terça-feira, 28 de julho de 2026

Há 105 anos, a descoberta da insulina fez o diabetes deixar de ser uma sentença de morte; entenda por quê

Há 105 anos, receber o diagnóstico de diabetes significava, para muitas pessoas, ouvir uma sentença de morte. Crianças e adolescentes com diabetes tipo 1 raramente sobreviviam por muito tempo após o diagnóstico, enquanto médicos tinham poucas alternativas além de dietas extremamente restritivas para tentar retardar a evolução da doença.

Foi esse cenário que motivou uma das descobertas mais importantes da história da medicina. Em 1921, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Toronto, no Canadá, conseguiu isolar a substância responsável por controlar os níveis de glicose no sangue. Nascia ali a insulina, um hormônio que mudaria para sempre o tratamento do diabetes e abriria caminho para mais de um século de avanços científicos.

Hoje, 105 anos depois, a descoberta continua sendo celebrada não apenas pelo impacto que teve no passado, mas porque sua história segue evoluindo. Novas insulinas, tecnologias para monitorização da glicose e dispositivos cada vez mais modernos mostram que a ciência continua transformando a vida de milhões de pessoas que convivem com diabetes.

<><> Antes da insulina, havia poucas alternativas

No início do século XX, os médicos ainda não conheciam uma forma eficaz de controlar o diabetes. Para pessoas com diabetes tipo 1, a doença evoluía rapidamente e, na maioria dos casos, levava à morte.

Na tentativa de prolongar a vida dos pacientes, eram adotadas as chamadas “dietas de fome”, com uma redução extrema da ingestão de alimentos. Embora pudessem retardar temporariamente a progressão da doença, essas dietas também causavam desnutrição severa e não impediam que o quadro continuasse evoluindo.

Sem um tratamento capaz de substituir a insulina que o organismo deixava de produzir, pouco podia ser feito. Foi diante dessa realidade que pesquisadores passaram a buscar uma solução que parecia impossível para a época.

<><> O experimento que mudou a história

A ideia partiu do jovem médico canadense Frederick Banting, que acreditava ser possível isolar a substância produzida pelo pâncreas, responsável pelo controle da glicose. Ao lado do estudante Charles Best, ele iniciou uma série de experimentos em um pequeno laboratório da Universidade de Toronto.

Os primeiros testes foram realizados em cães e mostraram que o extrato obtido do pâncreas conseguia reduzir os níveis de glicose no sangue. O trabalho ganhou o apoio do professor John Macleod, que disponibilizou estrutura para o desenvolvimento das pesquisas, e do bioquímico James Collip, responsável por purificar o extrato para que ele pudesse ser utilizado em seres humanos.

O que começou como uma hipótese científica logo se transformaria em um dos maiores avanços da medicina moderna.

<><> A primeira vida salva pela insulina

Em janeiro de 1922, Leonard Thompson, um adolescente de apenas 14 anos, tornou-se a primeira pessoa a receber uma aplicação bem-sucedida de insulina.

Internado em estado grave, Leonard já havia perdido muito peso e tinha poucas perspectivas de recuperação. A primeira aplicação ainda apresentou problemas devido às impurezas do extrato. Após um novo processo de purificação realizado por James Collip, uma segunda aplicação trouxe resultados que impressionaram a equipe médica.

Os níveis de glicose diminuíram, o estado clínico melhorou rapidamente e Leonard voltou a recuperar peso e força.

Mais do que salvar a vida de um adolescente, aquele tratamento demonstrou que o diabetes deixava de ser, pela primeira vez, uma doença inevitavelmente fatal.

<><> Uma descoberta que pertence ao mundo

O impacto da descoberta foi reconhecido rapidamente. Em 1923, Frederick Banting e John Macleod receberam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina.

Mas um dos capítulos mais marcantes dessa história aconteceu fora dos laboratórios.

Banting defendia que a insulina deveria beneficiar todas as pessoas que precisassem dela. Por isso, ele e seus colegas transferiram a patente para a Universidade de Toronto por um valor simbólico, permitindo que diferentes fabricantes produzissem o medicamento e contribuíssem para ampliar seu acesso ao redor do mundo.

Mais de um século depois, esse gesto continua sendo lembrado como um exemplo do compromisso da ciência com a saúde pública.

<><> De um tratamento que salvava vidas à busca por mais qualidade de vida

A descoberta da insulina foi apenas o primeiro passo.

Nas décadas seguintes, o tratamento passou por uma evolução contínua. As primeiras insulinas eram produzidas a partir do pâncreas de bovinos e suínos. Com o avanço da engenharia genética, tornou-se possível fabricar insulina humana em laboratório, aumentando a segurança e a qualidade do tratamento.

Depois vieram os análogos de insulina, desenvolvidos para oferecer perfis de ação mais previsíveis e semelhantes ao funcionamento natural do organismo. Enquanto alguns atuam mais rapidamente para controlar a glicose após as refeições, outros proporcionam uma ação prolongada, contribuindo para um controle glicêmico mais estável ao longo do dia.

A tecnologia também transformou a rotina das pessoas com diabetes. As antigas seringas de vidro deram lugar às seringas descartáveis, às canetas aplicadoras, às bombas de infusão e, mais recentemente, aos sensores de monitorização contínua da glicose e aos sistemas integrados que auxiliam no controle glicêmico.

Se há 105 anos o maior desafio era manter uma pessoa viva, hoje o tratamento busca, além disso, oferecer mais autonomia, segurança e qualidade de vida.

<><> O Brasil também faz parte dessa evolução

A história da insulina continua sendo escrita e o Brasil passou a integrar esse novo capítulo com a produção nacional da insulina glargina, um análogo de ação prolongada utilizado no tratamento de pessoas com diabetes que têm indicação para esse tipo de terapia.

Além de fortalecer a capacidade do país de produzir um medicamento considerado estratégico, a iniciativa representa um avanço importante para ampliar a autonomia nacional na fabricação de insulinas.

Outro passo recente foi o início da ampliação gradual do acesso à insulina glargina pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A implementação ocorre de forma progressiva, acompanhada da capacitação das equipes de saúde e da organização da rede pública, permitindo que mais pacientes tenham acesso a uma opção terapêutica mais moderna dentro dos critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde.

Assim como aconteceu em 1921, a ciência continua impulsionando novos avanços que ampliam as possibilidades de tratamento para quem convive com diabetes.

<><> Uma história que continua sendo escrita

Mais de um século depois dos primeiros experimentos realizados em Toronto, a descoberta da insulina permanece como um dos maiores marcos da medicina moderna.

Ao longo desses 105 anos, o tratamento do diabetes evoluiu de forma significativa, mas a busca por novas soluções continua. Pesquisas sobre insulinas cada vez mais precisas, dispositivos inteligentes e tecnologias capazes de facilitar o controle glicêmico mostram que o cuidado com o diabetes segue avançando.

Ao mesmo tempo, desafios como ampliar o acesso ao tratamento e às inovações permanecem em diferentes partes do mundo. Por isso, celebrar os 105 anos da descoberta da insulina vai além de recordar um acontecimento histórico. É reconhecer como a ciência transformou uma doença que antes oferecia poucas perspectivas de tratamento e lembrar que cada novo avanço pode representar mais qualidade de vida para milhões de pessoas.

A história iniciada em 1921 mudou o rumo da medicina e continua influenciando o presente. Mais de um século depois, a descoberta da insulina permanece como um símbolo de que pesquisa, inovação e acesso ao tratamento caminham juntos para construir o futuro do cuidado em diabetes.

 

Fonte: Um Diabético

 

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