A
política do pânico
Uma
página do Instagram chamada “Seremos Resistência” publicou uma peça acusatória
contra o historiador e político brasileiro, Jones Manoel a propósito de uma
“colinha” eleitoral na qual não aparecia o nome de presidente Lula da Silva. O
episódio poderia parecer apenas mais uma polêmica fabricada pelas redes
sociais, dessas que nascem com a solenidade de uma crise de Estado e morrem
antes do fim do dia. Contudo, revela algo politicamente mais profundo e
problemático. Começo com uma curta reflexão sobre o nome da referida página e o
imaginário político que ela carrega: seremos resistência. A partir de uma
conceção político-militar, resistir é indispensável quando os adversários estão
a avançar, mas resistir não é vencer, apenas defender-se dos ataques dos
inimigos. É neste ponto que a resistência deixa de ser um momento da luta e se
converte numa identidade permanente de uma estratégia política, desligada de um
horizonte de conquista e transformação, tornando-se num fetiche pela derrota
política (mesmo que com vitórias eleitorais), visto que não se pretende
conquistar iniciativa, construir força ou transformar a sociedade; pretende-se
apenas impedir, pela enésima vez, que tudo se torne ainda pior. A
autodesignação da página expressa metaforicamente (ou não) a temporalidade
histórico-política do “lulismo tardio” (Paulo Arantes).
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O lulismo tardio e a política do pânico
A
categoria “lulismo tardio” não designa apenas uma etapa cronológica da história
política de Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores (PT), mas uma
alteração na forma predominante de organizar o consentimento e manter a
hegemonia no campo da esquerda e progressista. No seu período ascendente,
sustentado pelo crescimento económico, pela expansão do emprego, pela
valorização do salário mínimo e pela ampliação das políticas sociais, o
progressismo do lulismo apresentava uma promessa positiva, como os pobres
poderiam melhorar de vida, os trabalhadores poderiam consumir mais e o
capitalismo brasileiro continuaria a lucrar, tudo isto sem rutura com as
estruturas fundamentais da ordem. Era o “melhorismo”, isto é, melhorar a vida
do povo trabalhador dentro da ordem, administrando e regulando os conflitos a
fim de evitar que desembocassem num confronto aberto entre interesses
inconciliáveis – isto é, a velha e viva, apesar de negada ou ocultada, luta de
classes.
A base
material começou a erodir-se com a desaceleração económica no esteio da crise
capitalista e a política de austeridade aplicada em 2015 pelo governo Dilma
Rousseff (o próprio PT reconhece essa análise); portanto, a crise política
aberta em Junho de 2013 foi depois aprofundada pelo golpe do impeachment,
lawfare e prisão de Lula, assim como a tutela militar e a emergência do
bolsonarismo enquanto campo político hegemónico na direita brasileira,
sinalizam para uma crise e os limites do lulismo não-tardio (forma de regulação
do conflito social a partir da cadeira presidencial). Nesse processo de crise,
a promessa mudou de sinal.
O
lulismo progressista já não podia afirmar prioritariamente: “connosco, todos
podem melhorar”. Passou a advertir: “sem nós, virá a barbárie”. Noutros termos,
o futuro desejável cedeu lugar ao futuro temido. O melhorismo transformou-se em
“menorismo”: já não se trata principalmente de melhorar dentro da ordem do
capitalismo periférico e dependente brasileiro, mas de impedir que a
sociabilidade se torne ainda pior. Uma pergunta parece incontornável: a tática
lulista tem conseguido?
Enfatizo
sem meias palavras. A ameaça da extrema-direita e do neofascismo é real, o
golpe do impeachment de 2016, a operação político-judicial contra Lula da
Silva, assim como foi o governo de Jair Bolsonaro, a gestão criminosa da
pandemia, a tutela das Forças Armadas e as tentativas golpistas, as ameaças de
uma intervenção imperialista dos EUA no país; são questões e riscos que não
foram invenções de uma assessoria de comunicação lulista/petista, é algo
verdadeiro e realmente temerário. O problema central está no uso político que
se faz desses riscos. Explico melhor.
A
política do pânico inicia-se quando ameaças autoritárias e fascizantes reais
são convertidas numa tecnologia e modo de disciplinamento interno, quer dizer,
na gramática predominante do lulismo tardio, o Lula da Silva e o PT são
apresentados como as únicas barreiras possíveis contra a catástrofe;
particularmente Lula, como a única mediação popular capaz de a impedir.
