Brasil
segue sem capacidade de produzir ímãs de terras raras antes de 2032, dizem
especialistas
Com
grandes reservas de terras raras, o Brasil ainda não consegue transformar seus
próprios minerais em ímãs permanentes e só deve dominar toda a cadeia entre
2032 e 2035. A disputa global pelo setor cresce com o interesse internacional
pela Serra Verde e com um projeto de lei travado no Senado que pode definir o
futuro da indústria nacional.
O
Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo, mas ainda não
dispõe da capacidade industrial para transformar seus próprios minerais em ímãs
permanentes. A principal planta piloto do país, operada pelo Senai, prevê
apenas a produção inicial de lotes em 2028, e mesmo assim dependente de insumos
importados, já que o país não domina etapas críticas do refino.
Segundo
André Luis Pimenta de Faria, coordenador da planta, a produção integralmente
nacional só deve ocorrer entre 2032 e 2035. Ele afirmou durante a Exposibram
que, ao considerar toda a cadeia necessária — do processamento do minério ao
ferro eletrolítico de alta pureza — o horizonte tecnológico brasileiro
permanece distante, apesar das reservas abundantes.
Para
Pablo Cesario, presidente do Instituto Brasileiro de Mineração e Energia, o
cronograma é otimista. Ele lembra que o intervalo médio entre a comprovação de
uma reserva e o início da produção no Brasil é de 17,2 anos, o que coloca o
país em desvantagem num setor em que outros competidores avançam rapidamente.
A
disputa global por terras raras ganhou intensidade porque ímãs permanentes são
essenciais para veículos elétricos, turbinas eólicas, robótica industrial e
armamentos de precisão. De acordo com o South China Morning Post, a China
domina cerca de 90% da produção mundial e, em 2025, impôs controles de
exportação sobre elementos estratégicos, afetando cadeias produtivas na Europa,
nos Estados Unidos e na Ásia.
Esse
cenário ampliou o interesse internacional pelas reservas brasileiras,
especialmente pela Serra Verde, em Goiás, considerada a única mineradora fora
da Ásia capaz de produzir o conjunto completo de terras raras para ímãs. A
compra da empresa pela norte-americana USA Rare Earth, por US$ 2,8 bilhões
(cerca de R$ 15,6 bilhões), pode redirecionar o refino do minério de plantas
chinesas para instalações norte americanas.
A
disputa, porém, envolve o minério e não a indústria, já que o Brasil quase não
refina o que extrai e não possui uma fábrica comercial de ímãs. Faria e Cesario
afirmam que a China vê o Brasil como parceiro, e que as restrições chinesas
devem ser contornadas, não contestadas, pois forçam o mundo a buscar
fornecedores alternativos e abrem espaço para novos atores.
No
entanto, o avanço brasileiro depende de um marco legal ainda travado no Senado
Federal. O projeto cria uma política nacional para minerais críticos e um fundo
de financiamento, mas enfrenta resistência por prever um conselho ligado à
presidência com poder sobre contratos de fornecimento e mudanças societárias, o
que preocupa mineradoras e investidores.
Enquanto
empresas temem excesso de controle estatal, o Itamaraty reclama da falta de
diretrizes claras para escolher parceiros. O secretário Mauricio Lyrio defende
que o Brasil selecione aliados mineral a mineral, seguindo sua tradição
diplomática ampla, enquanto iniciativas como o Magbras buscam acordos com
países europeus para acelerar a integração tecnológica.
Analistas
consultados pela publicação lembram que a China estruturou sua cadeia de terras
raras desde 1975, acumulando cinco décadas de vantagem. Faria afirma que o
Brasil está apenas começando a construir essa estrutura agora, mas que
reconhece o potencial para disputar espaço nesse mercado estratégico, desde que
consiga superar a lacuna de planejamento que o separa dos líderes globais.
