Brasil
e China apontam o caminho para a defesa do multilateralismo e da paz mundial
Em um
momento em que o mundo parece caminhar perigosamente para uma nova era de
confrontações entre grandes potências, a conversa telefônica entre o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Xi Jinping representa muito mais do
que um diálogo bilateral. Ela sinaliza a consolidação de uma visão justa da
ordem internacional, baseada no multilateralismo, na cooperação entre países
soberanos, no comércio limpo e na busca de soluções negociadas para os
conflitos.
O
telefonema ocorre em um momento particularmente conturbado, em que o governo de
Donald Trump aposta simultaneamente na guerra comercial e na lógica da guerra.
Tarifas, sanções, ameaças e pressões econômicas são utilizadas como
instrumentos de coerção contra países que procuram preservar sua soberania e
defender seus próprios interesses nacionais.
A
política externa do governo Trump não se limita, porém, à disputa comercial.
Washington também busca interferir claramente nos processos políticos e
eleitorais da América Latina, tentando influenciar as escolhas soberanas dos
povos da região e favorecer forças de extrema-direita, alinhadas aos interesses
estratégicos dos Estados Unidos.
Essa
postura representa uma ameaça não apenas aos países diretamente atingidos, mas
ao próprio princípio democrático de que cada sociedade deve ter o direito de
escolher livremente seus governantes e definir os rumos de seu desenvolvimento.
A defesa da soberania nacional, portanto, tornou-se inseparável da defesa da
democracia e do multilateralismo.
O
sistema internacional também vive uma profunda crise de governança. As Nações
Unidas mostram-se incapazes de impedir guerras ou de mediar conflitos que
colocam em risco a humanidade. O Conselho de Segurança permanece frequentemente
paralisado, enquanto o planeta assiste à continuidade da guerra na Ucrânia, à
tragédia humanitária em Gaza, às tensões no Oriente Médio, com destaque para as
constantes agressões ao Irã, e ao agravamento da rivalidade entre as grandes
potências.
É
justamente diante desse cenário que Brasil e China oferecem uma resposta
distinta. Em vez da lógica dos blocos militares, das intervenções externas, das
sanções unilaterais e da política de poder, defendem o fortalecimento das
instituições multilaterais, o diálogo permanente, o respeito à soberania dos
Estados e a solução pacífica das controvérsias.
Como
grandes nações do BRICS, Brasil e China podem liderar uma agenda internacional
baseada na defesa do comércio justo e da paz mundial. Os dois países possuem
dimensão territorial, peso econômico, capacidade diplomática e legitimidade
política para articular uma resposta do Sul Global às crescentes ameaças de
fragmentação da economia mundial e de escalada dos conflitos militares.
Não é
por acaso que Xi Jinping destacou o papel de Brasil e China como importantes
representantes do Sul Global. Tampouco foi casual a reafirmação, por parte de
Lula, da importância do Grupo de Amigos da Paz para a construção de uma solução
negociada para a guerra na Ucrânia. Trata-se de uma diplomacia que procura
criar condições concretas para o diálogo, em vez de alimentar a escalada
permanente das tensões.
A
convergência entre Brasília e Pequim também ocorre no campo econômico. Os dois
países entendem que desenvolvimento, estabilidade e paz caminham juntos. A
ampliação da cooperação em inteligência artificial, satélites, minerais
críticos, energia e fertilizantes demonstra que a parceria sino-brasileira
deixou de ser apenas comercial para se transformar em uma relação estratégica
para o século XXI.
Nesse
contexto, ganha enorme importância a defesa de um acordo entre o Mercosul e a
China. Em um momento em que o protecionismo e as guerras tarifárias voltam a
crescer, ampliar mercados, integrar cadeias produtivas, estimular investimentos
e promover relações econômicas equilibradas torna-se uma resposta racional à
fragmentação da economia internacional.
O
comércio não pode ser utilizado como arma de dominação política. Deve funcionar
como instrumento de desenvolvimento compartilhado, geração de empregos,
inovação tecnológica e melhoria das condições de vida dos povos. Esse é um dos
pontos centrais da agenda que Brasil e China podem construir conjuntamente no
BRICS e em outros fóruns multilaterais.
O
fortalecimento das relações entre os países do Sul Global torna-se, assim,
parte essencial da construção de uma agenda de paz e desenvolvimento. Quanto
maior for a cooperação entre essas nações, menor será sua vulnerabilidade
diante de sanções, pressões econômicas, bloqueios financeiros e interferências
externas.
