Educação
para um projeto de nação
A
política pública da Educação exige atenção especial e tratamento prioritário.
Ela não pode ser compreendida como um apêndice de outras políticas públicas,
mas sim como tema fundamental e transversal de qualquer projeto consistente de
país, e a principal meta desse projeto deve ser a construção da soberania
nacional.
Contudo,
faz-se necessário ampliar o conceito corrente de soberania. Como bem nos legou
Anísio Teixeira, patrono da escola brasileira, e Darcy Ribeiro, a soberania
nacional não se restringe à dimensão militar ou ao domínio territorial; ela
abrange, de maneira indissociável, a soberania cultural, a soberania
educacional e a soberania científica e tecnológica.
Vivemos
um momento histórico no qual essa concepção substantiva de soberania se torna
ainda mais premente. A chamada quarta revolução industrial, impulsionada pelas
tecnologias da informação e da comunicação, com destaque para a inteligência
artificial, produz impactos profundos e abrangentes sobre o mundo do trabalho,
sobre os sistemas educacionais, a indústria, as atividades econômicas e todos
os demais aspectos da vida contemporânea. Além desses fenômenos, há outros em
acelerada marcha.
No
cerne dessas grandes transformações que sacodem o cenário mundial, situam-se a
educação, a ciência, a tecnologia e a inovação. Por essa razão, um projeto de
nação voltado à soberania deve manifestar-se, necessariamente, por meio
justamente de um projeto integrado de educação, ciência, tecnologia e inovação,
que se apresente de modo transversal em relação às demais agendas estratégicas:
a defesa da pátria, a transição socioecológica, a transição demográfica, a Nova
Indústria Brasil e o processo de reindustrialização verde que o Brasil se
propôs a construir, a questão das terras raras com a sua industrialização no
Brasil, bem como a defesa do Estado nacional contra a investida do crime
organizado.
Uma
constatação relevante, nesse cenário, é a de que ainda existe um hiato entre a
pesquisa realizada nas universidades e ICTs e seu impacto nos processos de
inovação da indústria brasileira e do chamado setor produtivo, a quem cabe, de
fato, conferir escala à inovação. Portanto, terá efeito estratégico o
desenvolvimento de mecanismos que promovam uma relação sinérgica deste setor
com a ciência brasileira, superando o imediatismo que comumente mobiliza essa
relação. Quando as barreiras forem rompidas, não haverá dúvidas acerca dos
benefícios e impactos tanto para a educação quanto para a indústria brasileira.
Nesse
contexto, compreendemos que nós, educadores e agentes desse processo, assumimos
um papel mobilizador dessas ações. Reafirmamos, portanto, a necessidade de
encarar a Educação básica e a Educação superior de forma integrada, tal como
defenderam, em diferentes momentos, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Paulo
Freire, dentre outros.
Não se
mostra razoável contrapor esses dois níveis de ensino, tampouco cogitar que, em
meio à quarta revolução industrial, na qual as grandes potências mundiais
investem massivamente em ciência e tecnologia, possamos concentrar esforços no
momento atual apenas na educação básica em detrimento da educação superior,
especialmente a pública. A educação, desde à voltada para a primeira infância
até a pós-graduação, deve ser tratada como um sistema orgânico e contínuo, tal
como já previsto na legislação.
Nesse
sentido, elegemos três ordens de prioridade imediatas: primeiro, a construção
efetiva do Sistema Nacional de Educação, previsto no Plano Nacional de Educação
(PNE); segundo, a implementação integral de todas as metas constantes do
referido plano; e, terceiro, o enfrentamento da questão do financiamento, que
exige a aprovação do Projeto de Lei 265/2025, previsto como complementar ao PNE
e já em tramitação nas comissões de Educação e de Constituição e Justiça da
Câmara de Deputados.
Essa
medida garantirá um acréscimo anual de vinte e dois bilhões de reais para a
educação, sendo 85% destinados à educação básica e 15% à educação superior.
Trata-se do primeiro passo, entre muitos outros que ainda se farão necessários,
para que possamos cumprir as metas relativas ao financiamento educacional.
