Em
céu de brigadeiro?
Quem
podia prever que Lula sairia das cordas em meros dois meses de pré-campanha
eleitoral? As pesquisas (Quaest, Datafolha, Atlas, outras) de abril e maio
mostravam um recuo do presidente nas expectativas de voto em todos os quesitos:
regiões, gênero, renda, faixa etária, educação, religião. As perdas eram
contínuas mesmo em categorias nas quais o presidente sempre dominou, como as
mulheres, os nordestinos e os mais pobres.
Não era
uma queda espetacular, mas uma lenta erosão que se iniciou no último trimestre
de 2025 e se acelerou levemente nos primeiros quatro meses deste ano. As
enquetes apontavam para um Flávio Bolsonaro com um ponto acima de Lula no
segundo turno, em maio e, para piorar, qualquer dos outros direitistas testados
apareciam bem competitivos, com Caiado até à frente de Lula em uma das
pesquisas. A cova parecia aberta e apenas esperando a hora de fechar a campa e
escrever o epitáfio.
Agora
tudo mudou. Lula abriu 8 pontos percentuais de vantagem sobre Flávio Bolsonaro
nas duas últimas pesquisas da Quaest (para mim a mais completa e confiável de
todas), marcando 45% x 37% no segundo turno. E ele sobe em todos os quesitos,
enquanto o seu adversário cai em todos eles. Já está na hora de mandar fazer o
caixão do filhote do energúmeno?
É
preciso analisar as causas desta surpreendente reviravolta para pensarmos nas
perspectivas para outubro.
Os
analistas da grande mídia se dividem e contradizem nas avaliações destes
eventos. Para alguns (inclusive no governo) a economia deu avanços importantes
e para outros as “benesses” liberadas por Lula começaram, finalmente, a fazer
efeito. Outros ainda apontam para o efeito Vorcaro e outros casos de corrupção
de importantes aliados de Flávio Bolsonaro, chegando a dizer que o grande
eleitor deste jogo é a Polícia Federal. A meu ver nada disso é muito
convincente.
Se
olharmos para a economia, os números do crescimento do PIB, do aumento da renda
e o do emprego (que foram o centro da estratégia do governo Lula III desde a
posse, em 2023, visando chegar triunfante em outubro deste ano) indicam
resultados mais do que modestos e com efeitos colaterais complicados.
A
última pesquisa da Quaest foi clara neste quesito: os entrevistados não têm uma
boa avaliação do quadro econômico, por razões já mostradas em artigo anterior
(“A pré campanha eleitoral – na corda bamba”, postado no site A Terra é Redonda
em 12/5/2026). Apesar de uma pequena
melhora na avaliação, 46% ainda acham que a economia piorou, 33% que ficou na
mesma e apenas 20% que melhorou. Lembremos que a renda do trabalho derreteu a
partir da crise de 2015 e a melhora desde 2023 apenas recuperou o nível de antes
da pandemia. A base a partir da qual os entrevistados avaliam a melhora ou
piora da economia é percebida como ruim.
Trocando
em miúdos, 66% dos entrevistados acharam que o preço dos alimentos subiu, 23%
que ficou estável e 9% que caiu. Mais uma vez, depois de um sossego no segundo
semestre do ano passado, a inflação dos alimentos voltou a subir. Os preços de
produtos de consumo regular para a maioria subiram com mais ou menos força,
como batata (76%), tomate (86%), cebola (48%) feijão (6,5%), ovos (7%), carnes
de primeira (10%), carnes de segunda (6%). De forma mais abrangente o custo da
cesta básica subiu este ano entre 7,5% e 10%. O preço do botijão de gas subiu
entre 2,5 e 5% e os aluguéis entre 4% e 10%.
Enquanto
isso, os salários subiram 1,8% acima da inflação medida pelo IPCA (4,7%). No quesito poder de compra da renda
familiar, 68% dos entrevistados da Quaest consideram que ele ficou menor, 21%
que ficou igual e 10% que aumentou. Já no quesito emprego, 55% consideram que
ficou mais difícil, 5% que ficou igual e 36% que ficou mais fácil encontrar
colocação no mercado. Esta percepção também contraria os índices oficiais da
empregabilidade.
Como a
economia cresceu com base em estímulos para o aumento do consumo das famílias
através do crédito facilitado, o preço a pagar foi o endividamento de 80%,
sendo 30% destes estão com pagamentos atrazados e 12,3% estão inadimplentes.
Efeito dos juros estratosféricos impostos pelo Banco Central.
Com uma
parte substancial da renda (entre 30% e 50%) comprometida com o pagamento das
parcelas da dívida com juros escorchantes, mesmo as despesas básicas ficam
comprometidas e a ciranda do endividamento renovado no cartão de crédito para
cobrir os buracos do orçamento gera ansiedades para o futuro das famílias.
