segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O arqueólogo do futuro

A Arqueologia era uma ciência imprecisa nos tempos remotos. Os estudiosos do século XX e XXI enfrentavam dificuldades intransponíveis que embaralhavam a mente e ofuscavam o entendimento do que se queria conhecer. Havia inúmeras teorias e explicações discordantes entre si e os fatos, encobertos pelas dúvidas incessantes, permaneciam ao abrigo, inalterados em sua opacidade.

Tudo se resumia a interpretar pedaços desconexos de descobertas feitas ao acaso: um crânio, peças de cerâmica, parte de uma tíbia, escombros de uma pirâmide, uma arcada dentária. Não havia maneira de organizar esses fragmentos, cada um com sua própria verdade, numa explicação coerente e convincente, eles permaneciam em silêncio nas camadas geológicas que os soterravam. Diante da parcimônia dos dados predominava a incerteza e o arroubo da imaginação.

Isso levou os arqueólogos a construir teorias descabidas sobre a linguagem humana, o paleolítico superior e inferior, a origem do Homo sapiens e seu modo de vida; a cada nova descoberta, geralmente resultante de uma escavação qualquer, questionava-se as informações anteriores, deixando-se claro que as interpretações vigentes eram frágeis e inconsistentes. Escrevendo-se hoje a partir do futuro é motivo de satisfação afirmar que tais insuficiências e limitações, graças aos avanços tecnológicos, foram extintas.

Possuímos atualmente a capacidade de descrever o passado de maneira isenta e exata, alheia a dubiedade antes existente. Os métodos de datação dos efeitos quânticos, o acúmulo de informação arquivada em textos, imagens, poeira cósmica, permitem a elaboração de um retrato intocável das eras imemoriais.

As escavações realizadas no planeta azul – os antigos o denominavam Terra – trazem à tona um material inédito: garrafas encontradas na China de uma infusão ingerida pelos indígenas (Coca-Cola), em outros lugares restos de alimentos provenientes do consumo inadequado de carne (discute-se a grafia correta do conceito: mac’s, mcdonald’s ou macdonalds), textos publicitários de diversos países, sobras de filmes produzidos numa localidade estranha, esotérica, Hollywood (provavelmente um bosque sagrado).

Essas ruínas, dispersas em diversos locais, não deixam margem a dúvida, os povos ancestrais estavam entrelaçados entre si, trocavam objetos, presentes, mensagens, tudo circulava em um ritmo incessante e célere. Mas para isso era necessário que falassem o mesmo idioma, ele servia de base para a efetividade e o bem-estar das comunicações. Os textos bíblicos, escritos originalmente em papiro, difundidos em forma de livros, e que se acreditava, ingenuamente, serem a manifestação de uma vontade divina, confirmam essa ilação: no paraíso terrestre todos falavam a mesma língua.

Os escritos religiosos narravam ainda com paixão e realismo um acontecimento trágico que culminou com o episódio de Babel; por séculos a proliferação das línguas alimentou a discórdia entre as pessoas. Felizmente, isso desapareceu com o tempo, a diversidade nefasta dos idiomas se apagou e não mais persistia no período que estamos considerando.

O mundo desta época era também harmonioso e sem conflitos. Todos falavam a mesma língua e a incompreensão era desconhecida, podia-se conversar sem que houvesse os mal-entendidos de uma comunicação truncada. Os testemunhos indicam ainda que apesar da existência de uma variedade de instrumentos de luta, muitos deles encontrados nas sepulturas dos guerreiros, a paz era mantida através de uma artimanha transparente e eficaz.

Cada nação produzia uma quantidade enorme de ogivas nucleares, no entanto, o excedente era um argumento decisivo para a ausência das guerras. Como os beligerantes podiam a qualquer momento se autodestruir, a proliferação dos armamentos atuava como elemento de dissuasão. O consenso era resultado do medo e da destruição, seria insensato e inútil desafiar tal perigo. A paz foi assim selada e durante séculos manteve-se um ambiente de concórdia e segurança.

Discute-se se as sociedades passadas conheciam ou não a desigualdade econômica e social. Os indícios disponíveis não nos permitem afirmar com certeza o que se passou. Entretanto, pelos artefatos coletados, edifícios de mais de quarenta andares, carcaças de automóveis e trens de alta velocidade, satélites, computadores, telefones sem fio, suportes tecnológicos sofisticados, tudo indica que se tratava de um momento de fartura.

As pessoas dessas sociedades conheciam técnicas de plantio capazes de eliminar a fome de todo o planeta e possuíam meios de comunicação efetivos para circunda-lo por terra, mar e ar. Seria improvável a existência da pobreza e do abandono, inclusive porque os avanços da biogenética eram consideráveis, prolongando a vida dos habitantes desses lugares.

Diz-se que o conhecimento do passado pouco contribui para esclarecer o presente. Mas quando esta Academia de Lagado se debruça sobre as antigas populações terráqueas, não sem uma sombra de nostalgia vislumbramos tempos melhores. Distintos de nossa condição precária na qual a sensação insuportável das canículas climáticas, o ar rarefeito, a fome e a miséria, se impõem como uma fatalidade. Já não vivemos como nossos antepassados, algo perdemos de sua sabedoria e discernimento quando viemos habitar outros confins da galáxia.

