segunda-feira, 31 de agosto de 2026

NYT: ‘EUA fracassaram ao tentarem dobrar o Irã’ após seis meses de conflito

Seis meses depois dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o território iraniano, a República Islâmica permanece no poder e os objetivos de Washington continuam não cumpridos, afirma reportagem do New York Times (NYT), publicada na sexta-feira (28/08).

Segundo o artigo – assinado pelo jornalista Steven Erlanger, correspondente do jornal na Europa –, a substituição de uma guerra militar por uma guerra econômica intensificada também não deve alterar a estratégia do Irã.

A reportagem aponta ainda a perda de credibilidade dos Estados Unidos e também os riscos de uma nova escalada militar. “É difícil disfarçar o que claramente foi um fracasso norte-americano em dobrar o Irã à sua vontade”, diz o texto.

Segundo Sanam Vakil, diretora do Programa do Oriente Médio e Norte da África do Chatham House, “a guerra falhou em cumprir os objetivos dos Estados Unidos”.

O texto destaca que, após os ataques iniciais, o Irã conseguiu restaurar parte de seus lançadores de mísseis, atingindo os aliados de Washington e as bases norte-americanas na região.

“Causamos muito dano ao Irã, mas eles saíram mais fortes do que antes”, afirma Suzanne Maloney, vice-presidente de política externa do Brookings Institution. Ela avalia ainda que o conflito passou a dominar a presidência de Donald Trump, afetando a credibilidade dos Estados Unidos entre seus aliados.

Além de sobreviver à ofensiva, a República Islâmica mantém o controle efetivo sobre o Estreito de Ormuz, ampliando sua influência regional, enquanto os países inicialmente atacados por Teerã na região, agora buscam uma reaproximação.

Segundo Maloney, após os ataques, os países vizinhos de Teerã passaram a considerar necessário encontrar uma forma de convivência com a República Islâmica, que não desaparecerá.

<><> Riscos de nova ofensiva

Sobre a “Operação Fúria Épica”, anunciada na semana passada pelo secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, o NYT ressalta a ausência de explicações sobre o tempo da ofensiva econômica, quais instrumentos serão utilizados e qual é exatamente o objetivo final de Washington.

Esta indefinição, aponta o jornal, é um dos principais problemas apontados pelos especialistas. “Não há uma articulação clara dos objetivos dos Estados Unidos”, afirmou Esfandyar Batmanghelidj, da Bourse & Bazaar Foundation. Para ele, sanções usadas como instrumento de coerção tendem a fracassar quando não há uma definição concreta da mudança de comportamento que se pretende obter.

Já Ali Vaez, diretor do projeto sobre o Irã do International Crisis Group, destaca que a estratégia econômica também pode produzir justamente a escalada militar que Washington afirma tentar evitar.

Caso as sanções fracassem, os Estados Unidos podem voltar à ofensiva militar; caso tenham sucesso em estrangular a economia iraniana, Teerã pode aumentar suas ações para romper o bloqueio naval. “É mais provável que seja um prelúdio para mais uma rodada de guerra militar”, avalia.

Enquanto isso cresce em Washington e Teerã a percepção de que um acordo pode ser impossível, aponta a reportagem. Para Ellie Geranmayeh, especialista em Irã do Conselho Europeu de Relações Exteriores, trata-se de “um momento perigoso”, porque ambos os governos caminham para a conclusão de que não há possibilidade de entendimento.

<><> Avaliação da Al Jazeera

A emissora catari Al Jazeera também publicou uma análise dos últimos seis meses, ressaltando que a expectativa da liderança norte-americana no início da ofensiva, era de que a combinação de pressão econômica e militar provocasse mudanças estruturais em Teerã.

“Não há chance de o governo em Teerã cair nos próximos seis meses”, afirmou ao veículo do Catar o analista H.A. Hellyer, do Royal United Services Institute (RUSI). Segundo o especialista, mesmo que a pressão econômica fosse mantida e eventualmente desencadeasse um processo capaz de provocar o colapso do Estado iraniano, isso levaria anos, e não meses.

Hellyer avalia ainda que Israel continua perseguindo seu projeto regional de “supremacia”, apesar de não ter conseguido colocar o Irã de joelhos. Para ele, é improvável que as atuais condições permaneçam inalteradas.

