Os
custos mundiais da guerra contra o Irã
Embora
os maiores custos sejam pagos pelo próprio Oriente Médio, a guerra desencadeada
em fevereiro pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã causa impactos
negativos em todo o mundo. A crise resultante tem semelhanças com a que o
planeta viveu há vinte anos.
Apesar
dos quase 14.000 quilômetros que separam Teerã da Cidade do México ou de Buenos
Aires, a interdependência das economias faz com que a América Latina e o
Caribe, assim como praticamente todos os demais continentes, sintam o efeito
empobrecedor da guerra.
Em
meados de junho, os Estados Unidos e o Irã assinaram um acordo com o objetivo
de encerrar temporariamente os ataques militares e reabrir o Estreito de Ormuz
ao tráfego comercial. Tal decisão também estabeleceu um prazo de dois meses,
até meados de agosto, para chegar a um acordo definitivo. No entanto, no início
de julho, as hostilidades foram retomadas após Donald Trump expressar suas
dúvidas sobre uma solução negociada para o conflito na recente Cúpula da
Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em Ancara, Turquia. Aconteça
o que acontecer nas próximas semanas –seja um esfriamento ou o agravamento da
crise bélica– essa guerra já está impactando diretamente muitas esferas da
atividade econômica mundial.
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América Latina e Caribe golpeados
No caso
específico dessa região tão vasta, um relatório recente da Comissão Econômica
para a América Latina e o Caribe (CEPAL) intitulado Impactos na América
Latina e no Caribe das recentes hostilidades na República Islâmica do Irã e
arredores argumenta que neste ano o preço médio dos bens energéticos
será de 20% a 25% maior do que em 2025. Essa é, sem dúvida, uma projeção
preocupante, embora seja uma região em posição geográfica mais favorável do que
as outras devido à sua baixa exposição direta aos países do Golfo Pérsico. E
isso é alarmante para os países latino-americanos –a grande maioria– que são
importadores de hidrocarbonetos.
Em
outras palavras, embora o aumento do custo da energia gerado pela guerra
favoreça a balança comercial dos países que exportam hidrocarbonetos
(principalmente o Brasil, a Venezuela, o México, a Argentina, o Chile e a
Colômbia), isso afeta significativamente aqueles que precisam importá-los (a
grande maioria da região). O aumento dos preços da energia por parte dos
importadores corrói diretamente o poder de compra da cesta básica, do
transporte e basicamente de tudo o que é necessário para o funcionamento diário
e o bem-estar das famílias. Soma-se a isso o impacto sobre os alimentos causado
pelo aumento dos preços dos fertilizantes, cujo suprimento e transporte, assim
como o preço do petróleo e do gás, está amplamente concentrado no Golfo
Pérsico.
Por
outro lado, como a CEPAL enfatiza, a América Latina e o Caribe, como
praticamente o resto do mundo, enfrentam um “esfriamento da atividade econômica
mundial” que afeta suas perspectivas de crescimento global. Não menos
importante são as consequências negativas nos campos de política financeira e
monetária. A pressão inflacionária sobre as economias avançadas está levando
seus bancos centrais a manterem altas taxas de juros por mais tempo do que o
esperado, tornando o financiamento externo mais caro para a América Latina e o
Caribe. “O aumento da incerteza geopolítica”, argumenta a CEPAL, “está
associado a uma maior demanda por ativos considerados mais seguros, o que
fortalece o dólar e cria maior pressão sobre as moedas dos países da região”.
Tudo
isso ocorre no contexto de uma situação mundial já preocupante, onde o custo de
uma alimentação saudável aumentou 25% em cinco anos e quase uma em cada três
pessoas –nada menos que, aproximadamente, 2,7 bilhões de seres humanos– não
conseguem acesso a uma nutrição adequada. Significativamente, a região do
planeta com os maiores custos de alimentos básicos é a América Latina e o
Caribe. Segundo a FAO, isso se explica em parte pelo fato de que muitos de seus
países priorizam as exportações de grãos, carnes e alimentos em detrimento de
um fornecimento suficiente e diversificado para seus próprios mercados e
consumidores locais.
