terça-feira, 28 de julho de 2026

Como Itália foi de modelo de alimentação saudável a explosão de obesidade

O dia a dia não é fácil para Salvatore. Aos 17 anos, ele pesa 170 kg e tem dificuldade para caminhar.

Ele não consegue amarrar os próprios cadarços, e sua scooter Vespa tem dificuldade para suportar seu peso — em uma semana, os pneus estouraram sete vezes.

"Ele come o tempo todo", diz sua mãe, Anna.

Salvatore está entre o número crescente de crianças e adolescentes italianos que vivem com obesidade.

O problema é particularmente grave no sul: em algumas partes da região da Campânia, mais de 40% das crianças de oito e nove anos estão acima do peso.

A cidade de Ponticelli, nos arredores de Nápoles, ganhou a nada invejável reputação de ser uma das capitais mundiais da obesidade infantil.

É uma mudança marcante em um país há muito considerado o berço espiritual da dieta mediterrânea.

No entanto, atualmente, as crianças italianas estão entre as que mais têm excesso de peso na Europa, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Salvatore aguarda uma cirurgia que pode mudar sua vida no Hospital Betania, em Ponticelli, onde a médica Sonja Chiappetta trata pacientes com obesidade grave há 15 anos.

Até recentemente, diz ela, a maioria de seus pacientes estava na faixa dos 50 anos. "Agora vejo esses mesmos pacientes quando ainda são adolescentes, alguns com apenas 16 anos. Eles estão cada vez mais jovens, e isso é assustador."

A cirurgia que ela realiza remove até 90% do estômago — o que impede que as pessoas comam grandes quantidades de alimentos. A procura aumentou acentuadamente nessa parte da Itália.

Mas Salvatore foi informado de que não pode fazer a operação. Seu peso é tão elevado que torna a cirurgia perigosa demais.

Em vez disso, Chiappetta prescreveu a ele uma injeção de GLP-1 para perda de peso, a fim de reduzir seu apetite e ajudá-lo a emagrecer o suficiente para a operação.

Durante décadas, a Itália foi apontada como um modelo de alimentação saudável.

A dieta mediterrânea — rica em verduras, legumes, azeite de oliva, grãos integrais e peixe — tornou-se famosa depois que o fisiologista americano Ancel Keys e sua esposa, a bioquímica Margaret Keys, estudaram comunidades no sul da Itália na década de 1950 e associaram seus hábitos a índices extraordinariamente baixos de doenças cardíacas.

A pesquisa transformou uma forma regional de alimentação em uma das dietas mais conhecidas do mundo, um modelo para uma vida saudável.

Mas a Itália que inspirou esses estudos já não existe.

"A dieta mediterrânea tradicional se perdeu", afirma o médico Valter Longo, diretor do Instituto de Longevidade da Universidade do Sul da Califórnia. "Apenas 10% dos italianos realmente a seguem."

Longo resume a dieta italiana moderna com o que chama de "cinco Ps": pizza, pasta, patate, proteine e pane (pizza, massa, batatas, proteína e pão).

A transformação é visível por toda parte: das prateleiras de supermercados abastecidas com alimentos ultraprocessados às pizzarias que vendem fatias cobertas com grandes quantidades de batata frita, linguiça e salgados fritos.

O médico Roberto Berni Canani, pediatra e especialista em obesidade da Universidade Federico II, em Nápoles, vê as consequências todos os dias.

"Já tratei crianças de apenas dois ou três anos que pesavam 25 quilos", diz.

Segundo o médico, a maioria dos pais não percebe que os filhos estão acima do peso.

"Eles vêm me procurar por causa de outros problemas — tosse, dor de estômago, diarreia. Não percebem que o peso da criança é o que está causando isso."

Francesca, de 10 anos, tem tosse persistente e dificuldade para engolir. Os médicos suspeitam de uma doença inflamatória do esôfago.

Ela pesa 60 kg — mas não foi por isso que seus pais procuraram ajuda médica.

Francesca diz que come pão com Nutella no café da manhã, um bolinho recheado de chocolate no lanche, macarrão com lentilhas no almoço e, geralmente, frango no jantar.

