Memórias
do Jornalismo: Em 1964, vendo o golpe acontecer
Houve
um erro de cálculo das forças populares em 1964. Pensaram que palavras por si
mesmas podem transformar a realidade. O programa de reformas do governo de João
Goulart causava alvoroço, mas enfrentava forte resistência e patinava. Sem
diálogo à direita, Jango se aproximava da esquerda. Reunia-se com confederações
e sindicatos de trabalhadores, portuários, estivadores, metalúrgicos etc.
Recebia dirigentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), da organização
católica de esquerda Ação Popular (AP), da União Nacional dos Estudantes (UNE)
e das Ligas Camponesas de Francisco Julião.
Havia
muita manifestação, em que se destacavam os jovens de classe média. A UNE
Volante andava pelo país fazendo programas de alfabetização e sindicalização
rural, e propagandeando a reforma agrária. Os sindicatos de trabalhadores
promoviam greve atrás de greve. As Ligas Camponesas falavam em “reforma agrária
na lei ou na marra”. Generais e almirantes emponderados alardeavam a existência
de um dispositivo militar que derrotaria qualquer tentativa de golpe. Todo esse
aparato passava a impressão de ser muito forte.
A
esquerda estava em ofensiva, se achava próxima do poder, conforme declarou Luís
Carlos Prestes. Mas a conspiração contra o governo se desenvolvia mobilizando e
armando os setores conservadores, largamente predominantes na sociedade, com
apoio da Igreja Católica. Os agentes secretos dos Estados Unidos estavam
espalhados pelo país. O confronto se anunciava.
Desde
meados de 1963 eu estava trabalhando na revista O Cruzeiro, lotado
na sucursal de São Paulo, sediada em algum andar do edifício dos Diários
Associados, na rua 7 de abril, no centro da capital. Fui contratado pelo chefe
de redação, o jornalista Audálio Dantas, então já famoso por ter descoberto uma
escritora que vivia numa favela, Carolina Maria de Jesus, e por haver promovido
a publicação de seu livro, Quarto de Despejo, com grande
repercussão.
Para
chegar até ali eu havia passado por dois anos agitados. Desde a demissão
do Estadão não parava em emprego. Enquanto trabalhava na Folha
de S. Paulo eu me casei com Maria Lucia, que seria minha companheira e
parceira por 64 anos. Durante minha estada na Folha, a equipe
com a qual estava trabalhando se demitiu coletivamente. O jornalista Murilo
Felisberto, que havia me trazido para o jornal havia sido demitido. E a equipe
saiu em solidariedade a ele. Eram Sergio de Souza, Sergio Pompeu, José Carlos
Marão, Woile Guimarães. Mylton Severiano da Silva. Esse pessoal iria se
constituir numa espécie de confraria, da qual eu passei a fazer parte,
que no futuro seguiria junto, se apoiando mutuamente e realizando
trabalhos de grande repercussão.
Eu
havia acabado de me casar e eles me aconselharam a não sair para não ficar sem
dinheiro. Aceitei o conselho. Mas não fiquei muito tempo. Um mês depois deixei
a Folha, um jornal mesquinho. Em seguida estive na sucursal
do Jornal do Brasil brevemente; dali passei para o Jornal
do Comércio. Pouco depois já estava na revista Transporte
Moderno, da Editora Abril.
Mas
também não fiquei lá. Um ex-colega do Estadão, Alberto
Gambirasio, me telefonou de Brasília com um convite para eu dirigir um jornal
no Rio de Janeiro, chamado Folha de Brasília. O jornal seria
produzido e impresso no Rio e distribuído em Brasília. O dono era um político
oportunista do PTB com ambições no governo de João Goulart. Sedento de
novidades, topei na hora. No final de 1962 fui para o Rio deixando Maria Lucia,
e o filho dela, Rogério, que havia se tornado meu filho também, sozinhos no
apartamento que alugávamos na rua Avanhandava esquina com a avenida Nove de
Julho.
