segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Memórias do Jornalismo: Em 1964, vendo o golpe acontecer

Houve um erro de cálculo das forças populares em 1964. Pensaram que palavras por si mesmas podem transformar a realidade. O programa de reformas do governo de João Goulart causava alvoroço, mas enfrentava forte resistência e patinava. Sem diálogo à direita, Jango se aproximava da esquerda. Reunia-se com confederações e sindicatos de trabalhadores, portuários, estivadores, metalúrgicos etc. Recebia dirigentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), da organização católica de esquerda Ação Popular (AP), da União Nacional dos Estudantes (UNE) e das Ligas Camponesas de Francisco Julião. 

Havia muita manifestação, em que se destacavam os jovens de classe média. A UNE Volante andava pelo país fazendo programas de alfabetização e sindicalização rural, e propagandeando a reforma agrária. Os sindicatos de trabalhadores promoviam greve atrás de greve. As Ligas Camponesas falavam em “reforma agrária na lei ou na marra”. Generais e almirantes emponderados alardeavam a existência de um dispositivo militar que derrotaria qualquer tentativa de golpe. Todo esse aparato passava a impressão de ser muito forte. 

A esquerda estava em ofensiva, se achava próxima do poder, conforme declarou Luís Carlos Prestes. Mas a conspiração contra o governo se desenvolvia mobilizando e armando os setores conservadores, largamente predominantes na sociedade, com apoio da Igreja Católica. Os agentes secretos dos Estados Unidos estavam espalhados pelo país. O confronto se anunciava. 

Desde meados de 1963 eu estava trabalhando na revista O Cruzeiro, lotado na sucursal de São Paulo, sediada em algum andar do edifício dos Diários Associados, na rua 7 de abril, no centro da capital. Fui contratado pelo chefe de redação, o jornalista Audálio Dantas, então já famoso por ter descoberto uma escritora que vivia numa favela, Carolina Maria de Jesus, e por haver promovido a publicação de seu livro, Quarto de Despejo, com grande repercussão.   

Para chegar até ali eu havia passado por dois anos agitados. Desde a demissão do Estadão não parava em emprego. Enquanto trabalhava na Folha de S. Paulo eu me casei com Maria Lucia, que seria minha companheira e parceira por 64 anos. Durante minha estada na Folha, a equipe com a qual estava trabalhando se demitiu coletivamente. O jornalista Murilo Felisberto, que havia me trazido para o jornal havia sido demitido. E a equipe saiu em solidariedade a ele. Eram Sergio de Souza, Sergio Pompeu, José Carlos Marão, Woile Guimarães. Mylton Severiano da Silva. Esse pessoal iria se constituir numa espécie de confraria, da qual eu passei a fazer parte, que  no futuro seguiria junto, se apoiando mutuamente e realizando trabalhos de grande repercussão. 

Eu havia acabado de me casar e eles me aconselharam a não sair para não ficar sem dinheiro. Aceitei o conselho. Mas não fiquei muito tempo. Um mês depois deixei a Folha, um jornal mesquinho. Em seguida estive na sucursal do Jornal do Brasil brevemente; dali passei para o Jornal do Comércio. Pouco depois já estava na revista Transporte Moderno, da Editora Abril. 

Mas também não fiquei lá. Um ex-colega do Estadão, Alberto Gambirasio, me telefonou de Brasília com um convite para eu dirigir um jornal no Rio de Janeiro, chamado Folha de Brasília. O jornal seria produzido e impresso no Rio e distribuído em Brasília. O dono era um político oportunista do PTB com ambições no governo de João Goulart. Sedento de novidades, topei na hora. No final de 1962 fui para o Rio deixando Maria Lucia, e o filho dela, Rogério, que havia se tornado meu filho também, sozinhos no apartamento que alugávamos na rua Avanhandava esquina com a avenida Nove de Julho. 