"Mas ela não come verduras nem legumes", interrompe sua mãe, Carmen. "Eu coloco na frente dela, mas ela não toca."

Os pais de Francesca insistem que ela é ativa. Ela pratica ginástica artística e dança latina e não fica cansada. Eles nunca consideraram o peso da filha um problema.

Berni Canani chega a uma conclusão diferente.

O problema, explica ele, é o padrão geral, e não uma refeição específica.

Pequenos alimentos com alta densidade calórica consumidos ao longo do dia, bebidas açucaradas, poucas frutas, verduras e legumes e pouca compreensão de como esses hábitos se acumulam com o tempo.

"Esta é uma mãe muito boa", diz ele. "Um pai muito bom. Eles simplesmente não reconhecem a importância da qualidade da alimentação e do peso corporal."

Quando muitas famílias chegam à clínica, os hábitos pouco saudáveis já estão profundamente enraizados. Eles começam em casa e são reforçados na escola.

E, na Itália, incentivar as crianças a serem mais ativas pode ser surpreendentemente difícil.

Muitas escolas funcionam em belos palácios antigos — que nunca foram projetados pensando na educação física moderna.

A escola primária Ugo Foscolo não é exceção. Sua quadra mal tem espaço suficiente para que uma turma de crianças se movimente.

"Tenho um aluno que me preocupa particularmente", diz Francesca Pecce, professora da escola. "Ele tem 10 anos e pesa cerca de 60 quilos."

Ela tentou conversar sobre o assunto com a mãe do menino.

"Mas ela não está preocupada", afirma Pecce. "Na cultura napolitana, se uma criança é um pouco gordinha e tem as bochechas rosadas, as pessoas muitas vezes acham que ela é saudável."

Na opinião da professora, as escolas podem ajudar a mudar isso, especialmente se as crianças "levarem para casa" as lições sobre alimentação saudável.

"Às vezes, é mais fácil educar os pais por meio dos filhos do que o contrário."

Em uma escola de ensino médio de Nápoles, os alunos entram em fila em uma sala de aula para participar de uma oficina sobre nutrição organizada pela Fundação Valter Longo.

O programa faz parte de uma iniciativa regional de combate à obesidade infantil.

Nos próximos meses, mais de 17 mil alunos de 25 escolas participarão. As famílias receberão apoio para ajudar a mudar os hábitos alimentares em casa.

Mas nem todos os alunos estão convencidos.

Ciro, de 18 anos, duvida que apenas a informação seja suficiente para mudar o comportamento.

"Meus colegas já sabem o que é saudável", diz ele. "Eles simplesmente não se importam."

Carmen, de 19 anos, está mais otimista.

"Na verdade, achei muito útil, porque os adolescentes de hoje gostam muito de comida pouco saudável e não se exercitam tanto."

Ela afirma que o problema é que a tentação está por toda parte. Até mesmo alimentos tradicionalmente associados à Itália mudaram.

"Quando saímos para comer pizza, as pessoas não pedem apenas uma Margherita. Colocam batata frita, linguiça e alimentos fritos por cima."

Some-se a isso o clichê secular das mães e avós italianas que demonstram amor por meio da comida, e tem-se uma combinação perfeita para uma crise.

A obesidade é uma "epidemia global em expansão", afirma a OMS.

Mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo vivem atualmente com obesidade, e a obesidade infantil quadruplicou desde 1990.

Em 2025, a Itália se tornou o primeiro país a aprovar uma lei nacional que reconhece a obesidade como uma doença crônica, progressiva e reincidente.

Em vez de tratar a obesidade simplesmente como resultado de escolhas ruins, a nova lei do país a reconhece como uma doença crônica influenciada pela biologia, pelo ambiente e pelas circunstâncias sociais.

A região da Campânia se tornou um campo de testes para colocar essa filosofia em prática, implementando uma série de intervenções ambiciosas — entre elas, um controverso estudo de uma "dieta que imita o jejum".

