Os
detalhes não esclarecidos de como BYD escapou da lista suja do trabalho escravo
Em
junho de 2025, a empresa de carros elétricos chinesa BYD foi autuada e
processada pelo Ministério do Trabalho por submeter 163 trabalhadores chineses
a condições análogas à escravidão no município de Camaçari (BA). Em apenas três
dias, a companhia se livrou da “lista suja” do trabalho escravo após anunciar o
rompimento de contrato com a Jinjiang Group, terceirizada que atuava na
construção de sua unidade industrial. A BYD então fechou acordo com uma nova
empresa para gerir a montagem da primeira fábrica de carros elétricos do país,
a brasileira Engenova Construções.
A
realidade dos bastidores da BYD foi denunciada com exclusividade pela Agência
Pública em novembro de 2024, em reportagem que revelava como chineses foram
vítimas de maus tratos e agressões, antes de uma operação do Ministério Público
do Trabalho (MPT), que originou um acordo de compensação milionário.
Investigação da Pública mostra agora que a substituição da prestadora de
serviço, fato que livrou a BYD da lista suja do trabalho escravo, se deu com
uma parceira que não seria tão “nova” quanto parece.
Fundada
em fevereiro de 2025, pouco menos de dois meses após o escândalo com os
operários chineses vir à tona, a Engenova Construções não apenas absorveu parte
dos profissionais da Jinjiang, como passou a tratar as obras internacionais da
Jinjiang como se fossem suas, mesmo sem ter tempo de existência suficiente para
tê-las executado.
Na
Receita Federal, a Engenova foi cadastrada com um capital social de R$ 6
milhões, tendo como administradora Andreza Santos de Souza. Antes, a empresa se
chamava Vanvi Bahia Construções, uma microempresa com capital social declarado
de R$ 600 mil, segundo a ferramenta CruzaGrafos, desenvolvida pela Associação
Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que abarca diferentes bancos
de dados e permite busca avançada no histórico das empresas.
No
cadastro da empresa, é possível constatar que a Engenova mantém como endereço o
local onde funciona a fábrica da BYD. Na fábrica, a Engenova funciona
exatamente onde funciona a Jinjiang, um amplo imóvel amarelo, conhecido como
main office – em inglês, “escritório principal”. No imóvel, não é possível
encontrar nenhum tipo de identificação da Engenova.
De
acordo com dados da Junta Comercial da Bahia, a Vanvi Bahia se desenquadrou
como microempresa em junho de 2025. No mês seguinte, alterou o nome
empresarial, passando a se chamar Engenova Construções e teve o capital social
ampliado.
Ao
contrário da nova marca, Engenova, que sequer possui site oficial, a Vanvi
Bahia disponibiliza em seu portal informações sobre grandes obras que teriam
sido realizadas pela empresa na China, mas algumas delas foram iniciadas anos
antes da constituição da Vanvi no Brasil, como o projeto de instalação da
fábrica da BYD nas cidades de Hefei e Changzhou.
A Vanvi
foi oficialmente fundada em 13 de fevereiro de 2025, ainda como microempresa no
Brasil. Já a obra em Hefei foi iniciada em setembro de 2021, e a própria Vanvi
registra essa informação em seu site oficial. Em Changzhou, a empresa informa
que trabalhou na Fase I do Parque Industrial da BYD, “ocupando uma área de
6.500 hectares” e representando um “investimento total de 10 bilhões de dólares
da BYD”. As obras em questão foram iniciadas pela Jinjiang, empresa fundada em
2002 e com a qual a BYD mantém longa parceria na montagem de fábrica de carros
elétricos.
A
Engenova Construções tem como sócia-proprietária a Vanvi Group, empresa aberta
em junho de 2025 que aparece na Receita Federal como tendo endereço corporativo
nas Ilhas Cayman, no Caribe Ocidental, território reconhecido como centro
financeiro offshore e paraíso fiscal internacional.
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Diferente, mas nem tanto
A
Pública identificou que a Engenova Construções absorveu ao menos dez
profissionais da antiga Jinjiang na Bahia. Ao menos três cargos de liderança da
companhia chinesa, responsáveis por setores estratégicos na montagem da fábrica
da BYD, foram absorvidos pela empresa brasileira em condições semelhantes, à
frente de áreas de segurança do trabalho e engenharias civil e ambiental.
Parte
do corpo de profissionais brasileiros do administrativo da empresa chinesa, a
exemplo de departamento financeiro e recursos humanos, também passou a fazer
parte da “nova” parceira da BYD. Na rede social LinkedIn, especializada nas
movimentações do mundo corporativo, é possível localizar ao menos sete
profissionais que informaram a troca da Jinjiang para a Vanvi/Engenova em um
curto período de tempo, com alguns casos de sobreposição de registros, mesmo
com indicações de carga horária de “tempo integral”.
