para vender a ilusão de saná-lo é um
pilar básico da sociedade de consumo. Nada como estimular a perseguição de um
ideal inatingível para manter pessoas comprando produtos, usando serviços e
sugando conteúdos midiáticos às toneladas. E isso é reforçado com a veiculação
da ideia de que não existe alternativa ao capetalismo, apesar de todas as suas
desgraças, e de que o colapso ambiental não poderá ser mitigado, mesmo se
mudarmos nossos hábitos. Com o fim do mundo chegando e o aprofundamento da
sensação de impotência para impedir sua chegada, para quê se preocupar com o
futuro, inclusive o do próprio corpo?
Cultivar o imediatismo não apenas impulsiona a produção e o consumo de
uma massaroca de coisas não duráveis, mas gera também um efeito ambíguo sobre a
própria percepção do cuidado consigo e com os demais. De um lado, há a busca
por se adequar a certos padrões e, para isso, é preciso transformar a própria
vida de forma acelerada, não importando muito as consequências a longo prazo
geradas pelas medidas tomadas. De outro, há um anseio por se destacar em meio a
uma massa de gente que persegue ideais semelhantes e se coloca em exposição
contínua nas redes internéticas. Nesse
redemoinho, a relação com a própria corporalidade fica sujeita a essas forças –
que são externas à sua constituição e ao seu ritmo biológico, e podem
violentá-la. Essa violência pode se estender para o entorno e acabar
repercutindo na esfera coletiva, como veremos mais para frente.
<><>
Crescendo e aparecendo
A visão
estereotipada do ideal de masculinidade na história da sociedade ocidental
sempre envolveu a presença da força. Homens precisam ser fortes, por dentro e
por fora, e ponto final. Isso significa que não podem manifestar seus
sentimentos livremente, reconhecer que estão errados, muito menos ficar em
posição considerada inferior à posição ocupada por mulheres. E essa fortaleza
deve ser materializada em um corpo grande e rígido, transbordando virilidade, o
que se traduz em músculos ultrabombados.
Se a percepção do tempo está dominada pela velocidade das novas
tecnologias – com seu rolar infinito das telas e sua simulação de realidades
fake -, não há espaço para processos lentos de transformação. Há que se forçar
braços e pernas a mostrarem uma musculatura volumosa logo, desconsiderando seus
processos naturais próprios e seus limites. Mas, como a maioria de nós está nas
cidades e não tem uma rotina de atividades que movimentam o corpo com vigor e
constância, a tendência é que nossos músculos experimentem justamente o
contrário, e se enfraqueçam. O caminho
encontrado pelos habitantes urbanos, para não enferrujar em frente aos
computadores ou nos bancos dos veículos de transporte para o trabalho, é
estabelecer um programa de exercícios físicos para encaixar na rotina. No caso
de quem quer ter um corpo com a musculatura hipertrofiada, o que se costuma
fazer é mesmo puxar ferro, seja em casa ou em uma academia. Disciplina,
constância e paciência são pré-requisitos básicos para obter resultados
positivos, algo que leva tempo – e não significa ficar igual ao influencer
seguido nas redes digitais.
Sabemos
que genética, condições sociais na infância, alimentação, sono e outros fatores
têm influência decisiva no processo de desenvolvimento físico e psicoemocional.
Além disso, há a biologia para botar limites na visão fantasiosa de quem quer
inflar os músculos de um dia para o outro, e ela já nos mostrou inúmeras vezes
que a natureza não funciona como o ser humano quer. Assim, vemos a todo
instante a frustração de quem acreditou no guru do momento e imaginou que
ficaria igual a ele apenas seguindo seu roteiro de maromba. E é aqui que um determinado mercado, que vem
estufando no ritmo que essas pessoas desejam que ocorresse com seus bíceps,
entra nessa história. Trata-se do mercado dos esteróides anabólico-androgênicos
(EAAs), compostos sintéticos ou naturais normalmente usados para repôr o
principal hormônio do corpo masculino, a testosterona. Em apenas 5 anos, as
vendas no Brasil aumentaram 670%, como mostra um levantamento feito pelo jornal
Valor junto à ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária); um salto de
cerca de um milhão (2018) para mais de 7 milhões (2023) desses medicamentos
comercializados legalmente.
