Elvino
Bohn Gass: Globo fala pelo mercado. Lula responde pelo Brasil
Um dos
maiores vícios da chamada grande mídia brasileira é assumir como sua uma pauta
que não é do interesse público, mas do mercado financeiro. Essa prática
interdita o jornalismo real, que deveria servir à formação, não ao
convencimento da opinião pública.
A
entrevista de Lula à Globo foi exemplo acabado dessa distorção. Nem me refiro à
insistência em extrair do entrevistado opiniões sobre fatos não comprovados,
mas às perguntas sobre economia. Todas partiram de teses repetidas pelos homens
do mercado e, por afinidade de interesses, pela extrema direita política.
Tomemos
a preocupação — exagerada, afirmo — com a dívida pública. Lula lembrou que
países capitalistas ricos como Estados Unidos, Itália e Japão têm dívidas
proporcionalmente superiores à brasileira. Nossa dívida está próxima de 80% do
PIB, enquanto a dos EUA supera 120%. O tema preocupa? Óbvio. Mas aqui repete-se
como mantra que os juros são exorbitantes porque o governo gasta demais,
sobretudo com programas sociais.
Seria
útil ao jornalismo global investigar por que também crescem as dívidas
americana, italiana e japonesa. Há, nesses países, um Lula dando dinheiro
demais aos pobres?
As
razões são outras. O que mantém os juros nas alturas é também o enorme poder de
influência do rentismo sobre a política. É a cobiça dos ricos, não a
necessidade dos pobres.
Outra
tese recorrente do mercado — a de que Lula não teria responsabilidade fiscal —
repetida como verdade, é falsa. Basta olhar o histórico de seus governos e seus
resultados fiscais. Uma análise honesta apaga o carimbo fácil da “gastança”.
Quando
Lula afirma que ninguém neste país tem mais responsabilidade fiscal do que ele,
desafia a mídia a abandonar o lobby neoliberal travestido de jornalismo e
confrontar a tese com os fatos. Lula fez o Brasil crescer com distribuição de
renda. E esse é um caroço entalado na garganta de quem sempre sustentou o velho
engodo de que primeiro era preciso fazer o bolo crescer para quem sabe um dia,
distribuir as fatias.
Parece
insuportável para essa turma admitir que é possível desenvolver o país sem
fazer o povo humilde e trabalhador pagar a conta.
Não
pretendo fazer terra arrasada da imprensa brasileira. Há honrosas referências –
Cláudio Abramo, Mino Carta, Jânio de Freitas… – que não permitiram que o
mercado intoxicasse suas práticas e análises. Seus escritos permanecem à
disposição de quem quiser aprender que é possível fazer jornalismo consequente:
aquele que oferece ao público elementos para formar — e não deformar — a
própria opinião.
• A Globo se atola no próprio esgoto. Por
Florestan Fernandes Jr
A
última entrevista do presidente Lula, ocorrida ontem no Jornal Nacional, não
poderia deixar de carregar as marcas deletérias históricas da TV Globo. A mesma
emissora que editou o debate decisivo em favor de Fernando Collor em 1989 e
que, usando como pano de fundo do noticiário dutos de esgoto a escoar dinheiro,
transformou a Lava Jato em um espetáculo midiático, viveu na quinta-feira (27)
mais um capítulo nefasto de sua cobertura política, atolando-se no próprio
esgoto.
Foram
40 minutos de interrogatório severo, em estilo inquisitorial, a causar inveja a
Sérgio Paranhos Fleury, o temido delegado do DOPS, da época em que até
jornalistas da própria emissora eram torturados e mortos nos porões da ditadura
militar.
Seguindo
o roteiro traçado, os âncoras inquisidores concentraram o debate na tentativa
de fazer o candidato confessar ter ciência de supostas irregularidades
atribuídas ao seu filho, Fábio Luís. Trata-se de um caso ainda sob investigação
da Polícia Federal no qual, até o momento, não foram apresentadas provas
materiais ou bancárias de vínculos contratuais com o Ministério da Saúde, mesmo
tendo o próprio investigado colocado seus sigilos à disposição da Justiça.
Ao
antecipar juízos de valor sobre um caso ainda sob investigação, o jornalismo da
emissora tenta, mais uma vez, mudar os rumos da eleição e flerta com erros do
passado, remetendo à precipitação histórica da cobertura do caso Escola Base.