Esta é
uma das explicações para a explosão das apostas nas bets, que, é claro, acabam
sugando os últimos centavos de muita gente. São 24 milhões de apostadores por
mês, comprometendo 21 bilhões de reais sendo 5 milhões beneficiários do Bolsa
Família e 53% dos que tem uma renda familiar inferior a um salário mínimo.
Todos tentando (em vão), reequilibrar seus orçamentos em um golpe de sorte.
É claro
que o quadro da economia é frustrante para a ampla maioria e podemos descartar
este quesito como o motivador da reviravolta do quadro eleitoral.
As
benesses distribuídas ou prometidas foram mais bem avaliadas pelos
entrevistados, mas os dados mostram que elas atingem números não muito
significativos em termos de beneficiários. Nada de espetacular e generalizado
neste quesito, já que apenas 3,5 milhões foram beneficiados, de uma base
potencial de 12 milhões. O Desenrola 2 beneficiou 12% dos entrevistados e na
avaliação destes últimos, 55% consideram a medida uma boa ideia, 20% que ajuda
um pouco e 21% que não é uma boa proposta. 35% consideram que sua renda
aumentou significativamente, 31% um pouco e 33% não viu diferença.
A
isenção do imposto para quem ganha até 5 mil reais beneficiou 32% dos
entrevistados, sendo que 35% consideram o impacto na renda pequeno, 30% não
viram nenhum impacto e apenas 24% sentiram um efeito significativo.
A
Quaest não perguntou sobre o impacto do Bolsa Família, mas outras avaliações
apontam para uma queixa generalizada pela defasagem dos valores distribuídos
frente ao aumento dos preços.
A
proposta de projeto de lei (travada no congresso até agora) reduzindo a escala
de trabalho de 6×1 para 5×2 está bem avaliada na pesquisa Quaest, com 69% de
aprovação e 22% de rejeição. No entanto,50% dos entrevistados estimaram que o
resultado seria trabalharem menos horas por semana e 45% as mesmas ou mais
horas.
Para
resumir, as benesses não tem impacto suficiente para explicar a gangorra das
expectativas de voto.
Os
casos de corrupção envolvendo Flávio Bolsonaro, descoberto acessando 67 milhões
de reais com destino não bem explicado (supostamente para financiar o Dark
Horse, que está mais para pangaré preso na estrebaria), entre muitos outros
chefes da direita e do centrão, fizeram manchetes em jornais, TVs e redes
sociais por semanas a fio.
Segundo
as pesquisas, este quesito desgastou Flávio Bolsonaro (14%), mas também o
governo (8%) e o judiciário (5%). Para 50% dos eleitores, diz a Quaest, todo
mundo (governo, oposição, STF) está igualmente implicado. Se o escândalo
derruba Flávio Bolsonaro, ele também afeta o governo Lula.
Neste
caso, os partidos do governo, sobretudo o principal, PT, perderam a
oportunidade de surfar na onda de rejeição do eleitorado aos acusados de
corrupção. No começo do escândalo, o PL tomou a frente da proposta de uma CPI
na Câmara, logo cozinhada em fogo brandíssimo, com ajuda do PT. Com o
comprometimento de Flávio, a frente única pró pizza no Congresso ampliou-se e a
proposta de CPI desapareceu da cena política.
No
terceiro ato da farsa surge o caso de Jacques Wagner. Na pesquisa da Quaest,
64% dos entrevistados que se autodefinem como bolsonaristas consideram que ele
tem culpa no cartório, os da direita não bolsonarista 74%, os independentes
53%, a esquerda não lulista 67% e até 61% dos lulistas condenaram o senador.
Lula e o PT deviam olhar estes dados com muito cuidado pois eles mostram uma
sensibilidade generalizada para o tema da corrupção.
Com
menos repercussão, mas com talvez maior número de comprometidos, as denúncias
de desvios dos recursos das emendas parlamentares a partir de investigações
iniciadas pelo Ministro do STF Flávio Dino, ampliaram a percepção da corrupção
como generalizada.
É
justamente esta percepção de que, no que tange à corrupção, todos são farinha
do mesmo saco é que faz com que um tema tão sensível para o eleitorado não seja
um divisor de águas nas perspectivas de voto.
Muito
tem se falado sobre o sentimento de nacionalidade ou patriotismo provocado
pelas agressões do proto ditador dos EUA, o outro Donald que não é o pato tão
querido pelas crianças. A manobra dos irmãos Bolsonaro estimulando as taxações
das exportações brasileiras e as sanções contra o Xandão virou-se contra eles e
seus apoiadores que abriram imensa bandeira dos EUA na Paulista.
