“A
maior resistência a um projeto soberano vem de dentro do próprio Brasil”, diz
José Luís Fiori
Que
horas são na América do Sul? A provocação foi dele, José Luís Fiori, nosso
entrevistado. A última? A penúltima? A hora limite de se defender dos ataques
dos Estados Unidos e do seu assédio cada vez mais intenso e provocador com
relação ao governo do presidente Lula. Num momento em que o governo Trump vem
se manifestando e apoiando vários candidatos de extrema-direita em sucessivas
eleições presidenciais na América do Sul. Isso depois de sua intervenção
militar direta na Venezuela, para o sequestro do presidente Nicolás Maduro e a
submissão do governo de Delcy Rodriguez.
Hoje, o
Brasil está cercado por vários países governados pela direita ou
extrema-direita, e terá que enfrentar manobras intervencionistas e as
manifestações agressivas de apoio “trumpista” ao candidato desse segmento, ou
seja, a extrema-direita, nas eleições presidenciais do mês de outubro. Para
falar sobre esses temas delicados da geopolítica da América Latina, vamos
conversar com o sociólogo, economista e cientista político, José Luís Fiori,
que está lançando nesta semana, (dia 3, das 19h às 21h, na Livraria Janela do
Jardim Botânico), um novo livro: “Conjuntura e História”, sobre a relação entre
a conjuntura e a história do sistema mundial e do continente sul-americano.
LEIA A
ENTREVISTA:
• Professor, o senhor está lançando um
livro nesta semana exatamente sobre as relações entre Conjuntura e História
dentro do sistema internacional em que vivemos. Este sistema está atravessando
um momento caótico e os EUA de Donald Trump mostram absoluto desdém pela
soberania dos países latinos. Como o senhor analisa este momento e o futuro
imediato?
José
Luís Fiori – Para responder à sua pergunta, acho que seria oportuna uma pequena
digressão histórica ou teórica sobre a dinâmica do sistema internacional
retratado neste livro que você mencionou. Do meu ponto de vista, o poder
internacional é como um “bólido” que atravessa o espaço e o tempo histórico de
forma cada vez mais veloz. E o “sistema interestatal” ou internacional que
nasceu na Europa no século XII e XIII, comporta-se como um “universo em
expansão” contínua, movido pela disputa das grandes potências pelo monopólio do
poder global. Essa luta hierarquiza essas potências e decanta periodicamente um
projeto imperial com pretensões globais. Foi assim com o Império espanhol, nos
séculos XVI e XVII, com o Império Britânico, nos séculos XVIII e XIX, e agora
com o Império americano, nos séculos XX e XXI. Dentro desse universo expansivo,
existem pelo menos duas posições fundamentais e opostas: a dos que lutam pelo
império e a dos que lutam pela defesa de sua autonomia ou soberania. Os
impérios, por definição, não respeitam as autonomias nacionais, e por isso a
própria concepção de soberania não pode ser estática e universal, porque ela é
uma conquista permanente dos que não se encontram do lado imperial do sistema
mundial. Não se possui a soberania por um direito divino, nem mesmo por um
direito internacional estabelecido; ela tem que ser exercida para existir, e
ela é exercida e preservada a cada dia, segundo seja a vontade, a decisão, a
força e a estratégia de quem a quer defender.
O
Império Americano começa a se formar e expandir no final do século XIX,
conquista a posição de liderança do mundo ocidental e capitalista depois da II
Guerra Mundial e alcança o ápice de seu poder global depois do fim da Guerra
Fria, em 1991. Depois da II GM e durante a Guerra Fria, os EUA fizeram 72
intervenções diretas, em todo o mundo, promovendo mudanças de regime – só na
América Latina, participaram de 18 golpes de Estado entre 1952 e 1973. E depois
de 1991, os EUA estiveram envolvidos em guerras quase contínuas, durante os
últimos 30 anos. Em alguns momentos, chegaram a bombardear seis países ao mesmo
tempo. Depois, foram os EUA que financiaram pelo menos dois terços do armamento
utilizado por Israel no genocídio de Gaza, e foram também os norte-americanos
os principais incentivadores iniciais da Guerra na Ucrânia, financiando e
armando os ucranianos antes de propor a rendição aos seus vassalos.