Também entrevistada pelo veículo, Sanam Vakil acrescentou que “a guerra só acelerou tendências, mas não iniciou nada que já não estivesse em andamento. Os países do Golfo já estavam diversificando suas economias”.

Na avaliação de Vakil – que é analista política e diretora do Programa para o Oriente Médio e Norte da África da Chatham House –, vários governos da região já avaliavam a possibilidade de ampliar suas parcerias militares para além das garantias de segurança oferecidas pelos Estados Unidos.

<><> Números do confronto

Em outra reportagem, a Al Jazeera traz os números dos últimos seis meses de confronto. Pelo menos 7.900 pessoas mortas foram mortas, 4.350 pessoas no Líbano, 3.527 no Irã e 28 nos estados do Golfo. Outros 60 israelenses e 18 militares dos EUA foram mortos em ataques iranianos. O Pentágono informa que 757 militares dos Estados Unidos ficaram feridos.

Também foram mais de 5.500 ataques, de acordo com o projeto Armed Conflict Location and Event Data Project (ACLED): pelo menos 3.580 ataques realizados pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, e 2.053 ataques iranianos.

Em relação ao Estreito de Ormuz, o número de embarcações que cruzavam a passagem marítima antes da guerra passou de 100 navios diários para sete, nesta semana. Neste período, 70 ataques contra embarcações foram confirmados pela Organização Marítima Internacional (OMI), resultando em 19 mortes de marinheiros até 26 de agosto.

Aos Estados Unidos, salienta o balanço da agência catariana, a guerra já custou segundo as declarações oficiais, pelo menos US$ 37,5 bilhões. O número real, no entanto, é provavelmente maior, citando uma estimativa interna do Pentágono que avalia os custos entre US$ 80 e 100 bilhões

Além disso, o preço do petróleo tornou-se 22% mais alto do que antes da guerra, passando de $72,48 por barril para $88,58 em 28 de agosto, após atingir picos de $120,88 em abril deste ano.

A aprovação de Trump caiu para 33%, o nível mais baixo de sua presidência e as reservas estratégicas de petróleo no país bateram o nível mais baixo desde novembro de 1982. Leia o balanço completo.

¨      A guerra econômica de Trump contra o Irã tende ao fracasso. Por José Reinaldo Carvalho

A guerra econômica de Trump contra o Irã tende ao fracasso porque parte de uma premissa desgastada: a de que os Estados Unidos ainda podem submeter uma potência regional por meio do controle do dólar, de sanções unilaterais e do bloqueio de suas exportações. A estratégia ignora tanto a capacidade de resistência construída por Teerã quanto as transformações que reduziram o alcance da coerção econômica exercida por Washington.

A Casa Branca aposta que o estrangulamento financeiro levará a República Islâmica à desorganização interna ou a uma negociação conduzida sob as condições estadunidenses. Trata-se de uma leitura condicionada pela velha lógica imperialista, segundo a qual qualquer país afastado dos circuitos financeiros do Ocidente estaria condenado ao isolamento. O Irã, porém, passou mais de quatro décadas adaptando suas instituições, empresas e relações comerciais a sucessivas rodadas de sanções.

A retomada da pressão econômica também expõe a escassez de alternativas estratégicas dos Estados Unidos. Depois de seis meses marcados por ataques ao Irã em associação com Israel, impasses militares e crescente resistência internacional ao conflito, Donald Trump tenta transferir a ofensiva para o terreno financeiro. A mudança não representa uma demonstração de força, mas o reconhecimento dos limites políticos e militares enfrentados por Washington.

Ao anunciar punições classificadas como “devastadoras”, Trump recorre a uma fórmula que já não produz os mesmos resultados. O sistema internacional do século XXI é mais fragmentado, e o comércio mundial dispõe de canais que escapam, ainda que parcialmente, ao controle dos Estados Unidos. O Irã não é uma economia insular: ocupa uma posição estratégica na Ásia, possui vastas reservas energéticas e está conectado a mercados interessados em preservar relações comerciais independentemente das determinações da Casa Branca.

