Sedentarismo
cognitivo
A
cognição é a capacidade humana de adquirir, armazenar, organizar e utilizar
informações para lidar consigo, com os outros e com o mundo. Em suma, consiste
na nossa capacidade de aprender. Por séculos, os filósofos se perguntaram e
discutiram sobre a origem das nossas ideias, se elas eram inatas à razão ou
adquiridas através da experiência. É mérito de Immanuel Kant ter mostrado que o
processo cognitivo não é uma competição entre razão e experiência, mas uma
cooperação entre ambas. É o trabalho conjunto de ambas as capacidades
cognitivas que nos permite formar ideias sobre as coisas.
Os
estudos sobre a cognição humana se ampliaram desde Kant. Há pesquisas na área
da psicologia do desenvolvimento, como as de Jean Piaget e Lev Vygotsky, mas
também as descobertas da neurociência. Entretanto de toda maneira, é consenso
que o ser humano é um animal capaz de aprender e que possui habilidades
cognitivas fundamentais para sua sobrevivência.
São
consideradas habilidades cognitivas: (i) a atenção; (ii) a percepção; (iii) a
memória; (iv) a linguagem e (v) o raciocínio. A “atenção” consiste na nossa
capacidade de focar em um conteúdo em meio a vários, por exemplo, ser capaz de
ler um livro em meio ao barulho ou ser capaz de anotar o que o professor está
falando, mas também a capacidade de ler um texto longo sem se dispersar, isto
é, esquecer o que acabou de ler.
A
“percepção” consiste, como disse Immanuel Kant, no modo como o sujeito entende
o objeto. O modo como entendemos as coisas, diz Kant, depende de como as
percebemos e para ele nosso entendimento é mediado pelos nossos cinco sentidos,
por isso haveria aspectos da realidade imperceptíveis para nós. Os
culturalistas dizem que é a cultura que media nossa percepção e entendimento
dos objetos enquanto os adeptos da reviravolta linguística dizem que é a
linguagem a instância mediadora entre o Eu e o mundo.
De todo
modo, o fundamental é a admissão de que nossa percepção da realidade não é
imediata, mas mediada e a tecnologia é um elemento mediador, por exemplo, os
instrumentos óticos como microscópio e telescópio que ampliam nossa percepção
do real além do olho nu.
A
“memória” é indispensável para o aprendizado, como disse Aristóteles. Ninguém
aprende nada se não é capaz de reter, isto é, “decorar” alguma coisa. Nossa
memória é de curto (15 a 30 segundos), médio (algumas horas) e longo prazo
(dias ou a vida inteira).
A
“linguagem” consiste na nossa capacidade de comunicar o que aprendemos, mas
também serve para representar nossas ideias verbalmente. Há uma querela se o
pensamento é pictórico ou se articula linguisticamente, mas isso não vem ao
caso, o que se admite é que quanto mais amplo meu vocabulário maior meu domínio
cognitivo do mundo objetivo e interior.
E por
fim, o “raciocínio” é a capacidade de conectar ideias e solucionar problemas.
Para variar, Aristóteles foi pioneiro na classificação dos tipos de raciocínio
e declarou que os principais, pois os mais utilizados por nós, eram o
raciocínio indutivo e o dedutivo. Na nossa mente, essas habilidades não
funcionam separadamente, mas estão todas conectadas, funcionando
simultaneamente e de maneira orgânica.
Qual o
grande problema do uso exagerado de aplicativos que facilitam nossa vida
cotidiana, como GPS ou calculadora e, principalmente, da inteligência
artificial (I.A.)? É o sedentarismo cognitivo.
O
sedentarismo cognitivo em resumo significa o desuso de nossas habilidades
cognitivas a ponto de elas irem “atrofiando” ou falhando por “falta de uso”. Se
fizermos uma analogia entre nossa mente e um músculo, é como se ao não usarmos
adequadamente nossas habilidades cognitivas não estivéssemos “malhando” e por
isso esse músculo vai perdendo a força, enfraquece e diminui de tamanho, o que
no caso da nossa cognição implica mau funcionamento e dependência tecnológica.
Por
exemplo, antes do celular, nós anotávamos os contatos em agendas e como nem
sempre podíamos sair com a agende debaixo do braço, éramos obrigados a
memorizar muitos números telefônicos. Hoje, terceirizamos essa função cognitiva
para o celular e no máximo temos memorizado o nosso contato e às vezes nem
isso. Caso nosso celular descarregue é provável que fiquemos incomunicáveis,
pois não temos memorizados o contato de ninguém.
