Traidores
da pátria
O
último sábado foi dedicado às convenções partidárias, que oficializaram as
candidaturas às eleições de 2026. Com poucas exceções, o que se viu tinha
potencial para assustar até Stephen King. Até chegarem lá, no entanto, nomes
foram rifados, acordos não foram cumpridos, bandeiras norte-americanas foram
enaltecidas e vídeos de apaziguamento foram divulgados. Em meio a tudo isso,
chamou a atenção o abraço do afogado Javier Milei a um não menos afogado
candidato, cuja candidatura poderá ser cassada por, de forma reincidente,
burlar as determinações da Justiça Eleitoral, bem como do próprio STF. Além do
incivilizado presidente argentino, quem também “compareceu” à convenção do PL
foi Benjamin Netanyahu, ou seja, diga-me com quem seu candidato anda e te direi
quem ele é.
Mas as
férias já estão terminando e optei por não falar de política hoje, mas de
música. Se tem férias, tem música. E se tem música, tem reggae. E assim, entre
uma e outra atividade de puro ócio, dediquei um tempo a elaborar algumas
playlists para escutar durante as caminhadas que quase nunca faço. Entre as
muitas canções selecionadas, ouvi bastante “Babilônia brasileira” e “Traidores
da pátria”, ambas da banda maranhense Tribo de Jah. A canção “Babilônia
brasileira” começa com os versos: “Como pode um país continente/De extensas
terras, incontáveis riquezas/Dominado por uma elite tão inconsequente/Saqueando
o povo/semeando a incerteza/Empresários, políticos, corruptos oportunistas
constroem seus impérios manipulando a massa/Prepotentes senhores escravagistas”.
A canção se mostra bastante atual e em consonância com seu tempo ao tecer
críticas ao modo predatório de ser e de agir da elite brasileira, o que nos faz
lembrar uma fala de Nina Simone, quando certa vez disse: “Como ser artista e
não refletir seu tempo?”.
Em
“Traidores da pátria” somos apresentados ao “Senhor babilônia”, cujas
características não nos são alheias. Os primeiros versos são apresentados em
forma de questionamento. Assim, tem-se: “Aonde você pensa que vai Senhor
babilônia/Com essa sua vibe enfadonha? /Você passa com esse ar arrogante de
quem tem grana/Mas é motivo de repulsa e de vergonha/Chega a pensar que é
superior/Até é chamado de doutor/Só se for doutor em corrupção/Você não passa
de um ladrão”. A primeira canção está no disco Roots Reggae, de 1995, composto
de 13 canções que, trinta e um anos depois do seu lançamento, continuam atuais.
“Traidores da pátria”, por sua vez, e mais 16 canções, estão no disco
Confissões de um velho regueiro, de 2016, as duas na voz de Fauzi Beydoun.
A
atualidade da canção “Traidores da pátria” é gritante. Mais adiante, na mesma
letra, o eu lírico diz: “Tudo que é segredo um dia vai se conhecer/Até os teus
filhos a seu tempo vão saber/Que você não passa de um lambão/O traidor de seu
povo e de sua nação/…Senhor babilônia, teu nome vai ficar pra história/Como
integrante de uma gangue inglória/De traidores de pátria/Um busto de bronze e
uma estátua na praça/Aos traidores da pátria”. Como dito, não falamos aqui de
política, mas de música. Contudo, parafraseando Bob Marley, se a carapuça
servir…
• Constrangimento do 01 à esquerda. Por
Ricardo Mezavila
A
convenção do Partido Liberal (PL), que oficializou a candidatura do senador
Flávio Bolsonaro à presidência da república, foi difícil de assistir. O início
foi de confusão porque o espaço do Mercado Pago Hall, no estádio do Pacaembu,
em São Paulo, não foi suficiente e algumas autoridades, apoiadores e
jornalistas não conseguiram entrar.
Assistindo
pelo Youtube, tive a sensação de que estava frente à uma apresentação
evangélico-circense com momentos de entreguismo explícito do Brasil nas mãos da
extrema-direita internacional.
O ponto
alto do picadeiro foi o avatar de Jair Bolsonaro no telão soltando a pérola:
“Isso que vocês estão vendo aqui não sou eu, isso é uma simulação da minha
imagem e da minha voz feita com inteligência artificial”. Eu estou preso”.