Aliás,
só no segundo mandato de Donald Trump, os EUA já bombardearam sete países,
estão em vias de bombardear o Mali, e estão avançando cada vez mais na sua
guerra contra o Irã. Além disso, assediam Cuba e ameaçam a Groenlândia, ao
mesmo tempo que provocam a China e intervêm diretamente nas eleições de quase
todos os países sul-americanos. E isto seguirá sendo assim, nos próximos anos e
décadas, em todos os lugares em que a potência imperial dominante possa avançar
sem encontrar resistência.
• Por que o senhor acha que os EUA de
Donald Trump voltaram a dar atenção à América do Sul, neste terceiro mandato
dele, propondo-se a retomar sua velha Doutrina Monroe? E qual seria a originalidade de suas novas
intervenções no continente sul-americano com relação às intervenções que já
fizeram no passado?
Fiori –
Sem dúvida, o que provocou de forma imediata essa “volta ao Hemisfério Sul” foi
a vertiginosa expansão da presença econômica chinesa no continente. Junto com a
decisão de reafirmar o poder imperial global dos EUA frente aos novos desafios
que vêm enfrentando depois do fracasso de suas “guerras sem fim” contra o
“terrorismo islâmico”.
Por
outro lado, a grande novidade desse novo intervencionismo dos EUA no continente
sul-americano é que ele vem acompanhado de uma retórica extremamente agressiva
e explícita, mas sem nenhum tipo de projeto de desenvolvimento e bem-estar para
os “locais”. No passado, os EUA sempre ofereceram algum tipo de compensação
pela obediência de seus “aliados sul-americanos”. Durante a Guerra Fria, os EUA
transformaram as FFAA sul-americanas em um corpo policial encarregado de “caçar
comunistas”, e em troca ofereceram a promessa/projeto/utopia
“desenvolvimentista”, pelo menos até a década de 70.
E
depois do fim da Guerra Fria, encomendaram às FFAA a “caça aos terroristas” (de
preferência que fossem islâmicos), em troca da promessa do crescimento
econômico através da “globalização” e da adesão ao programa das “reformas
neoliberais”. Nesta terceira década do século XXI, a única proposta da
Administração Trump aos seus vassalos é a da “caça aos narcotraficantes”, sem
nenhum tipo de utopia global ou projeto de desenvolvimento econômico regional.
Isto explica, aliás, o insucesso imediato desses novos governos de direita e
extrema-direita, que vêm enfrentando revoltas sociais e queda acelerada de
popularidade antes mesmo de concluir seu primeiro ano de mandato.
• E como fica o Brasil nesse novo
contexto? Como poderá o Brasil enfrentar essa ameaça à sua soberania?
Fiori –
Antes de responder à sua pergunta diretamente, temos que partir de alguns dados
de realidade fundamentais. O Brasil é o quinto maior país da Terra, sua
economia inclui-se entre as 10 maiores do mundo e seu PIB representa hoje cerca
de 50% do PIB total da América do Sul. É o país mais industrializado do
continente, e é também o seu principal player internacional. Tem ainda um
grande potencial de crescimento pela frente – dependendo de sua estratégia
econômica e de sua política internacional– se tivermos em conta seu potencial
agrícola, sua dotação energética e suas reservas de minerais estratégicos e de
“terras raras”. Possui uma matriz energética limpa e expressiva reserva hídrica
que o candidatam a uma posição de destaque na revolução industrial liderada
pelos Big Datas e pela inteligência artificial.
Ou
seja, o Brasil possui todas as condições “naturais” de lutar com sucesso por
sua soberania, mas se desenvolveu à sombra da potência imperial dominante. A
maior resistência a um projeto de defesa e transformação do Brasil numa
potência de médio porte autônoma de qualquer tipo de tutela externa vem de
dentro do próprio país. Vem de suas elites civis e militares, que foram sempre,
majoritariamente, subservientes com relação ao poder americano, no caso da sua
antiga “burguesia dependente e associada”, como no caso de sua nova burguesia
financeira internacionalizada. E de forma muito particular, da parte de suas
instituições militares, que passaram a ser programadas e tuteladas
ideologicamente pelas FFAA americanas, pelo menos desde o Acordo Militar
assinado pelo Brasil com os EUA em 15 de março de 1952.
