terça-feira, 28 de julho de 2026

Ortodoxia e heterodoxia em debate

O grupo no Whatsapp, denominado Sociedade Brasileira para o Progresso da Política (SBPP), registrou: “Oto Doxo está digitando…”. Ele escreveu: “Se a taxa de juros não remunera adequadamente a poupança, as famílias consomem tudo, há insuficiência de fundos, excesso de demanda e inflação”.

Heitor Herético respondeu: “As famílias de baixa renda não decidem entre consumir e poupar segundo uma curva de preferência intertemporal. Consomem porque precisam sobreviver. O consumo delas depende do emprego, do salário, da aposentadoria, das transferências e do acesso ao crédito. Isso é apenas uma imperfeição empírica necessitada de ser corrigida. No Brasil, sua “imperfeição” abrange a maioria da população”.

Oto percebeu uma oportunidade para seu argumento: “Justamente por isso é necessário elevar a poupança nacional. Sem ela, não há investimento sustentável”.

Heitor escreveu: “A baixa poupança é consequência do baixo investimento, da renda estagnada e da pobreza. Uma economia crescendo pouco gera pouca renda e, portanto, pouca poupança. Você transforma o resultado em causa. Sem disciplina fiscal, o Estado absorve a poupança privada. O Estado gasta e cria renda privada. O déficit público é superávit financeiro do setor não governamental. O vazamento externo, no déficit do balanço de transações correntes, não é “poupança externa” absorvida, mas sim remessa de lucros das transnacionais aqui instaladas e pagamentos de juros e royalties”.

– Então o déficit não tem limite? – Tem limites reais, cambiais, inflacionários, políticos e institucionais. Não o limite doméstico de uma família. O governo, assim como as empresas não-financeiras e os bancos, nenhum deles “paga a dívida”, mas sim fazem a rolagem dela. – O governo precisa pagar suas contas apenas com arrecadação fiscal! – O Estado não recebe salário e nem se aposenta e morre. Ele emite a moeda nacional na qual se endivida.

Nesse momento, um professor de Métodos de análise econômica deu seu pitaco: “Colegas, é útil distinguir identidades contábeis, causalidades econômicas e restrições institucionais”.

Ninguém lhe respondeu. A mensagem foi rapidamente soterrada pela discussão.

Oto voltou ao ataque: “O Mercado exige juros altos porque percebe o risco fiscal”. Heitor retrucou: “E os juros altos elevam os encargos financeiros, pioram o déficit nominal e reforçam a percepção de risco fiscal por parte dos rentistas desinformados. Sua causa é também consequência em um processo de retroalimentação”.

– Isso se chama dominância fiscal. – Isso se chama circuito autorreforçado.

O Banco Central precisa preservar a credibilidade e sua independência! –  Diante da pressão midiática do lobby dos próprios beneficiados pelos juros?

– Você está insinuando haver uma captura institucional pela “porta-giratória” entre a Autoridade Monetária e a Faria Lima?! – Estou identificando um evidente conflito de interesses. – Teoria conspiratória. – Não. Economia política.

O debate já durava dias. Oto comia diante do computador. Heitor deixara de dormir. Os duzentos e dois espectadores acompanhavam em silêncio disciplinado.

Um humilde professor ousou perguntar: – Afinal, qual evidência empírica permitiria a um dos dois mudar de opinião? Oto respondeu primeiro: “Se nosso país mantiver juros artificialmente baixos e obtiver inflação controlada, equilíbrio externo e estabilidade fiscal, durante período prolongado, reconsiderarei minha posição”.

Heitor escreveu: “Sempre será possível ao economista ortodoxo diagnosticar a posteriori: a inflação teria sido menor com juros mais altos ou uma recessão”. Oto rebateu: “E qual evidência faria você mudar de opinião?”.

Heitor respondeu: “Se for demonstrado a poupança anteceder causalmente o investimento, em um sistema bancário multiplicador de moeda, via rodadas de empréstimos-depósitos-empréstimos, e os juros altos não redistribuírem rendimentos para os credores ou os rentistas, reconsiderarei minha posição”.