Os
números podem estar bem abaixo da realidade porque as vendas de algumas das
empresas fabricantes não foram computadas. E há o que é produzido e
comercializado sem regulamentação em “laboratórios” improvisados, circulando em
um comércio clandestino online ou até nas próprias academias, inclusive nas
periferias, onde é chamado de “suco”.
Esse mercado em expansão atende à ânsia em obter resultados rápidos e à
vontade de chegar a um nível de hipertrofia que vai muito além do que é comum
na população – inclusive do que é comum em quem treina do modo chamado de
natural, ou seja, livre de EAAs. Só que o combo “crescer e aparecer” cobra um
preço salgado, em grana e em consequências complicadas para o organismo de quem
se joga nessa aventura.
<><>
Em algum lugar a bomba estoura
Todas
as vezes que o ser humano tenta forçar a natureza a sair de seu ritmo, ela
reage. Frequentemente, essa reação costuma ser bem diferente da que era
desejada – e lidar com ela torna-se um novo desafio. Estamos vendo isso em
nossa relação com o ambiente planetário, já que ele nos mostra inegavelmente
que nossa pegada ecológica (inflada pelo estilo de vida dos bilionários) é
insustentável, e que desacelerar a extração dos chamados recursos naturais é
inevitável para sobrevivermos como espécie.
Exigir que um determinado lote de terra produza mais (e mais velozmente)
do que seria produzido naturalmente, não importando os danos ao seu equilíbrio,
é a base do modelo imposto pelo Ogronegócio. A plantação, feita com sementes
geneticamente modificadas, é entupida de fertilizantes químicos e de
agrotóxicos, para que as espécies escolhidas se desenvolvam exponencialmente,
eliminando as demais. O resultado está
aí: empobrecimento do solo, perda da biodiversidade, aumento da resistência por
parte do que se considera praga, contaminação e adoecimento. É apenas com o
aumento do uso desses produtos, a expansão de suas fronteiras e a absorção de
musculosos subsídios governamentais que o sistema se mantém, permitindo a
exportação de 132,8 milhões de toneladas só de soja em 2025, novo recorde
histórico.
Em
relação aos elementos ingeridos ou injetados no território íntimo que é o corpo
humano, existe a mesma tendência de gerar desequilíbrio quando se quer forçá-lo
a adquirir uma condição irreal para sua constituição. Não foram poucos os casos
de pessoas que perderam a vida, ao se lançarem em processos radicais de
transformação, como cirurgias plásticas e dietas restritivas. No caso de
anabolizantes, podemos dar uma olhada no que acontece com fisiculturistas de
elite.
Enquanto
práticas regulares de musculação e de outras atividades físicas estão
relacionadas a uma melhor condição de saúde, o comportamento extremo de pessoas
adeptas do fisiculturismo está ligado ao aumento de problemas no organismo e
até à diminuição da expectativa de vida. Atingir um tamanho agigantado e uma
força descomunal exige o consumo intenso desses esteróides e de muitas outras
substâncias, como diuréticos e estimulantes, sobretudo quando o tempo é curto.
Uma das
consequências já muito bem documentada desse uso é a sobrecarga cardiovascular.
Sofrer um ataque cardíaco aos 30 anos
não é algo que gera surpresa na classe médica quando se trata de “atletas”
desse setor. Recentemente, o caso da morte de um jovem de 22 anos (que tinha
mais de um milhão de seguidores/as e era referência no setor marombado) deu
visibilidade a esse debate, que costuma se desenrolar sem ecoar fora do seu
circuito. No entanto, o conhecimento
sobre esse drama não deu as caras hoje. Já em 2000, a Revista Internacional de
Medicina Esportiva publicou um estudo com dados alarmantes. Em um período de 12
anos, o índice relativo à mortalidade constatado foi de 12,9% para os
levantadores de peso acompanhados pela pesquisa. É quatro vezes maior ao que
foi obtido em relação ao grupo de controle, formado por não
fisiculturistas.