O
governo reagiu com presteza e correção para defender a nossa economia e este
jogo continua sendo jogado com as novas tarifas e seus efeitos negativos caindo
no colo de Flávio Bolsonaro. Segundo a Quaest, 51% veem Flávio Bolsonaro como
responsável, enquanto 30% acham que a culpa é do Lula e 10% não tem opinião.
Já no
ano passado as pesquisas mostraram o primeiro sinal de recuperação do governo
Lula no eleitorado a partir deste enfrentamento quando do primeiro tarifaço,
embora os números tenham sido modestos e tenham voltado a cair até
recentemente.
A
pesquisa da Quaest mostrou que os entrevistados identificam os Bolsos e a
oposição como responsáveis pelas taxações e isto não deixa de ser irônico. É
claro que os Bolsos não têm esta bola toda com o Trump e que as taxações são
parte de uma estratégia mais geral do americano, mas os irmãos buscaram
capitalizar a agressão e mostrar uma força que não tem e isto se voltou contra
eles.
Hoje
Donald Trump é muito malvisto pelo nosso eleitorado e o seu apoio aos seus
apaniguados no Brasil está ficando cada dia mais tóxico. Mas embora exista uma
opinião cada vez mais disseminada contrária a Donald Trump e seus aliados
brasileiros, este quesito não implica em viradas significativas do humor do
eleitorado, como vimos no ano passado.
Há quem
diga que a brigalhada na “famiglia”, opondo os filhotes do energúmeno e a
madrasta, desgastou Flávio Bolsonaro, sobretudo no eleitorado feminino e entre
os evangélicos. As mulheres já eram desde muito o setor do eleitorado mais
resistente ao bolsonarismo, mas o tratamento de Flávio a Michelle cravou mais
um prego no caixão do candidato.
Para
completar, os inacreditáveis pronunciamentos do braço direito de Eduardo
Bolsonaro nos Estados Unidos, Paulo Figueiredo, afirmando que mulher não sabe
votar chocaram até a ala mais fiel do bolsonarismo. A pesquisa da Quaest
mostrou que apenas 27% da sua base acha que Michelle Bolsonaro não tem razão na
disputa, enquanto apenas 11% da direita não bolsonarista concorda. Isto
certamente pode ter levado uma parcela a retirar seu apoio ao candidato, mas
será que isto basta para produzir a reversão de expectativas que estamos
assistindo?
Para
concluir esta primeira avaliação é preciso notar que, embora a pesquisa da
Quaest aponte para uma melhoria das perspectivas eleitorais de Lula, ela também
mostra que a porcentagem dos que acham que o presidente não merece assumir um
quarto mandato ainda é maior do que os que o apoiam para mais um governo. São
51% contra e 45% a favor, mas no pior momento de Lula, estes números eram 61% x
37%.
Melhorou,
mas ainda não está nada bom. Em resposta a outra pergunta, os entrevistados
responderam ter mais medo de Flávio do que de Lula como presidente, 46% x 38%.
Em pesquisa anterior estiveram quase empatados com 44% x 41%, sendo que 8%
temiam os dois com a mesma intensidade. Também não é um bom resultado, embora
tenha melhorado. Esta parte da pesquisa Quaest aponta para o elemento básico
destas eleições: a prevalência da polarização negativa na intenção de voto.
A
percepção geral dos entrevistados sobre a performance do governo Lula reflete
esta avaliação dos diferentes fatores apresentados acima que podem tê-la
influenciado. Ela melhorou entre abril e julho, com a desaprovação caindo de
52% para 47%, enquanto a aprovação sobe de 43% para 48%. Este empate atual
entre os prós e contras não é nada espetacular, mas representa uma melhora
importante em uma disputa apertada.
E
quando olhamos para a avaliação segundo a autodefinição política dos
entrevistados, descobrimos uma pista importante da mudança da expectativa de
votos. Enquanto bolsonaristas, lulistas e esquerda repetem suas avaliações
negativas e positivas anteriores, a direita não bolsonarista registra ligeira
queda na desaprovação de 89% para 86% e, sobretudo, os independentes derrubam a
sua desaprovação de 57% para 45%, igualando a sua avaliação positiva.
A pesquisa apontou as principais preocupações
dos entrevistados, com 31% indicando o tema da violência como o mais
importante, seguido por saúde, economia, problemas sociais e corrupção mais ou
menos empatados com 15% cada um e, finalmente, educação com 5%.
De
todos estes temas, o presidente tem o que mostrar apenas nos problemas sociais,
já que sua performance no governo em relação aos outros não é percebida
positivamente pelo eleitorado, particularmente no tema da violência. Para a
sorte de Lula o filhote do energúmeno não tem propostas para nada, a não ser no
tema da violência que ele trata apenas pedindo mais violência policial.