O mesmo
ocorre com o uso do GPS. Outrora o motorista tinha que decorar todos os
caminhos, nomes de ruas e de bairros, memorizar todo o mapa da cidade, mas hoje
não precisamos fazer isso, pois basta digitar o endereço do destino no GPS e
temos o melhor trajeto na palma da mão. O problema é que se ficamos sem
internet ou o celular descarrega, não sabemos para onde ir, pois quem nos guia
não é nossa memória, mas o GPS.
Outro
fato que afeta negativamente nossas habilidades cognitivas são os vídeos curtos
e os áudios e vídeos acelerados, mas também as notificações constantes. Devido
à velocidade acelerada e às interrupções frequentes de aplicativos de mensagem,
temos dificuldade de prestar atenção e nos concentrar, ou seja, nossa
habilidade de prestar atenção é comprometida. São inúmeros os relatos de jovens
que reclamam de ter que ler “textões” ou assistir um filme longo ou na
velocidade normal, sem poder acelerar. A consequência é a dificuldade de focar
no que está acontecendo ou mesmo o pensamento acelerado, grande fator ou
sintoma de ansiedade.
As
novas tecnologias digitais e a informática também afetam nossa percepção do
tempo, que fica parecendo mais acelerado, mas também nossa percepção sobre
fatos da vida humana. Por exemplo, o impacto do acesso fácil, precoce e em
excesso de conteúdo pornográfico na vida sexual dos jovens.
É
sabido que quanto mais o jovem tem acesso a pornografia, mais sua percepção
sobre o corpo e o desempenho sexual é prejudicada, já havendo toda uma
literatura sobre a relação entre consumo precoce e exagerado de pornografia e
ansiedade de desempenho e dificuldade de excitação com corpos reais sem o uso
de medicamentos.
Ademais,
quando terceirizamos para a “máquina” a elaboração de textos ou pedimos
conselhos a ela, como já ocorre, estamos terceirizando nossa capacidade de
raciocinar e tomar decisões. Como a Inteligência artificial não cria ideias,
mas apenas utiliza as disponíveis, isso implica o comprometimento de nossa
capacidade criativa. Sem contar que a Inteligência artificial se alimenta de
ideias produzidas por seres humanos que são divulgadas e ela as utiliza sem dar
os devidos créditos e sem pagar pelos direitos autorais.
Além
disso, há a questão ética de poder usar a Inteligência artificial para realizar
tarefas intelectuais, como escrever Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), mas
até que ponto não devemos fazer isso? Afinal, não é porque posso que devo. Mas
aí fica a questão, a saber, como controlar de modo eficaz o que posso, mas não
devo? Isso acarreta para a escola e a universidade um problema pedagógico: o de
como avaliar o nível de aprendizado dos estudantes se não podemos confiar se
eles não vão pedir a Inteligência artificial para fazer o trabalho por eles?
Isso
coloca para o ensino de nível superior a questão da originalidade, pois se o
objetivo é apenas adquirir conhecimento para executar tarefas, a Inteligência
artificial é um instrumento útil, mas se a questão for de fato descobrir algo
novo ou criar uma ideia nova, a Inteligência artificial é um obstáculo e seu
uso no nível superior deve ser rigorosamente regulado e devemos exigir mais dos
nossos pesquisadores e não que eles apenas digam mais do mesmo, como de fato é
que acabamos fazendo.
Ora, se
for um doutorado em filosofia apenas para explicar como Hegel definiu o Estado,
então é melhor deixar que os interessados no assunto apenas consultem a
Inteligência artificial, mas se o que queremos é uma reinterpretação da
consciência infeliz ou uma correção da dialética, como fez o finado professor
Carlos Cirne Lima (1931 – 2020), então a Inteligência artificial é algo a ser
evitado, pois ela promove o sedentarismo cognitivo e inibe a nossa capacidade
de raciocinar.
Para
finalizar essa breve reflexão sobre esse complexo assunto, gostaria de dizer
que há pessoas que usam a Inteligência artificial para fazer terapia, o que é
um absurdo. Afinal, um dos fatores fundamentais para o sucesso de uma
psicoterapia é a constituição do vínculo terapêutico ou da transferência no
caso da psicanálise, coisa que a “máquina”, incapaz de ter empatia, não
estabelece com o paciente. Esse é o cúmulo da alienação tecnológica, pois
consiste na entrega na nossa subjetividade mais íntima aos algoritmos.
Fonte:
Por John Karley de Sousa Aquino, em A Terra é Redonda

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