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Duas grandes crises só neste século
A
guerra no Oriente Médio e outros conflitos bélicos em andamento afetam tanto o
fornecimento de combustíveis quanto o de fertilizantes, como aconteceu há duas
décadas, quando o mundo enfrentou uma crise muito séria devido ao aumento do
preço do petróleo. Segundo a organização internacional Grain (Grãos/Sementes),
que apoia movimentos sociais rurais ao redor do mundo, esse aumento se traduziu
em aumentos paralelos nos custos de produção e distribuição de alimentos, um
fenômeno que “perturbou a vida de centenas de milhões de pessoas”.
Segundo
Grain, o aumento do custo dos fertilizantes está forçando agricultores em
muitos países a plantar menos ou a reduzir o uso de fertilizantes, justamente
quando os preços dos alimentos já estão disparando devido ao impacto energético
no processamento, na embalagem e no transporte. Mas “o pior ainda está por vir
em alguns meses”, antecipa a agência de Barcelona, Espanha, “quando os cortes
atuais no plantio ou no uso de fertilizantes se traduzam em colheitas
reduzidas”. Com essa perspectiva, “a situação será especialmente grave para
culturas como arroz, milho e trigo”.
A
análise de Grain visualiza certas coincidências entre esses dois períodos
mundiais muito complexos. No início do século, por exemplo, os efeitos dos
altos preços dos combustíveis foram muito amplificados por eventos climáticos
extremos, especialmente enchentes e secas. Agora, o mundo está prestes a
enfrentar um super El Niño, com secas severas e enchentes este ano e no início
do próximo. Em 2008, os especuladores financeiros e as corporações que
dominavam os setores de sementes, de fertilizantes, de commodities e de
supermercados usaram seu poder para obter enormes lucros e repassar os custos
para o campesinato e aos consumidores. Agora, a concentração dos negócios e o
impacto das finanças e da especulação no sistema alimentar tornaram-se mais
graves.
No
entanto, Grain aponta que ambas as conjunturas históricas apresentam
diferenças. Em primeiro lugar, a situação atual é uma consequência direta da
guerra e da agressão imperialistas. Em segundo, “o mundo, sem dúvida, tornou-se
mais desigual”, com a população mundial mais vulnerável a aumentos repentinos
nos preços dos alimentos do que há 20 anos. Esse aumento também impacta
diretamente na moradia, no transporte, na eletricidade, no vestuário, nos
medicamentos, mesmo quando a renda real das pessoas não é ajustada.
Na
conjuntura atual, continua a Grain, os ricos estão ficando muito mais ricos ao
acumular riqueza nos mercados financeiros e no setor de tecnologia. Para os
trabalhadores, especialmente aqueles que produzem, processam e distribuem
alimentos, a situação está se tornando mais difícil. Resumindo: “Os salários
estão caindo, os empregos estão mais precários, as mudanças climáticas e a
intensificação da agricultura tornam o trabalho agrícola e o processamento de
alimentos mais perigosos, e, para muitas pessoas, não há proteções ou
benefícios sociais”.
Em
conclusão, o estudo de Grain argumenta que “mais uma vez, a guerra EUA-Israel
contra o Irã expôs, dolorosamente a dependência excessiva do nosso sistema
alimentar dos combustíveis fósseis e sua vulnerabilidade às agressões
imperiais”. Se a isso somarmos a crise climática, é urgente romper com essa
dependência e construir sistemas alimentares biodiversos, sem dúvida, a única
alternativa viável ao uso e abuso de combustíveis fósseis. Essa é uma
construção que pode se tornar um ponto comum de confluências sociais
internacionais que unam os diferentes movimentos sociais, mas com perspectivas
reais somente se for baseada na construção de economias de solidariedade e
equitativas.
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Labirinto sem saída?
O
diagnóstico do impacto negativo da guerra na sobrevivência da espécie humana é
claro, e muitas vozes diferentes concordam sobre a gravidade da situação atual,
onde a força das balas se impõe à viabilidade alimentar da população mundial.
No entanto, a estranha confluência de palavras roucas de grande parte da
sociedade civil internacional e os ouvidos moucos do poder imperial marcam um
cenário de crescente dificuldade humana e climática.
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Guerra contra o Irã custa US$ 37,5 bilhões, desgasta
Trump e expõe derrota estratégica dos EUA. Por Álvaro Verzi Rangel
O
secretário da Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, calculou que
a guerra contra o Irã iniciada em 28
de fevereiro passado custou até agora 37 mil e 500 milhões de dólares. Esta
cifra, como as que o Pentágono apresentou antes, é considerada excessivamente
otimista por contar só custos operativos imediatos, como a reposição dos foguetes,
mísseis e bombas lançados contra a República islâmica. O editorial do New
York Times não podia ser mais claro: “President Trump lost this war”
(O presidente Trump perdeu esta guerra).