A China constitui o principal obstáculo à tentativa de reduzir a zero as exportações iranianas de petróleo. Pequim precisa garantir seu abastecimento energético e não aceita que Washington determine unilateralmente seus fornecedores. Ao longo dos últimos anos, chineses e iranianos desenvolveram mecanismos comerciais baseados em moedas locais, bancos regionais, intermediários e formas de liquidação menos dependentes do sistema Swift.

Essa arquitetura não elimina os efeitos das sanções, mas reduz substancialmente sua capacidade de paralisar a economia iraniana. Para fechar esses canais, os Estados Unidos teriam de confrontar diretamente partes importantes do sistema financeiro chinês. Uma medida dessa dimensão poderia desencadear retaliações, agravar disputas comerciais e provocar abalos na própria economia estadunidense. O custo de punir Pequim para atingir Teerã tornaria a operação demasiadamente arriscada até mesmo para um governo afeito à escalada.

A geografia também trabalha contra o bloqueio pretendido pela Casa Branca. O Irã possui extensas fronteiras terrestres e mantém conexões econômicas com países como Iraque, Turquia, Paquistão e Afeganistão, além de acesso ao Mar Cáspio e ao Golfo Pérsico. Mercadorias, combustíveis e divisas podem circular por diferentes rotas, inclusive por redes informais difíceis de controlar a partir de Washington.

A Rússia, por sua vez, reforça o escudo político, econômico e militar de Teerã. Para Moscou, preservar a estabilidade iraniana significa manter um parceiro relevante no Oriente Médio e acelerar a formação de mecanismos financeiros menos vulneráveis às determinações ocidentais. Sistemas alternativos de pagamento e acordos denominados em moedas nacionais ampliam a autonomia dos países sancionados e reduzem, gradualmente, a eficácia da pressão baseada no dólar.

A ofensiva estadunidense produz, assim, um resultado contrário ao anunciado. Em vez de isolar o Irã, aproxima Teerã de Pequim e Moscou e estimula a construção de um bloco econômico mais autônomo. Cada nova rodada de sanções oferece aos países atingidos mais um motivo para abandonar instrumentos controlados pelo Ocidente e acelerar a transição para uma ordem multipolar.

O Estreito de Ormuz acrescenta um componente explosivo desfavorável à realização dos objetivos dos EUA. A passagem marítima concentra aproximadamente um quinto do petróleo consumido mundialmente e constitui uma artéria indispensável ao abastecimento energético internacional. Qualquer ameaça à navegação na região eleva os preços do petróleo, encarece os seguros e amplia os custos do transporte marítimo.

Teerã sabe que não precisa interromper completamente o fluxo de embarcações para produzir consequências globais. O aumento da percepção de risco já seria suficiente para pressionar os mercados. Em um ambiente de escalada, o custo médio do frete internacional de contêineres poderia saltar de cerca de US$ 3 mil para US$ 12 mil, impondo uma sobrecarga logística a cadeias produtivas que ainda enfrentam vulnerabilidades acumuladas em crises anteriores.

O efeito bumerangue atingiria diretamente os Estados Unidos. Petróleo mais caro significa aumento do preço da gasolina, do transporte rodoviário, dos alimentos e de inúmeros bens industriais. A inflação que Washington pretende exportar para o Irã acabaria retornando aos consumidores estadunidenses, pressionando a renda das famílias e enfraquecendo o apoio interno à política externa de Trump.

Essa contradição revela uma fragilidade central da estratégia. A sociedade iraniana tem longa experiência de convivência com restrições econômicas, enquanto o sistema político dos Estados Unidos reage rapidamente à alta dos combustíveis e do custo de vida. Trump disputa uma corrida contra o relógio: precisa produzir resultados em Teerã antes que as consequências das próprias medidas apareçam nos postos de gasolina, nos supermercados e nas pesquisas de opinião.

Os aliados tradicionais de Washington no Golfo também conhecem os riscos dessa aventura. Emirados Árabes Unidos e outros governos da região construíram suas economias com base no petróleo, no comércio, no turismo, nos serviços financeiros e na logística. Uma escalada capaz de ameaçar o Estreito de Ormuz colocaria em perigo aeroportos, portos, centros empresariais e investimentos acumulados durante décadas.

