terça-feira, 28 de julho de 2026

As fronteiras que barraram Patrice Lumumba

Enquanto a seleção da República Democrática do Congo conquistava, pela primeira vez em sua história, uma vaga na fase eliminatória de uma Copa do Mundo ao vencer, de virada, o Uzbequistão por 3 a 1, um de seus personagens mais emblemáticos foi impedido de estar no jogo.

Michel Kuka Mboladinga, reconhecido como o primeiro torcedor incorporado à delegação congolesa após uma mobilização promovida pelos torcedores, não pôde embarcar com a equipe. Ausente na estreia contra Portugal por não conseguir concluir a tempo os trâmites migratórios exigidos, conseguiu acompanhar a delegação na partida seguinte, disputada no México contra a Colômbia. Entretanto, para o confronto decisivo contra o Uzbequistão, realizado nos Estados Unidos, teve seu visto negado e foi impedido de acompanhar a seleção no jogo que entrou para a história do futebol congolês.

Sua ausência, contudo, não se trata de um episódio isolado. Ela revela a permanência de uma ordem internacional em que o direito à mobilidade continua sendo distribuído de forma profundamente desigual. Em vez de constituírem zonas de contato e de intercâmbio com outras culturas, as fronteiras operam como mecanismos de controle, reproduzindo as desigualdades políticas, econômicas e raciais que continuam estruturando as relações internacionais.

Ao ocupar as arquibancadas vestido com as cores da bandeira congolesa e reproduzir a célebre postura da estátua de Patrice Lumumba, ele transforma as partidas em que seu time participa como um espaço privilegiado para dar visibilidade à luta de seu povo. Sua presença rompe a aparente neutralidade do espetáculo esportivo e recorda que o futebol também pode ser um espaço para manifestações políticas.

Sua performance resgata a figura de Patrice Lumumba, primeiro chefe de governo do Congo independente, assassinado em uma conspiração que envolveu autoridades belgas, interesses coloniais e a atuação da CIA no contexto da Guerra Fria. Patrice Lumumba tornou-se uma ameaça porque compreendia que a independência política deveria ser acompanhada da emancipação econômica. Defendia que as riquezas do Congo deveriam servir ao desenvolvimento e à dignidade do seu povo.

Ao incorporar Patrice Lumumba nas arquibancadas, Mboladinga não presta apenas uma homenagem a um personagem histórico. Sua performance constitui um ritual político de reafirmação da memória de um povo que continua lutando pela plena realização de sua soberania. Seu corpo converte-se em um monumento vivo que desafia o esquecimento e reinscreve, no presente, um projeto de emancipação africana interrompido pela violência colonial.

Como observava Frantz Fanon, o colonialismo não desaparece quando as bandeiras são substituídas ou quando a independência formal é proclamada. Ele se reorganiza, assume novas linguagens e passa a operar por meio de instituições, normas jurídicas e dispositivos administrativos que preservam antigas hierarquias sob a aparência da legalidade. A dominação colonial deixa de se manifestar através da ocupação militar e passa a regular a circulação, a visibilidade e até mesmo o reconhecimento dos sujeitos colonizados.

Nesse sentido, as fronteiras contemporâneas constituem uma das expressões mais sofisticadas da colonialidade. Elas não delimitam apenas territórios; classificam pessoas. Decidem quais passaportes inspiram confiança e quais despertam suspeita, quais nacionalidades atravessam o mundo sem obstáculos e quais permanecem submetidas à vigilância permanente.

Os Estados Unidos se constituíram historicamente como uma nação através de sucessivas ondas migratórias, que inclui a trajetória familiar de diversas lideranças políticas, a exemplo do Donald Trump e de sua esposa, que é uma imigrante. O problema, portanto, nunca foi a imigração em si. A questão sempre foi quais corpos são considerados desejáveis e quais passam a ser tratados como ameaça.

Durante o governo de Donald Trump, consolidou-se um discurso que associa a imigração à criminalidade e à insegurança nacional. Embora apresentado como uma política universal de controle de fronteiras, seus efeitos recaem de maneira desproporcional sobre migrantes oriundos da América Latina, do Caribe e de diversos países africanos. A suspeita não se distribui igualmente entre todos os estrangeiros; ela incide sobretudo sobre corpos racializados, cujas origens os colocam em posições subalternizadas na geografia global do poder.

Mais do que uma política migratória, trata-se de um projeto de poder supremacista branco, marcado pela exclusão, pela retórica xenófoba e pela produção de inimigos externos. A fronteira deixa de ser apenas um instrumento de administração territorial para converter-se em mecanismo de distinção entre aqueles que podem circular livremente pelo mundo e aqueles cuja mobilidade precisa ser permanentemente controlada.