Boa
parte das trocas de vínculos profissionais publicados na rede social se deu no
mês de maio de 2025, coincidentemente o mês em que o MPT ingressou Ação Civil
Pública contra a BYD e a Jinjiang Group por trabalho escravo e tráfico de
pessoas.
Diante
dos dados de registros e da composição de quadro da Engenova Construções, a
Pública questionou a direção da Engenova se a empresa funcionaria como um
espelhamento da Jinjiang no Brasil, substituindo a companhia denunciada por uma
nova marca. A reportagem entrou em contato por email e também buscou os
endereços disponíveis da Vanvi Bahia Construções para esclarecimentos, mas não
obteve resposta das companhias.
A
administradora oficial da Engenova, Andreza Souza, também foi procurada por
telefone e por email, inclusive pelos endereços informados pela mesma à Receita
Federal, mas, até o momento, não houve manifestação. Este espaço segue aberto
para respostas e será atualizado tão logo haja contato.
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Lista suja
Em
abril de 2026, a BYD apareceu junto a outros 168 nomes na classificação do
Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que reúne pessoas e empresas
responsabilizadas por trabalho escravo. O documento é conhecido como “lista
suja” do trabalho análogo à escravidão e expõe apenas quem já foi autuado, teve
direito à defesa administrativa e o processo passou por duas instâncias no
ministério.
A
inserção na lista permanece por dois anos, e a inscrição é retirada caso não
apareçam novos casos e a situação seja regularizada. A BYD, porém, recorreu da
decisão impetrando um mandado de segurança e passou apenas três dias na lista.
Nos autos, a montadora de carros elétricos culpou a Jinjiang e outras empresas
terceirizadas como responsáveis pelo vínculo de trabalho dos operários.
O juiz
da 16ª Vara do Trabalho de Brasília, Luiz Fausto de Marinho Medeiros, concedeu
o pedido para retirada do nome. “Isso porque a autuação fiscal se fundamenta na
premissa de que a BYD seria a real empregadora dos trabalhadores,
desconsiderando a relação jurídica mantida com as empresas prestadoras de
serviço e a regularidade da terceirização (…)”, escreveu na decisão.
Logo
após a inclusão da BYD na lista, o então secretário de Inspeção do Trabalho
Luiz Felipe Brandão de Mello foi exonerado do cargo pelo ministro do Trabalho,
Luiz Marinho (PT-SP). À época, o Sindicato dos Auditores Fiscais do Trabalho do
Estado da Bahia (Safiteba) se posicionou contra uma “possível interferência
indevida na atuação técnica e legal da fiscalização trabalhista no país”. Já o
ministério do Trabalho se limitou a responder que a exoneração se tratou “de
ato administrativo de gestão, de prerrogativa de ministro de Estado”.
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Troca estratégica e silêncio
Quando
a denúncia do trabalho análogo à escravidão veio à tona, a BYD rapidamente se
pronunciou sobre o caso, informando que “decidiu encerrar imediatamente o
contrato” com a Jinjiang no Brasil, por não tolerar “desrespeito à lei
brasileira e à dignidade humana”, como informou em nota oficial.
Em
novembro de 2024, reportagem da Pública mostrou que trabalhadores trazidos da
China para instalar a fábrica da BYD ficavam aglomerados em alojamentos sujos e
mal iluminados, além de trabalharem sem equipamento de proteção individual em
rotinas diárias de mais de 12 horas. Menos de um mês depois, o MPT resgatou 163
operários e identificou que eles estariam submetidos a trabalhos análogos à
escravidão, com passaporte e parte do salário retido pela Jinjiang Group.
Em
dezembro de 2025, o órgão fechou um acordo de R$ 40 milhões com a montadora de
carros elétricos, incluindo também a Jinjiang na operação – o valor inicial
pedido havia sido de R$ 257 milhões.
A
Pública procurou a BYD no Brasil em busca de esclarecimentos sobre a relação
com Jinjiang e a Engenova. A assessoria de imprensa da empresa garantiu que
houve rescisão de contrato com a Jinjiang Group e que, após isso, “a construção
do seu complexo fabril em Camaçari, na Bahia, passou a ser realizada por dez
empresas de engenharia e empreiteiras brasileiras, que atualmente empregam
cerca de 3.700 trabalhadores”.
A
montadora ainda pontuou que a Engenova Construções foi “contratada nesse
contexto para executar apenas parte específica de obras civis fora do complexo
industrial principal”. E que toda a operação para a produção dos carros
elétricos é feita por funcionários diretos, sem participação de mão de obra
terceirizada.
A BYD,
no entanto, preferiu não responder sobre os indícios que apontam para uma
relação de continuidade entre a Engenova e a Jinjiang.
Fonte:
Por André Uzeda, da Agencia Pública

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