Até
agora o debate na pré-campanha é raso e faltam propostas concretas para o
eleitorado julgar. Infelizmente, não são programas de governo o divisor de
águas para explicar a melhoria da situação de Lula. É ainda mais preocupante a
total ausência de foco nos temas ambientais, apesar de o noticiário abundar em
informações sobre a gravidade dos impactos já em curso da emergência climática.
Vou comentar mais adiante sobre os impactos possíveis do El Niño no próximo
semestre e seus efeitos previsíveis no processo eleitoral.
Em
resumo, a melhoria das expectativas eleitorais de Lula parece ser o resultado
de uma parcial recuperação do apoio de eleitores lulistas que tinham se
desgarrado. Os vários pequenos efeitos positivos de medidas tomadas pelo
governo se somam para trazê-lo de volta para os 45% de intenção de voto, ainda
abaixo dos 48,5% de votos no primeiro turno de 2022. Este efeito da
distribuição de benesses repete a derrama (bastante mais ampla) de Jair
Bolsonaro em 2022, que reverteu uma expectativa negativa resultante de quatro
anos de governo mais do que desastroso. A caneta do presidente segue sendo um
“grande eleitor”.
Já
Flávio Bolsonaro paga o preço de seus muitos erros e comprometimentos, que
ainda podem se ampliar e muito até as eleições com novas revelações da PF, mas
os seus votos perdidos não vão para Lula nem para os outros direitistas na
corrida eleitoral, mas para o não voto (abstenção, nulo e branco). Ele recupera
parte desta perda no segundo turno, mas não chega a encostar de novo em Lula.
Resta saber se o efeito da polarização dominante na sociedade não vai fazer com
que os que hoje retiram seu apoio voltem a votar (tapando o nariz) no
anti-Lula, repetindo a disputa no fotochart de 2022.
Por
enquanto Flávio Bolsonaro está cada vez mais com cara de “lame duck” (pato
manco). No cômputo geral dos entrevistados da Quaest, 55% antecipam uma vitória
de Lula contra 25% na de Flávio. Entre os que se dizem de direita não
bolsonarista, os que confiam em uma vitória de Flávio caíram de 67% para 46% de
abril para julho. Entre os evangélicos, apenas 36% apostam no herdeiro de
Bolsonaro e entre os eleitores independentes, apenas 14%. Até entre os
bolsonaristas raiz, os confiantes na vitória de seu candidato caíram de 80%
para 76%.
O
efeito deste derretimento das expectativas eleitorais de Flávio se reflete na
tendência dos partidos de direita em não se comprometer em alianças formais com
o candidato. PP e União Brasil já se definiram pela neutralidade, inclusive
liberando suas forças regionais para eventuais alianças com os partidos do
governo. Esta deve ser a decisão também do Republicanos, enquanto o PDS segue
apostando na candidatura de Ronaldo Caiado.
A
fragilidade de Flávio Bolsonaro está, finalmente, dando mais coragem aos
candidatos alternativos da direita, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, que começam a
atacar com mais contundência o pato manco. Renan Santos já vinha adotando esta
postura há mais tempo, acusando Flávio Bolsonaro de trair as raízes do
bolsonarismo.
O
isolamento deve levar o PL a uma candidatura puro sangue com menos tempo de
televisão do que Lula, vantagem nada desprezível para o presidente. Por outro
lado, Flávio Bolsonaro está tendo cada vez mais dificuldades para montar
palanques fortes nos Estados, inclusive em São Paulo, onde Tarcísio se
posiciona cada vez mais distante da “famiglia” e pensando apenas na sua eleição
para governador.
Estamos
a menos de três meses das eleições e muita água vai passar por baixo da ponte,
mas, tanto o PL quanto a direita em geral temem que novas revelações da PF
venham a atingir Flávio Bolsonaro. Desde logo, a pesquisa Quaest ocorreu antes
da revelação da comprometedora fotografia de Flávio em confraternização com o
arquivo queimado Sicário (braço armado de Vorcaro) em um hotel de luxo no Rio
de Janeiro. Também foram posteriores as notícias do comprometimento de Flávio
Bolsonaro com a corrupção no governo de Cláudio Castro, no Rio de Janeiro. E
paira sobre o candidato da direita o espectro da investigação sobre o destino
dos 67 milhões doados por Daniel Vorcaro para o filme sobre Jair Bolsonaro,
apesar da moleza do STF (leia-se André Mendonça) em abrir a caixa preta deste
caso.
Que
pode acontecer nos próximos 70 dias?
Fonte:
Por Jean Marc von der Weid, em A Terra é Redonda

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