Todavia,
não basta assegurar os recursos; é imprescindível que pensemos uma educação
articulada com as grandes transformações nacionais e internacionais. Devemos
refletir sobre o Brasil como país de protagonismo na mudança geopolítica em
curso, como ator fundamental para o fortalecimento do Sul Global e,
definitivamente, para a superação de nosso histórico de neocolônia exportadora
de matérias-primas e de produtos de baixo valor agregado.
Não
podemos mais nos conformar como país dependente, subalterno, frágil em sua
defesa nacional, em sua ciência e tecnologia, em sua capacidade de inteligência
informacional e no domínio da inteligência artificial, nem tampouco como nação
desindustrializada.
Ao
mesmo tempo, cabe-nos preservar o meio ambiente e compreendê-lo como nosso
principal ativo econômico. O cientista Carlos Nobre, que nos revelou o fenômeno
dos rios voadores da Amazônia, aponta inequivocamente para a necessidade de nos
concebermos como “potência ambiental”.
A
biodiversidade e a sociobiodiversidade podem impulsionar nossa
reindustrialização verde, permitindo que, por meio de investimentos robustos em
ciência, tecnologia e inovação, nos tornemos uma pátria capaz de oferecer ao
mundo soluções em sustentabilidade ambiental, avanços na biotecnologia, na
medicina e na genética, bem como revoluções nos campos da transição energética
e da sustentabilidade em sentido lato.
É por
tudo isso que entendemos que devemos criar convergências entre atores tão
diversos quanto trabalhadores da Educação, gestores públicos, empresários
comprometidos com a soberania, integrantes do Movimento dos Sem Terra e
representantes dos povos indígenas, dentre outros.
Essa
articulação visa assegurar que a educação, a ciência, a tecnologia e a
inovação, enquanto elementos transversais à construção de uma nação soberana,
não apenas recebam prioridade orçamentária e política, mas também interajam
sinergicamente com o projeto mais amplo de desenvolvimento.
Remetemo-nos,
aqui, ao documento “Pilares de Projeto de Nação” entregue ao presidente Lula no
Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDESS), ao Plano Brasil 2050,
elaborado pelo Ministério do Planejamento, bem como à constatação inescapável
de que a sociedade e o Estado brasileiros precisam de instrumentos consistentes
de planejamento de longo prazo e de um Estado forte e indutor do
desenvolvimento.
A
garantia de que esse planejamento seja executado e de que o processo de
transformação social se efetive plenamente depende hoje do investimento nas
forças produtivas que a nação possui, no seu desenvolvimento cultural e
científico, e exige nosso engajamento coletivo.
Nessa
direção, estamos unidos para promover o aprofundamento da concepção de educação
integral na educação básica, a universalização da educação infantil e da
creche, bem como a construção de um ensino médio que garanta não apenas a
formação propedêutica para o acesso à educação superior, mas também a formação
profissional que assegure empregabilidade e inserção digna no mundo do trabalho
para os jovens.
Paralelamente,
reivindicamos uma Educação superior antenada com o que as grandes potências do
Ocidente e do Oriente vêm realizando: uma universidade que não se limite ao
ensino e à formação de profissionais, mas que integre pesquisa e extensão de
maneira substantiva, e que estabeleça sinergias frutíferas com os movimentos
sociais, com as empresas, com a indústria e com o setor público.
Somente
assim poderemos garantir o aumento da produtividade, a superação das
desigualdades sociais e as transformações econômicas e sociais indispensáveis
para que o Brasil não se torne obsoleto na grande corrida tecnológica e
civilizatória que o mundo contemporâneo experimenta.
Nosso
desafio para os próximos anos exige então uma agenda propositiva que combine a
reivindicação por mais recursos, um Estado mais forte e capaz de ser planejador
e indutor e uma sociedade com um projeto de nação amplo, tendo a educação como
vetor de soberania, justiça social e desenvolvimento autônomo para o Brasil.
Fonte:
Por Angelita Pereira de Lima, Heleno Araújo e Penildon Silva Filho, em A Terra
é Redonda

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