terça-feira, 28 de julho de 2026

Brasil e China apontam o caminho para a defesa do multilateralismo e da paz mundial

Em um momento em que o mundo parece caminhar perigosamente para uma nova era de confrontações entre grandes potências, a conversa telefônica entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Xi Jinping representa muito mais do que um diálogo bilateral. Ela sinaliza a consolidação de uma visão justa da ordem internacional, baseada no multilateralismo, na cooperação entre países soberanos, no comércio limpo e na busca de soluções negociadas para os conflitos.

O telefonema ocorre em um momento particularmente conturbado, em que o governo de Donald Trump aposta simultaneamente na guerra comercial e na lógica da guerra. Tarifas, sanções, ameaças e pressões econômicas são utilizadas como instrumentos de coerção contra países que procuram preservar sua soberania e defender seus próprios interesses nacionais.

A política externa do governo Trump não se limita, porém, à disputa comercial. Washington também busca interferir claramente nos processos políticos e eleitorais da América Latina, tentando influenciar as escolhas soberanas dos povos da região e favorecer forças de extrema-direita, alinhadas aos interesses estratégicos dos Estados Unidos.

Essa postura representa uma ameaça não apenas aos países diretamente atingidos, mas ao próprio princípio democrático de que cada sociedade deve ter o direito de escolher livremente seus governantes e definir os rumos de seu desenvolvimento. A defesa da soberania nacional, portanto, tornou-se inseparável da defesa da democracia e do multilateralismo.

O sistema internacional também vive uma profunda crise de governança. As Nações Unidas mostram-se incapazes de impedir guerras ou de mediar conflitos que colocam em risco a humanidade. O Conselho de Segurança permanece frequentemente paralisado, enquanto o planeta assiste à continuidade da guerra na Ucrânia, à tragédia humanitária em Gaza, às tensões no Oriente Médio, com destaque para as constantes agressões ao Irã, e ao agravamento da rivalidade entre as grandes potências.

É justamente diante desse cenário que Brasil e China oferecem uma resposta distinta. Em vez da lógica dos blocos militares, das intervenções externas, das sanções unilaterais e da política de poder, defendem o fortalecimento das instituições multilaterais, o diálogo permanente, o respeito à soberania dos Estados e a solução pacífica das controvérsias.

Como grandes nações do BRICS, Brasil e China podem liderar uma agenda internacional baseada na defesa do comércio justo e da paz mundial. Os dois países possuem dimensão territorial, peso econômico, capacidade diplomática e legitimidade política para articular uma resposta do Sul Global às crescentes ameaças de fragmentação da economia mundial e de escalada dos conflitos militares.

Não é por acaso que Xi Jinping destacou o papel de Brasil e China como importantes representantes do Sul Global. Tampouco foi casual a reafirmação, por parte de Lula, da importância do Grupo de Amigos da Paz para a construção de uma solução negociada para a guerra na Ucrânia. Trata-se de uma diplomacia que procura criar condições concretas para o diálogo, em vez de alimentar a escalada permanente das tensões.

A convergência entre Brasília e Pequim também ocorre no campo econômico. Os dois países entendem que desenvolvimento, estabilidade e paz caminham juntos. A ampliação da cooperação em inteligência artificial, satélites, minerais críticos, energia e fertilizantes demonstra que a parceria sino-brasileira deixou de ser apenas comercial para se transformar em uma relação estratégica para o século XXI.

Nesse contexto, ganha enorme importância a defesa de um acordo entre o Mercosul e a China. Em um momento em que o protecionismo e as guerras tarifárias voltam a crescer, ampliar mercados, integrar cadeias produtivas, estimular investimentos e promover relações econômicas equilibradas torna-se uma resposta racional à fragmentação da economia internacional.

O comércio não pode ser utilizado como arma de dominação política. Deve funcionar como instrumento de desenvolvimento compartilhado, geração de empregos, inovação tecnológica e melhoria das condições de vida dos povos. Esse é um dos pontos centrais da agenda que Brasil e China podem construir conjuntamente no BRICS e em outros fóruns multilaterais.

O fortalecimento das relações entre os países do Sul Global torna-se, assim, parte essencial da construção de uma agenda de paz e desenvolvimento. Quanto maior for a cooperação entre essas nações, menor será sua vulnerabilidade diante de sanções, pressões econômicas, bloqueios financeiros e interferências externas.