Portanto, qualquer forma de crítica torna-se colaboração “objetiva” com a
direita ou o bolsonarismo, uma posição de independência e autonomia política
que trisque na hegemonia do lulismo/petismo converte-se em divisionismo; a
apresentação de alternativas é denunciada como irresponsabilidade. Por outro
lado, as alianças com forças conservadoras surgem como o preço inevitável para
impedir algo pior, esquece-se facilmente o que Geraldo Alckmin, entre muitos
outros, afirmavam quando Lula estava preso. Nesse contexto, o pequeníssimo
campo da esquerda radical, que esteve na frente de várias mobilizações para
denunciar a prisão de Lula e reivindicar a sua liberdade é “descartado” porque
não legitima todas as táticas do lulismo. Em síntese, o inimigo externo e os
riscos passam a regular o campo interno da esquerda (social-liberal e
radical/socialista) e a única lealdade política que o lulismo/petismo aparenta
ter é com a sua hegemonia.
Medo e
pânico, neste sentido, não são a mesma coisa. O medo possui um objeto
determinado, que permite produzir prudência, análise, preparação e organização
coletiva. Uma esquerda que reconhece o fascismo ou neofascismo como perigo
procura compreender as forças sociais que o sustentam, disputa as ruas,
organiza os trabalhadores e constrói uma frente tática para o derrotar tendo em
vista a sua estratégia e projeto político. Já o pânico produz outro efeito,
pois comprime a temporalidade, reduz as alternativas, suspende a deliberação e
exige sujeição imediata. O medo diz: há uma ameaça, organizemo-nos para
enfrentá-la. O pânico ordena: não há tempo para discutir; existe apenas uma
escolha legítima e qualquer divergência poderá provocar um cataclismo. É por
isso que sucessivas eleições voltam a ser apresentadas como “as mais
importantes das nossas vidas”; curiosamente, a exceção regressa com a
pontualidade do calendário eleitoral. Antes da votação, não se pode criticar
porque a direita pode vencer; depois dela, não se pode criticar porque é
necessário assegurar a posse, estabilizar o governo, formar maioria,
tranquilizar os mercados e preparar a eleição seguinte. Ou ainda, se criticar a
direita ou extrema direita pode retornar. Um círculo vicioso que o
lulismo/petismo procura impor aos setores à sua esquerda. Salvar a restrita
democracia política liberal torna-se tão urgente que já não dispõe de tempo
para o debate democrático no suposto campo da esquerda. O futuro torna-se
adiado por excesso de urgência, ou seja, os inimigos estão sempre a condicionar
as nossas iniciativas e agendas políticas.
O
mecanismo interno pode ser analisado e entendido pela categoria sartriana de
“fraternidade-terror”. Um perigo exterior reforça a identificação do grupo com
a sua liderança; quando aparece uma divergência, o dissidente pode ser
convertido num substituto simbólico do inimigo externo.
No
lulismo tardio, essa disciplina não assume a forma do terror físico exatamente,
mas a do disciplinamento hegemónico-político, afetivo e moral; portanto, quem
critica é acusado de enfraquecer; quem constrói uma alternativa, de dividir;
quem recusa uma aliança, de favorecer o fascismo. A crítica já não é enfrentada
pelo seu conteúdo, mas julgada pelas consequências eleitorais que lhe são
previamente imputadas. Aqui está o núcleo central e ideológico da lógica
política do pânico do lulismo em crise rastejante. Do ponto de vista dos afetos
políticos, a fórmula é simples: medo no presente, culpa no futuro. No presente,
exige-se silêncio para não fortalecer a direita; no futuro, caso ela vença, o
crítico será responsabilizado por ter falado, dividido ou apoiado outra
candidatura. O ónus da justificação é deslocado, em vez de o lulismo e o PT
assumirem as suas escolhas, exige-se que o dissidente demonstre que a crítica
não produzirá uma catástrofe. Daí nasce a autocensura preventiva, não pela
força do convencimento, mas pelo receio moral de ser apontado como responsável
pelas futuras vítimas do autoritarismo. Os que fazem tendem a pagar um preço
político bastante elevado.
Muitos
dos que reproduzem esse dispositivo acreditam sinceramente que estão a
defendera a restrita democracia representativa e podem efetivamente desejar
derrotar a extrema-direita; não há uma teoria da conspiração, mas sim uma
prática política internalizada. Todavia, a questão não é apenas a intenção
subjetiva, mas a função política objetiva dessa lógica política e ideológica.
Ao identificar a sobrevivência do regime liberal da “Nova República” com a
sobrevivência eleitoral do PT, a política do pânico restaura a centralidade
lulista, neutraliza a crítica e exerce pressão para subordinar o conjunto da
esquerda à temporalidade permanente do mal menor.
