terça-feira, 28 de julho de 2026

Com Flávio, Eduardo e Figueiredo, EUA preparam terreno para não reconhecer eleição no BR

A notícia não é boa e deve ser tratada com a maior seriedade – inclusive pelas autoridades competentes, como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O governo de Donald Trump está preparando uma armação para questionar a integridade das urnas brasileiras, de maneira coordenada com Eduardo e Flávio Bolsonaro, e Paulo Figueiredo.

A estratégia tem dois objetivos: criar desconfiança aqui no Brasil quanto aos resultados, causando ruído diante da possível derrota de Flávio para Lula; e criar uma base documental e narrativa para embasar uma recusa dos EUA em reconhecer o resultado eleitoral.    

No sábado, o jornal Washington Post denunciou que os EUA planejavam enviar dois oficiais indicados por Trump para Brasília para questionar a integridade das urnas, encontrando-se com políticos que questionam a integridade eleitoral e escrevendo um relatório apontando problemas, que não precisaria conter nem um fio de verdade.

Entre os enviados por Trump estaria Samuel Samson, de 27 anos, subsecretário-adjunto de Estado para o Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, designado este ano, que tem liderado uma guerra contra a Europa pelo que os trumpistas vêem como “censura política” e “lawfare” à extrema direita no bloco. No final de maio, Samson liderou uma comitiva que foi a Londres se encontrar com manifestantes anti-aborto e grupos “anti-cultura do cancelamento”.   

O plano era virem aqui para criar um fato político. Uma fake news criada desde o Departamento de Estado.

Os pedidos de visto foram negados pelo Itamaraty. Mas três eventos nos últimos dias demonstram que a campanha contra as eleições não vai acabar, e está sendo coordenada pelo governo Trump junto ao verdadeiro QG da campanha de Flávio Bolsonaro, que tem sede no Texas e é liderado por Eduardo e Paulo Figueiredo.

Em 16 de julho, Trump foi à TV americana para atacar as urnas eletrônicas nos EUA.

O que ele disse? “Os americanos foram descaradamente enganados sobre a segurança da nossa infraestrutura eleitoral, incluindo a segurança das máquinas de votação eletrônica.” 

Acusou a China de ter acessado dados de eleitores. Em um discurso de 20 minutos, ele afirmou que relatórios de inteligência suprimidos do público, supostamente, alertariam sobre “vulnerabilidades chocantes de nossa infraestrutura eleitoral”. Na democracia mais antiga do continente, chegou a questionar a habilidade dos EUA de terem “eleições livres e justas”. O objetivo claro era já preparar um golpe contra as eleições de meio de mandato que acontecem em novembro, quando ele pode perder o controle da Câmara e do Senado.

Mas o pronunciamento foi concatenado a uma renovada campanha golpista de Flávio e Eduardo Bolsonaro, lançada a seguir.

Cinco dias depois, Flavio reuniu-se com diplomatas em um evento em Brasília e colocou em dúvida a integridade das urnas eletrônicas, conclamando-os a enviarem observadores eleitorais. Disse que as urnas eletrônicas brasileiras têm a mesma origem das urnas da empresa Smartmatic e que um relatório da CIA mostra que a empresa estaria envolvida em um plano de fraude do governo venezuelano nas eleições de 2012. O TSE já afirmou repetidas vezes que não usa urnas da empresa ou que ela tenha acesso aos seus dados.

Com a reunião, Flávio repetiu 4 anos depois a reunião de Bolsonaro com diplomatas em 2022, que o tornou inelegível.

Então, quatro dias depois da fala do irmão, Eduardo Bolsonaro fez uma live escandalosa junto com Fernando Cerimedo – sim, o marqueteiro argentino que publicou um vídeo com um suposto “dossiê” afirmando ter havido fraude nas eleições de 2022. O dossiê foi escrito por Mauro Cid e fazia parte do plano de golpe de Estado, segundo a PF.

Cerimedo foi assessor de Milei e o apresentou a Eduardo, tendo pago uma viagem do 03 à Argentina entre o primeiro e o segundo turno de 2022, como a Pública revelou. 

Na live, ambos repetiram todas as mentiras da live golpista de 2022, como a entrada de votos fraudados depois das 5 da tarde, e uma suposta diferença nos logs entre urnas novas e urnas mais antigas, e que somente o Brasil teria urnas eletrônicas. Tudo já desmentido pelo TSE.

A narrativa central criada desde o governo Trump é que, depois do fim da USAID, a extrema direita tem ganhado todas as eleições no continente. Se a esquerda ganha, é porque houve fraude.

Sobre as eleições de 2022, ambos disseram que, juntos, eles “encontraram a fraude”.

Eduardo: Olha aqui… Não é necessário fraudar 100% das urnas, correto, Cerimedo? Se você fraudar apenas uma porcentagem delas, já dá para fazer a fraude acontecer e aquela pessoa que você deseja, seja a vencedora. Correto?

Cerimedo: Correto. Você necessita de 5% ou 10% das máquinas para trocar o resultado, nada mais. Lembre-se: a fraude estava nas máquinas, mas, no centro de processamento, você pode alterar o log. Então, pode disfarçar o que aconteceu. Mas eles não contavam que nós íamos…

Eduardo: …Encontrar a fraude.

Durante a live, Eduardo apresentou slides feitos pela “Revista Timeline”, pertencente ao blogueiro Allan dos Santos.

Ele atacou diretamente o TSE. Afirmou que “em regimes autoritários, quem controla as eleições, controla também os auditores. A centralização tecnológica é precisamente o vetor da fraude, não a sua blindagem”.

Seguiu: “O sistema eleitoral digital global carrega uma vulnerabilidade intrínseca, a capacidade silenciosa de comprometer e fraudar centenas de milhões de registros sob demanda da autoridade central. Então, meus caros, isso aqui, como é que você soluciona isso? Se você tiver um voto no papel, você soluciona isso.”

A live aconteceu depois de Eduardo ter garantido o Green Card americano e estar seguramente longe da Justiça do Brasil, onde já foi condenado a 4 anos e 3 meses pelo crime de coação no curso do processo.

Com ele, a narrativa do golpe segue vivíssima e é parte central da campanha do candidato do PL.

Se engana quem acha que, com a negativa do visto aos delegados do Departamento de Estado, os ataques contra nossas eleições irão parar.

Donald Trump já demonstrou cabalmente que se importa com todas as eleições deste continente e vai intervir tanto quanto possível, como fez na Argentina, em Honduras e na Colômbia.

No Brasil, não vai ser diferente. A visita dos enviados é apenas um dos muitos esforços que visarão abrir as portas para que os EUA rejeitem o resultado democrático das urnas e pressionem outros governos da reunião a fazerem o mesmo – alguém tem alguma dúvida do que fará a Argentina de Milei?

•        Embaixada dos EUA acionou líder do PL para visita que questionaria urnas no Brasil. Por Dyepeson Martins

A embaixada dos EUA no Brasil entrou em contato com o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcanti (RJ), para que o parlamentar recebesse Riley Bernes e Samuel Samson, dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA — órgão equivalente ao Ministério das Relações Exteriores no Brasil. A delegação teve os vistos negados pelo Consulado Brasileiro em Washington e, conforme noticiado pelo jornal The Washington Post, planejava se reunir com lideranças políticas em Brasília para lançar dúvidas sobre a integridade do processo eleitoral no país.

Sóstenes confirmou à Agência Pública ter sido acionado por meio da assessoria da embaixada norte-americana e relatou não ter sido informado sobre o tema da reunião.

“A embaixada americana entrou em contato comigo pedindo para receber duas autoridades do governo americano. Eu disse que receberia com todo prazer. Eu recebo toda e qualquer autoridade de todos os países do mundo para falar sobre qualquer assunto, sem nenhum problema”, reforçou o deputado. O parlamentar também questionou o motivo da negação dos vistos pelo governo. “Nunca soube que essas autoridades falariam sobre urnas. Mesmo que fosse, é proibido falar sobre urnas eletrônicas?”.

Segundo o Itamaraty, a justificativa oficial apresentada pelos americanos para virem ao país era fazer contatos eleitorais e promover discussões sobre liberdade de expressão. O governo dos Estados Unidos não detalhou os planos de viagem dos dois funcionários.

<><> O impasse Daniel Perez

Os vistos foram negados na semana passada em meio a impasses diplomáticos com os EUA. Em 1º de junho, o presidente Donald Trump gerou mal-estar no governo brasileiro ao anunciar — sem antes consultar o Itamaraty, como preconizam as regras da diplomacia — o deputado republicano da Flórida, Daniel Perez, como embaixador no Brasil. Além disso, em 15 de julho, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, anunciou a imposição de uma tarifa de 25% sobre diversos produtos brasileiros. Na publicação feita no X (antigo Twitter), Rubio ainda culpou nominalmente o presidente Lula pela imposição das taxas.

A resposta brasileira a Rubio, um dos nomes mais influentes do governo americano e que se autodenomina “anticomunista visceral”, teve um tom mais direto e contundente do que o adotado após a aplicação da tarifa global de 10%, em 2 de abril de 2025. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, declarou que as taxas ocorreram porque o Brasil não se “curvou às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações” com o governo dos EUA.

Procurado pela reportagem, o Itamaraty não comentou as razões para a negação dos vistos e reforçou que, quanto à aprovação ou não do nome de Daniel Perez à embaixada no Brasil, o processo segue de forma sigilosa. 

As tensões entre os dois países emergem no contexto das intervenções políticas de Donald Trump na América Latina e das relações com o bolsonarismo, ala mais representativa do ultraconservadorismo no Brasil. Essas conexões são estratégicas na corrida eleitoral à Presidência da República, liderada pelo presidente Lula (PT) e pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

 

Fonte: Por Natalia Vianna, da Agencia Pública

 

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