Essa
aproximação não significa a criação de um novo bloco fechado nem a substituição
de uma hegemonia por outra. Significa ampliar a autonomia dos países em
desenvolvimento, diversificar parceiros e criar uma ordem internacional em que
nenhuma potência possa impor unilateralmente suas decisões ao restante do
mundo.
A
aproximação entre Brasil e China também desafia a ideia de que o sistema
internacional deve necessariamente organizar-se em torno de um único centro de
poder. A realidade aponta para uma ordem multipolar, na qual diferentes polos
econômicos, tecnológicos e políticos precisam conviver e construir mecanismos
permanentes de coordenação.
É nesse
ambiente que o BRICS assume protagonismo crescente. O grupo já não representa
apenas um conjunto de grandes economias emergentes. Torna-se um espaço político
de articulação capaz de influenciar os debates sobre financiamento ao
desenvolvimento, inteligência artificial, comércio internacional, reforma das
instituições multilaterais, soberania nacional e segurança global.
Brasil
e China compreendem que o século XXI não será definido apenas pela disputa por
mercados, recursos naturais ou tecnologias. Será determinado também pela
capacidade de construir uma governança internacional mais representativa, capaz
de substituir a lógica da
Ao
reafirmarem conjuntamente a defesa do multilateralismo, do comércio justo, da
soberania, da reforma da governança global e da solução negociada dos
conflitos, Lula e Xi Jinping oferecem uma mensagem que transcende os interesses
nacionais de Brasil e China.
Num
tempo em que o governo Trump investe nas guerras comerciais, na intimidação
militar e na interferência política sobre outras nações, Brasil e China apontam
outro caminho: o da soberania, da cooperação, do desenvolvimento compartilhado
e da paz.
O
fortalecimento dessa parceria e das relações entre os países do Sul Global pode
representar uma das mais importantes forças de equilíbrio da política
internacional contemporânea. Mais do que construir pontes entre Brasília e
Pequim, trata-se de ajudar a erguer as bases de uma nova ordem mundial, mais
democrática, mais justa e menos submetida à lógica da guerra.
• Após tarifaço de Trump, Lula discute
acordo China-Mercosul com Xi Jinping
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente da China, Xi Jinping,
conversaram por telefone na noite de domingo (26/07) e defenderam o
aprofundamento da cooperação bilateral em áreas estratégicas, além da
aceleração das negociações para um acordo entre o Mercosul e a China.
Em
nota, o governo brasileiro afirmou que a ligação durou mais de uma hora e
tratou "da implementação das sinergias entre os projetos nacionais de
desenvolvimento dos dois países".
"O
presidente Lula ressaltou que seu governo segue comprometido com a
diversificação de mercados e parceiros comerciais. Ambos coincidiram a respeito
da importância de acelerar as tratativas para um acordo MERCOSUL-China, que
contemple as necessárias flexibilidades", diz ainda o comunicado.
A
ligação telefônica veio poucos dias após a entrada em vigor de uma nova tarifa
de 25% implementada pelo governo de Donald Trump contra parte das exportações
brasileiras. Na semana passada, os Estados Unidos também anunciaram uma segunda
tarifa, de 12,5%, contra 60 de seus parceiros comerciais — entre eles o Brasil
—, sob a alegação de que teriam falhado em combater adequadamente o trabalho
forçado.
A nota
do Planalto não cita explicitamente o tarifaço como um dos temas discutidos na
ligação entre Xi Jinping e Lula.
Em sua
própria nota sobre a conversa, o governo chinês ressaltou que "diante de
novas circunstâncias e desafios", Brasil e China devem se posicionar
"firmemente do lado certo da história" e desempenhar um papel maior
"na reforma e no aprimoramento do sistema de governança global, e na
defesa da equidade e da justiça internacionais".
Ainda
segundo Pequim, Xi teria afirmado na ligação que a China valoriza muito "o
status internacional e a importante influência do Brasil", e apoia o país
"na defesa de sua soberania e independência, na oposição à interferência
externa e na contribuição para a manutenção da paz e da estabilidade regional e
mundial".
"Xi
Jinping afirmou que a China está pronta para fortalecer ainda mais a
coordenação estratégica bilateral e multilateral com o Brasil, mantendo assim o
ímpeto positivo na construção de uma comunidade China-Brasil com um futuro
compartilhado", diz a nota.
• Em recado aos EUA, Xi Jinping diz a Lula
que China apoia Brasil contra ‘interferência externa’
Os
governos de Brasil e China reafirmaram neste domingo (26) o compromisso de
ampliar a parceria estratégica entre os dois países. Em conversa por telefone,
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente chinês, Xi Jinping,
discutiram o fortalecimento das relações bilaterais, a expansão da cooperação
em áreas de alta tecnologia e a necessidade de acelerar as negociações de um
acordo comercial entre o Mercosul e a China.