O
trágico-cómico é que o próprio Lula da Silva afirmou em 2021 que Jair Bolsonaro
(o bolsonarismo) seria fruto da despolitização no Brasil nos últimos 20 anos.
Resta-me perguntar: quem esteve no governo central na maior parte do tempo
dessas duas décadas? Não foi o PT o partido hegemónico na esquerda brasileira
nos últimos 30 anos? Ou só querem a parte boa da hegemonia? Posso concluir que
o cerne do lulismo enquanto projeto de administração do capitalismo brasileiro
é a despolitização? O menorismo é o modo de sobrevivência do lulismo e do PT
enquanto força hegemónica? Essa forma de direção política sobre grande parte do
chamado campo progressista pode ser definida como hegemonia negativa. Embora o
lulismo preserve políticas sociais, promessas materiais e memórias positivas, a
unidade já não se organiza em torno de um projeto afirmativo suficientemente
definido, mas da rejeição de um inimigo. (o eixo predominante da unidade já não
repousa num projeto político de transformação suficientemente definido – tudo
depende e se justifica em torno de um “dado geológico” da correlação de
forças).
O
bolsonarismo fornece o conteúdo negativo; o campo lulista reivindica para si a
condição de instrumento eleitoral privilegiado da contenção (um fato
incontestável eleitoralmente). De um ponto de vista do imaginário político e da
perspetiva de futuro a questão decisiva deixa de ser “que sociedade brasileira
queremos construir?” e passa a ser “quem pode impedir a sociedade que
tememos?”. Poderia ser uma contradição que se sustentasse na primeira
pergunta-imaginação política para agir na segunda, mas para um partido e forma
de governar que só tem tática eleitorais, não têm estratégia política de
transformação estrutural do Brasil e não apresenta um projeto de futuro que
ultrapasse os limites impostos pelas classes dominantes brasileiras, o que
resta é a política do pânico. O risco neofascista e trumpista é real, mas essas
forças terão um terreno histórico fértil quando a esquerda morta-viva que foi
domesticada pelo neoliberalismo e o fim da história se recusa a ser uma força
política anticapitalista e verdadeiramente antissistema.
O voto
tático no mal menor pode ser racional e necessário, sobretudo numa segunda
volta contra um candidato neofascista. O problema começa quando uma decisão
excecional se converte numa conceção estratégica permanente, num mandato
político em branco e em práticas de deslegitimação das forças que pretendem
crescer fora da órbita lulista. Nesse momento, a unidade antifascista deixa de
ser tática e torna-se subordinação estratégica. A ameaça já não é apenas aquilo
que a esquerda precisa de derrotar; torna-se o instrumento por meio do qual uma
parte da esquerda (social-liberal) procura disciplinar todas as outras
(socialistas, comunistas, radicais, etc.).
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A “colinha” do medo e o caso Jones Manoel
Ao
receber a supracitada publicação identifiquei que poderia servir como uma
demonstração quase laboratorial desse mecanismo do pânico como afeto político
do lulismo tardio. Para efeito de contextualização: a “colinha” publicada
mostrava Jones Manoel para deputado federal, Ivan Moraes para governador e
Paulo Rubem para uma das vagas ao Senado. Permaneciam vazios os espaços
destinados à candidatura presidencial, à segunda vaga ao Senado e a deputado
estadual. O “erro” de comunicação, que para mim não foi exatamente um erro,
abriu margem para a máquina de pânico do lulismo e de deslegitimação política.
A página isolou uma dessas ausências – Lula – e transformou-a imediatamente
numa decisão política consciente, que Jones Manoel teria recomendado voto em
branco para presidente – dado o histórico de críticas, factuais e verdadeiras,
à gestão neoliberal e o centrismo do governo do presidente Lula. O fundamental
é que os elementos reproduzidos no post não permitem essa conclusão, exceto
para a lógica política do pânico do lulismo.
Objetivamente,
a ausência de um nome, voto em branco, voto nulo, neutralidade política e apoio
à extrema-direita são coisas radicalmente distintas. A acusação assenta no
seguinte silogismo: há apenas duas posições legítimas, Lula ou Flávio
Bolsonaro; a arte atribuída à campanha de Jones Manoel não indicava Lula; logo,
Jones “acaba servindo como cabo eleitoral da extrema-direita”. A “colinha”,
supostamente criada para ajudar o eleitor e agitação política, converte-se num
teste de fidelidade. O espaço vazio passa a carregar mais intenção política do
que os nomes efetivamente impressos.
