A
(difícil) decisão de envelhecer
Em
2020, a médica cardiologista Véronique Fournier foi aposentada compulsoriamente
do sistema de saúde pública da França “por causa da idade”. Sempre muito ativa,
Madame Fournier ainda se sentia apta para fazer muitas coisas. Começou a
refletir, então, sobre o seu próprio envelhecer e como seria a vida dali por
diante, uma vez que a realidade se cristalizava à sua frente.
Concluiu
que a maneira como envelhecemos na sociedade contemporânea não lhe agradava em
nada. Ela convocou um grupo de colegas para discutir a velhice e fundou uma
pequena associação batizada de “Vida antiga”. A ideia era trabalhar, no âmbito
do centro de ética clínica, do qual fazia parte havia décadas, com homens,
mulheres, jovens, pessoas idosas, mas também políticos, sociólogos, juristas e,
evidentemente, médicos para, nas palavras dela, refletir sobre a velhice e
oferecer informação sobre essa fase da vida. Porque, em última análise, diz
ela, ninguém sabe o que significa envelhecer quando não se é velho. E que não
seriam aqueles com 40 anos que poderiam falar “inteligentemente” sobre a
velhice.
Véronique
Fournier organizou um primeiro seminário que teve como título “Quem é velho
aqui?”. Essa pergunta foi feita a toda a audiência presente à abertura do
evento. Foi quando ela e seus amigos se depararam com uma constatação
inesperada: ninguém era velho. Ninguém levantou o braço. Nem mesmo aqueles
sentados no auditório com 80 ou 90 anos se sentiam velhos. É sempre o outro que
é, constatou Véronique Fournier: “E isso ainda é bastante surpreendente”.
Ela e
seu grupo publicaram um livro com as discussões do seminário com o mesmo título
do evento, mas acrescentando o subtítulo “Os velhos saem da sombra” e a
assinatura da autoria ficou assim: Véronique Fournier e alguns outros velhos. O
objetivo do livro, segundo a organizadora, era explicar que “[…] se não
aceitarmos que somos velhos, há poucas chances de a sociedade, um dia, colocar
o tema da velhice como central”. A categoria social pessoas idosas, diz ela,
deve emergir para que sejam abordados os temas e os direitos desse segmento
populacional.
Logo
depois do livro, Véronique Fournier continuou seu ativismo e organizou uma “soirée”
com o tema “Onde está a lei dos idosos?”. No auditório, mais de 200 pessoas.
Ela lembrou ao público que três presidentes da república haviam prometido
aprovar um estatuto do idoso no país e nunca cumpriram a promessa, mesmo diante
de um envelhecimento populacional bastante avançado na França.
Eis que
Véronique Fournier tem a ideia de criar um conselho nacional para discutir o
tema da velhice, emulando o modelo já em plena atividade dedicado às pessoas
com deficiência, para definir interlocutores com o governo. O auditório vibrou
com a ideia. E uma epifania deu caráter, personalidade e razão a todo o
movimento. Os presentes decidiram rebatizar o “Vida antiga” como Conselho
Nacional Autoproclamado da Velhice. Com um detalhe importante.
Aos
poucos, as reflexões do Conselho Nacional Autoproclamado da Velhice têm
introduzido no debate público questões tangentes ao tema do envelhecimento,
como a economia do cuidado, a autonomia e a independência, a heterogeneidade, a
velhice LGBTQIA+, o idosismo, a mobilidade urbana, a habitação, a sexualidade,
o mercado de trabalho, a educação, a economia da longevidade e a desigualdade
de gênero.
No
Conselho Nacional Autoproclamado da Velhice, destaca Véronique Fournier, a
maioria é de mulheres. Para ela, os homens têm muito mais dificuldade de se
enxergarem velhos do que as mulheres. Uma de suas hipóteses para tal é que só
reivindicamos coisas quando sofremos com elas ou somos estigmatizados. As
mulheres, na opinião dela, são mais estigmatizadas do que os homens na velhice.
Os homens ficam velhos, segundo Véronique, e são considerados bonitos, já as
mulheres, ao menor sinal de velhice, são desvalorizadas.