No
campo de sua política externa, o Brasil mudou algumas vezes de direção, mas
manteve, na maior parte do tempo, seu alinhamento e submissão quase
incondicionais à política externa e à estratégia de defesa e segurança nacional
norte-americana. Mais recentemente, entretanto, durante os governos de Lula e
Dilma Rousseff, o Brasil vem desenvolvendo uma estratégia internacional e uma
política externa mais autônomas e ajustadas a um mundo em transformação
acelerada, sem nenhum tipo de alinhamento com as disputas entre as grandes
potências que dominam o sistema internacional. Foi o que aconteceu com a
participação do Brasil na fundação do grupo BRICS e na sua busca constante de
contato e estreitamento de relações com as nações do Norte e do Sul, do Leste e
do Oeste, sem fazer distinções ideológicas ou discriminar países em função de
seus regimes políticos ou pertencimentos culturais e religiosos. E se opõe a
toda tentativa de polarização do sistema mundial, como base em qualquer tipo de
argumentação ideológica, política ou econômica. Uma posição difícil de ser
aceita por “cabeças binárias”, civis ou militares, que por natureza são
incapazes de compreender a complexidade do mundo contemporâneo.
• E como o senhor avalia a nova situação
venezuelana? Acha que a Venezuela poderá superar a situação em que se encontra
depois da intervenção militar norte-americana?
Fiori –
Não tenho acompanhado muito de perto a situação venezuelana, mas não há dúvida
que se trata de um caso esdrúxulo. Do ponto de vista estrito e realista, a
Venezuela é hoje uma espécie de “colônia petroleira” dos EUA, com um governo
local de esquerda, uma evidência do mais absoluto desinteresse do governo Trump
por questões ligadas à democracia ou ao bem-estar da população local, ou mesmo
à orientação ideológica de seus governantes. Ele tomou o petróleo das mãos dos
venezuelanos, já faturou cerca de 13 bilhões de dólares, segundo o FT,
apropriou-se desses recursos e ninguém sabe onde foram parar. Enquanto isto,
lhe dá no mesmo o que faça ou não faça o governo responsável pela administração
das mazelas locais. Acho muito difícil que a Venezuela possa sair dessa
condição sem que haja uma mudança profunda na política norte-americana e no
quadro geopolítico mundial.
• E a Argentina de Javier Milei, qual a
perspectiva que o senhor vê para o futuro dessa experiência ultraliberal na
fronteira do Brasil?
Fiori –
Como todos os estudiosos sabem, na entrada do século XX, a Argentina estava
entre os 6 ou 7 países mais ricos do mundo, e seguiu tendo uma distribuição de
renda e um nível educacional muito mais alto que o brasileiro durante toda a
primeira metade do século XX. Sua economia entrou em crise entre os anos 30 e
50, e sua sociedade se dividiu de forma irreparável depois da derrubada do
presidente Domingos Perón, em 1955. A Argentina nunca mais conseguiu definir
uma estratégia unificada de inserção no mundo depois da II GM.
Durante
as primeiras ditaduras militares dos anos 50 e 60, seus vários governos
praticaram políticas econômicas keynesianas e chegaram mesmo a iniciar um
ambicioso programa de industrialização, idealizado pelo próprio Raul Prebisch.
O que lhes faltou, entretanto, foi uma nova estratégia expansiva e de longo
prazo, e um grupo capaz de transformar a economia argentina num instrumento de
sua própria acumulação de poder internacional. Em seguida, à sangrenta ditadura
militar entre 1975 e 1985 optou pelo caminho do ultraliberalismo, e ficou
marcada pela política econômica do seu ministro Martinez de Hoz, que foi
ministro da Economia do governo ditatorial de Jorge Videla, entre 1976 e 1981.
E depois do fim da ditadura, o governo de Carlos Menem e de seu ministro da
Fazenda, Domingos Cavallo, tentaram uma vez mais levar à frente uma política
econômica de dolarização e transformação ultraliberal da economia argentina.
