O
arqueólogo do futuro
A
Arqueologia era uma ciência imprecisa nos tempos remotos. Os estudiosos do
século XX e XXI enfrentavam dificuldades intransponíveis que embaralhavam a
mente e ofuscavam o entendimento do que se queria conhecer. Havia inúmeras
teorias e explicações discordantes entre si e os fatos, encobertos pelas
dúvidas incessantes, permaneciam ao abrigo, inalterados em sua opacidade.
Tudo se
resumia a interpretar pedaços desconexos de descobertas feitas ao acaso: um
crânio, peças de cerâmica, parte de uma tíbia, escombros de uma pirâmide, uma
arcada dentária. Não havia maneira de organizar esses fragmentos, cada um com
sua própria verdade, numa explicação coerente e convincente, eles permaneciam
em silêncio nas camadas geológicas que os soterravam. Diante da parcimônia dos
dados predominava a incerteza e o arroubo da imaginação.
Isso
levou os arqueólogos a construir teorias descabidas sobre a linguagem humana, o
paleolítico superior e inferior, a origem do Homo sapiens e seu modo de vida; a
cada nova descoberta, geralmente resultante de uma escavação qualquer,
questionava-se as informações anteriores, deixando-se claro que as
interpretações vigentes eram frágeis e inconsistentes. Escrevendo-se hoje a
partir do futuro é motivo de satisfação afirmar que tais insuficiências e
limitações, graças aos avanços tecnológicos, foram extintas.
Possuímos
atualmente a capacidade de descrever o passado de maneira isenta e exata,
alheia a dubiedade antes existente. Os métodos de datação dos efeitos
quânticos, o acúmulo de informação arquivada em textos, imagens, poeira
cósmica, permitem a elaboração de um retrato intocável das eras imemoriais.
As
escavações realizadas no planeta azul – os antigos o denominavam Terra – trazem
à tona um material inédito: garrafas encontradas na China de uma infusão
ingerida pelos indígenas (Coca-Cola), em outros lugares restos de alimentos
provenientes do consumo inadequado de carne (discute-se a grafia correta do
conceito: mac’s, mcdonald’s ou macdonalds), textos publicitários de diversos
países, sobras de filmes produzidos numa localidade estranha, esotérica,
Hollywood (provavelmente um bosque sagrado).
Essas
ruínas, dispersas em diversos locais, não deixam margem a dúvida, os povos
ancestrais estavam entrelaçados entre si, trocavam objetos, presentes,
mensagens, tudo circulava em um ritmo incessante e célere. Mas para isso era
necessário que falassem o mesmo idioma, ele servia de base para a efetividade e
o bem-estar das comunicações. Os textos bíblicos, escritos originalmente em
papiro, difundidos em forma de livros, e que se acreditava, ingenuamente, serem
a manifestação de uma vontade divina, confirmam essa ilação: no paraíso
terrestre todos falavam a mesma língua.
Os
escritos religiosos narravam ainda com paixão e realismo um acontecimento
trágico que culminou com o episódio de Babel; por séculos a proliferação das
línguas alimentou a discórdia entre as pessoas. Felizmente, isso desapareceu
com o tempo, a diversidade nefasta dos idiomas se apagou e não mais persistia
no período que estamos considerando.
O mundo
desta época era também harmonioso e sem conflitos. Todos falavam a mesma língua
e a incompreensão era desconhecida, podia-se conversar sem que houvesse os
mal-entendidos de uma comunicação truncada. Os testemunhos indicam ainda que
apesar da existência de uma variedade de instrumentos de luta, muitos deles
encontrados nas sepulturas dos guerreiros, a paz era mantida através de uma
artimanha transparente e eficaz.
Cada
nação produzia uma quantidade enorme de ogivas nucleares, no entanto, o
excedente era um argumento decisivo para a ausência das guerras. Como os
beligerantes podiam a qualquer momento se autodestruir, a proliferação dos
armamentos atuava como elemento de dissuasão. O consenso era resultado do medo
e da destruição, seria insensato e inútil desafiar tal perigo. A paz foi assim
selada e durante séculos manteve-se um ambiente de concórdia e segurança.
Discute-se
se as sociedades passadas conheciam ou não a desigualdade econômica e social.
Os indícios disponíveis não nos permitem afirmar com certeza o que se passou.
Entretanto, pelos artefatos coletados, edifícios de mais de quarenta andares,
carcaças de automóveis e trens de alta velocidade, satélites, computadores,
telefones sem fio, suportes tecnológicos sofisticados, tudo indica que se
tratava de um momento de fartura.
As
pessoas dessas sociedades conheciam técnicas de plantio capazes de eliminar a
fome de todo o planeta e possuíam meios de comunicação efetivos para
circunda-lo por terra, mar e ar. Seria improvável a existência da pobreza e do
abandono, inclusive porque os avanços da biogenética eram consideráveis,
prolongando a vida dos habitantes desses lugares.
Diz-se
que o conhecimento do passado pouco contribui para esclarecer o presente. Mas
quando esta Academia de Lagado se debruça sobre as antigas populações
terráqueas, não sem uma sombra de nostalgia vislumbramos tempos melhores.
Distintos de nossa condição precária na qual a sensação insuportável das
canículas climáticas, o ar rarefeito, a fome e a miséria, se impõem como uma
fatalidade. Já não vivemos como nossos antepassados, algo perdemos de sua
sabedoria e discernimento quando viemos habitar outros confins da galáxia.
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Fragmentos – notícias de jornal
“Numa
pequena aldeia na Índia uma descoberta deixou os moradores desolados. Há anos
eles reverenciavam nas pedras sagradas da região as divindades que protegiam
suas colheitas, aí sacrificavam animais e oravam pela intervenção divina.