Véronique
Fournier é direta para expor sua indignação: “Elas são lindas, eventualmente.
Mas elas não são mais baisables (fodíveis, em tradução livre).
Perdoe-me por ser franca, mas é assim que as coisas são”. Segundo a
cardiologista, elas internalizam mais a estigmatização do envelhecimento. As
mulheres percebem que é preciso fazer algo a nível social para evitar essa
depreciação. Enquanto os homens, conclui Véronique Fournier, continuam a pensar
até o fim que são poderosos, que sempre têm coisas para contribuir à sociedade.
Para
muitos homens, não há necessariamente mais nada na vida do que a força física,
lembra Véronique Fournier. Ou, em qualquer caso, eles precisam manter esse
poder para sentirem sua própria existência, sublinha a médica. As mulheres, diz
ela, não têm escolha. Em seu entendimento, existe uma relação com a velhice,
com a idade e com a morte que é diferente para homens e mulheres.
A
sexualidade ainda é uma grande fonte de vitalidade, acredita. E não temos o
mesmo comportamento em relação à sexualidade aos 25 ou aos 60 anos, quando
somos homem e quando somos mulher. Véronique Fournier diz que ainda não chegou
a uma conclusão científica definitiva, mas procura caminhos de pesquisa e
compreensão para ampliar a participação masculina no Conselho Nacional
Autoproclamado da Velhice. Ela busca convencê-los de que este é um assunto
importante também para eles, fazê-los compreender que são úteis através da sua
maneira diferente de ver a vida e precisam contribuir para fortalecer o lobby –
como o Conselho Nacional Autoproclamado da Velhice se define – pela velhice na
elaboração de políticas públicas. Quando criado, em fevereiro de 2022, o Conselho
Nacional Autoproclamado da Velhice, que tem como lema “Nada para os velhos, sem
os velhos”, tinha 300 associados, hoje são três mil.
Enquanto
organizava este livro, uma revista foi lançada na França com o título de Velhos.
Amigos franceses me comunicaram sobre a novidade e pedi imediatamente à amiga
Helena Hirata, residente em Paris, e com quem me encontraria em poucos dias em
Montréal para um colóquio acadêmico, na Université du Québec, para
fazer o favor de me trazer um exemplar, pois era impossível adquirir o primeiro
número pelo site.
Se
tinha algumas dúvidas sobre a validade de reunir artigos dispersos que
discutiam a velhice e o envelhecimento, escritos ao longo de muitos anos de
ensino e pesquisa sobre o tema, todas foram imediatamente dissipadas com essa
publicação. Me lembrei da advertência de Machado de Assis na abertura de Relíquias
de casa velha, um de seus títulos onde a velhice é protagonista, e ganhei
coragem e uma certa ousadia para propor esta (re)conversa ao público leitor, a
partir de textos que estavam perdidos por aí.
Outra
fonte de estímulo foi o slogan de Velhos: “A revista que todos
acabaremos lendo”. A chamada de capa da primeira edição é “Eu assumo…!” e um
grupo de artistas, filósofos, médicos, acadêmicos, políticos, jornalistas foi
convidado para refletir sobre a velhice. Uma das entrevistas principais foi a
de Véronique Fournier contando a história do Conselho Nacional Autoproclamado
da Velhice.
Considero
a proposta e a edição de Velhos extremamente inteligente e
diferenciada de inúmeras publicações ao redor do mundo sobre o envelhecimento,
pois, na maioria das vezes, os editores já começam errando pelo título de suas
publicações, preferindo nomes que, como diz Véronique, mais apagam ou idealizam
do que revelam a velhice, com raríssimas exceções.