Os pesquisadores estão recrutando 300 adolescentes acima do peso que, durante cinco dias a cada três meses, seguirão uma dieta controlada de 1.100 calorias no primeiro dia e 770 calorias em cada um dos quatro dias seguintes — tão restritiva que se assemelha a um jejum.

O objetivo é provocar uma "reinicialização metabólica".

"O jejum, ou a privação controlada de alimentos, está associado a uma vida mais longa e saudável", afirma Longo, que estuda os efeitos do jejum há três décadas.

Mas nem todos os especialistas em obesidade estão convencidos de que o jejum seja a abordagem adequada para crianças.

O pediatra Berni Canani acredita que as evidências sobre dietas que imitam o jejum em crianças ainda são limitadas demais para que elas sejam recomendadas nas diretrizes clínicas da Itália.

Ele também teme que dietas restritivas possam representar riscos psicológicos para adolescentes, cuja relação com a comida ainda está em desenvolvimento.

"Temo que impor restrições alimentares a adolescentes possa aumentar o risco de transtornos alimentares, anorexia e dismorfia corporal", diz ele.

Enquanto isso, Salvatore espera fazer a cirurgia no verão para que, pela primeira vez em anos, possa usar roupa de banho sem se sentir constrangido.

Mas ele não está sozinho. Em toda a Itália, uma geração de crianças cresce cada vez mais distante da dieta mediterrânea que um dia tornou o país famoso.

¨      Obesidade no mundo: dados alarmantes e perspectivas até 2030

A obesidade no mundo já é reconhecida como uma epidemia global em ritmo acelerado, com impactos diretos sobre os sistemas de saúde, a economia e a qualidade de vida das populações. O Atlas Mundial da Obesidade 2025 alerta que, até 2030, quase 3 bilhões de adultos estarão com sobrepeso ou obesidade, representando metade da população mundial.

<><> Evolução histórica da obesidade global

Nas últimas quatro décadas, a obesidade deixou de ser uma condição marginal para se tornar uma das principais ameaças à saúde mundial. Desde 1980, a taxa de obesidade quase triplicou, impulsionada por mudanças alimentares, sedentarismo e urbanização acelerada.

Esse crescimento tem padrões distintos:

  • América do Norte e Oriente Médio: apresentam as maiores taxas de obesidade adulta.
  • Ásia e África: registram o crescimento mais rápido, associado ao aumento do consumo de ultraprocessados.
  • Europa: estabilização em alguns países, mas com índices ainda elevados.

<><> Números globais da obesidade

Com base nas tendências atuais, o mundo não atingirá as metas de 2025 da Assembleia Mundial da Saúde para prevenção e controle de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs). Entre elas estão:

  • “interromper o aumento do diabetes e da obesidade”;
  • “redução relativa de 25% na mortalidade prematura por doenças cardiovasculares, câncer, diabetes ou doenças respiratórias crônicas”, considerando a linha de base de 2010 (OMS).

Da mesma forma, também é improvável que o mundo atinja a meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que prevê “reduzir em um terço a mortalidade prematura por DCNTs até 2030” (ONU).

De acordo com o Atlas Mundial da Obesidade 2025:

  • Em 2030, metade da população adulta mundial terá IMC alto;
  • Serão 2,9 bilhões de adultos com excesso de peso;
  • Desses, 1,1 bilhão (487 milhões de homens e 643 milhões de mulheres) terão obesidade (IMC ≥ 30);
  • Aproximadamente 400 milhões de pessoas viverão com obesidade grave (IMC ≥ 35), nível que aumenta drasticamente o risco de morte prematura.

<><> Impactos da obesidade na saúde pública

A probabilidade de desenvolver uma DCNT aumenta pela combinação de fatores de risco como uso de tabaco, falta de atividade física, dieta inadequada e alto peso corporal. Esses fatores são responsáveis por mais da metade de todas as mortes prematuras por DCNTs, que chegaram a 10,7 milhões em 2021. Destas, 1,6 milhão (15%) foram atribuídas ao alto índice de massa corporal (IMC), enquanto o IMC alto respondeu por 55% das mortes prematuras por diabetes tipo II (GBD, 2024).