Dubai e Abu Dhabi, portanto, não têm interesse em aderir cegamente à estratégia de isolamento total promovida pela Casa Branca. Ao preservar canais diplomáticos com Teerã, os Emirados procuram reduzir tensões e proteger seus próprios interesses. Esse pragmatismo demonstra que nem mesmo os parceiros mais próximos dos Estados Unidos estão dispostos a sacrificar sua estabilidade para sustentar uma ofensiva concebida em Washington.

Há ainda um erro político mais profundo. O governo estadunidense interpreta o Irã com as lentes do imperialismo e presume que dificuldades cambiais, inflação e escassez material necessariamente destruirão a legitimidade da República Islâmica. Essa abordagem despreza o papel que a defesa da soberania, a memória das intervenções estrangeiras e a resistência às pressões externas desempenham na formação política iraniana.

As sanções podem causar sofrimento e restringir o acesso da população a bens essenciais. Isso não significa, porém, que produzirão automaticamente a capitulação do Estado. Ao contrário, uma ameaça externa pode fortalecer discursos de unidade nacional, justificar medidas de emergência e consolidar setores que apresentam a resistência como condição para a sobrevivência do país.

A guerra econômica de Trump contra o Irã reúne, portanto, todos os elementos de uma política destinada ao fracasso: subestima a resistência iraniana, superestima o alcance do dólar, ignora o apoio de China e Rússia e transfere custos elevados para trabalhadores e consumidores de diferentes países, inclusive dos próprios Estados Unidos.

Washington ainda dispõe de poder financeiro e pode provocar danos severos. O que já não consegue assegurar é que esses danos se convertam em obediência política. Ao insistir na punição unilateral, a Casa Branca não restaura a hegemonia estadunidense: acelera a busca por alternativas e a consolidação da multipolaridade. 

O desfecho mais provável não é a rendição de Teerã, mas o aprofundamento da articulação entre potências dispostas a conter o unilateralismo dos Estados Unidos. Na tentativa de preservar pela coerção uma ordem internacional em declínio, Trump contribui para consolidar justamente o mundo multipolar que procura impedir.

¨      Irã recupera 40% da capacidade de produção danificada em principal polo de petróleo e gás

O Irã recuperou cerca de 40% da capacidade de produção danificada no campo de petróleo e gás de South Pars, afirmou nesta quinta-feira (27) Ahmad Zeraatkar, vice-ministro iraniano do Petróleo.

As instalações de South Pars foram atacadas pelos Estados Unidos e por Israel durante a escalada do conflito em março. Em maio, as autoridades iranianas informaram ter elaborado planos para recuperar e modernizar a infraestrutura, gravemente afetada, com conclusão prevista em um prazo máximo de dois anos.

Cerca de 50% dos trabalhos de recuperação das instalações de South Pars estavam previstos para ser concluídos até o inverno de 2027. "Podemos dizer que já conseguimos recuperar aproximadamente 40% da capacidade danificada", afirmou Zeraatkar em entrevista à agência de notícias Fars.

Na semana passada, Touraj Dehghani, chefe da Companhia de Petróleo e Gás de Pars, afirmou que a recuperação da capacidade de produção da refinaria havia sido concluída em 70%.

Já o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, declarou na última quarta (26) que, como não conseguiram alcançar seus objetivos durante os conflitos com o país, os Estados Unidos passaram a pressionar países a aderir ao "terrorismo econômico" contra Teerã.

"Os Estados Unidos decidiram, então, perseguir o mesmo objetivo ilegal, ou seja, pressionar Estados independentes a abandonar sua decisão prudente de permanecer afastados do ato de agressão, e […] envolvê-los em uma operação de terrorismo econômico", escreveu Araghchi na carta.

O ministro pediu ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e aos países-membros que condenassem a pressão econômica e exigissem que Washington parasse de pressionar países terceiros a alterar suas relações com outras nações.

Em 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel começaram a realizar ataques contra alvos no Irã, aos quais Teerã respondeu. Em meados de junho, Irã e EUA assinaram um memorando de entendimento com o objetivo de cessar as hostilidades, mas pouco depois voltaram a trocar agressões.

Já na última semana, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou o início de uma operação econômica contra o Irã, que classificou de "isolamento em escala sem precedentes". Na ocasião, ele convocou os aliados de Washington a aderir às medidas.

 

Fonte: Opera Mundi/Brasil 247/Sputnik Brasil

 

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