O
jornal era produzido nas instalações da Tribuna da Imprensa, então
dirigido pelo soturno Hélio Fernandes. Quando eu ia fazer os pagamentos do
contrato, me recebia sentado em uma escrivaninha em semiescuridão, não
cumprimentava nem falava mais nada, apenas conferia o dinheiro. Já não tenho
certeza, mas acho que o jornal se compunha de dois cadernos de 8 páginas. Com
matérias compradas da Tribuna e textos vindos de Brasília. Eu
fazia o jornal com a colaboração de um paginador e três ou quatro
noticiaristas. Redigia as manchetes e um texto de primeira página retratando a
conjuntura, que eu bispava dos outros jornais.
Era
dezembro, as escolas de samba faziam ensaios para o carnaval, já disputando
popularidade. Nomeei um dos rapazes como setorista de carnaval, dava uma
matéria quase todo dia com fotos. Era Mangueira num dia, Portela no outro, Vila
Isabel, assim por diante como a Última Hora. Tinha palavras
cruzadas e, pasmem! a coluna de Nelson Rodrigues, que me telefonava toda semana
me cobrando os pingues mil réis que a coluna, distribuída por todo o Brasil,
custava. Eu, com 23 anos e ele, com um vozeirão rouco de fumante
inveterado, me chamando “Senhor Azevedo” pelo telefone. Nunca nos
encontramos.
Maria
Lucia não se conformou. Ela sempre dizia que casamento não dá certo quando cada
um fica para um lado. Levou Rogério para casa de seus pais, tomou um ônibus e
veio ficar comigo. Talvez temesse que uma carioca me pegasse.
Mesmo
que quisesse eu nem tinha tempo para aventuras. Trabalhava umas 16 horas por
dia, desde a preparação do jornal até levar com uma kombi, de madrugada, o
reparte para um avião da Varig. E tinha de pagar o frete à vista. E cair na
cama.
Mas as
coisas não iam bem. Faltava dinheiro, a equipe ensaiou uma greve. E o patrão
não estava satisfeito, achava minhas manchetes muito para a esquerda.
Rompemos e Maria Lucia e eu viemos embora, de mãos abanando, dias antes do
carnaval de 1963.
Em São
Paulo arranjei emprego no jornal católico Brasil Urgente. Mas
faltou dinheiro e me mandaram embora. Com amigos do PCB consegui um lugar
no Diário da Noite, dos Diários Associados de Assis
Chateaubriand. Audálio Dantas gostou de uma matéria e me convidou para O
Cruzeiro. Por sugestão minha Audálio contratou mais dois repórteres,
José Carlos Marão e Hamilton Almeida Filho (HAF), este um novato na
confraria.
A
radicalização tomava conta do país. Em 13 de março, no comício da Cinelândia,
no Rio de Janeiro, Goulart foi radical. Corriam boatos de que ele planejava dar
um golpe. Em resposta, a Marcha da Família com Deus tomou as ruas de São Paulo
e repercutiu muito.
Em seu
livro, já citado em outro texto desta série, Claudio Abramo registra esse
momento: “dia 28 de março Jango mandou um avião me buscar em São Paulo.
Disse-lhe que Adhemar de Barros estava conspirando. Alertei-o de que dias antes
o dr. Julinho havia visitado Assis Chateaubriand, que aquilo era sinal seguro
de que o golpe estava na rua (…) Disse para Darcy (Ribeiro) que o general
Amaury Kruel, comandante do II Exército, sediado em São Paulo, ia aderir a
Adhemar. Darcy me respondeu que não, porque Kruel era compadre de Jango (…)
Cheguei a São Paulo e disse à minha mulher que o golpe era inevitável”.
Três
dias depois, em 31 de março, quando o general Mourão começou a deslocar suas
tropas de Minas Gerais, tateando o terreno e não encontrando oposição, o tão
falado dispositivo militar do governo não apareceu. Os grandes sindicatos e a
inflamada juventude haviam promovido muita agitação, mas não tinham armas nem
estavam preparados para a luta armada. Julião também não havia armado os
camponeses.
Ainda
acreditando que o dispositivo militar do governo ia confrontar Mourão, me
ofereci para ir acompanhar o movimento das tropas. Mas Jorge Ferreira, que era
o diretor geral da sucursal, não autorizou. Ficamos ali na redação trocando
ideias, fazendo suposições sobre os futuros acontecimentos.
