terça-feira, 28 de julho de 2026

Argentinos querem se ver livres do presidente insano que veio ao Brasil

Uma diferença básica e decisiva do confronto entre Lula e Javier Milei. Todas as pesquisas mostram que o brasileiro deseja reeleger Lula para um quarto mandato. Na Argentina, em pesquisa que está nesta segunda-feira na capa do jornal Clarín, a população avisa: 51,5% não querem mais saber de Milei.

Um dado complementar agrava a situação do fascista e vigarista no poder. O instituto de consultoria Proyección perguntou aos eleitores se eles desejavam um outro governo alinhado com o peronismo ou apenas outra alternativa ao atual governante: 37,8% responderam que se identificam com um governo de peronistas e apenas 13,7% desejam uma oposição de outra linha política.

O resumo que Milei tem na sua mesa não precisa da interpretação de assessores ou analistas políticos. Para 51,5%, hoje ele deveria deixar o governo, e para 48,9% deve permanecer. É um empate técnico, mas pela primeira vez os números se invertem, com o detalhe da retomada do apoio ao peronismo.

Outro desdobramento que expõe a situação complicada do homem que veio ao Brasil para se apresentar como líder da extrema direita latino-americana. Os 48,9% que desejam que ele permaneça se dividem assim: 20,3% entendem que deve continuar com a atual política para o país, 19,1% acham que deve mudar a equipe e a condução do governo e 9,1% não sabem.

Somando os que desejam mudanças no governo com os que não sabem dizer o que querem, o índice chega a 28,2%, contra os 20,3% que preferem que tudo continue como está. Os argentinos perderam a convicção de que Milei seria o mágico disruptivo.

Tem mais. O voto anti-Milei a qualquer custo é de 40,1%. Esse percentual de eleitores votaria em qualquer nome, mesmo que não seja o seu preferido, para impedir mais um governo Milei. E aqui, em menor índice, o voto antiperonista: 37,5% declararam que votariam em qualquer candidato para evitar o retorno do peronismo ao poder. A rejeição a Milei é maior do que a um nome do peronismo.

Como vem sendo mostrado aqui no Brasil 247 pela jornalista Marcia Carmo, correspondente em Buenos Aires, Milei não tem mais o lastro político que já teve para imaginar-se peregrinando pela América do Sul como a grande figura do fascismo e de Trump na região.

O Clarín destaca na capa, ao apresentar a pesquisa do Proyección, que o sentimento antiperonista, que Milei capitalizou ao se eleger em novembro de 2023, está se diluindo. Enquanto isso, Axel Kicillof, governador peronista da província de Buenos Aires, aparece em pesquisas recentes como capaz de vencer Milei em 2027.

A pesquisa dessa semana tem outros dados que tornam a situação argentina ainda mais complexa: 42,5% dos eleitores não se identificam com os partidos atuais, como o Justicialista (do peronismo), o Liberdade Avança (de Milei), o PRO (de Mauricio Macri) ou a quase pulverizada, mas histórica União Cívica Radical (UCR).

A divisão fica assim: 42,5% que se dizem sem partido e se declaram independentes; 25,3% de direita e centro-direita; 18,8% de esquerda e centro-esquerda; e 12,4% de centro. A pesquisa falha ao não tentar identificar como estaria hoje a polarização entre os assumidamente peronistas contra os libertários de Milei.

Uma outra abordagem possível pode levar à seguinte conclusão: na Argentina, como já apareceu em pesquisas no Brasil, a maioria se define como de direita. Mas lá essa maioria não seria suficiente hoje para assegurar a continuidade de Milei, e aqui não impede a tendência à reeleição de Lula.

O povo argentino finalmente desistiu de Milei por saber que, além de fascista, ele é um pilantra investigado por ter se integrado a uma organização internacional de criação de criptomoedas.

Milei combina a ideologia de um liberalismo exacerbado, que está matando idosos e crianças, com as vigarices que compartilha com a irmã, Karina, sua secretária particular. Ela também está sob investigação da polícia e do Ministério Público pelo caso da criptomoeda $Libra e pela suspeita de recebimento de propinas.

O homem que veio ao Brasil atacar Lula e Alexandre de Moraes e fazer respiração boca a boca em Flávio Bolsonaro, na convenção do PL, está tão mal lá quanto o filho ungido está aqui.

•        Jornalista do Clarín afirma que insultos de Milei ao Brasil não têm paralelo e critica apoio de Tarcísio e Flávio Bolsonaro

A jornalista Natasha Niebieskikwiat, especializada em política internacional e colunista do jornal argentino Clarín, afirmou que a viagem do presidente Javier Milei a São Paulo para apoiar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro e atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva representa um episódio sem precedentes nas relações entre Brasil e Argentina.

