segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Elvino Bohn Gass: Globo fala pelo mercado. Lula responde pelo Brasil

Um dos maiores vícios da chamada grande mídia brasileira é assumir como sua uma pauta que não é do interesse público, mas do mercado financeiro. Essa prática interdita o jornalismo real, que deveria servir à formação, não ao convencimento da opinião pública.

A entrevista de Lula à Globo foi exemplo acabado dessa distorção. Nem me refiro à insistência em extrair do entrevistado opiniões sobre fatos não comprovados, mas às perguntas sobre economia. Todas partiram de teses repetidas pelos homens do mercado e, por afinidade de interesses, pela extrema direita política.

Tomemos a preocupação — exagerada, afirmo — com a dívida pública. Lula lembrou que países capitalistas ricos como Estados Unidos, Itália e Japão têm dívidas proporcionalmente superiores à brasileira. Nossa dívida está próxima de 80% do PIB, enquanto a dos EUA supera 120%. O tema preocupa? Óbvio. Mas aqui repete-se como mantra que os juros são exorbitantes porque o governo gasta demais, sobretudo com programas sociais.

Seria útil ao jornalismo global investigar por que também crescem as dívidas americana, italiana e japonesa. Há, nesses países, um Lula dando dinheiro demais aos pobres?

As razões são outras. O que mantém os juros nas alturas é também o enorme poder de influência do rentismo sobre a política. É a cobiça dos ricos, não a necessidade dos pobres.

Outra tese recorrente do mercado — a de que Lula não teria responsabilidade fiscal — repetida como verdade, é falsa. Basta olhar o histórico de seus governos e seus resultados fiscais. Uma análise honesta apaga o carimbo fácil da “gastança”.

Quando Lula afirma que ninguém neste país tem mais responsabilidade fiscal do que ele, desafia a mídia a abandonar o lobby neoliberal travestido de jornalismo e confrontar a tese com os fatos. Lula fez o Brasil crescer com distribuição de renda. E esse é um caroço entalado na garganta de quem sempre sustentou o velho engodo de que primeiro era preciso fazer o bolo crescer para quem sabe um dia, distribuir as fatias.

Parece insuportável para essa turma admitir que é possível desenvolver o país sem fazer o povo humilde e trabalhador pagar a conta.

Não pretendo fazer terra arrasada da imprensa brasileira. Há honrosas referências – Cláudio Abramo, Mino Carta, Jânio de Freitas… – que não permitiram que o mercado intoxicasse suas práticas e análises. Seus escritos permanecem à disposição de quem quiser aprender que é possível fazer jornalismo consequente: aquele que oferece ao público elementos para formar — e não deformar — a própria opinião.

•        A Globo se atola no próprio esgoto. Por Florestan Fernandes Jr

A última entrevista do presidente Lula, ocorrida ontem no Jornal Nacional, não poderia deixar de carregar as marcas deletérias históricas da TV Globo. A mesma emissora que editou o debate decisivo em favor de Fernando Collor em 1989 e que, usando como pano de fundo do noticiário dutos de esgoto a escoar dinheiro, transformou a Lava Jato em um espetáculo midiático, viveu na quinta-feira (27) mais um capítulo nefasto de sua cobertura política, atolando-se no próprio esgoto.

Foram 40 minutos de interrogatório severo, em estilo inquisitorial, a causar inveja a Sérgio Paranhos Fleury, o temido delegado do DOPS, da época em que até jornalistas da própria emissora eram torturados e mortos nos porões da ditadura militar.

Seguindo o roteiro traçado, os âncoras inquisidores concentraram o debate na tentativa de fazer o candidato confessar ter ciência de supostas irregularidades atribuídas ao seu filho, Fábio Luís. Trata-se de um caso ainda sob investigação da Polícia Federal no qual, até o momento, não foram apresentadas provas materiais ou bancárias de vínculos contratuais com o Ministério da Saúde, mesmo tendo o próprio investigado colocado seus sigilos à disposição da Justiça.

Ao antecipar juízos de valor sobre um caso ainda sob investigação, o jornalismo da emissora tenta, mais uma vez, mudar os rumos da eleição e flerta com erros do passado, remetendo à precipitação histórica da cobertura do caso Escola Base.