Outro
amplo levantamento, registrado na revista JAMA em 2024, analisou usuários de
EAAs por 11 anos e comparou os dados encontrados com os de não usuários. A
mortalidade em geral de quem fez uso dessas substâncias foi cerca de 2,8 vezes
maior que a do restante. E esse número aumenta para 3,6 vezes, quando
comparamos apenas a mortalidade associada a suicídios, homicídios e acidentes,
fatores relacionados a desequilíbrios psíquicos. Assim, é possível perceber que
além dos próprios usuários, outras pessoas também são afetadas por esse uso
indevido, já que podem ser vítimas de confrontos violentos provocados por
eles. O mantra entoado por quem acha
que se trata de uma escolha pessoal – “cada um faz o que quiser consigo mesmo”
– cai por terra quando vemos que as consequências não se restringem aos
territórios corporais de quem usa esteróides. Além disso, há o impacto na saúde
pública, que terá que atender aos problemas físicos e mentais vivenciados por
esse público. E, dada a identificação de muitos desses usuários com ideologias
reacionárias, a bomba pode estourar no colo das mulheres.
<><>
Pau nas diferenças
O
recrudescimento da misoginia e do feminicídio nos últimos anos é expressivo. O
velho ódio ao sexo feminino tem surfado na onda dos ideais de ultra-direita que
tomaram boa parte do mundo, sobretudo os EUA – país cujo Ministério da Guerra
anda vetando a liderança de mulheres e pretende implantar um programa para
reforçar a testosterona dos integrantes de suas forças armadas, de modo a
aumentar sua agressividade e, claro, a grana na conta da Big Pharma. Acusadas de mentirosas, manipuladoras,
interesseiras, destruidoras da família tradicional e dos bons costumes, nós
mulheres devemos ser postas no cabresto, nem que seja na base da porrada. Tudo
o que conquistamos (e sabemos bem o preço pago pelas conquistas e o quanto
ainda falta para conquistar) teria que ser retirado de nós, para que o
patriarcado voltasse a exibir quadríceps avantajados, restaurando a ordem e a
moralidade perdidas.
As
frustrações provocadas por um modelo econômico que promete maravilhas (como as
mostradas nas redes virtuais) e distribui pedradas (como trabalho precário,
serviços desestruturados por privatizações e profunda insegurança em relação ao
espaço e ao tempo em que se vive) são canalizadas para alvos convenientes ao
sistema. Entre eles, encontramos o corpo feminino. Historicamente visto como mais fraco e mais
“ligado ao pecado”, ele pode e deve ser controlado pelos homens, sobretudo
pelos considerados grandes, como os musculosos, ricos e famosos que se destacam
como influencers. Desse modo, os anabolizantes que povoam a machosfera fazem
parte de um movimento de negação a tudo que pode ser considerado manifestação
de fraqueza – caraterística que seria exclusivamente feminina, física e
emocionalmente falando, incluindo a parte que é referente ao caráter.
No
circuito de machos bombados, seja em que estágio a pessoa estiver (e pode ser
apenas o do desejo de pertencer a ele), o que é valorizado é a grandeza. Alguém
grande deve ser entendido como um homem ultra musculoso, ultra (re)conhecido,
ultra rico e ultra bem sucedido em tudo, incluindo suas relações com as
mulheres, com os negócios e com o mundo plataformizado. Nesse sentido, atingir
a grandeza é poder ter (e demonstrar que se tem) uma vida identificada como a
ideal pelo macho alfa contemporâneo, aquele que é vencedor – ou melhor, aquele
que é invencível (e imbrochável!). O
processo de construção desse ideal de ser humano traz na sua rabeira a
intolerância com quem não segue seus passos. Não são apenas as mulheres que são
discriminadas, mas também a comunidade LGBT+ e os povos tradicionais, cujos
corpos-territórios não se encaixam na estética masculina preconizada. Se os
bombados são os vencedores, essas outras pessoas são vistas como as perdedoras
– ou losers, em língua de gringo.