<><> Fragmentos – notícias de jornal

“Numa pequena aldeia na Índia uma descoberta deixou os moradores desolados. Há anos eles reverenciavam nas pedras sagradas da região as divindades que protegiam suas colheitas, aí sacrificavam animais e oravam pela intervenção divina. Entretanto, uma equipe de cientistas revelou a origem desses objetos misteriosos, eram ovos fossilizados de dinossauros. Não sei se o sentimento procede, os dinossauros viveram há milhões de anos, muito antes da existência dos deuses e dos humanos. Não seria sua antiguidade a prova da perenidade do mundo”?

“As autoridades do Afeganistão estão preocupadas com a lascívia de seus cidadãos. O Ministério para a Propagação da Virtude e Prevenção dos Vícios, ciente de suas responsabilidades, tomou uma decisão capital contra os manequins das lojas de roupas femininas. Obrigou os negociantes a cobrir suas cabeças com véu ou plástico. Mostrou, porém, ser misericordioso, deixou-lhes a opção de decapitá-las exibindo nas vitrines os corpos dilacerados. O rigorismo clerical é de uma engenhosidade atroz”.

“No interior do país uma jovem iraniana foi impedida de assumir o cargo de representante municipal para o qual tinha sido eleita. Motivo: sua beleza excessiva. Os clérigos temiam que os políticos se desviassem da senda divina. Entre a tentação e o desejo a tradição recomenda a prudência”.

“Uma província turca denominada Batman exigiu das autoridades governamentais que suas fronteiras territoriais tivessem a forma do homem-morcego. Assim, ao se olhar o mapa do país teríamos a nítida visão da silhueta do símbolo do super-herói. Os críticos dirão que o pleito insensato é a prova cabal da colonização das mentes, ficarão chocados com a tentativa tosca de lhes arrebatar a autenticidade radical. Talvez seja possível outra interpretação dos fatos, por fim as histórias em quadrinho moldam as fronteiras geopolíticas”.

“Um juiz de Uberaba resolveu interferir na língua portuguesa, interditou a circulação do dicionário Houaiss por causa da palavra cigano. Considerou o termo pejorativo, seria um insulto à ideia de igualdade entre os indivíduos e as raças. A investida jurídica merece aplausos. Para transformar o mundo, liberá-lo das injustiças e crueldades, bastaria a reforma gramatical. Como as palavras exprimem o real em sua inteireza, corrigir as distorções terminológicas é um imperativo categórico. Tudo se ajustaria assim à ordem natural das coisas”.

“No Quênia, junto à uma comunidade étnica, as viúvas devem ser purificadas. Acredita-se que o rompimento do laço matrimonial implica em um perigo latente para a sociedade. Para evitar a má sorte elas devem fazer sexo com estranhos. Primeiro, fora das casas, depois, dentro delas. O ritual deve ser escrupulosamente seguido, os lençóis usados e os colchões, após o acasalamento, precisam ser queimados e as viúvas têm a cabeça raspada. As cinzas do que se foi testemunham a eficácia do ato. Os purificadores, homens, é claro, são regiamente recompensados pela caridade religiosa.

“A revista Science publicou o resultado de uma extensa pesquisa realizada nos Estados Unidos. Depois de criteriosamente se observar um grupo de indivíduos de rendas diferentes, chegou-se à seguinte conclusão: as pessoas com poucos recursos têm maior dificuldade de planejar a vida a longo prazo. Se o exemplo considerado fosse de países mais pobres, os cientistas veriam suas descobertas confirmadas. A máxima enunciada é universal, os que passam fome dificilmente enxergam para além dela. A ciência possui verdades insondáveis”.

“Os paleontólogos se perguntam como os humanos perderam o osso do pênis. As últimas pesquisas acadêmicas permitem responder à pergunta. A maioria dos mamíferos possui o báculo, um osso maleável que não se encontra ligado ao esqueleto, ele “flutua” no final do pênis. Uma das explicações possíveis da sua existência é a intromissão vaginal. O osso segura a fêmea impedindo que acasale em seguida com outros machos. Os cientistas descobriram que nas espécies com elevado nível de competição pelas fêmeas o báculo é mais comprido. Os humanos tendem a acasalar com um número restrito de fêmeas, neste caso, sua existência seria disfuncional. Os moralistas não hesitarão em dizer que a fidelidade é uma virtude animal”.

“Entre Tijuana e San Diego existe um muro que se alonga do Pacífico ao continente dividindo a fronteira entre os Estados Unidos e o México em duas antípodas irreconciliáveis. Uma vez ao ano uma passagem se abre nesta muralha intolerante, uma pequena fenda na qual o corpo de um ser humano se encaixa. Algumas famílias são escolhidas de cada lado da fronteira e durante vinte minutos um ritual sinistro e macabro se realiza. Os familiares se veem, se tocam, abraçam-se e choram, uma multidão contempla à distância a cena insólita. Há regras rígidas para este encontro inóspito, os policiais estão atentos e vigiam os pés dos visitantes. Eles devem ficar fora da linha da demarcação fronteiriça. Um traço no chão reproduz a interdição material que o paredão representa. Sob os olhos das autoridades os pés inquietos movimentam-se sem tocar o limite proibido. As outras partes do corpo têm uma liberdade maior, quando as pessoas se aproximam umas das outras, ele se inclina e se retrai para além e aquém da linha amarela. Os policiais ignoram a pequena transgressão, os pés estão fincados em terra firme confirmando o domínio da soberania territorial. Esgotado o tempo de reconciliação a portinhola se fecha, pés, mãos e cabeças, retornam à idiotice nacional”.

 

Fonte: Por Renato Ortiz, em A Terra é Redonda

 

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