NYT:
‘EUA fracassaram ao tentarem dobrar o Irã’ após seis meses de conflito
Seis
meses depois dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o território
iraniano, a República Islâmica permanece no poder e os objetivos de Washington
continuam não cumpridos, afirma reportagem do New York Times (NYT), publicada na
sexta-feira (28/08).
Segundo
o artigo – assinado pelo jornalista Steven Erlanger, correspondente do jornal
na Europa –, a substituição de uma guerra militar por uma guerra econômica
intensificada também não deve alterar a estratégia do Irã.
A
reportagem aponta ainda a perda de credibilidade dos Estados Unidos e também os
riscos de uma nova escalada militar. “É difícil disfarçar o que claramente foi
um fracasso norte-americano em dobrar o Irã à sua vontade”, diz o texto.
Segundo
Sanam Vakil, diretora do Programa do Oriente Médio e Norte da África do Chatham
House, “a guerra falhou em cumprir os objetivos dos Estados Unidos”.
O texto
destaca que, após os ataques iniciais, o Irã conseguiu restaurar parte de seus
lançadores de mísseis, atingindo os aliados de Washington e as bases
norte-americanas na região.
“Causamos
muito dano ao Irã, mas eles saíram mais fortes do que antes”, afirma Suzanne
Maloney, vice-presidente de política externa do Brookings Institution. Ela
avalia ainda que o conflito passou a dominar a presidência de Donald Trump,
afetando a credibilidade dos Estados Unidos entre seus aliados.
Além de
sobreviver à ofensiva, a República Islâmica mantém o controle efetivo sobre o
Estreito de Ormuz, ampliando sua influência regional, enquanto os países
inicialmente atacados por Teerã na região, agora buscam uma reaproximação.
Segundo
Maloney, após os ataques, os países vizinhos de Teerã passaram a considerar
necessário encontrar uma forma de convivência com a República Islâmica, que não
desaparecerá.
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Riscos de nova ofensiva
Sobre a
“Operação Fúria Épica”, anunciada na semana passada pelo secretário do Tesouro
norte-americano, Scott Bessent, o NYT ressalta a ausência de
explicações sobre o tempo da ofensiva econômica, quais instrumentos serão
utilizados e qual é exatamente o objetivo final de Washington.
Esta
indefinição, aponta o jornal, é um dos principais problemas apontados pelos
especialistas. “Não há uma articulação clara dos objetivos dos Estados Unidos”,
afirmou Esfandyar Batmanghelidj, da Bourse & Bazaar Foundation. Para ele,
sanções usadas como instrumento de coerção tendem a fracassar quando não há uma
definição concreta da mudança de comportamento que se pretende obter.
Já Ali
Vaez, diretor do projeto sobre o Irã do International Crisis Group, destaca que
a estratégia econômica também pode produzir justamente a escalada militar que
Washington afirma tentar evitar.
Caso as
sanções fracassem, os Estados Unidos podem voltar à ofensiva militar; caso
tenham sucesso em estrangular a economia iraniana, Teerã pode aumentar suas
ações para romper o bloqueio naval. “É mais provável que seja um prelúdio para
mais uma rodada de guerra militar”, avalia.
Enquanto
isso cresce em Washington e Teerã a percepção de que um acordo pode ser
impossível, aponta a reportagem. Para Ellie Geranmayeh, especialista em Irã do
Conselho Europeu de Relações Exteriores, trata-se de “um momento perigoso”,
porque ambos os governos caminham para a conclusão de que não há possibilidade
de entendimento.
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Avaliação da Al Jazeera
A
emissora catari Al Jazeera também publicou uma análise dos últimos seis
meses,
ressaltando que a expectativa da liderança norte-americana no início da
ofensiva, era de que a combinação de pressão econômica e militar provocasse
mudanças estruturais em Teerã.
“Não há
chance de o governo em Teerã cair nos próximos seis meses”, afirmou ao veículo
do Catar o analista H.A. Hellyer, do Royal United Services Institute (RUSI).
Segundo o especialista, mesmo que a pressão econômica fosse mantida e
eventualmente desencadeasse um processo capaz de provocar o colapso do Estado
iraniano, isso levaria anos, e não meses.
Hellyer
avalia ainda que Israel continua perseguindo seu projeto regional de
“supremacia”, apesar de não ter conseguido colocar o Irã de joelhos. Para ele,
é improvável que as atuais condições permaneçam inalteradas.
