As
fronteiras que barraram Patrice Lumumba
Enquanto
a seleção da República Democrática do Congo conquistava, pela primeira vez em
sua história, uma vaga na fase eliminatória de uma Copa do Mundo ao vencer, de
virada, o Uzbequistão por 3 a 1, um de seus personagens mais emblemáticos foi
impedido de estar no jogo.
Michel
Kuka Mboladinga, reconhecido como o primeiro torcedor incorporado à delegação
congolesa após uma mobilização promovida pelos torcedores, não pôde embarcar
com a equipe. Ausente na estreia contra Portugal por não conseguir concluir a
tempo os trâmites migratórios exigidos, conseguiu acompanhar a delegação na
partida seguinte, disputada no México contra a Colômbia. Entretanto, para o
confronto decisivo contra o Uzbequistão, realizado nos Estados Unidos, teve seu
visto negado e foi impedido de acompanhar a seleção no jogo que entrou para a
história do futebol congolês.
Sua
ausência, contudo, não se trata de um episódio isolado. Ela revela a
permanência de uma ordem internacional em que o direito à mobilidade continua
sendo distribuído de forma profundamente desigual. Em vez de constituírem zonas
de contato e de intercâmbio com outras culturas, as fronteiras operam como
mecanismos de controle, reproduzindo as desigualdades políticas, econômicas e
raciais que continuam estruturando as relações internacionais.
Ao
ocupar as arquibancadas vestido com as cores da bandeira congolesa e reproduzir
a célebre postura da estátua de Patrice Lumumba, ele transforma as partidas em
que seu time participa como um espaço privilegiado para dar visibilidade à luta
de seu povo. Sua presença rompe a aparente neutralidade do espetáculo esportivo
e recorda que o futebol também pode ser um espaço para manifestações políticas.
Sua
performance resgata a figura de Patrice Lumumba, primeiro chefe de governo do
Congo independente, assassinado em uma conspiração que envolveu autoridades
belgas, interesses coloniais e a atuação da CIA no contexto da Guerra Fria.
Patrice Lumumba tornou-se uma ameaça porque compreendia que a independência
política deveria ser acompanhada da emancipação econômica. Defendia que as
riquezas do Congo deveriam servir ao desenvolvimento e à dignidade do seu povo.
Ao
incorporar Patrice Lumumba nas arquibancadas, Mboladinga não presta apenas uma
homenagem a um personagem histórico. Sua performance constitui um ritual
político de reafirmação da memória de um povo que continua lutando pela plena
realização de sua soberania. Seu corpo converte-se em um monumento vivo que
desafia o esquecimento e reinscreve, no presente, um projeto de emancipação
africana interrompido pela violência colonial.
Como
observava Frantz Fanon, o colonialismo não desaparece quando as bandeiras são
substituídas ou quando a independência formal é proclamada. Ele se reorganiza,
assume novas linguagens e passa a operar por meio de instituições, normas
jurídicas e dispositivos administrativos que preservam antigas hierarquias sob
a aparência da legalidade. A dominação colonial deixa de se manifestar através
da ocupação militar e passa a regular a circulação, a visibilidade e até mesmo
o reconhecimento dos sujeitos colonizados.
Nesse
sentido, as fronteiras contemporâneas constituem uma das expressões mais
sofisticadas da colonialidade. Elas não delimitam apenas territórios;
classificam pessoas. Decidem quais passaportes inspiram confiança e quais
despertam suspeita, quais nacionalidades atravessam o mundo sem obstáculos e
quais permanecem submetidas à vigilância permanente.
Os
Estados Unidos se constituíram historicamente como uma nação através de
sucessivas ondas migratórias, que inclui a trajetória familiar de diversas
lideranças políticas, a exemplo do Donald Trump e de sua esposa, que é uma
imigrante. O problema, portanto, nunca foi a imigração em si. A questão sempre
foi quais corpos são considerados desejáveis e quais passam a ser tratados como
ameaça.
Durante
o governo de Donald Trump, consolidou-se um discurso que associa a imigração à
criminalidade e à insegurança nacional. Embora apresentado como uma política
universal de controle de fronteiras, seus efeitos recaem de maneira
desproporcional sobre migrantes oriundos da América Latina, do Caribe e de
diversos países africanos. A suspeita não se distribui igualmente entre todos
os estrangeiros; ela incide sobretudo sobre corpos racializados, cujas origens
os colocam em posições subalternizadas na geografia global do poder.
Mais do
que uma política migratória, trata-se de um projeto de poder supremacista
branco, marcado pela exclusão, pela retórica xenófoba e pela produção de
inimigos externos. A fronteira deixa de ser apenas um instrumento de
administração territorial para converter-se em mecanismo de distinção entre
aqueles que podem circular livremente pelo mundo e aqueles cuja mobilidade
precisa ser permanentemente controlada.
