Colômbia
dá 'cheque sem fundo' ao Equador ao retomar a exportação de energia ao país
Déficit
equatoriano na produção de energia supera o total que poderia ser adquirido da
Colômbia. Logo, a retomada do comércio de eletricidade apenas expõe o risco de
dependência energética.
A
Colômbia se prepara para retomar o comércio de energia com o Equador, cinco
meses após suspender as exportações de eletricidade ao país, em decorrência de
uma crise diplomática. Segundo o ministro de energia colombiano, Edwin Palma, a
retomada será gradual e mira restabelecer a segurança energética mútua.
A
medida vem em um momento crítico para o Equador. O país gera a maior parte
de sua eletricidade por hidrelétricas e, nos últimos anos, vem enfrentando secas prolongadas que
foram agravadas neste ano pelo fenômeno El Niño, reduzindo drasticamente
os níveis dos reservatórios e causando apagões de até 14 horas.
A
retomada, no entanto, pode não ser tão benéfica assim para o Equador,
aponta Ghaio Nicodemos em entrevista ao podcast Mundioka,
da Sputnik Brasil.
Para o
coordenador adjunto do Núcleo de Estudos de Atores e Agendas de Política
Externa (NEAAPE) e pesquisador do Observatório Político Sul-Americano
(OPSA), a medida dificilmente será suficiente, já que a Resolução 40.306,
do Ministério de Minas e Energia da Colômbia, permite somente a exportação
do excedente que os operadores privados têm disponível.
"O
Equador e a Colômbia têm uma matriz energética parecida, o Equador com 85% de
hidrelétrica e a Colômbia com 70%. Só que os dois países vêm enfrentando
uma crise hídrica de escassez que compromete justamente a capacidade dos
reservatórios", explica.
Além
disso, ele aponta que o sistema de energia equatoriano está muito
defasado em termos tecnológicos e, mesmo funcionando a pleno vapor, o país
ainda teria um déficit na produção de energia de cerca de 1.100 a 1.300
megawatts. E a conexão que a Colômbia tem com o Equador permite uma exportação
de, no máximo, um terço desse déficit.
"Então
é uma solução temporária e é um cheque sem fundo, porque a Colômbia, hoje,
na prática, não tem condição e não tem recursos o suficiente para
atender essa capacidade toda."
Segundo
ele, se não houver investimento na renovação e diversificação da matriz
energética, incluindo fontes renováveis e seguras, o problema de
dependência energética do Equador não será solucionado tão cedo.
"As
soluções estão todas disponíveis no mercado hoje, mas dependem de vontade
pública, de vontade política para executar um novo plano de planejamento
energético para o Equador. E isso não está no horizonte."
Nicodemos,
pesquisador de pós-doutorado em ciência política pelo Instituto de Estudos
Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ),
pondera que a dependência energética de vários países da América do Sul é
resultado da dificuldade enorme que a região tem para crescer economicamente.
Ele
frisa que o desenvolvimento econômico e social real
está na industrialização, ou seja, no investimento na indústria de
transformação, e não na exportação de matéria-prima, que é o principal na
região. Como resultado, embora muitos países sul-americanos sejam grandes
produtores de petróleo, como é o caso do Equador, esse potencial
energético não é transformado em capacidade de produção doméstica.
Pelo
contrário, no país, quase um terço da capacidade energética está vindo de forma
intermitente de fontes externas, é um país que está rifado ao risco por
muito tempo, pois não é possível multiplicar a capacidade energética do dia
para a noite. "É um despreparo cumulativo, uma série de erros que vão se
acumulando."
"Na
prática, a gente pode dizer o seguinte: a América do Sul, principalmente,
produz energia para além daquilo que efetivamente demanda para consumir, só que
ela produz como matéria-prima, como petróleo que vai para a exportação."
Juan
Agulló, professor e pesquisador de economia, sociedade e política da
Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), explica que a
dependência energética observada na América do Sul é a expressão de um problema
global, já que no mundo todo houve um aumento exponencial na demanda por
energia.
No
recorte da América do Sul, ele afirma que o principal problema é que a lógica
do continente é de exportação, que não mudou com o novo contexto de transição
energética e digital, principalmente por conta dos lobbies de exportadores. Por
isso, há interesse em não alcançar a autossuficiência energética.