Essa aproximação não significa a criação de um novo bloco fechado nem a substituição de uma hegemonia por outra. Significa ampliar a autonomia dos países em desenvolvimento, diversificar parceiros e criar uma ordem internacional em que nenhuma potência possa impor unilateralmente suas decisões ao restante do mundo.

A aproximação entre Brasil e China também desafia a ideia de que o sistema internacional deve necessariamente organizar-se em torno de um único centro de poder. A realidade aponta para uma ordem multipolar, na qual diferentes polos econômicos, tecnológicos e políticos precisam conviver e construir mecanismos permanentes de coordenação.

É nesse ambiente que o BRICS assume protagonismo crescente. O grupo já não representa apenas um conjunto de grandes economias emergentes. Torna-se um espaço político de articulação capaz de influenciar os debates sobre financiamento ao desenvolvimento, inteligência artificial, comércio internacional, reforma das instituições multilaterais, soberania nacional e segurança global.

Brasil e China compreendem que o século XXI não será definido apenas pela disputa por mercados, recursos naturais ou tecnologias. Será determinado também pela capacidade de construir uma governança internacional mais representativa, capaz de substituir a lógica da

Ao reafirmarem conjuntamente a defesa do multilateralismo, do comércio justo, da soberania, da reforma da governança global e da solução negociada dos conflitos, Lula e Xi Jinping oferecem uma mensagem que transcende os interesses nacionais de Brasil e China.

Num tempo em que o governo Trump investe nas guerras comerciais, na intimidação militar e na interferência política sobre outras nações, Brasil e China apontam outro caminho: o da soberania, da cooperação, do desenvolvimento compartilhado e da paz.

O fortalecimento dessa parceria e das relações entre os países do Sul Global pode representar uma das mais importantes forças de equilíbrio da política internacional contemporânea. Mais do que construir pontes entre Brasília e Pequim, trata-se de ajudar a erguer as bases de uma nova ordem mundial, mais democrática, mais justa e menos submetida à lógica da guerra.

•        Após tarifaço de Trump, Lula discute acordo China-Mercosul com Xi Jinping

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente da China, Xi Jinping, conversaram por telefone na noite de domingo (26/07) e defenderam o aprofundamento da cooperação bilateral em áreas estratégicas, além da aceleração das negociações para um acordo entre o Mercosul e a China.

Em nota, o governo brasileiro afirmou que a ligação durou mais de uma hora e tratou "da implementação das sinergias entre os projetos nacionais de desenvolvimento dos dois países".

"O presidente Lula ressaltou que seu governo segue comprometido com a diversificação de mercados e parceiros comerciais. Ambos coincidiram a respeito da importância de acelerar as tratativas para um acordo MERCOSUL-China, que contemple as necessárias flexibilidades", diz ainda o comunicado.

A ligação telefônica veio poucos dias após a entrada em vigor de uma nova tarifa de 25% implementada pelo governo de Donald Trump contra parte das exportações brasileiras. Na semana passada, os Estados Unidos também anunciaram uma segunda tarifa, de 12,5%, contra 60 de seus parceiros comerciais — entre eles o Brasil —, sob a alegação de que teriam falhado em combater adequadamente o trabalho forçado.

A nota do Planalto não cita explicitamente o tarifaço como um dos temas discutidos na ligação entre Xi Jinping e Lula.

Em sua própria nota sobre a conversa, o governo chinês ressaltou que "diante de novas circunstâncias e desafios", Brasil e China devem se posicionar "firmemente do lado certo da história" e desempenhar um papel maior "na reforma e no aprimoramento do sistema de governança global, e na defesa da equidade e da justiça internacionais".

Ainda segundo Pequim, Xi teria afirmado na ligação que a China valoriza muito "o status internacional e a importante influência do Brasil", e apoia o país "na defesa de sua soberania e independência, na oposição à interferência externa e na contribuição para a manutenção da paz e da estabilidade regional e mundial".

"Xi Jinping afirmou que a China está pronta para fortalecer ainda mais a coordenação estratégica bilateral e multilateral com o Brasil, mantendo assim o ímpeto positivo na construção de uma comunidade China-Brasil com um futuro compartilhado", diz a nota.

•        Em recado aos EUA, Xi Jinping diz a Lula que China apoia Brasil contra ‘interferência externa’

Os governos de Brasil e China reafirmaram neste domingo (26) o compromisso de ampliar a parceria estratégica entre os dois países. Em conversa por telefone, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente chinês, Xi Jinping, discutiram o fortalecimento das relações bilaterais, a expansão da cooperação em áreas de alta tecnologia e a necessidade de acelerar as negociações de um acordo comercial entre o Mercosul e a China.