Uma das
características do fascismo é desumanizar quem é diferente. Ao ser coisificado,
um ser pode ser atacado e destruído sem remorsos. Se pensarmos nestes tempos de
multiplicação de agentes de IA, com quem se pode interagir sem o menor cuidado
ou respeito, há um impulso para o desenvolvimento de relações desumanizadoras,
que podem se estender aos seres humanos de carne e osso. Por isso, e voltando
ao tratamento dado às mulheres, é bom prestar atenção no modo como muitos
homens másculos “falam” com suas Alexias ou suas Siris, assistentes virtuais
submissas aos seus comandos. Quando
alguém acha que seu tamanho e sua fama dão aval para que possa acelerar carrões
caríssimos, provocar acidentes e colocar a vida alheia em risco, tornar-se um
modelo para uma juventude emocionalmente vulnerável, através de canais com
milhões de seguidores/as, é alimentar uma sociedade perturbada, competitiva e
autoritária. Todos/as perdemos com isso.
<><>
Explode coração
Em
2023, o Conselho Federal de Medicina decretou a proibição do uso de
anabolizantes para fins estéticos, já que é impossível assegurar as condições
de saúde de pacientes que fazem uso deles sem necessidade clínica. Quem resolve insistir no uso inadequado, têm
aumentados os riscos das seguintes tretas: queda de cabelo, acne, trombose,
embolia, elevação do colesterol ruim (LDL); redução do colesterol bom (HDL),
resistência à insulina, insuficiência renal, diabetes tipo 2, ginecomastia,
hepatite medicamentosa, cirrose, infarto e AVC. E vale destacar, ainda, a
diminuição da fertilidade, algo que deveria ser caro aos que tanto cultuam a
virilidade. Portanto, as alterações estéticas almejadas pelos usuários são
acompanhadas de alterações no organismo como um todo, principalmente em alguns
órgãos vitais.
Um dos
efeitos físicos mais característicos de quem abusa dessas substâncias é a
hipertrofia ventricular: o aumento do tamanho do coração (ele pode mais que
dobrar de peso e ficar próximo ao tamanho do coração de uma anta, maior
mamífero terrestre nativo). Como os demais músculos do corpo, quando está sob à
ação de esteroides, ele sofre um estímulo para crescer e se torna mais espesso
e endurecido, dificultando o bombeamento do sangue. E o problema não atinge só
quem usa por muito tempo, já que as deficiências cardiovasculares podem ser
sentidas a partir da quarta semana de utilização. O processo é ainda mais traiçoeiro porque
engana suas vítimas. Elas costumam se sentir mais dispostas, vigorosas e
energizadas, enquanto o órgão vai sendo atacado. No momento em que os sintomas
(como dores no peito, dificuldades respiratórias e até desmaios) começam a ser
percebidos, é comum os danos já estarem em um estágio muito difícil de
reverter. Vale lembrar que uma outra impossibilidade de reversão ocorre com a
produção natural de testosterona, que cairá abaixo do que seria normal, caso se
interrompa o uso (questão sensível para quem se apresenta como
imbrochável). Além disso, o estrago pode
ser ampliado da esfera individual para a coletiva porque muitas das pessoas
usuárias costumam postar seus feitos nas redes virtuais, transmitindo uma ideia
de saúde totalmente inconsistente para quem as admira e deseja seguir seus
passos. Ao menos até que seus corações “explodam” no peito mega turbinado e,
por um curto tempo, um alarme soe na mídia do setor, logo perdido nos feeds
controlados pelas Big Techs.
Considerando
que o órgão é simbolicamente associado ao amor e à generosidade, fica parecendo
um contra senso que pessoas narcisistas, competitivas e intolerantes (como boa
parte da machosfera marombada) possam ter um “coração enorme”. Mas a verdade é
que, à medida que ele cresce, começa a perder sua elasticidade, dificultando o
relaxamento necessário ao processo do batimento. Essa inflexibilidade física
pode ser um símbolo mais coerente em relação à inflexibilidade
psicoemocional/ideológica de quem desfila seus egoísmos e preconceitos em
perfis seguidos por uma trempe de garotos ansiosos por referências de homens
bem sucedidos. Mas, se voltarmos à
questão do tamanho ampliado do órgão, talvez o que esteja ocupando esse “espaço
emocional”, agigantando-o, seja algo muito diferente dos sentimentos amorosos
socialmente convencionalizados. E sentimentos, sejam quais forem, também estão
rotineiramente relacionados a outro órgão do corpo: o cérebro.