A
edição traz também uma entrevista com o ator Daniel Auteuil, discutindo seus 74
anos; a comediante Florence Foresti responde com humor à pergunta “Como eu sei
que eu estou envelhecendo?”, com uma ilustração bastante atraente e criativa; a
ecologista Camille Étienne discute a intersecção entre transição climática e
transição demográfica; o militante Francis Carrier escreve o artigo “Pensar sua
velhice não lhe faz envelhecer mais rápido!”; a filósofa Olivia Gazalé parte de
uma frase do ator norte-americano Groucho Marx – “Em cada velho, existe um
jovem que se pergunta o que aconteceu” – para refletir sobre a velhice,
amparada na personagem Gilberte e no episódio célebre descrito por Marcel
Proust no clássico Em busca do tempo perdido, no qual, na velhice,
confunde a então jovem amada, e antes tão desejada, com a mãe dela. “Você me
confundiu com minha mãe, de fato eu começo a me parecer muito com ela”, reage a
personagem, criando o “efeito Gilberte” para designar esse fenômeno de alteridade
– o reconhecer-se envelhecida a partir do olhar de outra pessoa.
Ao
longo das últimas décadas, a Gerontologia, um campo do conhecimento criado a
partir da necessidade de estudar e refletir sobre o envelhecimento humano e o
envelhecimento populacional, atuou de forma bem-sucedida para descolar a idade
cronológica da idade autopercebida ou vivida. Nos últimos anos, o avanço de
tecnologias de rejuvenescimento, da medicina e de uma certa “filosofia” de vida
permitiu ressignificar, em termos, a velhice e o envelhecimento.
Se
algumas figuras públicas seguem a tradição monárquica, adotada desde a Idade
Média, de esconder as mazelas do corpo envelhecido, como faziam reis e rainhas,
ou negar e temer a fase idosa, atualmente o “moderno” é deixar aparentar os
cabelos brancos. Durante a pandemia de Covid-19, em 2020, reparei, assistindo a
uma edição do Jornal Nacional, quando a cantora Fafá de Belém
concedeu entrevista para lamentar a morte de um amigo e se deixou filmar com os
cabelos com acentuadas raízes brancas.
Imediatamente,
levei esse tema para o meu comentário semanal no Bem Estar,
na TV Globo. Acreditei que seria uma maneira de abordar o assunto
de um ponto de vista otimista e até libertador para as mulheres,
principalmente. Logo depois da pandemia, tornou-se frequente as mulheres de
cabelos brancos.
Essas
alterações de comportamento são relevantes para o debate público sobre o
envelhecimento populacional e a luta por direitos em meio ao conflito
orçamentário no interior do Estado. No entanto, estão distantes de garantir uma
conscientização da sociedade em nível suficiente para influenciar as políticas
públicas proporcionalmente à demanda. Isso porque existe muito mais força na
negação do envelhecimento do que em sua visibilidade, discussão e
ressignificação do ponto de vista socioeconômico, obstruindo ou protelando
questões emergentes, como a filosofia do cuidado, a ética do cuidado, o fim da
vida e os cuidados paliativos ou a velhice dependente.
Paradoxalmente,
as reflexões sobre o envelhecer são quase tão antigas quanto a própria
humanidade. Existe uma biblioteca de publicações, nas mais variadas áreas,
convidando os leitores e as leitoras de diversas épocas a pensar a velhice. O
curioso, talvez, é que quanto mais se escreve sobre envelhecer, mais as pessoas
reagem e se embrenham em uma fuga frenética rumo a um desconhecido
“desenvelhecer” ou sonham com idealizadas blue zones nada
científicas e muito menos replicáveis. Como se o ser humano pudesse ter o
envelhecimento das árvores que, quanto mais os anos passam, ficam mais fortes,
resistentes e belas.
Confunde-se
as possibilidades abertas pela ciência para propiciar um melhor envelhecimento
com o fim dessa fase da vida. Ninguém está proibido de investir no autocuidado
ou em sua imagem e autoestima, evidentemente, lançando mão de muitas técnicas
de estética ou clínicas para retardar o declínio físico e cognitivo ou
revigorando-se com comprimidos para disfunção erétil. Mas a negação da velhice
é prejudicial ao debate sobre os direitos das pessoas idosas e o avanço do
bem-estar social.
Se não
temos escolha, precisamos enfrentar o desafio. O planeta inteiro envelhece e
assumir essa realidade é mitigar riscos. Talvez, nestes tempos hipermodernos,
decidir envelhecer seja a melhor recomendação para quem questiona (ou se
questiona) sobre como envelhecer bem. A pandemia da Covid-19 nos mostrou que as
soluções individuais jamais serão promissoras e desnudou a interdependência de
cuidado ao revelar a velhice dependente. O objetivo maior, como sempre,
continua a ser a construção coletiva.