Segundo a agência estatal chinesa Xinhua, Xi aproveitou a conversa para manifestar apoio ao Brasil diante de pressões externas. O governante chinês afirmou que seu país está pronto para fortalecer ainda mais a coordenação estratégica bilateral e multilateral com o Brasil, mantendo assim o ímpeto positivo na construção de uma comunidade China-Brasil com um futuro compartilhado.

Xi destacou que, diante de novas circunstâncias e desafios, a China e o Brasil, ambos importantes membros do Sul Global, devem posicionar-se firmemente do lado certo da história, bem como do lado do progresso da civilização, e desempenhar um papel construtivo ainda maior na reforma e no aprimoramento do sistema de governança global, além de defender a equidade e a justiça internacionais.

Na avaliação de Xi, Brasil e China exercem papel relevante entre os países do Sul Global e devem atuar para fortalecer a governança internacional e promover uma ordem mundial mais equilibrada. O presidente chinês declarou ainda que “o país valoriza profundamente o status internacional e a importante influência do Brasil, apoia o país na salvaguarda de sua soberania e independência, opõe-se à interferência externa e contribuirá para a manutenção da paz e da estabilidade regional e global”.

Do lado brasileiro, Lula destacou o avanço da parceria entre os dois países nos últimos anos. Segundo o presidente, a cooperação bilateral vem produzindo resultados positivos em diferentes setores e impulsionando o crescimento das relações comerciais.

<><> Projetos nacionais de desenvolvimento

Em nota, o Palácio do Planalto informou que os dois chefes de Estado avaliaram formas de integrar seus projetos nacionais de desenvolvimento e concordaram em ampliar iniciativas conjuntas em segmentos considerados estratégicos. Entre as prioridades estão inteligência artificial, tecnologia espacial, processamento de minerais críticos e o comércio de fertilizantes.

Embora houvesse expectativa de que o telefonema tratasse das tarifas anunciadas pelo governo do presidente Donald Trump contra produtos brasileiros e de outros parceiros comerciais, o comunicado oficial divulgado pelo governo brasileiro não faz qualquer referência ao assunto.

Ainda durante a conversa, Lula reiterou que o Brasil continuará investindo na diversificação de seus mercados externos e de seus parceiros comerciais. Os presidentes também defenderam maior rapidez nas negociações de um acordo entre Mercosul e China, respeitando as necessidades e flexibilidades de cada parte.

A situação internacional também ocupou parte da conversa. Os dois líderes demonstraram preocupação com o aumento dos conflitos armados e alertaram para seus impactos sobre o abastecimento de alimentos, a segurança energética e a estabilidade econômica mundial. Eles lamentaram ainda o elevado número de vítimas e os danos provocados pelas guerras.

Em relação ao Oriente Médio, Lula e Xi apontaram que as restrições à navegação nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb afetam o comércio internacional e agravam os desafios da economia global. Ambos também manifestaram preocupação com a crise humanitária na Faixa de Gaza.

<><> Conflito na Ucrânia

Sobre a guerra na Ucrânia, os dois presidentes defenderam o fortalecimento do Grupo de Amigos da Paz, iniciativa lançada por Brasil e China na Organização das Nações Unidas (ONU) em setembro de 2024 para estimular uma solução negociada para o conflito.

O comunicado também registra críticas dos dois governos ao desempenho do Conselho de Segurança da ONU diante das crises internacionais. Segundo a avaliação compartilhada por Lula e Xi, o próximo secretário-geral da organização encontrará um cenário global marcado por desafios crescentes.

Ao encerrar a conversa, os presidentes reafirmaram o compromisso com o multilateralismo e decidiram manter uma coordenação estreita em organismos internacionais, como a ONU e o Brics.

O diálogo ocorre em um momento em que Lula intensifica a defesa da ampliação das relações comerciais do Brasil com novos parceiros. Também neste domingo, em artigo publicado no The Washington Post, o presidente classificou como um “erro estratégico” as tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros e afirmou que o país buscará novos mercados, investimentos e oportunidades de cooperação internacional.

 

Fonte: Por Leonardo Attuch, em Brasil 247/BBC News Brasil/ICL Notícias

 

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