O jornal era produzido nas instalações da Tribuna da Imprensa, então dirigido pelo soturno Hélio Fernandes. Quando eu ia fazer os pagamentos do contrato, me recebia sentado em uma escrivaninha em semiescuridão, não cumprimentava nem falava mais nada, apenas conferia o dinheiro. Já não tenho certeza, mas acho que o jornal se compunha de dois cadernos de 8 páginas. Com matérias compradas da Tribuna e textos vindos de Brasília. Eu fazia o jornal com a colaboração de um paginador e três ou quatro noticiaristas. Redigia as manchetes e um texto de primeira página retratando a conjuntura, que eu bispava dos outros jornais. 

Era dezembro, as escolas de samba faziam ensaios para o carnaval, já disputando popularidade. Nomeei um dos rapazes como setorista de carnaval, dava uma matéria quase todo dia com fotos. Era Mangueira num dia, Portela no outro, Vila Isabel, assim por diante como a Última Hora. Tinha palavras cruzadas e, pasmem! a coluna de Nelson Rodrigues, que me telefonava toda semana me cobrando os pingues mil réis que a coluna, distribuída por todo o Brasil, custava.  Eu, com 23 anos e ele, com um vozeirão rouco de fumante inveterado, me chamando “Senhor Azevedo” pelo telefone. Nunca nos encontramos. 

Maria Lucia não se conformou. Ela sempre dizia que casamento não dá certo quando cada um fica para um lado. Levou Rogério para casa de seus pais, tomou um ônibus e veio ficar comigo. Talvez temesse que uma carioca me pegasse. 

Mesmo que quisesse eu nem tinha tempo para aventuras. Trabalhava umas 16 horas por dia, desde a preparação do jornal até levar com uma kombi, de madrugada, o reparte para um avião da Varig. E tinha de pagar o frete à vista. E cair na cama. 

Mas as coisas não iam bem. Faltava dinheiro, a equipe ensaiou uma greve. E o patrão não estava satisfeito, achava minhas manchetes muito para a esquerda.  Rompemos e Maria Lucia e eu viemos embora, de mãos abanando, dias antes do carnaval de 1963. 

Em São Paulo arranjei emprego no jornal católico Brasil Urgente. Mas faltou dinheiro e me mandaram embora. Com amigos do PCB consegui um lugar no Diário da Noite, dos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Audálio Dantas gostou de uma matéria e me convidou para O Cruzeiro. Por sugestão minha Audálio contratou mais dois repórteres, José Carlos Marão e Hamilton Almeida Filho (HAF), este um novato na confraria. 

A radicalização tomava conta do país. Em 13 de março, no comício da Cinelândia, no Rio de Janeiro, Goulart foi radical. Corriam boatos de que ele planejava dar um golpe. Em resposta, a Marcha da Família com Deus tomou as ruas de São Paulo e repercutiu muito. 

Em seu livro, já citado em outro texto desta série, Claudio Abramo registra esse momento: “dia 28 de março Jango mandou um avião me buscar em São Paulo. Disse-lhe que Adhemar de Barros estava conspirando. Alertei-o de que dias antes o dr. Julinho havia visitado Assis Chateaubriand, que aquilo era sinal seguro de que o golpe estava na rua (…) Disse para Darcy (Ribeiro) que o general Amaury Kruel, comandante do II Exército, sediado em São Paulo, ia aderir a Adhemar. Darcy me respondeu que não, porque Kruel era compadre de Jango (…) Cheguei a São Paulo e disse à minha mulher que o golpe era inevitável”. 

Três dias depois, em 31 de março, quando o general Mourão começou a deslocar suas tropas de Minas Gerais, tateando o terreno e não encontrando oposição, o tão falado dispositivo militar do governo não apareceu. Os grandes sindicatos e a inflamada juventude haviam promovido muita agitação, mas não tinham armas nem estavam preparados para a luta armada. Julião também não havia armado os camponeses. 

Ainda acreditando que o dispositivo militar do governo ia confrontar Mourão, me ofereci para ir acompanhar o movimento das tropas. Mas Jorge Ferreira, que era o diretor geral da sucursal, não autorizou. Ficamos ali na redação trocando ideias, fazendo suposições sobre os futuros acontecimentos. 