Em
primeiro de abril João Goulart estava no Rio de Janeiro, foi para Brasília. De
lá voou para Porto Alegre onde Leonel Brizola já ensaiava a resistência. O
presidente contava com alguns generais amigos, como o comandante do Segundo
Exército, de São Paulo. Mas este terá sido convencido, ao que se diz por um bom
punhado de dólares, e juntou-se aos golpistas.
Jango
continuava em território nacional, mas o senador Auro de Moura Andrade, grande
empresário paulista, presidente do Congresso, praticou uma vilania ao
considerar que ele havia abandonado o governo ao deixar Brasília e decretou seu
cargo vago.
Brizola
e militares do Exército no Rio Grande do Sul, na época o mais poderoso do país,
propuseram a resistência ao presidente. Mas João Goulart não concordou e viajou
para o Uruguai, onde possuía fazendas de gado, e pediu asilo político ao país
vizinho. Nessa ocasião Leonel Brizola rompeu definitivamente com o
cunhado.
Na
noite de primeiro de abril, assisti a um dos mal-sucedidos arroubos de
resistência ao golpe de Estado. Acompanhado do colega Mylton Severiano da
Silva, que depois seria apelidado de “Miltainho”, me postei na frente do prédio
da sede da Companhia Telefônica, na rua 7 de abril, a 200 metros do prédio dos
Diários Associados. Ali havia profusão de policiais.
O
motivo: Nelson Gatto, um jornalista setorista de assuntos policiais dos
Diários, conhecido como valentão e que andava armado, estava me causando uma
grande surpresa. Acompanhado de alguns sargentos e outros companheiros havia
invadido e tomado posse à mão armado da sede da Telefônica. Estavam
entrincheirados num andar superior. Policiais entravam e saiam. Reparei que um
policial gordo saiu porta afora, esbaforido, em pânico, ensopado de suor.
Mais
tarde fiquei sabendo que Gatto era janguista. Sua resistência, porém, não durou
muito. Pelo que sei não houve tiros. Depois de horas sem luz e alimentos,
ameaçados pelos policiais, os rebelados se renderam. Depois de alguns dias
foram conduzidos a uma prisão flutuante junto com muitos outros, a bordo do
navio da Marinha Raul Soares, ancorado na Bacia de Santos. Ali foram mantidos
pelos golpistas por muitos meses, submetidos a precárias condições de
alojamento e alimentação.
Em
primeiro de abril, o estudante baiano Duarte Brasil Lago Pacheco Pereira,
vice-presidente da UNE, estava no exercício na presidência porque José Serra
estava, como sempre, viajando. Duarte se preparava para deixar o Rio de Janeiro
enquanto a sede da UNE era incendiada pelos golpistas. Ele era dirigente da
Ação Popular, agremiação católica progressista, assim como Serra. A AP tinha
influência nos debates políticos com Jango e seus ministros. Duarte me contou
mais tarde que naqueles dias febris de fevereiro e março de 1964, ele, como
representante de Ação Popular, se opôs e impediu uma proposta de autogolpe de
Goulart, sugerido pelo entorno do presidente.
Reunindo
outros dirigentes da UNE, ele viajou de automóvel para a Bahia com a disposição
de organizar a resistência. O grupo foi para Feira de Santana, cujo prefeito, o
sempre aguerrido Chico Pinto, também se preparava para a resistência armada.
Por lá ficaram vários dias, mas não encontrando apoio, acabaram por desistir e
se dispersar.
Nos
dias seguintes sucediam-se milhares de prisões de civis e militares pelo país,
cassações de mandatos parlamentares e executivos, de lideranças sindicais.
Comunistas, dirigentes da Ação Popular, lideranças da UNE que não caíram na
clandestinidade, foram presos. No campo, militares e latifundiários promoviam
massacres de líderes camponeses. Ditadura!
Eu,
como todo mundo, me surpreendi com a falta de resistência aos golpistas. Quando
se deram conta de que as forças armadas não se dividiam, avançaram para o
poder. Quanto a mim, ainda não tinha militância política, não me
incomodaram. Continuei em O Cruzeiro até julho de 1964, quando
fui convidado para trabalhar na revista Quatro Rodas, da
Editora Abril.