Emprestar
qualidade de vida a uma velhice cada vez mais prolongada é um dos maiores
desafios socioeconômicos contemporâneos – ao lado dos riscos suscitados pela
questão ambiental. Maior ainda para um país tão desigual quanto o Brasil,
embora nenhum país tenha obtido sucesso integral nessa questão, ao menos até
agora. Todo o planeta está diante do mesmo desafio, uma vez que a economia
capitalista jamais testemunhou o fenômeno de tamanha longevidade humana, o que
faz desse tema das ciências sociais um tanto até (ou ainda) filosófico.
“Podemos
verdadeiramente esquecer a velhice?”, questiona o filósofo Pierre-Henri
Tavoillot. Segundo ele, é aqui que encontramos um grande paradoxo: a nossa
época, que é conhecida pelo idosismo, o preconceito a qualquer sinal de
velhice, muitas vezes explícito, como foi na eleição presidencial
norte-americana de 2024, utiliza, para pensar nela, para consolá-la, para
fazê-la durar, uma energia e uma inventividade sem precedentes. Nada desperta
mais leitura do que dicas (ou segredos) de centenários para uma vida longeva e
esse mergulho na velhice forja uma filosofia das idades da vida.
Na
visão de Pierre-Henri Tavoillot, o debate estaria deslocado exageradamente para
o lado do envelhecimento ativo. Se buscarmos na filosofia, ensina ele, existe
uma linha daqueles que rejeitavam a velhice, como Mimnermo de Colófon (630-600
a.C.), um dos poetas elegíacos mais famosos da história, cujas poesias amorosas
refletiam as aspirações preciosistas dos seres humanos, sem considerar a
efemeridade da existência e o ciclo da vida. Aristóteles (384-322 a.C.) chegou
a cravar a idade da velhice do corpo em 35 anos e a do espírito em 49.
Outros
fizeram parte da turma do “apesar da idade”, isto é, a velhice não é admirável,
mas tem as compensações da “sabedoria” ou do “ainda” – permitindo energia ou
até mesmo beleza.
No time
daqueles filósofos defensores da velhice, o argumento é a velhice como a fase
de liberação das paixões que permite, de novo, o alcance à sabedoria. É a
velhice como resiliência. Aqui, Cícero (106-43 a.C.) é o mais célebre. Para
ele, a velhice só é detestável quando é o fim de uma vida desprovida de virtude
e razão. Quando a existência é bem conduzida, a velhice é a fase da recompensa.
Solon (+560 a.C.) responde a Mimnermo com uma máxima do conceito do
envelhecimento ativo: “Estou ficando velho enquanto ainda aprendo”.
Plotino
(270 d.C.) lançou mão de uma imagem para concordar: “O sábio é aquele que
consegue esculpir sua própria estátua”. Ao escolher a arte da escultura, ele
ergue a velhice à condição de nobreza pois, para os gregos, o mármore é o
material nobre e perpétuo, revelador da quintessência do humano. A querela
filosófica, descreve Pierre-Henri Tavoillot, nunca ofereceu uma última
resposta, como bem próprio das reflexões, alcançando o século XX com visões
díspares entre Friedrich Nietzsche e Simone de Beauvoir. E vale, aqui,
reproduzir o questionamento do alemão: “Toda a filosofia foi inventada apenas
para consolar o velho?”.
Se a
filosofia deixa a questão aberta, as ciências médicas insistem em estabelecer
um regramento e uma resposta concreta, muitas vezes ignorando a pluralidade da
velhice. O parâmetro darwiniano estabelecido por essas discussões desestimula a
qualidade do debate e o engajamento – para usar uma palavra da moda – em
questões societais tão importantes. Os países empreendem constantes “reformas”,
constitucionais ou não, justificadas pelo envelhecimento da população ou pela
longevidade humana.