Em termos de qualidade de vida, o excesso de peso responde por 27% dos anos de vida perdidos por DCNTs, impactando diretamente a expectativa e a produtividade da população.

Além do aspecto clínico, há o peso econômico: custos crescentes com internações, medicamentos de uso contínuo e absenteísmo laboral pressionam os sistemas de saúde e as economias nacionais.

##  Insight para políticas públicas: 

- no SUS, esse cenário se traduz em licitações de alto volume para medicamentos antidiabéticos e antihipertensivos, além de editais contínuos para insumos hospitalares e programas de prevenção.

<><> Desafios globais de enfrentamento

O relatório mostra que apenas 13 países possuem sistemas de saúde preparados para lidar com a obesidade.

A OMS recomenda medidas que ainda não foram implementadas de forma consistente, como:

  • Tributação de ultraprocessados e bebidas açucaradas;
  • Restrições ao marketing infantil;
  • Incentivos fiscais para alimentos saudáveis;
  • Planejamento urbano que estimule atividade física.

A tendência global é ampliar compras governamentais de alimentos saudáveis para escolas, kits de atenção primária e insumos de monitoramento de saúde. Para fornecedores, entender esse movimento significa se preparar para editais mais exigentes em qualidade nutricional e inovação em saúde preventiva.

<><> Caminhos para 2030 e além

>>> Tecnologia e inovação

A digitalização é uma aliada essencial para conter a epidemia de obesidade. Ferramentas de inteligência artificial e análise preditiva já são capazes de identificar áreas de maior risco, prever sobrecarga em serviços de saúde e direcionar investimentos públicos.

  • Plataformas de telemedicina podem ampliar o acesso a tratamento especializado.
  • Aplicativos de monitoramento de saúde podem ser incorporados em políticas públicas para acompanhamento de grupos de risco.
  • O uso de big data em saúde pública ajuda a orientar editais de compra de medicamentos e insumos com base em projeções reais de demanda.

 A seguir, reunimos algumas das dúvidas mais comuns sobre a obesidade global:

>>> 1. Qual país tem o maior índice de obesidade no mundo?

Os países do Oriente Médio e da América do Norte concentram as maiores taxas de obesidade. Entre os principais estão Estados Unidos, Arábia Saudita e Kuwait, onde mais de 35% da população adulta vive com obesidade.

>>> 2. Quais doenças estão mais associadas à obesidade?

A obesidade aumenta significativamente o risco de desenvolver diabetes tipo II, doenças cardiovasculares, hipertensão, alguns tipos de câncer, AVC e problemas respiratórios crônicos.

>>> 3. O que a OMS recomenda para conter a obesidade global?

Medidas fiscais (impostos sobre ultraprocessados), regulação do marketing infantil, estímulo a hábitos saudáveis e urbanismo que favoreça transporte ativo.

>>> 4. Por que a obesidade é considerada uma epidemia mundial?

A obesidade é classificada como epidemia porque afeta mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo, com tendência de crescimento em quase todos os continentes. Seu impacto é severo tanto para a saúde pública quanto para a economia global, aumentando custos de tratamento e reduzindo a produtividade.

<><> Um desafio global com impactos estruturais

A obesidade no mundo é um desafio estrutural que exige ações urgentes, multissetoriais e coordenadas. Os números do Atlas Mundial da Obesidade 2025 são claros: se nada for feito, a próxima década trará custos sociais, econômicos e humanos sem precedentes.

Mais do que escolhas individuais, a obesidade reflete contextos sociais, econômicos e culturais que demandam políticas públicas robustas e cooperação internacional.

Para os gestores públicos, esse cenário significa maior pressão sobre os sistemas de saúde e expansão das licitações em medicamentos, insumos hospitalares, exames e programas de prevenção. Para se aprofundar mais no tema das compras governamentais, aproveite para ler também o nosso artigo sobre como transformar o mercado público brasileiro.

 

Fonte: Por Sofia Bettiza, repórter de Saúde Global da BBC/Ibiz.com

 

Nenhum comentário: