Eleições
2026: Grande imprensa ignora interferência dos EUA na democracia do Brasil
O
cientista político Celso Rocha de Barros apontou uma obviedade que a grande
imprensa tem omitido: essa não será uma eleição normal.
“Será
que todo dia a gente não devia tratar do fato que tem uma superpotência que
tomou a economia brasileira como refém para exigir que os brasileiros votem no
candidato que elas preferem? Eu acho muito esquisito e desconfortável a gente
falar dessa eleição como uma eleição normal, que está correndo sob a mais
completa normalidade”, refletiu Celso.
A maior
potência bélica do planeta enfiou o pescoço na democracia brasileira e já está
interferindo nas eleições. O aparato de estado dos Estados Unidos tem sido
usado para impulsionar a agenda política de Flávio Bolsonaro, que em troca
prometeu entregar as terras raras brasileiras e muito mais.
Além de
impor sanções econômicas, o governo estadunidense praticou uma série de ações
para favorecer a candidatura bolsonarista. Chegou até a tentar enviar para o
Brasil dois oficiais para questionar as urnas eletrônicas.
Essa
flagrante violação da soberania nacional tem sido tratada como um problema
diplomático entre os dois países, o que é evidentemente falso. Estamos sendo
intimidados pelo mesmo extremista maluco que invadiu a Venezuela, sequestrou
seu presidente e roubou seu petróleo.
Inacreditavelmente,
essa não parece ser a grande preocupação da imprensa brasileira. O assunto tem
sido tratado de forma lateral no noticiário e nas colunas de opinião.
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Normalização dos ataques à soberania nacional
Nas
sabatinas do Jornal Nacional, por exemplo, a soberania nacional não foi uma
questão central. Nenhum candidato até agora recebeu perguntas sobre o risco de
uma intervenção estrangeira. Os jornalistas não perguntaram nem mesmo para o
presidente da República. E isso se repete em outras entrevistas e sabatinas.
As
eleições correm risco de sofrer uma intervenção internacional, mas isso tem
sido tratado como uma questão menor, quase irrelevante. A maior parte do tempo
é gasta pelos jornalistas com escândalos de corrupção, que está bem longe de
ser o maior dos nossos problemas.
Lula e
Renan Santos são os únicos candidatos que denunciam a sanha interventora de
Donald Trump sobre as eleições. Mas, diferente do petista, que trata o tema
como questão fundamental, Renan só toca no assunto para marcar posição fora do
bolsonarismo e surfar na impopularidade de Donald Trump.
Além da
normalização dos ataques à soberania, há também uma normalização dos ataques à
democracia. Quase todos os candidatos da direita nesta eleição prometeram
anistiar os golpistas condenados pelo 8 de Janeiro. É como se a tentativa de
golpe de estado não estivesse fartamente comprovada.
Já tem
até livro de ex-comandante da Aeronáutica no governo Bolsonaro dando detalhes
da trama golpista, mas o negacionismo do golpe ainda é tratado como opinião
legítima no debate público. Chegaremos ao pleito com mais da metade dos
candidatos prometendo tirar golpista da cadeia. Assim, fica ainda mais difícil
chamar as eleições de “festa da democracia”.
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Relativização da ditadura militar
A
direita brasileira, inclusive a que se diz não bolsonarista, não tem mais
compromisso com os valores democráticos. Durante um longo período após a
redemocratização, a direita brasileira repudiou o golpe de 64. Até pouco tempo,
era inimaginável um candidato relativizar a ditadura.
Hoje,
Romeu Zema não demonstra o menor pudor em dizer que chamar o regime militar de
ditadura é uma mera “questão de interpretação”. Ronaldo Caiado também
relativiza o período e se recusa a classificá-lo como ditadura. É natural que
eles defendam a anistia para os golpistas de 8 de Janeiro.
O
candidato do partido Missão é o único direitista que condena a ação dos
golpistas, mas nem por isso é alguém com apreço pela democracia. Seu discurso é
tão ou mais autoritário que o de Flávio Bolsonaro. Ele promete um “banho de
sangue” para acabar com a violência e diz que não respeitará nenhuma decisão do
Supremo Tribunal Federal que considere ilegal. Esse é o retrato trágico da
direita brasileira.
O único
não bolsonarista disponível no mercado eleitoral é um “Milei na forma e Bukele
no conteúdo”, como ele mesmo admite.
Para os
progressistas e democratas, essa eleição será parecida com a de 2022. A lógica
plebiscitária é a mesma. De um lado, temos uma direita entreguista que quer
anistiar o golpismo. Do outro, temos Lula, o único que trata a defesa da
democracia e da soberania nacional como temas centrais da sua candidatura.