Foi exatamente essa racionalidade que Aimé Césaire denunciou ao afirmar que o colonialismo produziu uma forma de organizar o mundo fundada na desumanização dos povos colonizados e na naturalização das hierarquias raciais.

As fronteiras constituem uma das expressões mais evidentes dessa herança colonial. Sob o discurso da soberania e da segurança nacional, reproduzem-se antigas distinções entre aqueles cuja circulação é considerada legítima e aqueles cuja presença precisa ser continuamente justificada.

A negativa do visto a Michel Mboladinga materializa essa lógica. Mesmo durante uma Copa do Mundo, apresentada cinicamente pela FIFA como uma celebração universal da fraternidade entre os povos, o direito de acompanhar sua seleção mostrou-se condicionado pelas mesmas hierarquias que organizam a circulação global de pessoas. A universalidade proclamada pelo esporte encontra seus limites quando confrontada com a realidade.

Mas, se Mboladinga não pôde atravessar para o território norte-americano, Patrice Lumumba atravessou! Durante a partida contra o Uzbequistão, outro torcedor congolês surgiu nas arquibancadas caracterizado como Patrice Lumumba. A substituição espontânea revela que a memória não pertence a um único indivíduo, mas a todo um povo.

Talvez essa tenha sido a imagem mais poderosa daquela noite: As autoridades migratórias conseguiram impedir a entrada de um homem. Porém, não conseguiram impedir a circulação de um símbolo.

Há uma dimensão profundamente simbólica nesta cena: Patrice Lumumba (1925-1961) foi o Fundador do Movimento Nacional Congolês (MNC), principal liderança contra o governo colonial belga. Tornou-se o primeiro primeiro-ministro da República do Congo após a independência, proclamada em 1960. Seu governo, entretanto, durou apenas cerca de três meses.

O golpe que destituiu Patrice Lumumba abriu caminho para a ascensão de Mobutu Sese Seko. Em 1961, Patrice Lumumba foi assassinado com a participação de autoridades congolesas separatistas e o envolvimento de agentes belgas, tornando-se um dos maiores símbolos da luta anticolonial e da soberania africana.

O corpo de Patrice Lumumba, foi dissolvido em ácido na tentativa de eliminar qualquer vestígio material de sua existência. Mas, a violência contra o corpo não conseguiu eliminar aquilo que ele representa. Sua memória sobreviveu como potência, deixando de habitar um indivíduo para constituir a memória de um povo que ainda luta pela sua soberania.

A presença de outro Patrice Lumumba nas arquibancadas demonstra que a memória de um povo não depende da autorização de consulados, da emissão de vistos ou da decisão de agentes migratórios. Quando apropriada coletivamente, ela passa a existir nos corpos, nas canções, nos gestos, nas performances e nos rituais cotidianos de resistência.

Enquanto a figura de Patrice Lumumba permanecia com seu braço estendido nas arquibancadas, a seleção congolesa também recusava outro destino. Depois de sair atrás no placar, virou a partida e conquistou uma classificação inédita para a fase eliminatória da Copa do Mundo. A vitória rompeu uma narrativa construída ao longo de décadas, segundo a qual o futebol africano estaria condenado ao papel de incapaz de disputar protagonismo com as tradicionais potências do esporte.

Dentro de campo, a seleção recusava a lógica da derrota anunciada. Fora dele, seus torcedores recusavam o esquecimento imposto pela colonialidade.

O significado desse feito torna-se ainda mais emblemático quando se recorda que esta é apenas a segunda participação da República Democrática do Congo em uma Copa do Mundo. A primeira ocorreu em 1974, quando o país ainda competia como Zaire, sob a ditadura de Mobutu Sese Seko, um dos regimes mais autoritários e violentos da história contemporânea africana.

Durante décadas, pouco se discutiu as condições políticas, a violência do regime e as pressões sofridas pelos jogadores. Permaneceram apenas as imagens da derrota. Cinquenta e dois anos depois, o Congo retorna ao cenário mundial escrevendo uma narrativa completamente diferente: a de uma seleção que conquista um marco esportivo inédito, um lugar entre as melhores equipes do torneio.

Ao final da partida, o Congo havia conquistado muito mais do que uma vaga nas oitavas de final. Demonstrou que a memória sobrevive à ausência e que nenhuma política migratória é capaz de controlar completamente aquilo que um povo decide lembrar. E lembra ao mundo que a luta anticolonial não termina com a independência política. Ela continua nas disputas pelo direito de narrar a própria história e de afirmar, contra todas as fronteiras, que nenhum povo aceitará ser definido para sempre pelo olhar de seus antigos colonizadores.

Patrice Lumumba não entrou nos Estados Unidos como torcedor. Entrou como resistência.

 

Fonte: Por Olivia da Rocha Robba e Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos, em A Terra é Redonda

 

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