A
grande conquista, como já destaquei em outra oportunidade, se estabelece como
um fenômeno perturbador do capitalismo. O Brasil tem um marco legal de defesa
dos direitos da pessoa idosa inquestionável. A Constituição de 1988 foi a
primeira a reconhecer a pessoa idosa como um sujeito de direitos e abriu
sustentação jurídica para a Política Nacional do Idoso (Lei 8.8842/1994) e o
Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003). No entanto, a construção de uma sociedade
superenvelhecida – uma experiência nova para todo o planeta – é uma obra
permanente no bojo da realização democrática.
Enquanto
escrevo, o país inicia a discussão no Congresso Nacional de uma Política
Nacional do Cuidado, resultado de iniciativas parlamentares somadas a uma ação
propositiva inédita do governo federal. O país ruma em direção a um Plano
Nacional de Cuidados, no qual o cuidado de longa duração para idosos é um dos
objetivos e um novo estágio civilizatório a ser almejado pela sociedade
brasileira.
Esse
ensaio de passo à frente ocorre parelho a novas barreiras de retrocesso, como
propostas de desvinculação do salário mínimo como piso previdenciário e
empenhos em redução da abrangência do Benefício de Prestação Continuada. São
direitos e benefícios já restritos face às novas demandas e necessidades na
cesta de consumo de famílias com mais idosos. Acredito que a condição
preliminar para uma discussão beneficamente consequente para nos prepararmos
para a sociedade superenvelhecida, sem correr o risco de ampliação da
desigualdade social, é um novo paradigma de discussão do envelhecimento e da
velhice no país.
A
humanidade vive duas transformações radicais: a mudança climática e a mudança
demográfica. Assim como a primeira suscita eventos ambientais extremos, como o
que ocorreu no Rio Grande do Sul, ou no pantanal do Mato Grosso, em 2024, e
tantos outros ao longo dos últimos anos; a segunda também começa a provocar o
que proponho denominar de “eventos sociais extremos”. Muitos desses eventos têm
ocorrido por um desprezo às consequências de ignorarmos o envelhecer e sua
heterogeneidade em um país tão desigual. É uma situação nova e exige pesquisa e
até a familiaridade com novos conceitos e neologismos, que surgem diante da
incapacidade dos conceitos e categorias do século XX se constituírem
explicativos para a realidade do século XXI.
O ritmo
do envelhecimento populacional brasileiro nos traz a exigência de refletirmos
sob outros padrões e perspectivas. Não só a do envelhecimento ativo – uma meta
a ser atingida e jamais uma realidade igualitária – ou muito menos do
apagamento da velhice dependente. Essa é uma urgência ao menos enquanto a
genética se diz ainda incapaz de desenvelhecer o ser humano.
A
mudança cultural é imensa para um país que sempre foi jovem e cultuou a
juventude, o corpo e a força. É preciso reconhecer as fases complementares e
interdependentes da vida. Mesmo os aparentes opostos – juventude e velhice –
são uma alternância de um ciclo que, sempre, vai atuar sobre nós de forma
coletiva. O que nos propõe Verônica Fournier é uma revinculação com a velhice,
desprezada pela lógica produtivista e vislumbrada como algo a ser descartado
pelo imediatismo econômico.
Como
ensina Gilberto Gil nos versos de “Refazenda” (um neologismo cunhado por ele na
falta de uma palavra para expressar o até então inexpressável), é preciso estar
sempre “refazendo tudo”. No século XXI, o ser humano só atingirá o bem-estar se
se reconectar com a natureza, não só a do ambiente Terra, mas a sua própria.
Reconectar-se. A velhice, até agora, é parte da natureza humana. Gilberto Gil
defende que o tempo jamais é inimigo. O tempo é parte. E onde está o azedo está
o doce. Basta saber lidar com a palavra temporão.
Os
artigos a seguir buscaram abarcar a complexidade do tema. Havia escrito “toda a
complexidade”. Evidentemente que não. Este é um livro que se pretende de
intervenção no debate, assim como a iniciativa de “Velhos”, e tantas outras no
Brasil e no exterior, para a construção de uma velhice insubmissa. Em muitos
textos, apega-se à concretude da ciência e, em outros, persegue-se o aberto
filosófico. Nunca com uma pretensão de respostas definitivas.
Fonte:
Por Jorge Félix, em A Terra é Redonda

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