A
publicação não afirma expressamente que Jones seja bolsonarista ou algo do
género, porque seria facilmente desmontado pelo papel que o mesmo tem tido no
combate e debates públicos contra a extrema-direita (com milhões de
visualizações). A operação é mais eficaz e astuta; a autonomia política de
Jones Manoel produziria, independentemente das suas posições, da sua história
ou da sua intenção, “objetivamente” o mesmo resultado desejado pelo
bolsonarismo. Sem distinguir esta omissão no post (voto em branco, voto nulo e
neutralidade política), a peça percorre abusivamente, para dizer o mínimo, a
distância entre um campo vazio e a acusação de colaboração indireta com a
extrema-direita. Jones Manoel é o objeto direto da acusação; por extensão, o
objeto indireto é a esquerda socialista que recusa aceitar o lulismo e o PT
como limite irrevogável da política possível no Brasil. Por isso, a linguagem
do post abandona rapidamente o terreno da estratégia e entra na moralização
política. Detalho. “Ter responsabilidade é para poucos”, afirma a publicação,
antes de lhe atribuir a procura de “lacração”. Não se discute se a sua
orientação eleitoral estaria certa ou errada, nem se pergunta qual deveria ser
a relação entre autonomia socialista e uma suposta unidade antifascista em da
volta na frente ampla do lulismo/petismo. Portanto, a divergência política é
reduzida a uma questão individual (posição típica dos neoliberais, só que nesse
caso, numa versão “progressista”): vaidade, irresponsabilidade, oportunismo
digital. Em vez de responder ao programa de Jones Manoel (e da bancada da
esquerda radical), o enquadramento funciona como tentativa de impor um dano
reputacional à sua candidatura (com fortes chances de ser eleito deputado
federal pelo estado de Pernambuco).
Por
exemplo, a questão do Senado, embora secundária no meu entendimento, certifica
a mesma lógica. Em Pernambuco, nas eleições de 2026, cada eleitor dispõe de
dois votos para o Senado; por isso, apoiar Paulo Rubem numa das vagas não
impedia o eleitor de votar noutro candidato para a segunda. A intenção de voto
de 1% atribuída a Paulo Rubem na sondagem citada foi utilizada como sinal da
sua alegada inviabilidade e, a partir daí, como argumento para o apresentar
como fragmentador. Quando convertido em norma política, o argumento do voto
útil pode produzir um circuito autorreprodutivo, porque uma candidatura
minoritária recebe menos exposição, surge com baixa intenção de voto, é
apresentada como inútil, perde apoios em nome do voto útil e permanece pequena;
depois, a sua pequena dimensão é oferecida como prova de que nunca deveria ter
tentado crescer. A sondagem eleitoral deixa de apenas descrever a correlação de
forças e passa a prescrever quais candidaturas teriam legitimidade para
disputar e procurar crescer. Não percebem a importância de ter um campo diverso
à esquerda do PT, para alargar e politizar o próprio bloco social e eleitoral –
observemos o que a extrema-direita brasileira tem feito, quantos candidatos
eles têm? Estão a encurtar ou alargar o seu campo político?
Na
lógica particular do post, há uma conceção patrimonial do eleitorado. Os votos
da esquerda progressista parecem pertencer antecipadamente ao campo petista;
qualquer candidatura socialista autónoma não conquista votos próprios, apenas
“retira” votos aos seus legítimos proprietários. Assim, as forças dominantes
são declaradas “responsáveis” por já serem grandes, enquanto as restantes são
condenadas por permanecerem pequenas e impedidas, ao mesmo tempo, de deixar de
o ser. Não se pretende uma disputa pela hegemonia, mas sim decreta-se que ela
já tem detentores. Observemos a contradição. Na prática histórica do lulismo,
as composições com partidos conservadores, empresários e figuras da direita são
justificadas em nome da governabilidade, da maturidade e do realismo – leiam
sobre Luciano Bivar. Modera-se o programa já moderado no afamado Congresso de
1991, repartem-se palanques e oferecem-se garantias aos de cima (aos liberais,
ao centrão e aos conservadores). Mas quando uma força socialista apresenta
candidatura própria, procura construir uma bancada independente ou recusa a
subordinação integral ao lulismo, reaparecem subitamente a pureza da unidade e
o perigo da divisão.