Seu
ex-vice-presidente Mike Pence vê no acordo subscrito “o fedor de política de
apaziguamento que tanto rejeitamos de Obama”. Para o senador republicano Bill
Cassidy, é “o pior erro em décadas da política exterior norte-americana”. E até
Israel qualifica o acordo de “capitulação catastrófica”.
No
desespero, os Estados Unidos já levam 11 noites consecutivas bombardeando o Irã
desde que se rompeu o cessar fogo e os postos de gasolina do país notaram.
Em
Washington, os fornecedores voltam a superar os quatro dólares o galão (uns
3,78 litros) a quatro meses de umas eleições legislativas em que o custo de
vida ameaça ser determinante nas urnas.
O
aumento da cifra de mortos e a revelação de que o Pentágono tem ocultado o
número real de feridos, pioraram os prognósticos para Donald Trump às vésperas das
eleições de novembro.
A era
do domínio dos Estados Unidos no Oriente Médio acabou. Se algo têm em comum as
“derrotas” norte-americanas, é a desproporção brutal entre as vítimas próprias
e as do inimigo supostamente vitorioso. Sua forma de perder é sempre a mesma:
custando muito mais caro ao país vencedor.
Os EUA
não alcançaram nenhum de seus objetivos: não caiu o regime iraniano, nem se
desarmou; ao contrário, sai reforçado; é maior ainda a desestabilização
regional com a intervenção estadunidense, que lhe valeu perda de crédito e
prestígio na zona, incerteza econômica mundial, e um enorme gasto em material
militar que Washington levará anos para repor.
As
manchetes da imprensa europeia e estadunidense não deixam lugar a dúvidas: “Derrota de Trump no
Irã”,
“Trump assina a derrota dos Estados Unidos diante do Irã”, “Derrota sem
paliativos dos Estados Unidos”, “Irã, a grande derrota de Trump”, “Estados
Unidos capitula”, “Trump assina uma derrota histórica em Versalhes”, “Trump
busca esconder sua derrota no Irã”, “Humilhação”, “Debacle”, “Capitulação”.
Muitos
comparam esta derrota no Irã às sofridas no Vietnam e no Afeganistão, e nessa
comparação é onde podemos comprovar se de verdade é uma derrota para os Estados
Unidos: a forma de perder dos EUA é sempre a mesma: custando muito mais caro ao
país vencedor.
O
próprio Hegseth evidenciou o preço da guerra ao solicitar ao Congresso 95
bilhões de dólares adicionais para financiar o exército, sobre um orçamento que
já ultrapassou o milhão de milhões de dólares. Este montante também é
complementar ao 1.5 milhão de milhões de dólares que Donald Trump já anunciou
como sua pretensão de gasto militar em 2027.
É
normal que semelhantes números provoquem tontura: apenas um de cada 10 países
membros da ONU tem um produto interno bruto (PIB, isto é, o tamanho total de
sua economia) superior ao orçamento bélico estadunidense.
Só a
metade dispõe de um PIB maior do que os 37 mil 500 milhões gastos no empenho de
devastar o Irã. Em termos de gasto público, só oito nações (4 por cento da
comunidade internacional) podem mobilizar o que Washington destina a manter seu
domínio armado sobre o planeta, e 64 veem passar por suas arcas o que foi usado
nestes meses no golfo Pérsico.
Seria
um erro acreditar que as dimensões da economia estadunidense permitem à Casa
Branca gastar deste modo sem comprometer o bem-estar de seus cidadãos e o
equilíbrio financeiro.
Desde o
início do neoliberalismo, os incrementos irracionais do orçamento militar se
realizaram às expensas da infraestrutura, da educação, da saúde, da seguridade
social, do meio ambiente e de outros setores de gasto cuja negligência afeta de
maneira desproporcionada os grupos mais vulneráveis.
Só no
ano passado, a decisão de não renovar os subsídios federais ampliados da Lei de
Cuidado de Saúde Acessível (popularmente conhecida como Obamacare)
deixou três milhões de pessoas sem cobertura de saúde e obrigou aqueles que
desejam conservar suas apólices a assumir custos muito mais altos; em muitos
casos, com escolhas cruéis entre pagar o seguro, os alimentos ou o aluguel da
casa.