A
tentativa de reeditar velhas fórmulas e produzir recortes inflamáveis,
cuidadosamente escolhidos para alimentar as redes sociais, esbarrou, contudo,
em uma nova realidade política. O Brasil de hoje não é o de 1989; muito menos o
candidato.
Aos 80
anos, calejado pela própria vida e por sucessivas batalhas públicas, Lula não
se acuou. Reagiu aos golpes no próprio estúdio e confrontou a emissora ao
relembrar episódios de parcialidade, como a cobertura da Lava Jato e a
proximidade com o ex-juiz Sergio Moro — o mesmo que, quando escolhido a
“Personalidade do Ano” de 2014, recebeu o prêmio das mãos de João Roberto
Marinho. Lembrou ainda o famigerado PowerPoint da GloboNews, que o colocava no
centro das acusações e como principal envolvido no maior escândalo financeiro
do país, o caso Banco Master.
Enquanto
temas cruciais sobre a economia, propostas de governo e o balanço da gestão
foram negligenciados, a entrevista cumpriu o papel de, mais uma vez, tentar
criminalizar Lula e o PT, além de municiar a oposição com cortes para a disputa
digital. Sem os debates eleitorais, a Globo se travestiu de candidato de
oposição e exagerou na interpretação. Vamos ver se a estratégia dará certo.
No fim
das contas, a Globo pode ter preparado o cenário, escolhido as perguntas e
definido o roteiro. Mas quem entrou naquele estúdio foi um Lula que já conhece,
há décadas, os métodos de seus adversários. E saiu de lá sem se curvar.
A
campanha está apenas começando. A Globo já deixou clara sua linha editorial e
que pretende ocupar o lugar da oposição. Resta saber se o eleitorado aceitará
que o debate público seja pautado por roteiros de estúdio ou se definirá o voto
com base no balanço real do país e nas propostas para o futuro.
Segundo
a jornalista Daniela Lima, uma pesquisa qualitativa realizada pelo mercado
financeiro com eleitores indecisos mostrou um resultado frustrante: a
entrevista não foi capaz de converter os indecisos em votos.
• O Lula que não interessa à Globo: o da
maior geração de empregos da história. Por Leonardo Attuch
Há um
Lula que praticamente não apareceu na entrevista concedida pelo presidente Luiz
Inácio Lula da Silva ao Jornal Nacional nesta quinta-feira (27): o Lula de um
Brasil que alcançou a maior população ocupada já registrada, reduziu o
desemprego a 5,3% e chegou ao recorde de 39,4 milhões de trabalhadores com
carteira assinada no setor privado.
Os
números do mercado de trabalho mostram uma transformação importante na
realidade econômica e social brasileira. No trimestre encerrado em julho, a
população ocupada chegou a 103,3 milhões de pessoas, maior contingente da série
histórica iniciada em 2012. Em apenas três meses, houve crescimento de 1% no
número de brasileiros trabalhando.
Nada
disso, porém, ocupou espaço relevante na entrevista-interrogatório conduzida
por César Tralli e Renata Vasconcellos. Durante boa parte da sabatina, Lula foi
confrontado com investigações, denúncias e suspeitas envolvendo terceiros,
enquanto um dos indicadores mais diretamente relacionados à vida cotidiana dos
brasileiros ficou fora do centro da conversa: o emprego.
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Desemprego cai a 5,3%
A taxa
de desocupação brasileira caiu para 5,3% no trimestre encerrado em julho, recuo
de 0,5 ponto percentual em relação ao trimestre terminado em abril.
O
contingente de brasileiros desempregados caiu 8% em apenas um trimestre,
chegando a 5,8 milhões de pessoas.
Ao
mesmo tempo, a força de trabalho brasileira alcançou 109,2 milhões de pessoas,
também o maior número da série histórica, com crescimento de 0,5% no trimestre.
Os
dados revelam, portanto, um mercado de trabalho que conseguiu simultaneamente
incorporar mais pessoas à força de trabalho, aumentar o contingente de ocupados
e reduzir o número de desempregados.
Era um
assunto evidente para uma entrevista presidencial em plena campanha eleitoral.
Não foi, entretanto, um dos temas centrais escolhidos pelo Jornal Nacional.
