Ortodoxia
e heterodoxia em debate
O grupo
no Whatsapp, denominado Sociedade Brasileira para o Progresso da Política
(SBPP), registrou: “Oto Doxo está digitando…”. Ele escreveu: “Se a taxa de
juros não remunera adequadamente a poupança, as famílias consomem tudo, há
insuficiência de fundos, excesso de demanda e inflação”.
Heitor
Herético respondeu: “As famílias de baixa renda não decidem entre consumir e
poupar segundo uma curva de preferência intertemporal. Consomem porque precisam
sobreviver. O consumo delas depende do emprego, do salário, da aposentadoria,
das transferências e do acesso ao crédito. Isso é apenas uma imperfeição
empírica necessitada de ser corrigida. No Brasil, sua “imperfeição” abrange a
maioria da população”.
Oto
percebeu uma oportunidade para seu argumento: “Justamente por isso é necessário
elevar a poupança nacional. Sem ela, não há investimento sustentável”.
Heitor
escreveu: “A baixa poupança é consequência do baixo investimento, da renda
estagnada e da pobreza. Uma economia crescendo pouco gera pouca renda e,
portanto, pouca poupança. Você transforma o resultado em causa. Sem disciplina
fiscal, o Estado absorve a poupança privada. O Estado gasta e cria renda
privada. O déficit público é superávit financeiro do setor não governamental. O
vazamento externo, no déficit do balanço de transações correntes, não é
“poupança externa” absorvida, mas sim remessa de lucros das transnacionais aqui
instaladas e pagamentos de juros e royalties”.
– Então
o déficit não tem limite? – Tem limites reais, cambiais, inflacionários,
políticos e institucionais. Não o limite doméstico de uma família. O governo,
assim como as empresas não-financeiras e os bancos, nenhum deles “paga a
dívida”, mas sim fazem a rolagem dela. – O governo precisa pagar suas contas
apenas com arrecadação fiscal! – O Estado não recebe salário e nem se aposenta
e morre. Ele emite a moeda nacional na qual se endivida.
Nesse
momento, um professor de Métodos de análise econômica deu seu pitaco: “Colegas,
é útil distinguir identidades contábeis, causalidades econômicas e restrições
institucionais”.
Ninguém
lhe respondeu. A mensagem foi rapidamente soterrada pela discussão.
Oto
voltou ao ataque: “O Mercado exige juros altos porque percebe o risco fiscal”.
Heitor retrucou: “E os juros altos elevam os encargos financeiros, pioram o
déficit nominal e reforçam a percepção de risco fiscal por parte dos rentistas
desinformados. Sua causa é também consequência em um processo de
retroalimentação”.
– Isso
se chama dominância fiscal. – Isso se chama circuito autorreforçado.
O Banco
Central precisa preservar a credibilidade e sua independência! – Diante da pressão midiática do lobby dos
próprios beneficiados pelos juros?
– Você
está insinuando haver uma captura institucional pela “porta-giratória” entre a
Autoridade Monetária e a Faria Lima?! – Estou identificando um evidente
conflito de interesses. – Teoria conspiratória. – Não. Economia política.
O
debate já durava dias. Oto comia diante do computador. Heitor deixara de
dormir. Os duzentos e dois espectadores acompanhavam em silêncio disciplinado.
Um
humilde professor ousou perguntar: – Afinal, qual evidência empírica permitiria
a um dos dois mudar de opinião? Oto respondeu primeiro: “Se nosso país mantiver
juros artificialmente baixos e obtiver inflação controlada, equilíbrio externo
e estabilidade fiscal, durante período prolongado, reconsiderarei minha
posição”.
Heitor
escreveu: “Sempre será possível ao economista ortodoxo diagnosticar a
posteriori: a inflação teria sido menor com juros mais altos ou uma recessão”.
Oto rebateu: “E qual evidência faria você mudar de opinião?”.
Heitor
respondeu: “Se for demonstrado a poupança anteceder causalmente o investimento,
em um sistema bancário multiplicador de moeda, via rodadas de
empréstimos-depósitos-empréstimos, e os juros altos não redistribuírem
rendimentos para os credores ou os rentistas, reconsiderarei minha posição”.