Apesar
da ideia de opulência que predomina no imaginário acerca dos Estados Unidos,
milhões de pessoas necessitam de apoio governamental para adquirir comida, e
essa ajuda se viu afetada tanto pelos cortes como pelos frequentes
encerramentos do governo devidos à ineptidão e aos caprichos do trumpismo.
O
Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano calculou que, em janeiro de
2025 havia 745.652 mil pessoas sem casa em todo o país, das quais 266 mil eram
consideradas desprotegidas por pernoitar na intempérie, em automóveis,
edifícios abandonados ou outros lugares impróprios para habitação humana.
Em
suma, o desperdício bélico estadunidense não só é uma ameaça para a humanidade,
como também uma afronta para as dezenas de milhões de seus cidadãos lançados na
pobreza ou na precariedade por uma política de gastos que põe as grandes
corporações que lucram com a morte à frente das necessidades da maioria.
O
Afeganistão, de onde os Estados Unidos fugiram depois de vinte anos de luta
contra os talibãs, deixou um saldo de 2.500 mortos próprios, diante de mais de
175.000 afegãos mortos, além de um país devastado. No Iraque, a saída
estadunidense não foi vista como derrota, mas tampouco puderam cantar vitória:
4.500 soldados e 1.500 contratistas estadunidenses voltaram aos EUA em caixões,
frente a mais de 300.000 iraquianos mortos, em sua maior parte civis, segundo o
Irak Body Count. Até na fracassada invasão da Bahia dos Porcos, em Cuba, os
atacantes perderam quatro soldados estadunidenses e 114 anticastristas, frente
a 176 cubanos mortos.
Se
olharmos o breve conflito com o Irã, as cifras de vítimas indicam de fato outra
típica “derrota”: 15 estadunidenses mortos, frente a mais de 3.500 iranianos,
inclusive sua cúpula dirigente, e enormes danos materiais e econômicos para o
país “vencedor”. Assim é como perdem os Estados Unidos.
A
tentativa de maquiar esta realidade é o último sinal de que sua guerra no Irã
está escorrendo pelas mãos de Trump. Cinco meses depois de bombardear Teerã,
continua atolado no pântano dos aiatolás e com os huthis ameaçando abrir uma
nova frente. Esta semana, o grupo chiita e aliado do Irã advertiu que bloqueará
o Mar Vermelho, acrescentando mais pressão a uns mercados tensionados pelo
fechamento do estreito de Ormuz e o aumento do preço do petróleo e da gasolina.
Desde
que estourou o conflito em fevereiro, o Pentágono e Wall Street estiveram
observando o Yemen, conscientes do potencial dano que poderia causar a entrada
dos huthis na equação. Bab el-Mandeb é o segundo
ponto crítico para o mercado energético e agora mesmo está correndo o risco de
colapsar, o que provocou a disparada dos preços do petróleo futuro.
Trump
afirmou terça-feira que se os huthis se meterem, as forças estadunidenses
responderão. “Se ocorrer algo assim, nos encarregaremos disso. Já
fizemos isso antes com os huthis, e fazia tempo que não ouvíamos falar deles:
desde que fizemos o que fizemos no princípio”, assegurou, referindo-se aos
bombardeios que o Pentágono levou a cabo no Yemen no princípio de 2025.
Estas
declarações de Trump foram feitas durante a recepção do presidente libanês,
Joseph Aoun, com quem estava previsto conversar sobre os seguintes
passos do acordo preliminar entre Líbano e Israel.
A
invasão do Exército israelense no sul do país também foi consequência do
estouro da guerra com o Irã, ainda que a Casa Branca se esforce para excluí-la
da equação regional. Inicialmente, no cessar fogo acertado com Teerã, os
aiatolás exigiam o cesse incondicional das hostilidades no país árabe.
A
última pesquisa de The
Washington Post e Ipsos indica que 68% dos estadunidenses consideram
que a guerra com o Irã não valeu a pena, enquanto só 28% opinam que sim. Este
saldo negativo de 40 pontos é pior que o registrado tanto para a guerra do
Iraque como para a do Afeganistão nas pesquisas do momento.
Fonte:
Por Sergio Ferrari, em Brasil 247/Estratégia.la

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