Fracassaram, e a cada novo fracasso dessas tentativas ultraliberais, a
Argentina se voltou para o peronismo e seu projeto inacabado de recuperação da
soberania monetária e econômica do país. E agora de novo Milei está tentando o
caminho do ultraliberalismo radical sustentado pelo FMI e pela banca privada
norte-americana.
Na
verdade, nessas décadas a Argentina tem sido um país em estado de falência
crônica, respirando apenas com a ajuda permanente da finança internacional. Do
meu ponto de vista, ao final do mandato deste presidente um tanto excêntrico,
vai repetir-se o mesmo quadro do passado e a Argentina ainda deverá permanecer
muitos anos nessa gangorra que não se move do lugar. Os EUA não os aceitaram na
condição permanente de um dominium ao estilo que foram Nova Zelândia ou
Austrália, e é muito difícil que os argentinos encontrem algum caminho mais
autônomo e sustentado de desenvolvimento que não passe por uma aliança e um
projeto de integração estratégica e sustentada de longo prazo com o Brasil. O
que não é fácil porque Argentina e Brasil competiram pesadamente pela hegemonia
sul-americana até meados do século passado quando a Argentina foi
definitivamente ultrapassada pelo Brasil.
• E como o senhor avalia a nova ofensiva
americana contra Cuba? Por que Cuba é tão importante para os americanos? Qual o
desfecho possível desse confronto cada vez mais acirrado?
Fiori –
Em primeiro lugar, e isto é muito importante, ela não é nova. Desde o início do
século XIX, os founding fathers norte-americanos já consideravam que a ilha de
Cuba, então colônia espanhola, pertenceria naturalmente aos EUA depois de sua
independência. E foi no final daquele século, depois de sua vitória sobre a
Espanha, na chamada Guerra Hispano-Americana, que os EUA tomaram posse
diretamente da ilha, estabelecendo logo em seguida um novo tipo de
relacionamento ou de tutelagem “não colonial” sustentada pela presença militar
na Base Naval de Guantánamo, mantendo o controle da política externa e da
política econômica da ilha. E depois de 1933, os norte-americanos controlaram
de forma quase direta a ditadura de Fulgêncio Batista, até a vitória da Revolução
Cubana em 1959.
A
partir daí, o assédio e ameaça dos EUA à soberania cubana foram quase
permanentes durante 66 anos, começando pelo “embargo econômico” imposto à ilha
já em 1960, ainda antes da ruptura das relações diplomáticas dos EUA com Cuba,
em 1964. E mesmo depois do fim da URSS e da Guerra Fria, os EUA mantiveram seu
cerco e suas sanções, visando asfixiar a economia cubana, que resistiu até
nossos dias.
Escrevi,
já faz tempo, num artigo publicado em 2008, que depois de seis décadas de luta,
“Cuba se transformou num símbolo e numa resistência que é intolerável por si
mesma, para seus vizinhos norte-americanos. Por isso, o objetivo principal dos
Estados Unidos, em qualquer negociação futura, será sempre fragilizar e
destruir o núcleo duro do poder cubano. Por sua vez, Cuba não tem como abrir
mão do poder que acumulou a partir de sua posição defensiva e de sua
resistência vitoriosa. Por isso, apesar da mobilização internacional a favor de
mudanças nas relações entre os dois países, o mais provável é que os Estados
Unidos mantenham sua decisão obsessiva de punir e enquadrar Cuba; e que Cuba se
mantenha na defensiva e lutando” para preservar a sua soberania a 145 km da
costa norte-americana”. E sigo mantendo esta opinião sobre.
• Keiko Fujimori vai tomar posse no Peru e
já adiantou que vai adotar uma política de diálogo com Estados Unidos e China.
O senhor acha que ela conseguirá manter diálogo com os EUA, tendo um porto
chinês, o de Chancay, em seu quintal? Podemos considerar confusão à vista?
Fiori –
A primeira coisa que deve ser lembrada é que o candidato que foi apoiado pelo
“trumpismo”, nas últimas eleições peruanas, foi o Sr. Rafael Lopez Aliaga e não
a Sra. Keiko Fujimori. Da mesma forma que na Bolívia, onde o candidato da
extrema-direita foi Sr, Jorge Quiroga e não o centrista Rodrigo Paz que acabou
ganhando as eleições. Neste sentido, aliás, nenhum destes dois novos
presidentes faz parte da chamada “onda azul” de extrema-direita que foi
vitoriosa nos casos da Argentina, Chile, Equador e Colômbia. Por isto não me
parece surpreendente que a nova presidenta do Peru deseje manter sua relação
econômica simultânea com EUA e China.