Também
entrevistada pelo veículo, Sanam Vakil acrescentou que “a guerra só acelerou
tendências, mas não iniciou nada que já não estivesse em andamento. Os países
do Golfo já estavam diversificando suas economias”.
Na
avaliação de Vakil – que é analista política e diretora do Programa para o
Oriente Médio e Norte da África da Chatham House –, vários governos da região
já avaliavam a possibilidade de ampliar suas parcerias militares para além das
garantias de segurança oferecidas pelos Estados Unidos.
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Números do confronto
Em outra reportagem, a Al
Jazeera traz os números dos últimos seis meses de confronto. Pelo
menos 7.900 pessoas mortas foram mortas, 4.350 pessoas no Líbano, 3.527 no Irã
e 28 nos estados do Golfo. Outros 60 israelenses e 18 militares dos EUA foram
mortos em ataques iranianos. O Pentágono informa que 757 militares dos Estados
Unidos ficaram feridos.
Também
foram mais de 5.500 ataques, de acordo com o projeto Armed Conflict Location
and Event Data Project (ACLED): pelo menos 3.580 ataques realizados pelos
Estados Unidos e Israel contra o Irã, e 2.053 ataques iranianos.
Em
relação ao Estreito de Ormuz, o número de embarcações que cruzavam a passagem
marítima antes da guerra passou de 100 navios diários para sete, nesta semana.
Neste período, 70 ataques contra embarcações foram confirmados pela Organização
Marítima Internacional (OMI), resultando em 19 mortes de marinheiros até 26 de
agosto.
Aos
Estados Unidos, salienta o balanço da agência catariana, a guerra já custou
segundo as declarações oficiais, pelo menos US$ 37,5 bilhões. O número real, no
entanto, é provavelmente maior, citando uma estimativa interna do Pentágono que
avalia os custos entre US$ 80 e 100 bilhões
Além
disso, o preço do petróleo tornou-se 22% mais alto do que antes da guerra,
passando de $72,48 por barril para $88,58 em 28 de agosto, após atingir picos
de $120,88 em abril deste ano.
A
aprovação de Trump caiu para 33%, o nível mais baixo de sua presidência e as
reservas estratégicas de petróleo no país bateram o nível mais baixo desde
novembro de 1982. Leia o balanço completo.
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A guerra econômica de Trump contra o Irã tende ao
fracasso. Por José Reinaldo Carvalho
A
guerra econômica de Trump contra o Irã tende ao fracasso porque parte de uma
premissa desgastada: a de que os Estados Unidos ainda podem submeter uma
potência regional por meio do controle do dólar, de sanções unilaterais e do
bloqueio de suas exportações. A estratégia ignora tanto a capacidade de
resistência construída por Teerã quanto as transformações que reduziram o
alcance da coerção econômica exercida por Washington.
A Casa
Branca aposta que o estrangulamento financeiro levará a República Islâmica à
desorganização interna ou a uma negociação conduzida sob as condições
estadunidenses. Trata-se de uma leitura condicionada pela velha lógica
imperialista, segundo a qual qualquer país afastado dos circuitos financeiros
do Ocidente estaria condenado ao isolamento. O Irã, porém, passou mais de
quatro décadas adaptando suas instituições, empresas e relações comerciais a
sucessivas rodadas de sanções.
A
retomada da pressão econômica também expõe a escassez de alternativas
estratégicas dos Estados Unidos. Depois de seis meses marcados por ataques ao
Irã em associação com Israel, impasses militares e crescente resistência
internacional ao conflito, Donald Trump tenta transferir a ofensiva para o
terreno financeiro. A mudança não representa uma demonstração de força, mas o
reconhecimento dos limites políticos e militares enfrentados por Washington.
Ao
anunciar punições classificadas como “devastadoras”, Trump recorre a uma
fórmula que já não produz os mesmos resultados. O sistema internacional do
século XXI é mais fragmentado, e o comércio mundial dispõe de canais que
escapam, ainda que parcialmente, ao controle dos Estados Unidos. O Irã não é
uma economia insular: ocupa uma posição estratégica na Ásia, possui vastas
reservas energéticas e está conectado a mercados interessados em preservar
relações comerciais independentemente das determinações da Casa Branca.