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'Quero fazer uma revolução tecnológica nesse país', diz Lula ao citar terras
raras em sabatina
Um dos
temas que mais têm tomado conta da geopolítica nos últimos anos, a corrida
mundial pelas terras raras foi citada por Lula durante a entrevista. Caso seja
reeleito, citou a importância de o Brasil, que tem a segunda maior reserva
mundial dos minerais críticos, dominar as tecnologias para exploração e
transformação desses recursos em riqueza.
"Sabe
o que eu quero para o próximo mandato? Eu quero fazer uma revolução tecnológica
nesse país, quero voltar a fazer com que esse país dispute com o mundo rico.
Temos que apostar em uma inteligência artificial com linguagem portuguesa,
quero tentar fazer uma reforma para que a gente tenha a nossa defesa tomando
conta dos oito milhões e meio de metros quadrados que estão totalmente
abandonados. E nós estamos vendo que temos, depois da China, possivelmente o
país com mais minerais críticos e terras raras", disse.
Para
Lula, é crucial a regulação do setor para evitar que o Brasil apenas exporte o
recurso, assim como acontece com o minério de ferro e outras commodities.
Diante disso, o presidente brasileiro lembrou da reunião que teve com os
presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi
Alcolumbre (União Brasil-AP), para aprovar o texto em discussão no Congresso
antes das eleições.
"Vamos
aprovar a regulação para que a gente não permita que nossas riquezas sejam
vendidas. Se a gente souber extrair, transformar e produzir o material, podemos
fazer bateria, chip, celular, tudo aqui dentro do Brasil. A gente vai estar
criando um passaporte para dar oportunidade para a juventude brasileira ter
orgulho de que no seu país ela vai ter condições de estudar, trabalhar e ganhar
a vida", disse.
• Mineradoras estrangeiras detêm 4 a cada
10 projetos de terras raras no país. Por Diego Junqueira, Isabel Harari e
Gabriela Sá Pessoa
Com a
segunda maior reserva do mundo, o Brasil atrai cada vez mais mineradoras
estrangeiras interessadas em explorar terras raras — conjunto de 17 elementos
químicos essenciais à transição energética e às indústrias bélica e de
tecnologia.
A ANM
(Agência Nacional de Mineração) vem registrando recordes nos pedidos de
exploração. Dos 2.727 requerimentos apresentados até junho deste ano, 86% foram
protocolados de 2023 para cá. Quase metade (42%) pertence a empresas sediadas
no exterior — principalmente na Austrália, nos Estados Unidos e no Canadá — ou
a subsidiárias delas.
Os
achados fazem parte de uma investigação conjunta entre a Repórter Brasil e a
agência norte-americana Associated Press.
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A análise também identificou
uma
onda recente de investimentos norte-americanos no Brasil, sobretudo após a
China restringir as exportações de terras raras aos Estados Unidos, em abril de
2025, em resposta às tarifas impostas pelo governo de Donald Trump. O país
asiático domina a cadeia produtiva do minério, incluindo a extração, o
processamento e a produção de itens de alta tecnologia, como ímãs.
O
avanço dos EUA inclui financiamentos do DFC (banco de desenvolvimento do
governo norte-americano) para diferentes mineradoras, além da aquisição, em
abril, da única produtora comercial de terras raras do Brasil, a Serra Verde,
por uma empresa dos EUA da qual o governo norte-americano é acionista.
Embora
as empresas ligadas ao capital estrangeiro representem apenas 12% dos titulares
de requerimentos de terras raras, elas controlam 42% de todos os pedidos. Isso
inclui 31 dos 45 processos mais avançados — em operação ou pré-operação
comercial.
A
corrida pelas jazidas de terras raras, contudo, pode trazer riscos ambientais.
Ao todo, 25% dos requerimentos se sobrepõem a unidades de conservação ou
comunidades tradicionais, ou estão a até 10 quilômetros desses territórios.
Especialistas afirmam que, mesmo a essa distância, projetos de mineração podem
causar danos sociais e ambientais.
Segundo
o Observatório da Transição Energética, projeto de jornalismo de dados da
Repórter Brasil, do Inesc e do grupo de pesquisa PoEMAS, os requerimentos
minerários de terras raras podem afetar até 283 áreas protegidas, entre terras
indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação.
Embora
as empresas ligadas ao capital estrangeiro representem apenas 12% dos titulares
de requerimentos de terras raras, elas controlam 42% de todos os pedidos. Isso
inclui 31 dos 45 processos mais avançados — em operação ou pré-operação
comercial.
A
corrida pelas jazidas de terras raras, contudo, pode trazer riscos ambientais.
Ao todo, 25% dos requerimentos se sobrepõem a unidades de conservação ou
comunidades tradicionais, ou estão a até 10 quilômetros desses territórios.
Especialistas afirmam que, mesmo a essa distância, projetos de mineração podem
causar danos sociais e ambientais.
Segundo
o Observatório da Transição Energética, projeto de jornalismo de dados da
Repórter Brasil, do Inesc e do grupo de pesquisa PoEMAS, os requerimentos
minerários de terras raras podem afetar até 283 áreas protegidas, entre terras
indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação.
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Austrália e EUA lideram pedidos para exploração de terras raras
De
acordo com a análise da Repórter Brasil e da Associated Press, 11 das 20
empresas com o maior número de requerimentos para terras raras são ligadas a
investidores estrangeiros, principalmente de Austrália, Estados Unidos e
Canadá.
As
empresas desses países oferecem investimentos capazes de reduzir os riscos em
um setor no qual poucos projetos se tornam economicamente viáveis, afirma Julio
Nery, diretor de assuntos minerários do Ibram (Instituto Brasileiro de
Mineração), associação da indústria.
As
mineradoras australianas lideram o ranking entre as empresas estrangeiras, com
695 requerimentos minerários. Quase um terço deles, 217 pedidos, foi feito pela
Borborema Recursos Minerais, subsidiária da Brazilian Rare Earths Pty Ltd, com
sede em Sydney.
“As
empresas australianas estão se posicionando desde cedo. Elas trazem
conhecimento geológico, capital, disposição para assumir riscos e credibilidade
perante governos ocidentais que buscam alternativas ao fornecimento chinês”,
explica Robert Muggah, cofundador do Instituto Igarapé.
“Parece
fazer parte de uma tentativa mais ampla de construir uma cadeia de suprimento
de terras raras sem a China, tendo o Brasil como base de recursos e a Austrália
como intermediária estratégica”, acrescenta.
A cada
mil potenciais ocorrências de terras raras, apenas cem projetos justificam
trabalhos de sondagem e pesquisa, explica Nery, do Ibram. “Desses cem, você
acaba ficando com apenas dois bons projetos. A taxa de sucesso não é muito
alta”, analisa.
“O
governo australiano, assim como o brasileiro, reconhece que o mercado de
minerais críticos está bastante concentrado no momento. O desafio reside em
onde e como os mercados operam e como os minerais são produzidos”, afirma
Sophie Davies, embaixadora da Austrália no Brasil.
Empresas
dos Estados Unidos ficam em segundo lugar, com 347 requerimentos.
A Alpha
Minerals Brazil, recentemente incorporada pela Rare Earth Americas Inc. (REA),
empresa sediada no Texas (EUA), responde por 181. Originalmente constituída nas
Ilhas Cayman, a companhia transferiu seu domicílio para os Estados Unidos em
2025 e afirmou estar “em uma missão para se tornar a principal fonte de
fornecimento de terras raras para os Estados Unidos”.
Em
janeiro de 2026, a empresa anunciou 15 milhões de dólares em investimentos
privados para expandir suas operações no Brasil e nos EUA. Em abril, a REA
iniciou o processo para abrir capital nos Estados Unidos e concluiu a oferta
pública de ações em maio, com a captação de 63 milhões de dólares.
Entre
as mineradoras campeãs de requerimentos minerários está a Mineração Apollo,
parcialmente controlada pela Atlas Lithium, sediada nos EUA.
Também
aparece a Aclara Resources, empresa canadense com projetos de mineração de
terras raras no Chile e no Brasil. Recentemente, a companhia inaugurou uma
planta-piloto de processamento na Louisiana (EUA), onde pretende transformar
terras raras em metais e ligas.
O
levantamento de processos minerários é baseado em dados públicos da ANM. A
análise da Repórter Brasil e da Associated Press considera apenas os
requerimentos em que as terras raras são a substância principal.
Os
registros de participação societária foram obtidos por meio do Cruzagrafos,
plataforma desenvolvida pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo
Investigativo), cruzados com informações da Receita Federal, de juntas
comerciais estaduais e da SEC (Securities and Exchange Commission), órgão
regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos.
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Com apoio bilionário, governo americano vira sócio de mina de Goiás
O
destaque entre as empresas com mais requerimentos é a Serra Verde, única
produtora comercial de terras raras do Brasil.
Desde o
início do ano, quando era fornecedora de matéria-prima para a China, a
mineradora instalada em Goiás recebeu financiamento público dos EUA e foi
comprada pela empresa norte-americana USA Rare Earth, que tem o governo
norte-americano como acionista minoritário.
Em
janeiro, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos anunciou 1,6 bilhão de
dólares em apoio à USA Rare Earth, em um acordo que previa a participação
acionária do governo na empresa.
Já em
fevereiro, o governo de Donald Trump anunciou o financiamento de 565 milhões de
dólares para a Serra Verde, por meio do DFC. O acordo também incluía uma opção
para que o governo dos Estados Unidos adquirisse uma participação minoritária
na operação.
O
negócio foi fechado rapidamente. Em abril, a USA Rare Earth anunciou a compra
da Serra Verde por cerca de 2,8 bilhões de dólares (em torno de R$ 14 bilhões).
A Serra
Verde é a única produtora fora da Ásia com capacidade para fornecer os quatro
elementos de terras raras magnéticas — neodímio, praseodímio, disprósio e
térbio — essenciais para as indústrias automotiva, médica, de energia
renovável, eletrônica, robótica, de defesa e aeroespacial.
“O
setor de terras raras do Ocidente atravessa um momento decisivo, enquanto
governos e indústrias estratégicas buscam com urgência fontes confiáveis desses
minerais críticos, especialmente das escassas terras raras pesadas”, afirmou
Thras Moraitis, CEO do Grupo Serra Verde, em comunicado divulgado durante a
aquisição.
Recentemente,
a USA Rare Earth fechou mais uma aquisição. Em julho, anunciou a compra de uma
fatia da francesa Carester, firma especializada em separação, processamento e
reciclagem de terras raras.
O
acordo coloca a Serra Verde como fornecedora de matéria-prima, enquanto a USA
Rare Earth terá acesso às tecnologias desenvolvidas pela companhia francesa. O
comunicado não menciona transferência de tecnologia ao Brasil.
Esse
caminho contraria o desejo do governo brasileiro, que defende um caminho de
neutralidade na disputa entre China e EUA, mas com prioridade a projetos que
desenvolvam a capacidade tecnológica nacional.
“O
passaporte para atuar no nosso país é o compromisso real com o desenvolvimento
conjunto, para agregação de valor, adensamento produtivo, pesquisa,
desenvolvimento e inovação, e a criação de bons empregos no Brasil”, afirmou
Carlos Leonardo Durans, diretor do MDIC (Ministério do Desenvolvimento,
Indústria, Comércio e Serviços), durante coletiva de imprensa em abril sobre os
minerais críticos.
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Sem projetos de terras raras, China amplia interesse no Brasil
A
análise da Repórter Brasil e da Associated Press mostra que, embora não
detivessem requerimentos de terras raras no Brasil até junho, as empresas
chinesas se movimentam para entrar no setor.
A
Mineração Taboca, maior produtora de estanho refinado do Brasil, foi comprada
no ano passado pela estatal China Nonferrous Metal Mining Group. A empresa —
responsável por uma mina na Amazônia investigada por possível contaminação de
um rio e morte de animais aquáticos na Terra Indígena Waimiri Atroari —
anunciou planos para estudar o potencial de terras raras na região.
Além
disso, em 2025, a Shenghe Resources Holding assinou um memorando de
entendimento com as empresas brasileiras WEG Mineração e Fenrir do Brasil. A
Fenrir tem um projeto de mineração em Minas Gerais voltado à pesquisa de
alumínio e de outros elementos, incluindo terras raras.
O boom
em torno das terras raras brasileiras tem acelerado o debate em torno de novas
regras para exploração de minerais críticos.
Em
maio, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que institui uma
política federal para o setor. A proposta, ainda não votada no Senado,
estabelece prioridades de investimento em minerais críticos e cria um conselho
nacional para monitorar a influência estrangeira sobre empresas do setor.
“O
desafio hoje é que a China domina o processamento e o refino de terras raras”,
diz o deputado Zé Silva (União Brasil-MG), autor do projeto de lei. “Pela nossa
proposta, as empresas são bem-vindas para investir, mas precisam transferir
tecnologia para o Brasil, incluindo capacidade de processamento.”
A
proposta recebeu críticas de ambientalistas e defensores dos direitos de
comunidades tradicionais. Entidades afirmam que o texto não prevê salvaguardas
adequadas. Acrescenta-se ao rol de preocupações a nova Lei Geral de
Licenciamento Ambiental, em vigor desde fevereiro, que reduziu as zonas de
proteção no entorno de projetos de mineração e acelerou a concessão de licenças
ambientais para empreendimentos considerados estratégicos.
O
governo federal, por meio do Ministério de Minas e Energia, também tem
discutido medidas para acelerar a aprovação de autorizações destinadas a
projetos de minerais críticos, segundo reportagem do jornal “Folha de S.Paulo”.
“Não é
só a questão dos impactos nos territórios, é uma estrutura que está sendo
criada sem a participação dos povos indígenas”, avalia Alcebias Sapará,
vice-coordenador da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia
Brasileira).
A nova
lei é um “retrocesso da proteção ambiental”, afirma Suely Araújo, coordenadora
de Políticas Públicas do Observatório do Clima, que acionou o STF contra a nova
lei junto a outras 13 organizações. Elas argumentam que a nova lei de
licenciamento viola princípios constitucionais de proteção ao meio ambiente.
“O
direito dos povos indígenas não se negocia. Isso tem que ficar claro para quem
quiser discutir mineração nas terras indígenas”, complementa Sapará.
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Boom de terras raras aumenta pressão sobre comunidades tradicionais
Em meio
ao debate sobre as novas regras de licenciamento, alguns projetos de mineração
de terras raras avançaram sem o consentimento das comunidades afetadas, como
exige a Convenção 169 da OIT, ratificada pelo Brasil em 2004.
É o que
aconteceu com o Projeto Carina, da Aclara Resources, composto por requerimentos
minerários parcialmente sobrepostos ao território quilombola Família Magalhães,
no norte de Goiás.
Formada
por 30 famílias, a comunidade foi reconhecida como quilombola em 2004 e aguarda
há 20 anos pela titulação da terra.
Desde
então, o que avançou foi o projeto da Aclara. No ano passado, a mineradora
iniciou o processo de licenciamento ambiental. Depois, obteve financiamento de
5 milhões de dólares do DFC para o desenvolvimento do projeto.
Neste
ano, a empresa publicou o estudo de viabilidade, que prevê a construção da
unidade industrial em 2027 e o início das operações em 2028. A empresa estima
um investimento inicial de 780 milhões de dólares e projeta receita média anual
de 599 milhões de dólares.
Apesar
de a ANM já ter concedido autorizações minerárias no local e de o projeto estar
avançado, a Convenção 169 determina que, em países como o Brasil, onde os
recursos do subsolo pertencem ao Estado, os governos devem “consultar os povos
interessados, a fim de se determinar se os interesses desses povos seriam
prejudicados, e em que medida, antes de se empreender ou autorizar qualquer
programa de prospecção ou exploração dos recursos existentes nas suas terras”.
Contudo,
a comunidade só teve o primeiro encontro oficial sobre o projeto na última
semana de julho, com mediação do Incra (Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária). Na ocasião, os moradores conheceram o projeto e o plano para
a elaboração do estudo de impactos sobre o quilombo.
O
encontro foi confirmado por Gilvan Magalhães, presidente da associação de
moradores. “Agora nós vamos discutir internamente e elaborar projetos [de
compensação] para apresentar à empresa”, afirmou.
Magalhães
diz que a comunidade não é contra o projeto, mas faz cobranças à empresa. “Ela
precisa agir com responsabilidade e lidar com os problemas que vai causar.”
A
comunidade teme que a mineração possa afetar rios e nascentes locais e a fauna
da região, incluindo antas, onças e cobras.
Em
nota, a Aclara afirmou que o projeto é formado por seis direitos minerários
outorgados pela ANM que “originalmente abrangiam áreas” do quilombo, mas que a
empresa “optou por excluir” essas áreas do projeto. “Essas áreas permanecerão
fora do empreendimento, que não realizará atividades de mineração nelas”, diz o
comunicado.
A
empresa afirmou que a unidade industrial ainda não foi construída e que o
encontro do final de julho é parte do processo de licenciamento ambiental e de
consulta aos quilombolas. A empresa diz também respeitar os direitos das
comunidades tradicionais (leia a resposta na íntegra).
“A
mineração sempre deixa rastros”, alerta Magalhães. “Ela causa desmatamento e
afeta o bioma. Esperamos que a empresa enfrente esses problemas e pague por
aquilo que não conseguir reparar.”
• Chile, Argentina, Bolívia e Peru se unem
pela corrida dos minerais críticos e assinam acordo
Chile,
Argentina, Bolívia e Peru decidiram ampliar a cooperação para explorar minerais
estratégicos diante da corrida global por recursos necessários à transição
energética e ao desenvolvimento de novas tecnologias.
Autoridades
dos quatro países assinaram nesta sexta-feira (28), em Santiago, uma declaração
conjunta que prevê maior integração entre os setores de mineração, troca de
informações geológicas e desenvolvimento de projetos de pesquisa e inovação.
O
acordo concentra atenção em minerais como cobre e lítio, fundamentais para
baterias, equipamentos de alta tecnologia e sistemas ligados à eletrificação. A
iniciativa também prevê investimentos e medidas para fortalecer as cadeias
regionais de fornecimento.
O
ministro da Economia e Mineração do Chile, Daniel Mas, afirmou que a expansão
da transição energética e da infraestrutura necessária para a inteligência
artificial pode elevar entre 400% e 600% a demanda por minerais críticos na
próxima década. Segundo ele, o aumento torna a garantia de oferta desses
recursos cada vez mais relevante.
Além do
ministro chileno, assinaram a declaração o secretário de Mineração da
Argentina, Luis Lucero; o vice-ministro boliviano de Política, Regulação e
Fiscalização de Mineração, Walter Landivar; e o ministro de Energia e Minas do
Peru, Guillermo Shinno.
Os
quatro governos decidiram também criar grupos de trabalho para compartilhar
informações geológicas, coordenar critérios de fiscalização e políticas para o
setor e desenvolver mão de obra especializada.
Chile e
Peru estão entre os principais produtores mundiais de cobre, enquanto Chile,
Argentina e Bolívia concentram grandes reservas de lítio. A aproximação ocorre
em meio à disputa internacional pelas cadeias de minerais necessários para
baterias, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e sistemas de energia.
Fonte:
Sputnik Brasil/Repórter Brasil

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