Burnout
já existia na Idade Média — o que a sabedoria medieval tem a nos ensinar
O
estresse e esgotamento mental não são problemas exclusivos da vida moderna. Na
Idade Média, também eram comuns e parte da sabedoria medieval sobre como
enfrentar o burnout (um fenômeno ocupacional, segundo a Organização Mundial da
Saúde, a OMS) continua surpreendentemente atual.
Os
sintomas, observou João Cassiano, eram sempre os mesmos: cansaço, desesperança,
vontade de estar em qualquer lugar, menos no trabalho, e uma espécie de névoa
mental — "uma confusão da mente sem explicação" — que fazia os seus
colegas se sentirem improdutivos, inúteis e buscar "consolo no sono".
Quem já
enfrentou burnout, esgotamento ou depressão provavelmente reconhecerá ao menos
parte dessas sensações. É comum supor que esses problemas sejam consequência
das pressões do século 21. Mas Cassiano escreveu isso no século 5 d.C., e seus
leitores não eram executivos contemporâneos, mas cristãos dos primeiros séculos
exaustos pelas exigências da vida espiritual.
Será
que relatos como esse podem ajudar a compreender o mal-estar contemporâneo e
até apontar caminhos para enfrentá-lo?
Essa é
a tese do novo livro do historiador Peter Jones, Self-Help from the Middle
Ages: A Journey into the Medieval Mind (Autoajuda na Idade Média: uma viagem
pela mente medieval, em tradução livre), que oferece um panorama das formas
como os "padres-terapeutas" — expressão usada pelo autor — orientavam
os seus fiéis a superar a angústia espiritual.
A
pesquisa de Jones revela como o sentimento de esgotamento foi recorrente ao
longo da história — uma constatação que, por si só, pode confortar quem
enfrenta um momento de profunda angústia.
"Há
muita sabedoria na Idade Média", afirma o historiador. Nos últimos anos,
multiplicaram-se livros que buscam lições de vida nas obras dos antigos
estóicos (filósofos que pregavam o domínio das emoções e a vida guiada pela
razão). Talvez tenha chegado a hora de recorrer também aos manuscritos
medievais.
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Perdido na Sibéria
Jones
conta que a ideia do livro surgiu após enfrentar a própria crise — "o
inverno mais frio da minha vida".
Por
razões que até hoje diz ter dificuldade para explicar, aceitou o cargo de
professor titular de História na Universidade de Tyumen, na Sibéria. Lá, as
temperaturas eram tão baixas que, depois de apenas 20 minutos ao ar livre, ele
perdia completamente a sensibilidade nas pernas.
Também
enfrentava dificuldades com o idioma e sentia muita falta da família, que havia
ficado em Dublin, na Irlanda. "Eu deveria estar pesquisando, preparando
minhas aulas e seguindo com a minha vida", escreve. "Mas simplesmente
não conseguia fazer nada."
Mas,
enquanto preparava um novo curso sobre os Sete Pecados Capitais, Jones começou
a reconhecer nos relatos medievais ecos da sua própria infelicidade.
"Você
percebe que eles passaram exatamente pelas mesmas coisas que nós", diz.
"Os sentimentos sempre foram os mesmos, e as pessoas sempre enfrentaram as
mesmas crises."
Jones
explica que os sete pecados capitais não aparecem na Bíblia. Eles foram
formulados por pensadores cristãos dos primeiros séculos, como João Cassiano, e
mais tarde sistematizados pelo papa São Gregório Magno que, segundo o
historiador escreve no livro, "considerava que eles eram a ferramenta
ideal para compreender os problemas da mente". Esse esquema de
"organizar e interpretar todos os pensamentos" era composto por
soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria.
No
século 13, surgiram diversos manuais destinados a orientar os padres sobre a
melhor forma de ajudar os fiéis a superar esses problemas durante a confissão.
"Quando você lê esses textos, o que vê é algo muito parecido com a
terapia", afirma Jones. Em vez de repreender os fiéis, "eles
estimulavam uma conversa profunda e cheia de nuances, capaz de chegar ao cerne
do problema".
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Acídia — ausência de amor e vazio espiritual
Entre
os sete pecados, a preguiça foi a que mais refletiu o estado de espírito de
Jones durante o período em que viveu na Sibéria. Hoje, a palavra costuma ser
associada à indolência ou à falta de vontade de agir. Já os autores medievais
identificavam um vazio emocional mais profundo por trás desse estado.
Conhecida
na época como acídia, ela abrangia "uma ausência de amor, uma paralisia do
cuidado e um vazio espiritual", escreve Jones. "É quando tudo o que
antes iluminava os seus dias passa a despertar apenas indiferença."