Em publicação nas redes sociais, a jornalista contestou as tentativas de equiparar a visita de Milei ao encontro que Lula manteve com a ex-presidente Cristina Kirchner durante sua prisão domiciliar, em julho de 2025.

Segundo ela, os dois casos ocorreram em contextos completamente distintos.

“Lula visitou Cristina quando a Argentina não estava em campanha eleitoral, ela não era candidata e o encontro aconteceu durante uma viagem oficial para a cúpula do Mercosul”, observou.

<><> Itamaraty desaconselhou encontro com Cristina

Natasha lembra que, na ocasião, o próprio Itamaraty tratou a visita de Lula como uma atividade privada e chegou a desaconselhá-la, marcando distância institucional do encontro.

Além disso, ressalta que o presidente brasileiro manteve discrição durante a viagem.

Já a passagem de Milei por São Paulo, afirma, teve caráter muito mais oficial. O presidente argentino foi recebido pelo governador Tarcísio de Freitas com honras de chefe de Estado, recebeu a Medalha da Ordem do Ipiranga e contou com a presença de integrantes da diplomacia argentina, entre eles o secretário de Relações Exteriores, Pablo Quirno, e o cônsul-geral em São Paulo, Luis Kreckler.

<><> Milei coleciona intervenções eleitorais

A jornalista também observa que Milei acumula uma série de intervenções em processos eleitorais de outros países.

Ela recorda que o presidente argentino apoiou Donald Trump nos Estados Unidos, Rodrigo Paz na Bolívia, José Antonio Kast no Chile, Keiko Fujimori no Peru e Abelardo de la Espriella na Colômbia.

Segundo Natasha, Lula desejava a vitória de Sergio Massa nas eleições argentinas de 2023, mas nunca promoveu ataques públicos contra Milei nem realizou gestos semelhantes aos do presidente argentino durante campanhas eleitorais.

Ela acrescenta ainda que campanhas de esquerda e de direita na América do Sul frequentemente compartilham consultores e estratégias, lembrando que setores ligados ao PRO e ao partido A Liberdade Avança também recorreram a especialistas como Fernando Cerimedo e Javier Negre.

<><> “Brasil joga em outra liga”

Na avaliação da colunista, Lula ocupa hoje um espaço muito mais relevante na geopolítica mundial do que Milei.

Ela observa que o presidente brasileiro mantém interlocução frequente com líderes como Donald Trump e Xi Jinping, enquanto o Brasil exerce um peso internacional muito superior ao da Argentina.

“Brasil joga em outra liga”, resume a jornalista, argumentando que, apesar da importância econômica da Argentina, o país ocupa posição muito menos central nas disputas geopolíticas globais.

<><> Críticas aos insultos de Milei

Natasha Niebieskikwiat também condena o tom adotado pelo presidente argentino em relação a Lula.

Ela lembra que, mesmo durante períodos de forte tensão política, Alberto Fernández e Jair Bolsonaro nunca chegaram ao nível de agressividade verbal demonstrado por Milei.

Por fim, a jornalista manifesta surpresa com a reação da sociedade argentina diante dos ataques do presidente.

Segundo ela, causa espanto que parte dos argentinos aceite que seu chefe de Estado utilize insultos contra o próprio povo e também contra o presidente de um país vizinho com a importância estratégica, econômica, cultural e afetiva que o Brasil possui para a Argentina. Ela conclui afirmando que esse comportamento reflete uma espécie de “Síndrome de Estocolmo” na política argentina.

•        Miriam Leitão responsabiliza Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro pelas agressões de Milei ao Brasil

A jornalista Miriam Leitão afirma, em coluna publicada no jornal O Globo, que a visita do presidente argentino Javier Milei ao Brasil representou uma grave ruptura dos protocolos diplomáticos e contou com o respaldo político do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.

Segundo a colunista, Milei desembarcou no Brasil sem comunicar previamente o governo federal, procedimento considerado básico em viagens internacionais de chefes de Estado, mesmo quando classificadas como privadas. Em vez de manter uma agenda institucional, o presidente argentino seguiu diretamente para São Paulo, onde foi recebido por Tarcísio de Freitas no Palácio dos Bandeirantes.

Para Miriam Leitão, o governador paulista concedeu a Milei tratamento de chefe de Estado ao recebê-lo com honras oficiais e entregar-lhe a Medalha da Ordem do Ipiranga, a mais alta condecoração do Estado de São Paulo.

<><> Discurso contra Lula e Alexandre de Moraes

Após o encontro com Tarcísio, Milei participou da convenção do PL que oficializou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Durante o evento, fez ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, criticou políticas do governo brasileiro e dirigiu ofensas ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.

Na avaliação de Miriam Leitão, o episódio representou uma interferência inédita e desrespeitosa na política interna brasileira, agravando uma das mais sérias crises diplomáticas entre Brasil e Argentina das últimas décadas.