Em
outro ato, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, genocida do povo
palestino, saudou o candidato em inglês por vídeo. Quem também deu a graça de
sua ausência foi a madrasta de Flávio, Michelle Firmo, desejando que Deus abençoasse
e desse sabedoria e força à candidatura do enteado, também
por vídeo.
O
presidente da Argentina, Javier Milei, discursou, puxou o coro “Lula ladrão” e
formou, com Flávio, uma dupla estilo Patati/Patatá dançando, para o delírio da
claque bolsonarista e do governador Tarcísio de Freitas.
No
discurso, Flávio pediu oração para o pai, repetiu velhas frases retóricas
utilizadas nas últimas campanhas com a indefectível sonora de impacto emotivo
ao fundo. Terminou com o mantra conservador de Deus, Pátria e Família.
A
leitura mais significativa do evento foi a ausência de políticos aliados do
Centrão, o que era esperado devido aos últimos acontecimentos que colocam
Flávio na mira da Polícia Federal.
Pelo
andar da campanha, que nem vice tem, e sem coligação partidária, restará a
Flávio pinçar alguém disponível para fazer o papel do Adélio. Mas não é sempre
que surge um gênio capaz de furar o cerco de dezenas de policiais, uma multidão
furiosa e sair ileso, após uma facada sem sangue, e ainda ser defendido por
advogados em série e, apesar de tudo, não ser processado pela vítima.
• Podemos deve ser mais um partido do
centrão a adotar neutralidade nas eleições
O Podemos ainda debate internamente o seu
posicionamento nas eleições deste ano, mas a cúpula da legenda inclina-se a
adotar uma postura de neutralidade na disputa presidencial, informa a Folha de
São Paulo.
Assediado
por pré-candidatos do campo da direita — sobretudo pelo senador Flávio
Bolsonaro (PL) e pelo ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) —, o
partido vem sendo pressionado para fechar alianças formais. As tratativas
internas continuam e a legenda deve bater o martelo apenas na reta final do
prazo, durante sua convenção partidária marcada para o dia 2 de agosto.
Mesmo
com as conversas em andamento, os dirigentes do Podemos já descartaram integrar
a chapa encabeçada por Romeu Zema por meio da indicação do vice. Chegou-se a
cogitar o nome do empresário Geraldo Rufino, filiado à agremiação, para ocupar
o posto ao lado do ex-governador mineiro, porém as negociações não avançaram.
Rufino, por sua vez, oficializou sua pré-candidatura ao Senado Federal.
Tanto o
PL quanto o Novo travam uma corrida por coligações para encorpar suas
campanhas. O principal objetivo de ambas as siglas é assegurar maior tempo de
propaganda gratuita no rádio e na televisão, além de ampliar a capilaridade
eleitoral.
A falta
de acertos partidários impõe obstáculos diretos aos pré-candidatos. Caso não
consolide alianças formais, Zema ficará totalmente sem tempo de exposição nos
meios de comunicação. Já Flávio Bolsonaro, se mantiver uma chapa pura ou sem o
apoio de outras siglas de médio e grande porte, terá um tempo de TV
significativamente inferior ao do presidente Lula (PT).
Do lado
do governo, a perspectiva de neutralidade do Podemos é vista de forma
favorável. Avaliando que dificilmente conseguiria atrair a legenda para o
palanque de apoio à reeleição de Lula, o Palácio do Planalto prefere que a
sigla permaneça neutra na disputa presiencial — estratégia similar à adotada
com outros partidos do centrão.
• Centrão sequestra orçamento, faz
chantagem contra o governo e sabota a vontade popular, avalia Genoino
Um dos
fundadores do Partido dos Trabalhadores, José Genoino acusou o Centrão de
apodrecer a democracia brasileira ao concentrar recursos, controlar a pauta do
Congresso e impor ao governo federal uma rotina permanente de chantagens. Em
entrevista ao programa Giro das Onze, o ex-presidente do PT afirmou que o
sistema político transformou os presidentes da Câmara, Hugo Motta
(Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), em chefes de uma
engrenagem oligárquica que sufoca a vontade popular.
Em
participação na TV 247, Genoino defendeu um plebiscito nacional sobre as
emendas parlamentares impositivas, uma reforma constitucional e uma mudança no
modelo de articulação política de um eventual quarto mandato do presidente
Lula. “O funcionamento do Congresso é autoritário, é presidencialista.
Alcolumbre decide a pauta, o Hugo Motta decide a pauta. É um escândalo”, disse.
Conforme
o petista, a pulverização das verbas destrói o planejamento público e
transforma o Orçamento da União em moeda de troca. Deputados e senadores
passaram a controlar parcelas bilionárias dos recursos federais. “A existência
de emendas impositivas com execução obrigatória compromete a institucionalidade
brasileira”.
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Plebiscito contra as emendas impositivas
Com a
dificuldade de reunir três quintos dos votos no Congresso para mudar a
Constituição, Genoino defendeu a convocação de um plebiscito específico. A
população decidiria se aceita ou rejeita a execução obrigatória das emendas
parlamentares. “As esquerdas deveriam propagar nesta eleição um plebiscito
nacional para que o povo seja consultado se concorda com emendas impositivas ou
não”, afirmou.
O
ex-deputado rejeitou o medo de consultar a sociedade. Para Genoino, o campo
democrático não pode defender a soberania popular apenas em discursos e recuar
quando o povo precisa decidir sobre o destino do dinheiro público. “Nós não
podemos ficar com medo de consultar o povo”, declarou.
O
Orçamento da União prevê R$ 61 bilhões em emendas parlamentares em 2026.
Congressistas indicam a destinação de verbas federais para obras, aquisição de
equipamentos, manutenção de serviços públicos e investimentos em estados e
municípios, sobretudo nas regiões que representam politicamente.
Mas,
conforme denunciam uma parte dos analistas, o Congresso se apropria de uma
parcela maior do orçamento do que deveria e, por consequência, limita a atuação
do Poder Executivo.
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Atuação do governo e as eleições
Durante
sua análise na TV 247, Genoino disse que o governo Lula precisa ficar atento ao
negociar o apoio parlamentar por meio dos presidentes da Câmara e do Senado.
Esse método fortalece intermediários que controlam bancadas, travam projetos e
cobram novas concessões a cada votação. “Quando você faz a aliança com o
Centrão, você dá muita força para o presidente da Câmara ou para o presidente
do Senado”, afirmou.
O
ex-presidente do PT defendeu negociações diretas com partidos e federações,
além de uma articulação permanente com movimentos sociais, sindicatos e
organizações populares. O Executivo, segundo Genoino, precisa equilibrar a
atuação institucional com a pressão das ruas. “Tem um pé no Parlamento, um pé
na sociedade, tem um pé na institucionalidade e um pé nas ruas”, resumiu.
Ao
comentar sobre as eleições, marcadas para o dia 4 de outubro, o ex-dirigente do
PT afirmou que, atualmente, não existe uma candidatura competitiva contra o
presidente Lula, líder nas pesquisas, e contra o senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ), segundo colocado.
Na
entrevista, Genoino afirmou que “não há condições para” a chamada terceira via
e pontuou que o clã Bolsonaro “quer sobreviver com esse eleitorado raiz para
eleger deputados e senadores”.
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Comparações
O
diagnóstico aponta para um Parlamento que pouco lembra a instituição desenhada
pela Constituição de 1988. Em vez de deliberar com transparência, o Congresso
opera sob acordos fechados, interesses regionais e liberações bilionárias de
recursos públicos. O plenário, que deveria representar o centro das decisões,
perdeu espaço para gabinetes blindados e negociações conduzidas por poucos
caciques.
Na
entrevista ao 247, Genoino comparou esse cenário com sua experiência como
deputado constituinte. Segundo ele, presidentes da Câmara como Ulysses
Guimarães (1916-1997), Paes de Andrade (1927-2015), Luís Eduardo Magalhães
(1955-1998) e João Paulo Cunha respeitavam o colégio de líderes, a negociação
aberta e a capacidade de decisão do plenário.
“Você
tinha negociação pública aberta. Outra coisa, você podia fazer debate em
plenário com obstrução. Hoje praticamente é impossível, porque se criou um
autoritarismo vertical do poder do presidente da Câmara”.
Fonte:
Por Carlos Carvalho, em Brasil 247

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