Oto escreveu em tom debochado: “Sempre será possível ao economista heterodoxo atribuir os resultados às instituições, à história e ao poder”.

O jovem professor percebeu o problema: “Então as evidências não decidem?”. Otávio respondeu: “Decidem, se forem interpretadas por meu modelo coerente”. Heitor respondeu: “Decidem, caso sejam situadas institucional e historicamente”. Oto acrescentou: “Sem teoria, os fatos são mudos…”. Heitor replicou: “Sem história, a teoria é cega”.

A discussão finalmente encontrou seu verdadeiro objeto. Não era mais a taxa de juros. Era a respeito do método de análise econômica. Oto argumentava com base em suas costumeiras premissas: Homo economicus, indivíduos racionais, atomismo, informações simétricas. Desses axiomas, deduzia relações funcionais, em sua vã tentativa de organizar a realidade complexa. Quando os fatos se afastavam do modelo, identificava imperfeições, rigidezes ou interferências institucionais contra “o que deveria ser”, segundo sua idealização.

Heitor se referenciava em processos históricos e institucionais: inflação passada, indexação, bancos públicos, títulos pós-fixados, conflitos distributivos, estrutura de poder. A partir dessas recorrências, induzia explicações temporárias de “o que é”. Quando uma teoria geral não baixava seu nível de abstração, para ser aplicada às particularidades brasileiras, considerava-a inadequada ao objeto de análise.

Para Oto, o Brasil era um caso imperfeito de uma teoria abstrata universal. Para Heitor, essa teoria pura era baseada em uma economia de mercado do capitalismo avançado, elevado indevidamente à condição de verdade. Esquecia-se desses países terem “chutado a escada”, depois de subirem…

Já era tarde quando o administrador do grupo, alarmado com as duzentas e oitenta e seis mensagens não lidas, tentou encerrar o assunto: “Colegas, foi excelente e respeitoso o debate. Creio ter havido convergências importantes”.

Oto escreveu: “Concordamos apenas sobre a Selic produzir efeitos sobre crédito, investimento e consumo”. Heitor concluiu: “Discordamos sobre as causas da inflação, os canais de transmissão da política monetária, os beneficiários e a intensidade dos juros”. “Mas reconhecemos a importância das instituições…” insistiu o administrador.

Oto escreveu: “Como distorções a serem superadas no modelo de livre-mercado”. Heitor respondeu: “Como constituintes da própria realidade”. O administrador desistiu…

Antes de sair do grupo, um dos participantes silenciosos perguntou: “Depois de tanta discussão, algum de vocês mudou de opinião?”. Oto respondeu: “Não. Os argumentos de Heitor confirmam a necessidade de uma ciência econômica rigorosa para evitar conclusões impressionistas”.

Heitor respondeu: “Não. Os argumentos de Oto visam apenas proteger os axiomas do seu método dedutivo-racional contra qualquer evidência histórica”. Os dois ficaram satisfeitos. Cada um julgava ter vencido.

Na manhã seguinte, Oto publicou uma coluna no jornal Folha de S. Paulo, intitulada “Porque a heterodoxia brasileira se recusa a compreender os juros reais”. Heitor publicou um artigo no jornal GGN: “Porque a ortodoxia brasileira se recusa a compreender o Brasil”.

Os textos foram compartilhados no mesmo grupo de WhatsApp. Nenhum dos dois leu o artigo do outro até o fim. Desse modo, depois de finalmente debaterem, confirmaram por qual razão jamais haviam sido convidados para debater presencialmente: não porque lhes faltassem argumentos, mas porque lhes sobrava certeza.

A verdade, isto é, o todo – configurado pela complexidade emergente a cada conjuntura –, presenciou apenas uma vã tentativa de aproximação entre as diversas mensagens. Continuou lá fora – histórica demais para caber inteiramente em um modelo abstrato e complexa demais para emergir apenas da enumeração dos fatos e das instituições.

 

Fonte: Por Fernando Nogueira da Costa, em A Terra é Redonda 

 

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