<><>
Do ciclo mortal para o ciclo vital
Ao
vermos influencers famosos, ricos e
fortes, patrocinados por empresas que fabricam produtos para acelerar o aumento
dos músculos, nossa tendência é condená-los pelos danos que provocam, ao
estimular outras pessoas a entrar nesse furacão. Mas é preciso olhar com
atenção para eles. No fundo, também são peças manipuladas, arrastadas em uma
engrenagem que mastiga cérebros e corações. Afinal, o mercado “juicer”, como é
chamado nos EUA o que envolve os “tomadores de suco”, faz parte de um sistema
que se sustenta com a proliferação de polêmicas e extremismos, principalmente
do tipo visualmente chocante. Ao serem
levados a submeter seu próprio corpo a processos não saudáveis para conquistar
e manter seguidores/as, eles mesmos se tornam um produto, ficam reféns dos
personagens que criaram e têm que jogar o jogo sujo que garante essas
existências performáticas. Portanto, o vício fisiológico e a prisão
psicoemocional e econômica se entrelaçam. Atrás desse palco, em que desfilam
músculos e egos parrudos, iremos encontrar outros elementos turbinados: os
bolsos dos grandes acionistas de Big Techs, Big Pharma e Big Foods. É dessa forma que a plataformização da vida
de muitos jovens (emocionalmente vulneráveis, em uma sociedade que não acolhe
seus anseios e parece prestes a ruir) os aprisiona em um ciclo de agressividade
para consigo e os/as demais, torturando o próprio corpo em um circuito de
adoecimento que os aproxima de uma morte precoce. Como escreve Catherine
Shannon, “os espelhos ao nosso redor, especialmente os tecnológicos, nos
dividem uns contra os outros — e isso é desestabilizador e perigoso”.
Enfrentar
esse universo multi espelhado, que nos escraviza, nos antagoniza e nos consome,
é um desafio existencial que passa pela luta contra os mecanismos político
econômicos que permitem a exploração ininterrupta de corpos, emoções e mentes
por uma elite tecnológica disposta a sugar nosso planeta até o osso, como
podemos perceber com a multiplicação dos data centers mundo afora. Sobretudo em
ano de eleições, quando nosso país vai definir quem ocupa o Congresso Nacional
e as cadeiras do executivo no planalto central e nos estados, é preciso expor
essas entranhas. São ações
indispensáveis e urgentes: regular as plataformas digitais; desmontar as redes
ilegais e reduzir a influência das redes legais de produção e venda de
substâncias danosas; criar programas de prevenção e cuidado; combater a
misoginia e a homofobia em suas raízes; incentivar e dar condições para a
prática saudável de exercícios; ampliar o acesso à alimentação de qualidade;
coibir a publicidade de ultraprocessados e, principalmente, abrir portas para
que a juventude possa encontrar caminhos de atuação coletiva em torno de uma
agenda construtiva, que a permita lidar com os desafios atuais.
É nesse
sentido que os movimentos agroecológicos podem ser acionados e apoiados pelo
poder público. Eles trazem outra perspectiva de existência, promovendo a
integração dos seres humanos com os demais seres que coabitam nosso mundo.
Trabalham com a criação de outro tipo de ciclo. Ao invés do ciclo individual e
agressivo das bombas da máfia farmacêutica, eles reverberam o ciclo que
alimenta a vida. Se os “sucos” tomados pelos marombados
adoecem seus corpos e suas mentes, gerando o aumento da violência e da
infertilidade, os nossos sucos da terra, feitos com alimentos biodiversos
cultivados pelas mãos camponesas, podem impulsionar a recuperação da saúde das
pessoas, da sociedade e da natureza. Porque, de fato, realizar a Transição
Agroecológica envolve a transformação das relações do ser humano consigo mesmo,
com os demais seres humanos e com a teia heterogênea de viventes que estrutura
nossa existência planetária compartilhada.
Como no caso dos venenos agrícolas, não há uso seguro de EEAs. Então,
temos que (e vamos!) trabalhar firmemente para substituir as bombas tóxicas,
que estão sendo usadas na guerra travada contra o próprio corpo e contra nossa
Casa Comum, pelas bombas de sementes crioulas que vão turbinar naturalmente a
fertilidade da vida!
Fonte:
Por Susana Prizendt, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário