segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Onde o mundo vai parar após a era do multilateralismo?

Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pretendia discursar perante a Assembleia Geral das Nações Unidas em setembro de 2025, ocorreu um momento simbólico: justamente quando entrou na escada rolante do saguão da sede da ONU em Nova York, ela parou de funcionar. E, durante o discurso, o teleprompter também apresentou falha, fazendo com que o ex-astro da televisão brincasse com os chefes de Estado e de governo presentes: "Estas são as duas coisas que recebi das Nações Unidas: uma escada rolante quebrada e um teleprompter quebrado."

A ONU é a principal instituição da ordem internacional criada após a Segunda Guerra Mundial, da qual os Estados Unidos foram um dos arquitetos. Essa ordem se baseia no multilateralismo e na busca por conciliar interesses. Quando foi fundada, em 1945, seu objetivo era evitar guerras. Posteriormente, passou a atuar em inúmeras áreas, como saúde global, desenvolvimento e proteção do clima. Contudo, os órgãos da ONU, especialmente o Conselho de Segurança, são vistos como tão necessitados de reformas quanto o próprio edifício-sede às margens do East River.

Posteriormente, a instituição rejeitou as críticas afirmando que a falha da escada rolante teria sido causada acidentalmente pelo próprio cinegrafista de Trump. E, assim como nesse episódio simbólico, também divergem as interpretações sobre se o republicano, com sua ideologia isolacionista do "America First" ("América Primeiro)", é um sintoma da deterioração da ordem multilateral mundial ou um agente ativo de sua destruição. Analistas hoje discutem se o multilateralismo teria chegado ao seu fim.

<><> Nova ordem mundial ou desordem prolongada?

O presidente da Finlândia, Alexander Stubb, um dos poucos chefes de Estado com doutorado em relações internacionais, defende a tese de que atualmente existe um vácuo de poder do qual surgirá uma nova ordem mundial nos próximos cinco anos.

Outros especialistas acreditam em um período mais longo de reajuste. "Este momento não é um breve interregno entre uma ordem liderada pelos Estados Unidos e outra liderada pela China", escreveu recentemente Mark Leonard, diretor do centro de estudos European Council on Foreign Relations, em artigo publicado na revista Foreign Affairs. "Durante algum tempo, o mundo ficará sem qualquer ordem." Leonard alertou para a "tentação de transformar em armas diversos pontos de pressão geográficos, econômicos e tecnológicos".

<><> Reformas pendentes, violações de regras e retiradas

"O modelo do multilateralismo associado ao período pós-guerra e à era de ouro da ONU pertence ao passado", afirma Teresa Nogueira Pinto, especialista em globalização com foco na África da Universidade Lusófona, em Lisboa. "Ele não funciona mais. A maioria das missões de paz fracassou, e é difícil imaginar como as reformas urgentes da ONU poderiam ser implementadas."

Em entrevista à DW, Pinto cita como exemplo o Conselho de Segurança, que já não reflete a realidade mundial de 2026. "Mas quem deveria entrar? Índia? Paquistão? Nigéria? Etiópia? É muito difícil sequer imaginar uma reforma."

Já Johannes Thimm, diretor de pesquisa para as Américas no Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), de Berlim, discorda parcialmente dessa visão. "Não concordo com a tese de que essa era já tenha terminado completamente", afirma. "O direito internacional é muito amplo e inclui muitas coisas que quase não percebemos nas relações diárias entre os Estados: práticas diplomáticas, tratados e assim por diante. Ainda existe muita coisa funcionando, embora não seja tão visível porque não é tão espetacular."

No entanto, segundo ele, é inquestionável que as violações do direito internacional têm se tornado mais frequentes, como guerras de agressão, a exemplo dos conflitos na Ucrânia e no Irã. Além disso, violações do direito humanitário internacional, como as observadas em Gaza, também representam desafios para a ordem multilateral.

Outro fator que enfraquece a estabilidade do multilateralismo, segundo Thimm, é a retirada dos Estados Unidos de dezenas de organizações e acordos internacionais, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Acordo de Paris sobre o Clima, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e a Unesco. Recentemente, o governo americano endureceu ainda mais sua postura contra o Tribunal Penal Internacional (TPI). "Quando o Estado ainda mais poderoso do mundo age dessa forma isso representa uma ameaça ao sistema como um todo. Eu diria que é até mais grave do que quando a Rússia, por exemplo, inicia uma guerra de agressão", afirma Thimm.

<><> Velhas alianças se vão, novas surgem

Trump costuma ser relacionado à Doutrina Monroe, de 1823, que define o Hemisfério Ocidental como uma zona exclusiva de influência de Washington. Aplicada aos dias atuais, essa visão poderia significar que o restante do mundo deixaria de ser dominado pelos Estados Unidos e passaria a ser influenciado por outras grandes e médias potências, caracterizando uma ordem mundial multipolar após o declínio da potência dominante americana.

Para muitos países, essa transformação traz o risco de perda de influência. Para outros, porém, ela cria uma oportunidade de reposicionamento estratégico e de construção de novas alianças que garantam seu espaço em uma ordem multipolar e menos dominada pelo Ocidente. Não por acaso, o bloco Brics ganhou relevância e incorporou novos membros, buscando cada vez mais se afirmar como um contraponto à arquitetura financeira internacional de origem ocidental, conhecida como sistema de Bretton Woods.

"Muitos países africanos percebem que os modelos anteriores não foram tão vantajosos para eles em termos de crescimento sustentável. Por isso, estão aproveitando a oportunidade. Isso também está relacionado ao retorno da geopolítica. Durante muito tempo acreditamos que a geopolítica era coisa do passado, mas ela não é", ressalta Teresa Pinto.

<><> Reorganização da segurança global

A reorganização mundial também ocorre na área de segurança. Na Otan, cresce a preocupação com um possível afastamento adicional dos Estados Unidos ou até mesmo com conflitos internos, caso Trump continue defendendo suas pretensões sobre a Groenlândia, território administrado pela Dinamarca.

No Indo-Pacífico e, principalmente, no Oriente Médio, aliados dos Estados Unidos questionam a confiabilidade dos compromissos americanos de defesa e buscam novas alianças. Assim, no início de agosto, Arábia Saudita, Turquia e a potência nuclear Paquistão lançaram o Pacto de Defesa de Meca, que prevê garantias de assistência semelhantes às da Otan. Tanto esse pacto quanto a chamada "coalizão dos dispostos" europeia em apoio à Ucrânia são vistos como exemplos de formatos menores e mais ágeis, frequentemente descritos como "minilateralismo".

Em muitos casos, esforços militares e diplomáticos caminham juntos. "Um mundo sem regras favorece apenas os mais fortes", afirma Thimm. "Todos os demais, sejam potências médias ou países mais fracos, acabam sendo prejudicados. Por isso, a Europa, que eu classificaria entre as potências médias, tem grande interesse em preservar algum tipo de ordem internacional. Ou seja, evitar um mundo sem regras, no qual o mais forte simplesmente impõe seus interesses."

<><> Regionalização e novas parcerias

Além das preocupações militares, muitos países procuram novas e mais amplas parcerias econômicas e políticas. Teresa Pinto acredita que alianças regionais ganharão importância e poderão produzir resultados melhores do que mecanismos globais.

Segundo ela, a Organização Mundial do Comércio (OMC) desempenhou um papel importante ao longo do século 20, mas já não funciona adequadamente há algum tempo. "Talvez agora seja mais útil pensar em abordagens regionais, como a Zona de Livre Comércio Africana."

A integração dos mercados africanos é considerada uma solução promissora para diversos problemas. No entanto, a implementação da zona de livre comércio, ratificada desde 2018 pela maioria dos países africanos, tem avançado de forma lenta.

<><> A quem servirá a futura ordem mundial?

Teresa Pinto destaca três fatores que poderão influenciar a distribuição de poder em um mundo multipolar: soberania, acesso a recursos naturais e demografia. Sociedades jovens e em crescimento na África e na Ásia poderão tornar-se indispensáveis para a economia global. "Até o final deste século, a Índia pode se tornar uma superpotência", afirma Pinto.

A perda relativa de influência dos Estados Unidos, o fortalecimento de outros atores como a China, o avanço do minilateralismo e o surgimento de alianças regionais são elementos de um cenário ainda incerto. Não é possível determinar com segurança qual ordem mundial surgirá da combinação dessas peças.

No curto prazo, porém, Johannes Thimm demonstra preocupação. "O mundo se tornará mais violento. Haverá mais guerras. As guerras serão mais brutais. Será mais difícil organizar cooperação internacional. Eu não sei o que acontecerá quando surgir a próxima pandemia. Não sei o que acontecerá quando ocorrer a próxima crise financeira global", afirma o especialista.

E, além de tudo isso, permanece a crise climática, considerada um dos maiores desafios da humanidade e que, segundo ele, só poderá ser enfrentada por meio da cooperação internacional.

¨      Celso Amorim cita fim da multilateralidade 'como conhecíamos' e fala em próxima ordem mundial

O assessor-chefe da Assessoria Especial do Presidente da República para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, declarou nesta sexta-feira (28) que o sistema multilateral "como conhecíamos" já não existe mais e instou o Brasil a se preparar para as regras da "próxima ordem mundial".

Em evento na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no qual recebeu o título de doutor honoris causa, Amorim foi enfático ao declarar que é inevitável um rearranjo das normas internacionais de dinâmica entre os países.

"O sistema multilateral como o conhecíamos não voltará a existir. É preciso reconhecer que a repactuação das regras internacionais será inevitável. Nesse contexto, é preciso garantir que o Brasil esteja presente e atuante quando as regras da próxima ordem mundial forem definidas."

O diplomata defende que o Brasil é respeitado internacionalmente, como se viu recentemente ao sediar as cúpulas do G20, do BRICS e da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30). Amorim alerta que a multipolaridade não seja confundida com uma "nova divisão do mundo em esferas de influência".

"Para evitar esse risco, é essencial reconstruir um mundo regido por regras multilateralmente acordadas. Para isso, precisamos reconhecer que o multilateralismo é uma promessa não inteiramente cumprida."

O assessor-chefe de Lula para assuntos internacionais também ressaltou que o Brasil não deve deixar de diversificar parcerias e destacou que o grande desafio da política externa nos dias de hoje é "assegurar uma posição altiva e soberana no novo equilíbrio global".

Amorim também comentou o que ele chamou de "banalização do uso da força", indicando a existência de uma "proliferação de conflitos armados" que envolvem grandes potências, seja direta, seja indiretamente. O diplomata também citou o papa Leão XIV, que pontuou a já existência de uma "guerra mundial em pedaços".

"Se nada fizermos pela paz, haverá um momento em que a contaminação desses conflitos se tornará inevitável."

O diplomata brasileiro também defendeu que Brasília realize investimentos em defesa para garantir poder de dissuasão e proteger os recursos naturais.

"As reservas brasileiras de minerais críticos e estratégicos, inclusive terras raras, nos dão a oportunidade de estimular o desenvolvimento autônomo em tecnologia de ponta. Não basta explorarmos essas riquezas, é preciso utilizá-las para avançarmos em uma industrialização compatível com os tempos atuais."

¨      Rivalidade entre EUA e China em IA não deve significar o fim da cooperação global, diz mídia

Forçar os países a escolher entre iniciativas americanas e chinesas seria contraproducente para a governança global da inteligência artificial (IA), argumenta um artigo de opinião no South China Morning Post.

Segundo o artigo, os riscos inerentes ao rápido avanço da IA transcendem as fronteiras nacionais e impõem uma necessidade urgente de governança internacional unificada. Apesar dessa necessidade imperativa de colaboração multilateral, a crescente hostilidade dos EUA em relação à China ameaça polarizar o cenário tecnológico global.

Esse cenário de divisão não reflete necessariamente a posição de países terceiros, como demonstram os casos da Indonésia e do Cazaquistão, que optaram por se engajar ativamente em ambas as iniciativas para preservar sua autonomia estratégica.

No entanto, analistas apontam que a intenção de Washington de restringir a participação em acordos não alinhados ameaça impor uma lógica baseada em blocos que prejudica a neutralidade e a flexibilidade regulatória dos países em desenvolvimento.