Assim
como na eleição anterior, Lula não é apenas um candidato, mas a barreira de
contenção de projetos autoritários e entreguistas. Desta vez, o risco ainda é
maior, já que temos no nosso cangote a maior potência bélica e econômica do
mundo, que parece disposta a mover mundos para colocar seu fantoche no poder.
Uma
eleição realizada nessas condições deveria estar causando grande indignação
coletiva, mas está sendo tratada na grande imprensa como mais um passeio no
parque. Nem parece que ela está ameaçada por um ditador com sanha imperialista
que acabou de invadir um país vizinho para roubar petróleo.
Quando
a imprensa trata esse risco como uma questão diplomática e a anistia aos
golpistas como uma proposta legítima, ela não está sendo neutra, mas conivente
com o entreguismo e com o golpismo.
• Ataques de Trump mostram que direitos
humanos não são mais um consenso. Por Cristina Buarque de Hollanda e José
Szwako
Na sua
cruzada contra o Brasil, o governo de Donald Trump tem avançado em múltiplas
frentes, com tarifaços sobre os produtos brasileiros, a suspensão de visto da
embaixadora brasileira, tentativas de aliciamento de jornalistas
investigativos, além de encontros do Consulado com influencers de direita
dispostos a questionar as urnas eletrônicas sem indícios de irregularidades.
No
Brasil, as ações da extrema direita norte-americana encontram terreno fértil.
Um terreno eleitoralmente dividido, mas, ainda assim, fértil. Os direitos
humanos por aqui alcançaram as instituições e se entranharam nelas; contudo,
parcelas expressivas da sociedade não os abraçaram.
Quando
Bolsonaro e os seus avançaram vorazmente sobre as instituições e as políticas
de direitos humanos no Brasil – seja para subverter seus valores, seja para
desmontá-las –, houve quem se indignasse, mas mais ruidosos foram os aplausos e
a indiferença daqueles que percebiam os direitos humanos como retórica vazia,
promessa não cumprida.
Se o
ataque à institucionalidade dos direitos humanos foi obra deliberada da extrema
direita, a apatia coletiva diante desse processo lhe serviu de apoio,
distribuída por diferentes camadas da sociedade.
Assim,
os arroubos de Trump não nos falam apenas de matizes e matrizes da extrema
direita global. A facilidade com que a fachada humanitária de outros tempos foi
descartada nos informa também sobre a posição rebaixada dos direitos humanos
hoje.
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Entendimento mínimo
“Por
que eles não cuidam do próprio povo em vez de meter o nariz aqui?” Foi assim
que Ernesto Geisel, nosso penúltimo ditador, reagiu às primeiras investidas de
Jimmy Carter no Brasil em nome dos direitos humanos.
Isso
foi no fim do seu mandato (1974-1979), quando Carter era presidente dos Estados
Unidos e os direitos humanos começavam a circular como gramática política no
mundo.
Era uma
época cindida pela Guerra Fria, e essa nova ideia surgia como uma espécie de
entendimento mínimo entre atores de diferentes quadrantes da política.
As
ideologias que queriam revolucionar as sociedades perdiam terreno e os direitos
humanos nasciam modestos em suas ambições. Já que não parecia possível decidir
coletivamente como o mundo deveria ser, o arranjo possível se construía em
torno dos males a evitar. Na prática, uma receita mínima: não matar, não
torturar, não desaparecer com pessoas.
Aceito
receber e-mails e concordo com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.
Quer
dizer, os direitos humanos eram um acordo sobre o que não poderia ser. Ou a
“última utopia”, como chamou Samuel Moyn, historiador do Direito estadunidense.
Se, no
fim dos anos 1970, a intromissão do gigante do norte parecia inconveniente para
um regime ancorado em violências sistemáticas do estado contra seus cidadãos, a
cena era bem diferente cerca de uma década e meia antes, quando as
conveniências dos dois países andavam bem alinhadas.
Entre
os militares que aderiram ao golpe contra João Goulart, em abril de 1964, não
há registro de incômodo com a Operação Brother Sam, que deslocou a força naval
dos Estados Unidos para a costa brasileira para eventual apoio aos insurgentes.
Tampouco consta insatisfação militar com o apoio dos EUA à Operação Condor, que
coordenava a repressão em países do Cone Sul.
Mas
quando o aliado mudou o tom do discurso, o nariz metido por aqui perdeu
interesse. Para Geisel, tratava-se de uma traição. As “relações com os Estados
Unidos ficaram extremamente tensas”, ele lembra. A partir dali, os Estados
Unidos se agarraram aos direitos humanos como sua régua moral para o resto do
mundo, uma espécie de identidade nacional de exportação.
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Intervenção na soberania alheia
Dentro
dos Estados Unidos, as mazelas domésticas ganhavam outros nomes, mas “violação
de direitos humanos” não era um deles.