A tentativa de reeditar velhas fórmulas e produzir recortes inflamáveis, cuidadosamente escolhidos para alimentar as redes sociais, esbarrou, contudo, em uma nova realidade política. O Brasil de hoje não é o de 1989; muito menos o candidato.

Aos 80 anos, calejado pela própria vida e por sucessivas batalhas públicas, Lula não se acuou. Reagiu aos golpes no próprio estúdio e confrontou a emissora ao relembrar episódios de parcialidade, como a cobertura da Lava Jato e a proximidade com o ex-juiz Sergio Moro — o mesmo que, quando escolhido a “Personalidade do Ano” de 2014, recebeu o prêmio das mãos de João Roberto Marinho. Lembrou ainda o famigerado PowerPoint da GloboNews, que o colocava no centro das acusações e como principal envolvido no maior escândalo financeiro do país, o caso Banco Master.

Enquanto temas cruciais sobre a economia, propostas de governo e o balanço da gestão foram negligenciados, a entrevista cumpriu o papel de, mais uma vez, tentar criminalizar Lula e o PT, além de municiar a oposição com cortes para a disputa digital. Sem os debates eleitorais, a Globo se travestiu de candidato de oposição e exagerou na interpretação. Vamos ver se a estratégia dará certo.

No fim das contas, a Globo pode ter preparado o cenário, escolhido as perguntas e definido o roteiro. Mas quem entrou naquele estúdio foi um Lula que já conhece, há décadas, os métodos de seus adversários. E saiu de lá sem se curvar.

A campanha está apenas começando. A Globo já deixou clara sua linha editorial e que pretende ocupar o lugar da oposição. Resta saber se o eleitorado aceitará que o debate público seja pautado por roteiros de estúdio ou se definirá o voto com base no balanço real do país e nas propostas para o futuro.

Segundo a jornalista Daniela Lima, uma pesquisa qualitativa realizada pelo mercado financeiro com eleitores indecisos mostrou um resultado frustrante: a entrevista não foi capaz de converter os indecisos em votos.

•        O Lula que não interessa à Globo: o da maior geração de empregos da história. Por Leonardo Attuch

Há um Lula que praticamente não apareceu na entrevista concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Jornal Nacional nesta quinta-feira (27): o Lula de um Brasil que alcançou a maior população ocupada já registrada, reduziu o desemprego a 5,3% e chegou ao recorde de 39,4 milhões de trabalhadores com carteira assinada no setor privado.

Os números do mercado de trabalho mostram uma transformação importante na realidade econômica e social brasileira. No trimestre encerrado em julho, a população ocupada chegou a 103,3 milhões de pessoas, maior contingente da série histórica iniciada em 2012. Em apenas três meses, houve crescimento de 1% no número de brasileiros trabalhando.

Nada disso, porém, ocupou espaço relevante na entrevista-interrogatório conduzida por César Tralli e Renata Vasconcellos. Durante boa parte da sabatina, Lula foi confrontado com investigações, denúncias e suspeitas envolvendo terceiros, enquanto um dos indicadores mais diretamente relacionados à vida cotidiana dos brasileiros ficou fora do centro da conversa: o emprego.

<><> Desemprego cai a 5,3%

A taxa de desocupação brasileira caiu para 5,3% no trimestre encerrado em julho, recuo de 0,5 ponto percentual em relação ao trimestre terminado em abril.

O contingente de brasileiros desempregados caiu 8% em apenas um trimestre, chegando a 5,8 milhões de pessoas.

Ao mesmo tempo, a força de trabalho brasileira alcançou 109,2 milhões de pessoas, também o maior número da série histórica, com crescimento de 0,5% no trimestre.

Os dados revelam, portanto, um mercado de trabalho que conseguiu simultaneamente incorporar mais pessoas à força de trabalho, aumentar o contingente de ocupados e reduzir o número de desempregados.

Era um assunto evidente para uma entrevista presidencial em plena campanha eleitoral. Não foi, entretanto, um dos temas centrais escolhidos pelo Jornal Nacional.