Por outro lado, a análise destaca que a tendência dos EUA de retratar as políticas regulatórias de Pequim como supostos instrumentos de controle político ignora a convergência objetiva existente entre as duas potências. Pesquisas recentes revelam uma sobreposição substancial nas prioridades regulatórias entre os Estados Unidos e a China, como a confiabilidade do sistema, a transparência algorítmica e a aplicação da IA para fortalecer a segurança geral.

Da mesma forma, conceitos-chave como a supervisão humana direta da IA — formalmente promovida tanto pelo presidente chinês Xi Jinping quanto por fóruns das Nações Unidas — são frequentemente mal interpretados com base na origem política da proposta. Isso demonstra que as diferenças nos marcos institucionais e culturais não devem invalidar a legitimidade das preocupações técnicas subjacentes nem pressupor animosidade em todas as iniciativas.

Diante desse cenário, analistas e a mídia internacional têm a responsabilidade de avaliar as políticas tecnológicas com rigor empírico, distinguindo entre genuínas divergências políticas e convergências pragmáticas, afirma o editorial. É crucial evitar que suposições geopolíticas ampliem desnecessariamente as divisões existentes e dificultem a busca por um consenso normativo mínimo em nível global, avaliou.

Nesse contexto, ele menciona o princípio chinês de "he er bu tong" (harmonia sem uniformidade), sugerindo que a diversidade de sistemas e interesses políticos não é um obstáculo intransponível à cooperação internacional. Dado que o desenvolvimento da IA não esperará que a rivalidade geopolítica e as ameaças dos EUA diminuam, a comunidade internacional deve priorizar a colaboração transfronteiriça para garantir que a tecnologia sirva a toda a humanidade, conclui o texto.

¨      Relatório da CEPAL indica próximos passos para América Latina e Caribe na nova era geopolítica

A CEPAL alerta que a fragmentação global e as tensões geopolíticas exigem ação imediata dos países latino‑americanos para transformar recursos estratégicos em capacidade produtiva, avançar na industrialização de minerais críticos, fortalecer cadeias de suprimentos e reativar o comércio intrarregional.

Essa avaliação consta de um relatório preparado por uma comissão de alto nível convocada pelo secretário-executivo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), José Manuel Salazar-Xirinachs, e apresentado nesta semana no Anfiteatro Simón Bolívar do Antigo Colégio de San Ildefonso, na Cidade do México.

Segundo o documento, a fragmentação do sistema global e as crescentes tensões geopolíticas exigem que os Estados latino-americanos abandonem a passividade e adotem um papel proativo. A chave está em transformar os abundantes recursos em vantagens produtivas concretas por meio de políticas públicas de longo alcance, afirma a comissão.

Entre os principais ativos identificados está o papel significativo da região na transição energética global. A América Latina detém uma porcentagem substancial das reservas mundiais de minerais críticos, como lítio e cobre, insumos insubstituíveis para a eletromobilidade e tecnologias limpas. No entanto, a organização alertou que é essencial ir além da mera extração de matérias-primas, rumo à industrialização e à produção local com valor agregado.

Em relação ao comércio exterior e à reconfiguração das cadeias de suprimentos, o relatório destaca o potencial da relocalização da produção, especialmente para economias com alto grau de integração e proximidade a grandes mercados, como o México. Para capitalizar esse momento, a CEPAL recomenda o fortalecimento das capacidades institucionais, da infraestrutura logística e de políticas que promovam a produção e a inovação tecnológica.

O relatório também enfatiza a necessidade urgente de reativar e intensificar o comércio intrarregional. Apesar de possuir um mercado potencial de aproximadamente 660 milhões de pessoas, o comércio entre os países da região representa apenas 14% do total das exportações, demonstrando uma vulnerabilidade elevada e insustentável a choques externos.

Na esfera diplomática e de governança internacional, os governos foram instados a adotar posições de não alinhamento ativo e uma abordagem pragmática.

Nesse sentido, a CEPAL sugeriu a diversificação das alianças globais e a exploração do "poder brando" da região – baseado em sua riqueza cultural, tradição diplomática e reputação pacífica – para negociar de forma autônoma e sem subordinação a blocos de poder dominantes.

 

Fonte: DW Brasil/Sputnik Brasil

 

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