Em primeiro de abril João Goulart estava no Rio de Janeiro, foi para Brasília. De lá voou para Porto Alegre onde Leonel Brizola já ensaiava a resistência. O presidente contava com alguns generais amigos, como o comandante do Segundo Exército, de São Paulo. Mas este terá sido convencido, ao que se diz por um bom punhado de dólares, e juntou-se aos golpistas. 

Jango continuava em território nacional, mas o senador Auro de Moura Andrade, grande empresário paulista, presidente do Congresso, praticou uma vilania ao considerar que ele havia abandonado o governo ao deixar Brasília e decretou seu cargo vago. 

Brizola e militares do Exército no Rio Grande do Sul, na época o mais poderoso do país, propuseram a resistência ao presidente. Mas João Goulart não concordou e viajou para o Uruguai, onde possuía fazendas de gado, e pediu asilo político ao país vizinho. Nessa ocasião Leonel Brizola rompeu definitivamente com o cunhado. 

Na noite de primeiro de abril, assisti a um dos mal-sucedidos arroubos de resistência ao golpe de Estado. Acompanhado do colega Mylton Severiano da Silva, que depois seria apelidado de “Miltainho”, me postei na frente do prédio da sede da Companhia Telefônica, na rua 7 de abril, a 200 metros do prédio dos Diários Associados. Ali havia profusão de policiais. 

O motivo:  Nelson Gatto, um jornalista setorista de assuntos policiais dos Diários, conhecido como valentão e que andava armado, estava me causando uma grande surpresa. Acompanhado de alguns sargentos e outros companheiros havia invadido e tomado posse à mão armado da sede da Telefônica. Estavam entrincheirados num andar superior. Policiais entravam e saiam. Reparei que um policial gordo saiu porta afora, esbaforido, em pânico, ensopado de suor. 

Mais tarde fiquei sabendo que Gatto era janguista. Sua resistência, porém, não durou muito. Pelo que sei não houve tiros. Depois de horas sem luz e alimentos, ameaçados pelos policiais, os rebelados se renderam. Depois de alguns dias foram conduzidos a uma prisão flutuante junto com muitos outros, a bordo do navio da Marinha Raul Soares, ancorado na Bacia de Santos. Ali foram mantidos pelos golpistas por muitos meses, submetidos a precárias condições de alojamento e alimentação.   

Em primeiro de abril, o estudante baiano Duarte Brasil Lago Pacheco Pereira, vice-presidente da UNE, estava no exercício na presidência porque José Serra estava, como sempre, viajando. Duarte se preparava para deixar o Rio de Janeiro enquanto a sede da UNE era incendiada pelos golpistas. Ele era dirigente da Ação Popular, agremiação católica progressista, assim como Serra. A AP tinha influência nos debates políticos com Jango e seus ministros. Duarte me contou mais tarde que naqueles dias febris de fevereiro e março de 1964, ele, como representante de Ação Popular, se opôs e impediu uma proposta de autogolpe de Goulart, sugerido pelo entorno do presidente. 

Reunindo outros dirigentes da UNE, ele viajou de automóvel para a Bahia com a disposição de organizar a resistência. O grupo foi para Feira de Santana, cujo prefeito, o sempre aguerrido Chico Pinto, também se preparava para a resistência armada. Por lá ficaram vários dias, mas não encontrando apoio, acabaram por desistir e se dispersar. 

Nos dias seguintes sucediam-se milhares de prisões de civis e militares pelo país, cassações de mandatos parlamentares e executivos, de lideranças sindicais. Comunistas, dirigentes da Ação Popular, lideranças da UNE que não caíram na clandestinidade, foram presos. No campo, militares e latifundiários promoviam massacres de líderes camponeses. Ditadura! 

Eu, como todo mundo, me surpreendi com a falta de resistência aos golpistas. Quando se deram conta de que as forças armadas não se dividiam, avançaram para o poder.  Quanto a mim, ainda não tinha militância política, não me incomodaram. Continuei em O Cruzeiro até julho de 1964, quando fui convidado para trabalhar na revista Quatro Rodas, da Editora Abril. 