A China
constitui o principal obstáculo à tentativa de reduzir a zero as exportações
iranianas de petróleo. Pequim precisa garantir seu abastecimento energético e
não aceita que Washington determine unilateralmente seus fornecedores. Ao longo
dos últimos anos, chineses e iranianos desenvolveram mecanismos comerciais
baseados em moedas locais, bancos regionais, intermediários e formas de
liquidação menos dependentes do sistema Swift.
Essa
arquitetura não elimina os efeitos das sanções, mas reduz substancialmente sua
capacidade de paralisar a economia iraniana. Para fechar esses canais, os
Estados Unidos teriam de confrontar diretamente partes importantes do sistema
financeiro chinês. Uma medida dessa dimensão poderia desencadear retaliações,
agravar disputas comerciais e provocar abalos na própria economia
estadunidense. O custo de punir Pequim para atingir Teerã tornaria a operação
demasiadamente arriscada até mesmo para um governo afeito à escalada.
A
geografia também trabalha contra o bloqueio pretendido pela Casa Branca. O Irã
possui extensas fronteiras terrestres e mantém conexões econômicas com países
como Iraque, Turquia, Paquistão e Afeganistão, além de acesso ao Mar Cáspio e
ao Golfo Pérsico. Mercadorias, combustíveis e divisas podem circular por
diferentes rotas, inclusive por redes informais difíceis de controlar a partir
de Washington.
A
Rússia, por sua vez, reforça o escudo político, econômico e militar de Teerã.
Para Moscou, preservar a estabilidade iraniana significa manter um parceiro
relevante no Oriente Médio e acelerar a formação de mecanismos financeiros
menos vulneráveis às determinações ocidentais. Sistemas alternativos de
pagamento e acordos denominados em moedas nacionais ampliam a autonomia dos
países sancionados e reduzem, gradualmente, a eficácia da pressão baseada no
dólar.
A
ofensiva estadunidense produz, assim, um resultado contrário ao anunciado. Em
vez de isolar o Irã, aproxima Teerã de Pequim e Moscou e estimula a construção
de um bloco econômico mais autônomo. Cada nova rodada de sanções oferece aos
países atingidos mais um motivo para abandonar instrumentos controlados pelo
Ocidente e acelerar a transição para uma ordem multipolar.
O
Estreito de Ormuz acrescenta um componente explosivo desfavorável à realização
dos objetivos dos EUA. A passagem marítima concentra aproximadamente um quinto
do petróleo consumido mundialmente e constitui uma artéria indispensável ao
abastecimento energético internacional. Qualquer ameaça à navegação na região
eleva os preços do petróleo, encarece os seguros e amplia os custos do
transporte marítimo.
Teerã
sabe que não precisa interromper completamente o fluxo de embarcações para
produzir consequências globais. O aumento da percepção de risco já seria
suficiente para pressionar os mercados. Em um ambiente de escalada, o custo
médio do frete internacional de contêineres poderia saltar de cerca de US$ 3
mil para US$ 12 mil, impondo uma sobrecarga logística a cadeias produtivas que
ainda enfrentam vulnerabilidades acumuladas em crises anteriores.
O
efeito bumerangue atingiria diretamente os Estados Unidos. Petróleo mais caro
significa aumento do preço da gasolina, do transporte rodoviário, dos alimentos
e de inúmeros bens industriais. A inflação que Washington pretende exportar
para o Irã acabaria retornando aos consumidores estadunidenses, pressionando a
renda das famílias e enfraquecendo o apoio interno à política externa de Trump.
Essa
contradição revela uma fragilidade central da estratégia. A sociedade iraniana
tem longa experiência de convivência com restrições econômicas, enquanto o
sistema político dos Estados Unidos reage rapidamente à alta dos combustíveis e
do custo de vida. Trump disputa uma corrida contra o relógio: precisa produzir
resultados em Teerã antes que as consequências das próprias medidas apareçam
nos postos de gasolina, nos supermercados e nas pesquisas de opinião.
Os
aliados tradicionais de Washington no Golfo também conhecem os riscos dessa
aventura. Emirados Árabes Unidos e outros governos da região construíram suas
economias com base no petróleo, no comércio, no turismo, nos serviços
financeiros e na logística. Uma escalada capaz de ameaçar o Estreito de Ormuz
colocaria em perigo aeroportos, portos, centros empresariais e investimentos
acumulados durante décadas.
Dubai e
Abu Dhabi, portanto, não têm interesse em aderir cegamente à estratégia de
isolamento total promovida pela Casa Branca. Ao preservar canais diplomáticos
com Teerã, os Emirados procuram reduzir tensões e proteger seus próprios
interesses. Esse pragmatismo demonstra que nem mesmo os parceiros mais próximos
dos Estados Unidos estão dispostos a sacrificar sua estabilidade para sustentar
uma ofensiva concebida em Washington.