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Brasil nunca teve tanta gente trabalhando
O dado
de 103,3 milhões de ocupados possui um significado histórico: desde o início da
série, em 2012, nunca houve tantos brasileiros trabalhando.
Também
foi alcançado um recorde entre os trabalhadores formalizados. O número de
empregados com carteira assinada no setor privado chegou a 39,4 milhões, maior
patamar da série histórica.
Os
números ajudam a dimensionar uma das principais mudanças ocorridas no mercado
de trabalho durante o atual governo Lula. Emprego significa renda, consumo,
segurança econômica para as famílias e maior capacidade de planejamento.
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Até o desalento está diminuindo
Outro
indicador importante é o número de brasileiros desalentados — pessoas que
gostariam de trabalhar, mas deixaram de procurar emprego por diferentes razões.
Esse
contingente caiu 9,7% no trimestre, chegando a 2,3 milhões de pessoas.
A taxa
de subutilização da força de trabalho também recuou. Passou a 13%, queda de 0,8
ponto percentual em relação ao trimestre anterior.
O
indicador considera não apenas os desempregados, mas também outras situações em
que o potencial de trabalho da população não está sendo plenamente utilizado.
A
combinação de desemprego menor, ocupação recorde, redução do desalento e queda
da subutilização compõe um retrato muito mais amplo do mercado de trabalho
brasileiro.
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Renda cresce 3,3% em um ano
O
rendimento real habitual dos trabalhadores chegou a R$ 3.762. O valor ficou
estável na comparação trimestral, mas apresentou crescimento real de 3,3% em
relação ao mesmo período do ano anterior.
Ou
seja: não apenas mais brasileiros estão trabalhando, como a renda média do
trabalho também avançou na comparação anual.
Entre
os setores que contribuíram para a expansão da ocupação, destacaram-se a
construção civil, com crescimento de 5,1%, e o segmento de transporte, com alta
de 5,4%.
Os
serviços domésticos caminharam na direção oposta e registraram redução de 4% no
número de trabalhadores.
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O Brasil real ficou fora da entrevista-interrogatório
O
conjunto desses indicadores deveria ocupar posição central em qualquer
entrevista com um presidente que disputa a reeleição.
Afinal,
poucas questões têm impacto tão direto sobre a vida das famílias quanto saber
se existem empregos, quanto os trabalhadores estão ganhando e se o país
consegue oferecer oportunidades para quem procura trabalho.
Mas
esse Lula — o presidente de um país com 103,3 milhões de pessoas ocupadas e
39,4 milhões de empregados com carteira assinada no setor privado —
praticamente não interessou ao Jornal Nacional.
A
entrevista privilegiou durante boa parte de seus 40 minutos uma sucessão de
questionamentos sobre investigações, suspeitas e personagens associados ao
entorno do governo.
O
resultado foi uma espécie de entrevista-interrogatório na qual a discussão
sobre aquilo que acontece na economia real perdeu espaço.
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Emprego também é uma escolha política
Os
números do mercado de trabalho são particularmente relevantes porque emprego
não é apenas uma estatística econômica. É uma das principais formas pelas quais
uma política econômica chega à vida concreta das pessoas.
Ao
deixar esses números praticamente fora da entrevista, o Jornal Nacional deixou
igualmente fora da conversa uma dimensão fundamental para que o eleitor avalie
o atual governo.
Uma
eleição presidencial deveria permitir exatamente essa comparação: como estava o
país, como está agora e quais propostas cada candidato apresenta para o futuro.
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O Lula que os números revelam
Lula
afirmou durante a própria entrevista que recebeu um país desmontado e que tem
consciência do trabalho realizado desde que retornou ao Palácio do Planalto.
Os
indicadores do mercado de trabalho são parte essencial desse balanço.
Há
problemas que permanecem, entre eles o crescimento do trabalho sem carteira e a
persistência da informalidade. Mas os números mostram um mercado de trabalho
significativamente aquecido.
Esse é
um dos debates fundamentais da eleição presidencial: quem consegue oferecer
trabalho, renda e perspectivas aos brasileiros.
E esse
foi justamente o Lula que ficou praticamente ausente da
entrevista-interrogatório da Globo: o Lula do maior número de brasileiros
trabalhando já registrado na história da série estatística do país.
Fonte:
Brasil 247

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