O
principal é: não se trata de equiparar alianças distintas nem de negar as
exigências da disputa parlamentar, mas de observar a assimetria dos critérios
ético-políticos e morais utilizados. Em síntese: negociação para cima;
disciplina para baixo. A direita pode entrar na coligação; a esquerda, quando
diverge, passa a “trabalhar para a direita”. Certa vez escrevi uma frase que
provocou a ira de muita gente: a política do lulismo é a barca de salvação da
direita tradicional e a montanha que não permite nenhuma esquerda antissistema
crescer à sua volta. É nesse contexto que a figura política do Jones Manoel se
torna um problema político que ultrapassa a “colinha” eleitoral. Como referi,
Jones Manoel tem vindo a conquistar visibilidade no debate público brasileiro
como uma voz socialista e radical situada fora do campo lulista/petista, com
forte circulação digital (na casa de milhões) e capacidade de disputar públicos
que não se reconhecem na política do lulismo e do PT.
Todavia,
o jovem intelectual negro e nordestino não é apenas um youtuber (como os
desafetos políticos procuram nominá-lo a fim de deslegitimar), mas uma
liderança política em formação e construção, com uma candidatura que procura
vocalizar um projeto coletivo da revolução brasileira e, sobretudo, com a
possibilidade de consolidar e liderar um campo político fora do
lulismo/petismo. O post busca associá-lo a quatro marcas típica do pânico do
lulismo tardio diante de um quadro político que possa triscar minimamente o
hegemonismo do PT/lulista, como irresponsabilidade, oportunismo, divisão da
esquerda e colaboração objetiva com a extrema-direita. A referida publicação é
importante, por esse motivo tomei a decisão de escrever esse texto separado do
ensaio alargado acerca da lógica política construída em torno do grupo político
liderado por Lula da Silva, porque ela reproduz com nitidez a gramática
política do lulismo tardio, ao utilizar um inimigo real para transformar uma
liderança concorrente situada à esquerda do PT num inimigo interno a ser
derrotado ou domesticado. Isto é, inscreve-se numa lógica que legitima como
realistas as alianças lulistas com forças conservadoras e liberais, mas
apresenta a autonomia do campo socialista como desvio moral; e transforma a
necessidade de derrotar a extrema-direita num dispositivo que produz o efeito
de deslegitimar a acumulação de força por uma esquerda que pretenda superar o
lulismo/petismo – um processo que implica múltiplas contradições, uma delas é
ter que estar num partido que apoia Lula da Silva desde a primeira volta das
eleições presidenciais.
O
retomo o nome da página como metáfora do lulismo tardio. O problema não está no
verbo resistir em si. Mas quando a resistência se torna o horizonte inteiro,
contém-se o adversário sem construir força capaz de lhe retirar a iniciativa, a
emergência transforma-se em destino e a defesa permanente toma o lugar da
vitória política e transformadora. Eis o fetiche da derrota na vitória
eleitoral. Explico. Os adversários conservam a iniciativa, a esquerda
administra o medo e cada nova ameaça serve para reduzir um pouco mais o
horizonte do possível. Desse modo, quando a temporalidade mata as
possibilidades de futuros, os neofascistas e sucedâneos estão a vencer, e o que
mais me espanta é o marasmo que essa lógica política impõe quando vejo pessoas
queridas do meu cotidiano a corroborar acriticamente essa política do pânico
permanente.
Estão
sempre dececionadas com uma liderança política que cresce fora do lulismo, é
crítico contumaz das principais causas dos problemas estruturais do Brasil e
enuncia um projeto alternativo ao petismo, mas têm uma benevolência com o
governo neoliberal liderado por Lula da Silva e cada vez mais à direita. Combater
o fascismo exige resistência e, sobretudo, uma esquerda mais forte, organizada,
enraizada e capaz de oferecer um futuro que possa ser construído e não seja
sinônimo de tradição, como tem enunciado o filósofo Vladimir Safatle, como uma
questão central dos problemas e limites da esquerda social-liberal mundo afora.
A extrema direita não pode ser o inimigo invocado para impedir que uma
alternativa verdadeira antissistema cresça e não poderá ser derrotada
duradouramente sem, entre outras condições, o fortalecimento de uma esquerda
autónoma, organizada e capaz de disputar a sociedade. A unidade tática, quando
necessária; independência estratégica e programática, continuamente – inclusive
dentro das alianças políticas necessárias.
Resistir
não é vencer. Uma esquerda que, para impedir o pior, interdita a revisão dos
erros do presente e a construção de outro futuro acaba por converter a vitória
eleitoral e a derrota política numa mesma identidade contraditória. O pânico e
o medo tornam-se, então, o seu programa máximo: o menorismo.
Fonte:
Por Carlos Hortmann, em A Terra é Redonda

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