"Porque
os lucros, o benefício que eles têm vinculado à exportação de energéticos, à
exportação de mineração, são tão grandes que eles têm uma influência gigantesca
sobre os governos", aponta o especialista.
Agulló
considera que o Estado equatoriano errou ao não ter previsto a necessidade
de investir em uma planta energética para não ficar dependente da
importação de eletricidade, principalmente para garantir a vigilância do porto
de Guayaquil, o maior do Equador.
"Para
manter esse porto competitivo e um pouco como um porto dominante na área e como
uma plataforma de atração de investimentos e de capitais etc., teria sido muito
importante esse investimento em energia. Então, é completamente absurdo que o
Estado equatoriano nunca tenha assumido essa necessidade."
<><>
De la Espriella anuncia corte de relações da Colômbia com Cuba e Nicarágua
O presidente eleito da Colômbia,
Abelardo de la Espriella, anunciou, no último domingo (26/07), que vai romper
relações diplomáticas com Cuba e Nicarágua. Ele também comunicou o fechamento
de 14 embaixadas e 15 consulados a partir do próximo dia 7, quando vai suceder
Gustavo Petro no cargo máximo do país.
“Em meu
governo não haverá vínculo algum com tiranias“, disse Abelardo. “Em uma
primeira etapa, fecharei as embaixadas da Argélia, Azerbaijão, Barbados, Cuba,
Chéquia, Etiópia, Gana, Haiti, Hungria, Malásia, Nicarágua, Romênia, Senegal e
África do Sul”, afirmou nas redes sociais.
“Quero
ser muito claro, estas decisões não significam romper relações diplomáticas com
esses países, e muito menos com esses organismos multinacionais”, salientou De
la Espriella, lembrando que a determinação não inclui Cuba e Nicarágua.
O próximo presidente da Colômbia
também prometeu unificar representações que, segundo ele, duplicam funções. Ele
citou o caso de Paris, em que a Colômbia possui uma embaixada e um posto de
representação na Unesco. Assim como em Roma, onde, além da embaixada na Itália,
há a representação na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a
Agricultura (FAO).
“Cada
peso que economizarmos em burocracia será um peso que poderemos investir
em segurança, saúde, educação, infraestrutura e, sobretudo, oportunidades para
os mais pobres”, disse De la Espriella. O seu governo já prometeu
uma reforma fiscal na Colômbia.
Por
outro lado, o futuro presidente anunciou a reabertura da embaixada colombiana
em Israel, que vai funcionar em Jerusalém. No mesmo sentido, De la Espriella
vai suspender a instalação da embaixada na Palestina e a abertura de uma missão
na Nigéria. Em rechaço ao genocídio israelense em Gaza, Gustavo
Petro havia determinado a ruptura de relações diplomáticas com Israel.
Prestes
a assumir o governo, De la Espriella também segue sustentando que a cidade de
Barranquilla será a “sede permanente” da presidência, e que transformará a Casa
de Nariño, atual sede do Poder Executivo, que fica em Bogotá, “em um museu
aberto ao público”. Ele pretende assumir o cargo em uma cerimônia em Cali, mas
a medida ainda precisa ser aprovada pelo Congresso colombiano.
¨
Pode o governo Fujimori se distanciar da China para
fortalecer a relação do Peru com os EUA?
Keiko
Fujimori assumiu a presidência do Peru nesta terça-feira (28), tendo os EUA
como principal aliado e um ministro das Relações Exteriores alinhado a
Washington. Especialistas ouvidos pela Sputnik indicam que, embora possa haver
pressão para distanciar o Peru da China, a influência de Pequim na economia de
Lima já está firmemente estabelecida.
Com a
nomeação do jornalista e ex-candidato à presidência Carlos Espá como novo
ministro das Relações Exteriores, a presidente eleita do Peru, Keiko Fujimori, começa a delinear a
política externa de um governo cujo principal desafio será o equilíbrio
geopolítico entre os EUA e a China.
<><>
'Inclinação a favor dos EUA'
Fujimori
nomeou oficialmente o novo Ministro das Relações Exteriores durante uma
coletiva de imprensa, apresentando-o como alguém que "assume a
responsabilidade de liderar uma política externa moderna e profissional,
visando fortalecer a presença do Peru no mundo". Ela também afirmou
que o ministério se concentrará em "atrair investimentos e criar
oportunidades" para os peruanos.
Espá,
que antes de apoiar Fujimori no segundo turno das eleições foi candidato à
presidência pelo partido Sí Creo, é advogado e jornalista de formação e fez
parte do grupo de jovens intelectuais de tendência liberal que, no início da
década de 1990, acompanharam o escritor Mario Vargas Llosa em suas
incursões políticas.
Além
disso, o futuro ministro das Relações Exteriores do Peru atuou por 15 anos
como diretor de comunicação da Embaixada dos EUA em Lima. Ele só deixou o
cargo em 2023, quando já planejava se candidatar à presidência.
De toda
forma, o futuro governo de Keiko Fujimori já fez gestos de reaproximação com os
EUA, que enviaram uma delegação ao país sul-americano chefiada pelo
subsecretário de Estado Christopher Landau .
A
ligação entre Washington e Lima também estará nas mãos do embaixador dos EUA na
capital peruana, Bernie Navarro, que descreveu a vitória eleitoral de Fujimori
como "um novo amanhecer" e que, de seu cargo, tem sido muito
crítico da presença econômica chinesa no país.
"É
absolutamente claro que surgirá uma situação em que as relações com os EUA
serão priorizadas", disse o analista internacional Manuel Bernales à
Sputnik.
O
especialista enfatizou que o próprio histórico do indicado ao Ministério das
Relações Exteriores confirma essa "inclinação para os
EUA", embora a relação entre os dois países não esteja imune à
incerteza marcada pelos anúncios de tarifas do presidente Donald Trump. O
exemplo mais recente é a tarifa de 12,5% imposta a algumas exportações
peruanas, como parte de uma nova política de Washington contra o "trabalho
forçado".
No
entanto, a aposta nos EUA pode ter impacto nas relações entre o Peru e a
China, que continua sendo o principal parceiro comercial e o principal
investidor na economia do país sul-americano, no contexto de uma guerra
comercial que incluiu fortes questionamentos da Casa Branca sobre a operação do
porto de Chancay — construído pela empresa chinesa Cosco Shipping — que promete
ser o principal centro de conexão da América do Sul com a Ásia.
<><>
A disputa pelo Peru
Segundo
Bernales, a importância dos investimentos do gigante asiático torna improvável
que qualquer pressão potencial dos EUA possa interromper projetos de
investimento ou rotas comerciais que já operam legalmente e com sucesso.
"Como esses investimentos foram feitos dentro da lei e da
Constituição, é lógico que os acordos com a China sejam respeitados,
incluindo o investimento no porto de Chancay", observou ele.
Além
disso, o analista destacou que o próprio Espá incluiu em seu programa de
governo, durante sua candidatura à presidência, a necessidade de
"trabalhar com todos os mercados", tanto com a China quanto com os
países da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático), organização
que reúne diversos parceiros comerciais importantes
para o Peru, como Índia, Tailândia, Japão, Coreia do Sul e Indonésia, entre
outros.
Carlos
Aquino, economista e diretor do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade
Nacional de San Marcos, concordou com a dificuldade que os EUA poderiam
ter em interromper o fluxo comercial entre o Peru e a China, visto que "a
China é o maior parceiro comercial e o maior investidor, e ambos os países
também têm economias complementares".
"O
mercado natural para os produtos de mineração, energia e alimentos do Peru é a
China, e acredito que continuará sendo ainda mais importante, porque os EUA não
podem oferecer um mercado alternativo para esses produtos", enfatizou.
Embora
os Estados Unidos não possam se opor aos investimentos chineses já em
andamento, poderiam aproveitar o novo alinhamento para tentar bloquear
empreendimentos de capital chinês que estejam pendentes de avaliação ou que
possam ser apresentados no futuro, explicou Bernales.
Nesse
sentido, ele alertou que "em projetos que ainda não estão totalmente
desenvolvidos, pode haver pressão para impedir sua execução ou para
forçá-los a serem realizados com outros parceiros". Isso poderia
acontecer, por exemplo, em potenciais investimentos estratégicos, como
interconexões rodoviárias ou ferroviárias com o Brasil, que facilitem o
comércio com a Ásia.