Entretanto, uma equipe de cientistas revelou a origem desses objetos
misteriosos, eram ovos fossilizados de dinossauros. Não sei se o sentimento
procede, os dinossauros viveram há milhões de anos, muito antes da existência
dos deuses e dos humanos. Não seria sua antiguidade a prova da perenidade do
mundo”?
“As
autoridades do Afeganistão estão preocupadas com a lascívia de seus cidadãos. O
Ministério para a Propagação da Virtude e Prevenção dos Vícios, ciente de suas
responsabilidades, tomou uma decisão capital contra os manequins das lojas de
roupas femininas. Obrigou os negociantes a cobrir suas cabeças com véu ou
plástico. Mostrou, porém, ser misericordioso, deixou-lhes a opção de
decapitá-las exibindo nas vitrines os corpos dilacerados. O rigorismo clerical
é de uma engenhosidade atroz”.
“No
interior do país uma jovem iraniana foi impedida de assumir o cargo de
representante municipal para o qual tinha sido eleita. Motivo: sua beleza
excessiva. Os clérigos temiam que os políticos se desviassem da senda divina.
Entre a tentação e o desejo a tradição recomenda a prudência”.
“Uma
província turca denominada Batman exigiu das autoridades governamentais que
suas fronteiras territoriais tivessem a forma do homem-morcego. Assim, ao se
olhar o mapa do país teríamos a nítida visão da silhueta do símbolo do
super-herói. Os críticos dirão que o pleito insensato é a prova cabal da
colonização das mentes, ficarão chocados com a tentativa tosca de lhes
arrebatar a autenticidade radical. Talvez seja possível outra interpretação dos
fatos, por fim as histórias em quadrinho moldam as fronteiras geopolíticas”.
“Um
juiz de Uberaba resolveu interferir na língua portuguesa, interditou a
circulação do dicionário Houaiss por causa da palavra cigano. Considerou o
termo pejorativo, seria um insulto à ideia de igualdade entre os indivíduos e
as raças. A investida jurídica merece aplausos. Para transformar o mundo,
liberá-lo das injustiças e crueldades, bastaria a reforma gramatical. Como as
palavras exprimem o real em sua inteireza, corrigir as distorções
terminológicas é um imperativo categórico. Tudo se ajustaria assim à ordem
natural das coisas”.
“No
Quênia, junto à uma comunidade étnica, as viúvas devem ser purificadas.
Acredita-se que o rompimento do laço matrimonial implica em um perigo latente
para a sociedade. Para evitar a má sorte elas devem fazer sexo com estranhos.
Primeiro, fora das casas, depois, dentro delas. O ritual deve ser
escrupulosamente seguido, os lençóis usados e os colchões, após o acasalamento,
precisam ser queimados e as viúvas têm a cabeça raspada. As cinzas do que se
foi testemunham a eficácia do ato. Os purificadores, homens, é claro, são
regiamente recompensados pela caridade religiosa.
“A
revista Science publicou o resultado de uma extensa pesquisa realizada nos
Estados Unidos. Depois de criteriosamente se observar um grupo de indivíduos de
rendas diferentes, chegou-se à seguinte conclusão: as pessoas com poucos
recursos têm maior dificuldade de planejar a vida a longo prazo. Se o exemplo
considerado fosse de países mais pobres, os cientistas veriam suas descobertas
confirmadas. A máxima enunciada é universal, os que passam fome dificilmente
enxergam para além dela. A ciência possui verdades insondáveis”.
“Os
paleontólogos se perguntam como os humanos perderam o osso do pênis. As últimas
pesquisas acadêmicas permitem responder à pergunta. A maioria dos mamíferos
possui o báculo, um osso maleável que não se encontra ligado ao esqueleto, ele
“flutua” no final do pênis. Uma das explicações possíveis da sua existência é a
intromissão vaginal. O osso segura a fêmea impedindo que acasale em seguida com
outros machos. Os cientistas descobriram que nas espécies com elevado nível de
competição pelas fêmeas o báculo é mais comprido. Os humanos tendem a acasalar
com um número restrito de fêmeas, neste caso, sua existência seria
disfuncional. Os moralistas não hesitarão em dizer que a fidelidade é uma
virtude animal”.
“Entre
Tijuana e San Diego existe um muro que se alonga do Pacífico ao continente
dividindo a fronteira entre os Estados Unidos e o México em duas antípodas
irreconciliáveis. Uma vez ao ano uma passagem se abre nesta muralha
intolerante, uma pequena fenda na qual o corpo de um ser humano se encaixa.
Algumas famílias são escolhidas de cada lado da fronteira e durante vinte
minutos um ritual sinistro e macabro se realiza. Os familiares se veem, se
tocam, abraçam-se e choram, uma multidão contempla à distância a cena insólita.
Há regras rígidas para este encontro inóspito, os policiais estão atentos e
vigiam os pés dos visitantes. Eles devem ficar fora da linha da demarcação
fronteiriça. Um traço no chão reproduz a interdição material que o paredão
representa. Sob os olhos das autoridades os pés inquietos movimentam-se sem
tocar o limite proibido. As outras partes do corpo têm uma liberdade maior,
quando as pessoas se aproximam umas das outras, ele se inclina e se retrai para
além e aquém da linha amarela. Os policiais ignoram a pequena transgressão, os
pés estão fincados em terra firme confirmando o domínio da soberania
territorial. Esgotado o tempo de reconciliação a portinhola se fecha, pés, mãos
e cabeças, retornam à idiotice nacional”.
Fonte:
Por Renato Ortiz, em A Terra é Redonda

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