Foi
exatamente essa racionalidade que Aimé Césaire denunciou ao afirmar que o
colonialismo produziu uma forma de organizar o mundo fundada na desumanização
dos povos colonizados e na naturalização das hierarquias raciais.
As
fronteiras constituem uma das expressões mais evidentes dessa herança colonial.
Sob o discurso da soberania e da segurança nacional, reproduzem-se antigas
distinções entre aqueles cuja circulação é considerada legítima e aqueles cuja
presença precisa ser continuamente justificada.
A
negativa do visto a Michel Mboladinga materializa essa lógica. Mesmo durante
uma Copa do Mundo, apresentada cinicamente pela FIFA como uma celebração
universal da fraternidade entre os povos, o direito de acompanhar sua seleção
mostrou-se condicionado pelas mesmas hierarquias que organizam a circulação
global de pessoas. A universalidade proclamada pelo esporte encontra seus
limites quando confrontada com a realidade.
Mas, se
Mboladinga não pôde atravessar para o território norte-americano, Patrice
Lumumba atravessou! Durante a partida contra o Uzbequistão, outro torcedor
congolês surgiu nas arquibancadas caracterizado como Patrice Lumumba. A
substituição espontânea revela que a memória não pertence a um único indivíduo,
mas a todo um povo.
Talvez
essa tenha sido a imagem mais poderosa daquela noite: As autoridades
migratórias conseguiram impedir a entrada de um homem. Porém, não conseguiram
impedir a circulação de um símbolo.
Há uma
dimensão profundamente simbólica nesta cena: Patrice Lumumba (1925-1961) foi o
Fundador do Movimento Nacional Congolês (MNC), principal liderança contra o
governo colonial belga. Tornou-se o primeiro primeiro-ministro da República do
Congo após a independência, proclamada em 1960. Seu governo, entretanto, durou
apenas cerca de três meses.
O golpe
que destituiu Patrice Lumumba abriu caminho para a ascensão de Mobutu Sese
Seko. Em 1961, Patrice Lumumba foi assassinado com a participação de
autoridades congolesas separatistas e o envolvimento de agentes belgas,
tornando-se um dos maiores símbolos da luta anticolonial e da soberania
africana.
O corpo
de Patrice Lumumba, foi dissolvido em ácido na tentativa de eliminar qualquer
vestígio material de sua existência. Mas, a violência contra o corpo não
conseguiu eliminar aquilo que ele representa. Sua memória sobreviveu como
potência, deixando de habitar um indivíduo para constituir a memória de um povo
que ainda luta pela sua soberania.
A
presença de outro Patrice Lumumba nas arquibancadas demonstra que a memória de
um povo não depende da autorização de consulados, da emissão de vistos ou da
decisão de agentes migratórios. Quando apropriada coletivamente, ela passa a
existir nos corpos, nas canções, nos gestos, nas performances e nos rituais
cotidianos de resistência.
Enquanto
a figura de Patrice Lumumba permanecia com seu braço estendido nas
arquibancadas, a seleção congolesa também recusava outro destino. Depois de
sair atrás no placar, virou a partida e conquistou uma classificação inédita
para a fase eliminatória da Copa do Mundo. A vitória rompeu uma narrativa
construída ao longo de décadas, segundo a qual o futebol africano estaria
condenado ao papel de incapaz de disputar protagonismo com as tradicionais
potências do esporte.
Dentro
de campo, a seleção recusava a lógica da derrota anunciada. Fora dele, seus
torcedores recusavam o esquecimento imposto pela colonialidade.
O
significado desse feito torna-se ainda mais emblemático quando se recorda que
esta é apenas a segunda participação da República Democrática do Congo em uma
Copa do Mundo. A primeira ocorreu em 1974, quando o país ainda competia como
Zaire, sob a ditadura de Mobutu Sese Seko, um dos regimes mais autoritários e
violentos da história contemporânea africana.
Durante
décadas, pouco se discutiu as condições políticas, a violência do regime e as
pressões sofridas pelos jogadores. Permaneceram apenas as imagens da derrota.
Cinquenta e dois anos depois, o Congo retorna ao cenário mundial escrevendo uma
narrativa completamente diferente: a de uma seleção que conquista um marco
esportivo inédito, um lugar entre as melhores equipes do torneio.
Ao
final da partida, o Congo havia conquistado muito mais do que uma vaga nas
oitavas de final. Demonstrou que a memória sobrevive à ausência e que nenhuma
política migratória é capaz de controlar completamente aquilo que um povo
decide lembrar. E lembra ao mundo que a luta anticolonial não termina com a
independência política. Ela continua nas disputas pelo direito de narrar a
própria história e de afirmar, contra todas as fronteiras, que nenhum povo
aceitará ser definido para sempre pelo olhar de seus antigos colonizadores.
Patrice
Lumumba não entrou nos Estados Unidos como torcedor. Entrou como resistência.
Fonte:
Por Olivia da Rocha Robba e Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos, em A Terra
é Redonda

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