Os
chineses não têm pretensões militares na América do Sul, nem tampouco no Peru,
enquanto sua presença econômica é hoje indispensável para a economia
peruana. Por outro lado, os EUA não têm
nada a oferecer como alternativa, ainda menos nos momentos em que está impondo
tarifas generalizadas, mesmo com relação aos seus vassalos. Aliás, mesmo a
Argentina de Javier Milei, que é de extrema-direita e ultraliberal, não tem
hoje como se desfazer de sua “dependência chinesa”. Sem a China, Javier Milei –
que bajula Benjamin Netanyahu e se comporta como um capacho de Donald Trump –
não teria como honrar sua dívida com o FMI nem com a banca privada
norte-americana que sustenta seu governo.
• Em um artigo recente, publicado aqui, no
247, o senhor escreveu: “Trump é hoje uma figura cada vez mais impopular no
mundo todo, e também na América do Sul. (…)”. O que deve acontecer se nas
eleições de novembro se Trump sair derrotado?
Fiori –
É verdade, o presidente Donald Trump é uma figura política cada vez mais
impopular em todo o mundo, e também dentro da sociedade americana. Por isso,
não é improvável que sofra uma derrota bastante contundente nas próximas
eleições parlamentares do dia 3 de novembro. Se isto acontecer, e Donald Trump
perder sua maioria em uma ou nas duas Casas do Congresso Americano, isto deve
fragilizá-lo internamente, mas não deve atenuar seu ímpeto expansivo no campo
internacional. Talvez até pelo contrário, empurre-o pelo mundo afora. Donald
Trump já demonstrou que sabe recuar quando percebe que perdeu, avançando de
novo, logo em seguida, por um outro caminho. Por outro lado, os democratas
estão divididos e não têm nenhum tipo de projeto alternativo ao de Trump no
campo das relações internacionais. Talvez até cheguem a ser mais belicosos do
que o próprio Trump. Não esqueçamos, republicanos e democratas repartem
igualmente as intervenções e guerras americanas ao redor de todo mundo nos
séculos XX e XXI. E não há o menor sinal de que isto possa ser alterado no
curto prazo.
• Por fim, o senhor está lançando um livro
sobre “Conjuntura e História”, reunindo quase 100 artigos seus sobre os últimos
30 anos da história mundial. Como o senhor concilia seus estudos acadêmicos
sobre a história mundial, com seus artigos jornalísticos sobre a conjuntura
internacional?
Fiori –
O livro Conjuntura e História reúne 97 artigos selecionados de um total de 450,
publicados em vários jornais, revistas e em meio eletrônico, contendo análises
de sucessivas conjunturas internacionais dos últimos 30 anos. Sua publicação
complementa nosso livro anterior, Uma teoria do poder global, que também foi
publicado pela Editora Vozes. A tese epistemológica central deste novo livro é
de que toda análise da conjuntura internacional supõe alguma visão teórica
acerca da dinâmica do sistema político e econômico mundial. Esta “teoria” é que
nos permite identificar as “crises”, as “rupturas” e as “inflexões” de longo
prazo que se escondem por detrás dos acontecimentos imediatos. Mas ao mesmo
tempo, esta mesma “teoria em construção”, precisa ser testada e submetida a um
constante exercício de verificação e “falsificação” de suas hipóteses, e isto
só pode ser feito por intermédio da própria análise conjuntural, isto é, de
sucessivas análises de conjuntura que vão permitindo a construção progressiva de
uma teoria que será sempre inacabada.
Não sei
se isto fica claro para você, mas este foi exatamente o objetivo principal
desse livro: reconstruir o caminho através do qual eu fui testando e
“falsificando” minhas próprias hipóteses teóricas sobre o poder e a história da
luta pelo poder dentro do sistema mundial que apresentei no livro Uma Teoria do
Poder Global.
Fonte:
Brasil 247

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