Oto
escreveu em tom debochado: “Sempre será possível ao economista heterodoxo
atribuir os resultados às instituições, à história e ao poder”.
O jovem
professor percebeu o problema: “Então as evidências não decidem?”. Otávio
respondeu: “Decidem, se forem interpretadas por meu modelo coerente”. Heitor
respondeu: “Decidem, caso sejam situadas institucional e historicamente”. Oto
acrescentou: “Sem teoria, os fatos são mudos…”. Heitor replicou: “Sem história,
a teoria é cega”.
A
discussão finalmente encontrou seu verdadeiro objeto. Não era mais a taxa de
juros. Era a respeito do método de análise econômica. Oto argumentava com base
em suas costumeiras premissas: Homo economicus, indivíduos racionais, atomismo,
informações simétricas. Desses axiomas, deduzia relações funcionais, em sua vã
tentativa de organizar a realidade complexa. Quando os fatos se afastavam do
modelo, identificava imperfeições, rigidezes ou interferências institucionais
contra “o que deveria ser”, segundo sua idealização.
Heitor
se referenciava em processos históricos e institucionais: inflação passada,
indexação, bancos públicos, títulos pós-fixados, conflitos distributivos,
estrutura de poder. A partir dessas recorrências, induzia explicações
temporárias de “o que é”. Quando uma teoria geral não baixava seu nível de
abstração, para ser aplicada às particularidades brasileiras, considerava-a
inadequada ao objeto de análise.
Para
Oto, o Brasil era um caso imperfeito de uma teoria abstrata universal. Para
Heitor, essa teoria pura era baseada em uma economia de mercado do capitalismo
avançado, elevado indevidamente à condição de verdade. Esquecia-se desses
países terem “chutado a escada”, depois de subirem…
Já era
tarde quando o administrador do grupo, alarmado com as duzentas e oitenta e
seis mensagens não lidas, tentou encerrar o assunto: “Colegas, foi excelente e
respeitoso o debate. Creio ter havido convergências importantes”.
Oto
escreveu: “Concordamos apenas sobre a Selic produzir efeitos sobre crédito,
investimento e consumo”. Heitor concluiu: “Discordamos sobre as causas da
inflação, os canais de transmissão da política monetária, os beneficiários e a
intensidade dos juros”. “Mas reconhecemos a importância das instituições…”
insistiu o administrador.
Oto
escreveu: “Como distorções a serem superadas no modelo de livre-mercado”.
Heitor respondeu: “Como constituintes da própria realidade”. O administrador
desistiu…
Antes
de sair do grupo, um dos participantes silenciosos perguntou: “Depois de tanta
discussão, algum de vocês mudou de opinião?”. Oto respondeu: “Não. Os
argumentos de Heitor confirmam a necessidade de uma ciência econômica rigorosa
para evitar conclusões impressionistas”.
Heitor
respondeu: “Não. Os argumentos de Oto visam apenas proteger os axiomas do seu
método dedutivo-racional contra qualquer evidência histórica”. Os dois ficaram
satisfeitos. Cada um julgava ter vencido.
Na
manhã seguinte, Oto publicou uma coluna no jornal Folha de S. Paulo, intitulada
“Porque a heterodoxia brasileira se recusa a compreender os juros reais”.
Heitor publicou um artigo no jornal GGN: “Porque a ortodoxia brasileira se
recusa a compreender o Brasil”.
Os
textos foram compartilhados no mesmo grupo de WhatsApp. Nenhum dos dois leu o
artigo do outro até o fim. Desse modo, depois de finalmente debaterem,
confirmaram por qual razão jamais haviam sido convidados para debater
presencialmente: não porque lhes faltassem argumentos, mas porque lhes sobrava
certeza.
A
verdade, isto é, o todo – configurado pela complexidade emergente a cada
conjuntura –, presenciou apenas uma vã tentativa de aproximação entre as
diversas mensagens. Continuou lá fora – histórica demais para caber
inteiramente em um modelo abstrato e complexa demais para emergir apenas da
enumeração dos fatos e das instituições.
Fonte:
Por Fernando Nogueira da Costa, em A Terra é Redonda

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