Como eu contei no livro Cicatriz de Reportagem, a repercussão do golpe militar de abril de 1964 na redação da revista Quatro Rodas foi dramática. Um dos jornalistas que trabalhavam lá, tentando tornar-se o diretor da revista, foi aos patrões e denunciou a equipe, chefiada por Paulo Patarra, como sendo uma célula comunista. O momento era propício, havia uma caça às bruxas…  Mas não deu certo. O diretor de Quatro Rodas, Mino Carta, o diretor, defendeu sua equipe, o patrão concordou com ele, o acusador foi mandado embora. 

Patarra e seus companheiros saíram fortalecidos do episódio. Participavam do grupo José Hamilton Ribeiro, José Roberto Pena, Expedito Marazzi, George Duque Estrada, Pedro Cortizas Dominguez. Em seguida, Mino Carta deixou a Abril e foi para o Estado de S. Paulo, fazer a Edição de Esportes, um jornal que saía domingo à noite com a cobertura dos jogos de futebol. Foi o embrião do diário Jornal da Tarde

Patarra assumiu a direção. Abriram-se algumas vagas na equipe e ele convidou Sérgio de Souza para ser editor de texto. E, acho que por sugestão deste, me convidou para trabalhar como repórter. A proposta era ótima. Aceitei, pedi demissão de O Cruzeiro e fui tirar um mês de férias, que passei com minha família numa fazenda às margens do rio Paraná, no Pontal do Paranapanema. 

Em agosto, assumi na Quatro Rodas, e fui recebido com uma surpresa por Paulo Patarra: que tal fazer um mapa turístico dos índios do Brasil? Era um projeto audacioso que me levaria a várias regiões do país para mostrar onde moravam e como viviam as tribos indígenas remanescentes. 

Sabia-se que a Editora Abril estava programando o lançamento de uma nova revista, mensal, de reportagens, que viria a ser a Realidade – e o Patarra queria dar uma demonstração à empresa de que a equipe de Quatro Rodas estava em condições de fazer essa revista. Por isso, ele pensou no projeto dos índios, matéria totalmente diferente dos tradicionais roteiros turísticos de Quatro Rodas

Durante duas semanas entrevistei antropólogos e etnólogos, debrucei-me sobre livros na Universidade de São Paulo. Descobri a obra de Darcy Ribeiro, a quem não pude entrevistar porque naquele momento amargava o exílio no Uruguai. Depois de estudar o assunto, pedi uma reunião com o Patarra e o pessoal da equipe para expor uma dúvida. A situação dos índios era trágica, as tribos estavam sendo dizimadas pelo contato com a civilização. 

Como fazer uma matéria de turismo, divulgar mapas com estradas e localização das aldeias, convidando as pessoas a ir lá? Minha pauta era de uma denúncia contra a destruição das tribos. Mostrei os dados que havia recolhido, sobre as tribos que tinham sido extintas e as que estavam sendo exterminadas na época. O Paulo respondeu: “Faz de conta que a gente não sabe. Vai lá e faz!” 

Viajei por 3 meses e meio quase continuamente pela Amazônia. Maria Lúcia estava grávida e ficou com Rogerio no apartamento da rua Avanhandava esquina com Nove de Julho enquanto eu mergulhava no sertão sem dar notícia. Havia partido em meados de setembro, voltei dias antes do Natal. Ela estava com uma barriga grande, esperando nosso filho Luciano, 

A empresa só ficou conhecendo o conteúdo da matéria quando ela já estava nas provas! Isso era bem do Patarra… 

A matéria, Paz para o índio vencido, veio a público na edição de fevereiro de 1965. Com muitas fotos, ocupou, se não me engano, umas 20 páginas de Quatro Rodas. Como explicar uma reportagem sobre índios numa revista de automóveis?  Depois disso passei a ser o editor do caderno de automobilismo, Alta Rotação. 

Luciano nasceu em 26 de março de 1965. Acompanhei o parto, cesariana. Mas à noite Maria Lucia ficou na maternidade em companhia de sua amiga Moema Aidar. Eu tive quer ir cobrir uma corrida de automóveis, as 24 Horas de Interlagos, pela noite afora. 

 

Fonte: Por Carlos Azevedo, em Outras Palavras

 

 

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