A reação do governo brasileiro ocorreu por meio dos canais diplomáticos. O Itamaraty chamou de volta o embaixador do Brasil em Buenos Aires para consultas e convocou o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos sobre a conduta do presidente de seu país.

<><> Acusações sem provas ampliaram o conflito

A colunista destaca que, ao retornar à Argentina, Milei elevou ainda mais o tom ao conceder entrevista ao jornal Clarín, na qual afirmou, sem apresentar provas, que o governo brasileiro teria financiado uma campanha midiática contra a Argentina após a conquista da Copa do Mundo.

Segundo o presidente argentino, 25% dos recursos dessa suposta campanha teriam origem no Brasil. Miriam Leitão ressalta que a acusação não foi acompanhada de qualquer evidência e carece de fundamento conhecido.

<><> Crise atende interesses políticos de Milei

Na análise da jornalista, mais do que apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro, Milei procurou utilizar sua passagem pelo Brasil para fortalecer sua imagem política em meio às dificuldades enfrentadas por seu governo, que registra elevados índices de desaprovação segundo pesquisas de opinião.

Miriam Leitão observa ainda que a estratégia pode trazer custos para a própria Argentina, uma vez que o Brasil é o principal parceiro comercial do país e o principal destino das exportações industriais argentinas. Para a colunista, caberá agora à diplomacia dos dois países trabalhar para reconstruir uma relação que sofreu forte desgaste após os episódios protagonizados por Milei durante sua visita ao Brasil.

•        Ao atacar Lula, Milei “deu um tiro no próprio pé”, diz imprensa argentina

O presidente da Argentina, Javier Milei, “extrapolou” todos os limites diplomáticos possíveis, no entendimento de quem acompanha a relação bilateral. Foi a primeira vez que um presidente subiu ao palco num país estrangeiro para atacar o chefe de Estado do território nacional. O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina, mas desde que assumiu Milei realizou 16 viagens aos Estados Unidos (muitas delas para encontros da extrema-direita e não para questões de Estado), deixando evidente sua preferência ideológica com o governo Trump. Milei também já realizou várias viagens à Espanha para encontros também com a extrema-direita e fez duas visitas à Israel.

<><> Preocupação

Mas são suas falas em São Paulo que hoje preocupam políticos opositores, empresários e formadores de opinião da Argentina.

Os títulos da imprensa argentina, no domingo e nesta segunda-feira, resumem o tom de preocupação e de indignação com as declarações de Milei durante o lançamento da campanha do senador Flávio Bolsonaro à presidência. Os ataques de Milei são o principal assunto na Argentina. “O chanceler do Brasil criticou Milei duramente e o ministro da Economia de Lula o chamou de “palhaço”, estampa o portal do Clarín, de Buenos Aires, nesta segunda-feira.

<><> “Inaceitável” e “palhaço”

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, definiu a “afronta” de Milei como “grave e inaceitável”. “O governo argentino precisa explicar por que o presidente da Argentina veio ao território brasileiro para fazer estas declarações tão duras, grosseiras e inaceitáveis?”, disse Viera, como reproduz o Clarín. O jornal argentino inclui ainda em sua matéria declaração do ministro da Fazenda, Dario Durigan, que chamou Milei de “palhaço”. O Página 12, da capital argentina, também destacou as declarações de Vieira e de Durigan e enfatiza que esta é a pior crise entre os dois países – e provocada pelo presidente argentino.

<><> Pior crise

Sem dúvida, é a pior crise diplomática, em tempos democráticos, entre os dois países. O governo brasileiro convocou o embaixador Júlio Bitelli, de Buenos Aires, num sinal de repúdio às falas e atitude de Milei. E também convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi. No dicionário diplomático, estes são gestos de tensão na relação bilateral. Por enquanto, não se pensa, porém, na retirada de Bitelli de Buenos Aires, o que significaria o rompimento das relações entre os dois países.

<><> “Autoflagelo”

O colunista do La Nación, de Buenos Aires, Claudio Jacquelin, escreveu, nesta segunda-feira, que Milei provocou um “autoflagelo” – a ele e ao país.  “Milei tem o poder de gerar lesões nele mesmo e no país. E essa atitude não parece ter fim porque Milei sempre pode se superar, como ficou evidente no sábado quando iniciou um conflito, sem precedentes, com o maior país do hemisfério sul e principal sócio comercial da Argentina”, escreveu Jacquelin.

<><> A viagem

O analista Juan Gabriel Tokatlian, do Conversatório Latino-americano e professor da Universidade Torcuato Di Tella, de Buenos Aires, observou que esta não foi uma viagem particular de Milei, já que ele estava acompanhado pelo ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno, e pela secretária geral da Presidência, Karina Milei, sua irmã.

 

Fonte: Por Moisés Mendes, em Brasil 247

 

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