Jones
conta que se identificou especialmente com um texto do século 13 conhecido como
MS 306, preservado no Trinity College Dublin, na Irlanda. Nele, o autor
descreve a acídia como "estar parado no meio de um rio caudaloso, diante
de uma correnteza espumante que bate contra as minhas pernas, mas sem forças
para seguir em frente" — uma sensação de paralisia que Jones reconheceu
imediatamente ao lembrar do inverno que passou na Sibéria.
Já os
escritos do Archpoet — um autor anônimo da Alemanha do século 12 — retratam a
enorme frustração com o trabalho burocrático, em queixas que poderiam ser
feitas por muitos profissionais de hoje.
"Seus
poemas falam de alguém que trabalha sem parar em um emprego que considera
mesquinho e sem sentido, entregando tudo de si enquanto se esgota
completamente."
Jones
está longe de ser o único historiador a identificar paralelos entre os males da
Idade Média e os da vida contemporânea.
No
livro Exhausted (Exaustos, em tradução livre), Anna Katharina Schaffner,
historiadora cultural (e coach executiva), estabelece uma relação direta entre
a acídia descrita pelos cristãos medievais e o burnout atual, cujos sintomas
incluem a tendência a buscar conforto na comida e a recorrer a distrações sem
propósito em vez de se dedicar a atividades significativas.
"É
um círculo vicioso clássico: quem sofre de acídia se torna cada vez menos capaz
de meditar e refletir sobre questões espirituais, enquanto as estratégias
inadequadas adotadas para recuperar as energias apenas agravam o
problema", escreve Schaffner.
"Nesse
sentido, eles são como nós — pessoas do século 21 exaustas pelo burnout, que
recorrem a uma série de atividades igualmente improdutivas para evitar lidar
com o que realmente importa."
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Campos espinhosos e montanhas imponentes
Mas
quais eram as soluções? O autor do manuscrito MS 306 responde com uma
referência indireta à Bíblia. "Queira você ou não, os jebuseus vivem
dentro de suas fronteiras", escreveu. "Você pode subjugá-los, mas não
pode exterminá-los."
Jones
explica que os jebuseus eram um povo antigo que, em determinado momento, ocupou
Jerusalém e não podia ser completamente expulso. A metáfora, segundo ele,
aconselha quem sofre de acídia a aprender a conviver com esses sentimentos, em
vez de travar uma luta constante contra eles.
O
tratado Treatise on the Virtues and Vices (Tratado sobre as virtudes e os
vícios, em tradução livre), de Guilherme Peraldus (ou William Perault, no
francês), segue uma linha semelhante. "Ele nos diz para lembrar que o
campo tomado por espinhos um dia voltará a dar frutos."
Para
mudar a forma de encarar essas dificuldades, Peraldus propõe encontrar uma
"montanha imponente" — um propósito maior capaz de sustentar a pessoa
nos momentos difíceis. "É preciso contar com o apoio e a força de alguém
que você ama ou de algo que ama para conseguir seguir em frente", explica
Jones. "Se você mantiver a fé naquilo que ama, isso acabará voltando para
você."
Jones
reconhece que, fora do contexto e sem a autoridade dos textos originais,
"essas ideias podem soar como clichês". Ainda assim, observa que elas
lembram de forma surpreendente abordagens contemporâneas para tratar o burnout
e outros problemas emocionais.
A
Terapia de Aceitação e Compromisso, por exemplo, incentiva as pessoas a
reconhecerem suas emoções sem tentar mudá-las. Além de aprender a conviver com
esses sentimentos, o paciente é estimulado a identificar os seus valores
pessoais e a agir de acordo com eles. Acrescente a isso as metáforas medievais
dos campos cobertos de espinhos e das montanhas imponentes, e o resultado se
aproxima bastante da receita proposta por Peraldus há 800 anos.
Talvez
a principal lição deixada por esses pensadores medievais seja a importância do
autoperdão — outro tema recorrente na psicoterapia contemporânea.
Jones
também cita os escritos de Bernard of Clairvaux, do século 12, um dos
fundadores da Ordem dos Cavaleiros Templários.
"Ele
comparou viver uma boa vida a correr em um terreno acidentado e diz que
qualquer pessoa que percorra uma distância suficiente acabará tropeçando ou
caindo", explica Jones. "Todos nós passaremos por momentos em que nos
sentiremos completamente sem rumo."
Segundo
Jones, há um grande conforto em reconhecer que ninguém sofre sozinho. Seja qual
for a aflição, outras pessoas já experimentaram sentimentos semelhantes ao
longo de milhares de anos. "É reconfortante sentir a companhia das pessoas
que vieram antes de nós", afirma.
Fonte:
BBC Culture

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