Como eu
contei no livro Cicatriz de Reportagem, a repercussão do golpe
militar de abril de 1964 na redação da revista Quatro Rodas foi
dramática. Um dos jornalistas que trabalhavam lá, tentando tornar-se o diretor
da revista, foi aos patrões e denunciou a equipe, chefiada por Paulo Patarra,
como sendo uma célula comunista. O momento era propício, havia uma caça às
bruxas… Mas não deu certo. O diretor de Quatro Rodas, Mino
Carta, o diretor, defendeu sua equipe, o patrão concordou com ele, o acusador
foi mandado embora.
Patarra
e seus companheiros saíram fortalecidos do episódio. Participavam do grupo José
Hamilton Ribeiro, José Roberto Pena, Expedito Marazzi, George Duque Estrada,
Pedro Cortizas Dominguez. Em seguida, Mino Carta deixou a Abril e foi para
o Estado de S. Paulo, fazer a Edição de Esportes, um
jornal que saía domingo à noite com a cobertura dos jogos de futebol. Foi o
embrião do diário Jornal da Tarde.
Patarra
assumiu a direção. Abriram-se algumas vagas na equipe e ele convidou Sérgio de
Souza para ser editor de texto. E, acho que por sugestão deste, me convidou
para trabalhar como repórter. A proposta era ótima. Aceitei, pedi demissão
de O Cruzeiro e fui tirar um mês de férias, que passei com
minha família numa fazenda às margens do rio Paraná, no Pontal do
Paranapanema.
Em
agosto, assumi na Quatro Rodas, e fui recebido com uma surpresa por
Paulo Patarra: que tal fazer um mapa turístico dos índios do Brasil? Era um
projeto audacioso que me levaria a várias regiões do país para mostrar onde
moravam e como viviam as tribos indígenas remanescentes.
Sabia-se
que a Editora Abril estava programando o lançamento de uma nova revista,
mensal, de reportagens, que viria a ser a Realidade – e o
Patarra queria dar uma demonstração à empresa de que a equipe de Quatro
Rodas estava em condições de fazer essa revista. Por isso, ele pensou
no projeto dos índios, matéria totalmente diferente dos tradicionais roteiros
turísticos de Quatro Rodas.
Durante
duas semanas entrevistei antropólogos e etnólogos, debrucei-me sobre livros na
Universidade de São Paulo. Descobri a obra de Darcy Ribeiro, a quem não pude
entrevistar porque naquele momento amargava o exílio no Uruguai. Depois de
estudar o assunto, pedi uma reunião com o Patarra e o pessoal da equipe para
expor uma dúvida. A situação dos índios era trágica, as tribos estavam sendo
dizimadas pelo contato com a civilização.
Como
fazer uma matéria de turismo, divulgar mapas com estradas e localização das
aldeias, convidando as pessoas a ir lá? Minha pauta era de uma denúncia contra
a destruição das tribos. Mostrei os dados que havia recolhido, sobre as tribos
que tinham sido extintas e as que estavam sendo exterminadas na época. O Paulo
respondeu: “Faz de conta que a gente não sabe. Vai lá e faz!”
Viajei
por 3 meses e meio quase continuamente pela Amazônia. Maria Lúcia estava
grávida e ficou com Rogerio no apartamento da rua Avanhandava esquina com Nove
de Julho enquanto eu mergulhava no sertão sem dar notícia. Havia partido em
meados de setembro, voltei dias antes do Natal. Ela estava com uma barriga
grande, esperando nosso filho Luciano,
A
empresa só ficou conhecendo o conteúdo da matéria quando ela já estava nas
provas! Isso era bem do Patarra…
A
matéria, Paz para o índio vencido, veio a público na edição de
fevereiro de 1965. Com muitas fotos, ocupou, se não me engano, umas
20 páginas de Quatro Rodas. Como explicar uma reportagem sobre índios numa
revista de automóveis? Depois disso passei a ser o editor do caderno de
automobilismo, Alta Rotação.
Luciano
nasceu em 26 de março de 1965. Acompanhei o parto, cesariana. Mas à noite Maria
Lucia ficou na maternidade em companhia de sua amiga Moema Aidar. Eu tive quer
ir cobrir uma corrida de automóveis, as 24 Horas de Interlagos, pela
noite afora.
Fonte: Por
Carlos Azevedo, em Outras Palavras

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