Tais
violações eram imputadas aos outros, e ressoavam na sensibilidade estadunidense
como um chamado para corrigi-las. O tempo sedimentou esse sentido de missão e
associou-o à outra categoria sagrada, a defesa da democracia – que os Estados
Unidos souberam relativizar em nome do anticomunismo.
Mais
uma vez, os deficitários de democracia eram, por definição, os outros. Nesse
caldo político-cultural, direitos humanos e democracia retroalimentaram-se como
valores indissociáveis. Combinados ao tema recorrente da segurança nacional,
formaram uma espécie de salvo-conduto para interferir na soberania alheia, do
Afeganistão ao Iraque, entre tantos outros.
No
Brasil, os direitos humanos adquiriram características próprias. Ao invés de
uma categoria de exportação para interferir e medir a democracia dos outros,
foram, primeiro, durante a ditadura, articulados por movimentos da sociedade
civil contra a violência de estado.
Com a
redemocratização, permaneceram como pauta da sociedade civil, mas também
pularam para dentro do estado, empurrados por novas alianças partidárias e
abraçados como nome de política pública.
Aos
poucos, avançaram dos estados para o governo e o Congresso federais e ganharam
ares de hegemonia moral, mas nunca alcançaram apoio popular amplo.
Movimentos
de direitos humanos sempre tiveram atores antidireitos gravitando no seu
entorno – “bandido bom é bandido morto” é o slogan que ainda ecoa nos
linchamentos e justiçamentos Brasil afora.
Os
grupos antidireitos tinham seus focos de irradiação: setores militares
inconformados com a transição; candidaturas marginais (e eventualmente
bem-sucedidas) de policiais, delegados e ex-militares a cargos proporcionais e majoritários, locais ou nacionais; e
programas de televisão populares.
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Humanos direitos
Mas
esses críticos insistentes dos direitos humanos nem sempre se dedicaram a negar
frontalmente a ideia. Muitas vezes, pegando carona na sua aura de consenso
moral, lançaram-se numa disputa sobre seu verdadeiro significado, virando-a
pelo avesso.
Assim
chegaram à fórmula dos “direitos humanos
para humanos direitos”, que troca universalismo por particularismo.
Quando
a extrema direita chegou ao poder no governo de Jair Bolsonaro, ela avançou
numa área repleta de edifícios de direitos humanos – alguns mais e outros menos
sólidos.
Passou
por eles com ímpetos cruzados. Ora empenhada numa política de terra arrasada,
querendo levar tudo ao chão, ora empenhada em ocupar os edifícios, valer-se de
sua estrutura e subverter, por dentro, o entendimento sobre direitos humanos.
Foi
assim, por exemplo, com o Ministério de Direitos Humanos, rebatizado como
“Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos” para avançar uma
plataforma centrada na defesa da família e no combate à chamada ideologia de
gênero.
Aqui
como nos Estados Unidos, o entendimento clássico dos direitos humanos já não
gozava do status de antes. Soava obsoleto; já não inspirava mais consenso.
Razão fundamental para isso é o fato de que eles não foram suficientes para
lidar com a escalada da desigualdade no mundo.
Como
argumentou Moyn, os direitos humanos se tornaram hegemônicos justamente numa
altura em que disparou o fosso entre os que têm e os que não têm. Eles mal
conseguiram garantir o piso mínimo (contra os abusos do estado, tortura e
desaparecimento) e abandonaram o teto (igualdade e distribuição).
Embora
tenham triunfado como linguagem moral, os direitos humanos não impediram a
precarização das condições de vida.
Se
Carter institucionalizou os direitos humanos, George W. Bush e outros os
instrumentalizaram e, agora, Donald Trump os descarta. Na guerra hoje em curso
no Irã, deixa de lado a capa humanitária e democrática.
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Máscara dos direitos humanos descartada
Como
definiu o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, no último fórum econômico
mundial, em Davos, testemunhamos o fim de uma “ficção agradável” que todos
“performavam como se fosse verdadeira” evitando mirar o “fosso entre retórica e
verdade”.
Assim,
a mudança de Bush para Trump não é de grau, mas de estatuto. A máscara dos
direitos humanos diante da comunidade internacional não caiu. Ela foi
descartada.
Aquela
agenda que sempre mirava nos outros, fora das fronteiras, perdeu força como
virtude política, e o America First (Estados Unidos primeiro, em português)
avançou como demanda popular. Para parcelas nada desprezíveis dos governos e
eleitores de direita, aqui como lá, os direitos humanos dizem nada ou muito
pouco.
Não é
pequeno o desafio atual dos operadores e políticas de direitos humanos: se não
querem cair na obsolescência, precisam entregar mais do que freios à violência
de estado, mas também atuar como diminuidores das nossas desigualdades.
Fonte:
Por João Filho, em The Intercept

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