Há
ainda um erro político mais profundo. O governo estadunidense interpreta o Irã
com as lentes do imperialismo e presume que dificuldades cambiais, inflação e
escassez material necessariamente destruirão a legitimidade da República
Islâmica. Essa abordagem despreza o papel que a defesa da soberania, a memória
das intervenções estrangeiras e a resistência às pressões externas desempenham
na formação política iraniana.
As
sanções podem causar sofrimento e restringir o acesso da população a bens
essenciais. Isso não significa, porém, que produzirão automaticamente a
capitulação do Estado. Ao contrário, uma ameaça externa pode fortalecer
discursos de unidade nacional, justificar medidas de emergência e consolidar
setores que apresentam a resistência como condição para a sobrevivência do
país.
A
guerra econômica de Trump contra o Irã reúne, portanto, todos os elementos de
uma política destinada ao fracasso: subestima a resistência iraniana,
superestima o alcance do dólar, ignora o apoio de China e Rússia e transfere
custos elevados para trabalhadores e consumidores de diferentes países,
inclusive dos próprios Estados Unidos.
Washington
ainda dispõe de poder financeiro e pode provocar danos severos. O que já não
consegue assegurar é que esses danos se convertam em obediência política. Ao
insistir na punição unilateral, a Casa Branca não restaura a hegemonia
estadunidense: acelera a busca por alternativas e a consolidação da
multipolaridade.
O
desfecho mais provável não é a rendição de Teerã, mas o aprofundamento da
articulação entre potências dispostas a conter o unilateralismo dos Estados
Unidos. Na tentativa de preservar pela coerção uma ordem internacional em
declínio, Trump contribui para consolidar justamente o mundo multipolar que
procura impedir.
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Irã recupera 40% da capacidade de produção danificada em
principal polo de petróleo e gás
O Irã
recuperou cerca de 40% da capacidade de produção danificada no campo de
petróleo e gás de South Pars, afirmou nesta quinta-feira (27) Ahmad Zeraatkar,
vice-ministro iraniano do Petróleo.
As
instalações de South Pars foram atacadas pelos Estados Unidos e por
Israel durante a escalada
do conflito em
março. Em maio, as autoridades iranianas informaram ter elaborado planos
para recuperar e modernizar a infraestrutura, gravemente afetada, com conclusão
prevista em um prazo máximo de dois anos.
Cerca
de 50% dos trabalhos de recuperação das
instalações de
South Pars estavam previstos para ser concluídos até o inverno de 2027.
"Podemos dizer que já conseguimos recuperar aproximadamente 40% da
capacidade danificada", afirmou Zeraatkar em entrevista à agência de
notícias Fars.
Na
semana passada, Touraj Dehghani, chefe da Companhia de Petróleo e Gás de Pars,
afirmou que a recuperação da capacidade de produção da refinaria havia
sido concluída em 70%.
Já o
chanceler iraniano, Abbas Araghchi, declarou na última quarta (26) que,
como não conseguiram alcançar seus objetivos durante os conflitos com o país,
os Estados Unidos passaram a pressionar países a aderir ao
"terrorismo econômico" contra Teerã.
"Os
Estados Unidos decidiram, então, perseguir o mesmo objetivo ilegal, ou seja,
pressionar Estados independentes a abandonar sua decisão prudente de permanecer
afastados do ato de agressão, e […] envolvê-los em uma operação de terrorismo
econômico", escreveu Araghchi na carta.
O
ministro pediu ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e aos países-membros
que condenassem a pressão econômica e exigissem que
Washington parasse de pressionar países terceiros a alterar suas relações com
outras nações.
Em 28
de fevereiro, Estados Unidos e Israel começaram a realizar ataques contra alvos
no Irã, aos quais Teerã respondeu. Em meados de junho, Irã e EUA assinaram um
memorando de entendimento com o objetivo de cessar as hostilidades, mas pouco
depois voltaram a trocar agressões.
Já na
última semana, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou o início de
uma operação econômica contra o Irã, que classificou de "isolamento em
escala sem precedentes". Na ocasião, ele convocou os aliados de Washington a
aderir às medidas.
Fonte:
Opera Mundi/Brasil 247/Sputnik Brasil

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