Segundo
a agência estatal chinesa Xinhua, Xi aproveitou a conversa para manifestar
apoio ao Brasil diante de pressões externas. O governante chinês afirmou que
seu país está pronto para fortalecer ainda mais a coordenação estratégica
bilateral e multilateral com o Brasil, mantendo assim o ímpeto positivo na
construção de uma comunidade China-Brasil com um futuro compartilhado.
Xi
destacou que, diante de novas circunstâncias e desafios, a China e o Brasil,
ambos importantes membros do Sul Global, devem posicionar-se firmemente do lado
certo da história, bem como do lado do progresso da civilização, e desempenhar
um papel construtivo ainda maior na reforma e no aprimoramento do sistema de
governança global, além de defender a equidade e a justiça internacionais.
Na
avaliação de Xi, Brasil e China exercem papel relevante entre os países do Sul
Global e devem atuar para fortalecer a governança internacional e promover uma
ordem mundial mais equilibrada. O presidente chinês declarou ainda que “o país
valoriza profundamente o status internacional e a importante influência do
Brasil, apoia o país na salvaguarda de sua soberania e independência, opõe-se à
interferência externa e contribuirá para a manutenção da paz e da estabilidade
regional e global”.
Do lado
brasileiro, Lula destacou o avanço da parceria entre os dois países nos últimos
anos. Segundo o presidente, a cooperação bilateral vem produzindo resultados
positivos em diferentes setores e impulsionando o crescimento das relações
comerciais.
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Projetos nacionais de desenvolvimento
Em
nota, o Palácio do Planalto informou que os dois chefes de Estado avaliaram
formas de integrar seus projetos nacionais de desenvolvimento e concordaram em
ampliar iniciativas conjuntas em segmentos considerados estratégicos. Entre as
prioridades estão inteligência artificial, tecnologia espacial, processamento
de minerais críticos e o comércio de fertilizantes.
Embora
houvesse expectativa de que o telefonema tratasse das tarifas anunciadas pelo
governo do presidente Donald Trump contra produtos brasileiros e de outros
parceiros comerciais, o comunicado oficial divulgado pelo governo brasileiro
não faz qualquer referência ao assunto.
Ainda
durante a conversa, Lula reiterou que o Brasil continuará investindo na
diversificação de seus mercados externos e de seus parceiros comerciais. Os
presidentes também defenderam maior rapidez nas negociações de um acordo entre
Mercosul e China, respeitando as necessidades e flexibilidades de cada parte.
A
situação internacional também ocupou parte da conversa. Os dois líderes
demonstraram preocupação com o aumento dos conflitos armados e alertaram para
seus impactos sobre o abastecimento de alimentos, a segurança energética e a
estabilidade econômica mundial. Eles lamentaram ainda o elevado número de
vítimas e os danos provocados pelas guerras.
Em
relação ao Oriente Médio, Lula e Xi apontaram que as restrições à navegação nos
estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb afetam o comércio internacional e agravam os
desafios da economia global. Ambos também manifestaram preocupação com a crise
humanitária na Faixa de Gaza.
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Conflito na Ucrânia
Sobre a
guerra na Ucrânia, os dois presidentes defenderam o fortalecimento do Grupo de
Amigos da Paz, iniciativa lançada por Brasil e China na Organização das Nações
Unidas (ONU) em setembro de 2024 para estimular uma solução negociada para o
conflito.
O
comunicado também registra críticas dos dois governos ao desempenho do Conselho
de Segurança da ONU diante das crises internacionais. Segundo a avaliação
compartilhada por Lula e Xi, o próximo secretário-geral da organização
encontrará um cenário global marcado por desafios crescentes.
Ao
encerrar a conversa, os presidentes reafirmaram o compromisso com o
multilateralismo e decidiram manter uma coordenação estreita em organismos
internacionais, como a ONU e o Brics.
O
diálogo ocorre em um momento em que Lula intensifica a defesa da ampliação das
relações comerciais do Brasil com novos parceiros. Também neste domingo, em
artigo publicado no The Washington Post, o presidente classificou como um “erro
estratégico” as tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos
brasileiros e afirmou que o país buscará novos mercados, investimentos e
oportunidades de cooperação internacional.
Fonte:
Por Leonardo Attuch, em Brasil 247/BBC News Brasil/ICL Notícias

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