<><> Brasil nunca teve tanta gente trabalhando

O dado de 103,3 milhões de ocupados possui um significado histórico: desde o início da série, em 2012, nunca houve tantos brasileiros trabalhando.

Também foi alcançado um recorde entre os trabalhadores formalizados. O número de empregados com carteira assinada no setor privado chegou a 39,4 milhões, maior patamar da série histórica.

Os números ajudam a dimensionar uma das principais mudanças ocorridas no mercado de trabalho durante o atual governo Lula. Emprego significa renda, consumo, segurança econômica para as famílias e maior capacidade de planejamento.

<><> Até o desalento está diminuindo

Outro indicador importante é o número de brasileiros desalentados — pessoas que gostariam de trabalhar, mas deixaram de procurar emprego por diferentes razões.

Esse contingente caiu 9,7% no trimestre, chegando a 2,3 milhões de pessoas.

A taxa de subutilização da força de trabalho também recuou. Passou a 13%, queda de 0,8 ponto percentual em relação ao trimestre anterior.

O indicador considera não apenas os desempregados, mas também outras situações em que o potencial de trabalho da população não está sendo plenamente utilizado.

A combinação de desemprego menor, ocupação recorde, redução do desalento e queda da subutilização compõe um retrato muito mais amplo do mercado de trabalho brasileiro.

<><> Renda cresce 3,3% em um ano

O rendimento real habitual dos trabalhadores chegou a R$ 3.762. O valor ficou estável na comparação trimestral, mas apresentou crescimento real de 3,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Ou seja: não apenas mais brasileiros estão trabalhando, como a renda média do trabalho também avançou na comparação anual.

Entre os setores que contribuíram para a expansão da ocupação, destacaram-se a construção civil, com crescimento de 5,1%, e o segmento de transporte, com alta de 5,4%.

Os serviços domésticos caminharam na direção oposta e registraram redução de 4% no número de trabalhadores.

<><> O Brasil real ficou fora da entrevista-interrogatório

O conjunto desses indicadores deveria ocupar posição central em qualquer entrevista com um presidente que disputa a reeleição.

Afinal, poucas questões têm impacto tão direto sobre a vida das famílias quanto saber se existem empregos, quanto os trabalhadores estão ganhando e se o país consegue oferecer oportunidades para quem procura trabalho.

Mas esse Lula — o presidente de um país com 103,3 milhões de pessoas ocupadas e 39,4 milhões de empregados com carteira assinada no setor privado — praticamente não interessou ao Jornal Nacional.

A entrevista privilegiou durante boa parte de seus 40 minutos uma sucessão de questionamentos sobre investigações, suspeitas e personagens associados ao entorno do governo.

O resultado foi uma espécie de entrevista-interrogatório na qual a discussão sobre aquilo que acontece na economia real perdeu espaço.

<><> Emprego também é uma escolha política

Os números do mercado de trabalho são particularmente relevantes porque emprego não é apenas uma estatística econômica. É uma das principais formas pelas quais uma política econômica chega à vida concreta das pessoas.

Ao deixar esses números praticamente fora da entrevista, o Jornal Nacional deixou igualmente fora da conversa uma dimensão fundamental para que o eleitor avalie o atual governo.

Uma eleição presidencial deveria permitir exatamente essa comparação: como estava o país, como está agora e quais propostas cada candidato apresenta para o futuro.

<><> O Lula que os números revelam

Lula afirmou durante a própria entrevista que recebeu um país desmontado e que tem consciência do trabalho realizado desde que retornou ao Palácio do Planalto.

Os indicadores do mercado de trabalho são parte essencial desse balanço.

Há problemas que permanecem, entre eles o crescimento do trabalho sem carteira e a persistência da informalidade. Mas os números mostram um mercado de trabalho significativamente aquecido.

Esse é um dos debates fundamentais da eleição presidencial: quem consegue oferecer trabalho, renda e perspectivas aos brasileiros.

E esse foi justamente o Lula que ficou praticamente ausente da entrevista-interrogatório da Globo: o Lula do maior número de brasileiros trabalhando já registrado na história da série estatística do país.

 

Fonte: Brasil 247

 

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