Aquino,
por sua vez, opinou que, em última análise, poderia ser positivo se "os
EUA e a China competissem pelo Peru", buscando ganhar terreno com
investimentos significativos no país.
Por
ora, ele acredita que o gigante asiático não mudará sua postura em relação ao
Peru com a chegada de um novo governo. Pelo contrário, disse ele, Pequim poderá
tentar "oferecer mais cooperação econômica" em áreas-chave, como a
construção de estradas, portos ou aeroportos.
<><>
Peru: vítimas da repressão estatal protestam contra retorno do fujimorismo
Horas
após a instalação do governo de Keiko
Fujimori,
familiares de vítimas da repressão estatal no Peru, durante as décadas de 1980,
1990 e 2000, sob os governos de Alberto Fujimori, Dina Boluarte e José Jerí,
reuniram-se em frente ao Palácio de Justiça em Lima para reivindicar a memória
de seus entes queridos e expressar rejeição ao retorno do fujimorismo ao poder
executivo.
Associações
culturais, sociais e políticas realizaram um ato simbólico no Alameda Paseo de
los Héroes, portando fotos das vítimas, velas e faixas. Eles denunciam que
Alberto Fujimori, comandantes militares e policiais foram condenados por graves
violações de direitos humanos, incluindo desaparecimentos forçados, execuções
extrajudiciais, tortura e esterilizações forçadas.
Raúl
Samillán, presidente da Associação de Parentes Vítimas dos Massacres dos Anos
de 2022 e 2023, disse à teleSUR que a chegada de Keiko
Fujimori representa um revés para a justiça no país e que eles não reconhecerão
sua autoridade: “é muito lamentável que a Sra. Keiko Fujimori, fraudulenta e
ilegitimamente, tenha assumido o poder”, afirmou.
“Nós,
como sulistas e vítimas do governo da Sra. Dina Boluarte e da Sra. Keiko
Fujimori, não vamos reconhecê-la. Não vamos permitir
que essa senhora pise na terra onde, infelizmente, o sangue dos nossos filhos,
de nossos entes queridos, ainda está sendo derramado”, declarou.
<><>
Revogação de leis
Os
organizadores sustentam que não pode haver reconciliação sem a revogação
das chamadas leis pró-crime que, segundo eles, foram aprovadas pelo tribunal da
Fuerza Popular, partido de Keiko Fujimori, dificultando o acesso à Justiça e
protegendo os responsáveis por abusos cometidos pela Polícia Nacional e pelas
Forças Armadas.
“A
primeira coisa que essa Sra. Fujimori deveria fazer é, precisamente, revogar
todas as leis pró-crime que foram legisladas e aprovadas pelo seu partido,
Força Popular”, declarou Samillán.
Ele
recordou que, durante os governos de Alberto Fujimori, Dina Boluarte e José
Jeri, houve desaparecimentos forçados, execuções extrajudiciais e tortura,
pelos quais a liderança de Fujimori foi internacionalmente condenada por graves
violações de direitos humanos.
<><>
Controle do Senado e a ruptura do equilíbrio de poderes
Samillán
também se referiu à eleição da presidência do Senado, vencida no dia anterior
pelo fujimorismo. Segundo ele, isso afeta seriamente o equilíbrio entre poderes
no país, consolidando a impunidade: “infelizmente, ainda há traidores no país
que se vendem por algumas moedas e vemos, precisamente, que o Senado entregou
isso, em bandeja de prata, à Sra. Keiko Fujimori, o que vai nos impossibilitar
de encontrar justiça”, alertou.
No
entanto, Samillán expressou esperança de que a Câmara dos Deputados, onde
existe uma coalizão de partidos democratas, possa promover leis que punam
os responsáveis pelas violações.
<><>
Calendário de protestos
As
organizações anunciaram uma série de atividades no âmbito dos feriados
nacionais para expressar sua rejeição a nova presidente. Após a vigília de segunda,
em 28 de julho, ocorreu uma marcha nacional, com concentração principal em Lima
às 10h, durante a mensagem de Keiko Fujimori à nação. O ato incluirá o aceno da
bandeira como gesto simbólico de resistência. Nesta quarta-feira, 29 de julho,
eles promoverão o desfile alternativo: “Do povo para o povo”.
“Amanhã
será um dia importante em que todo o Peru, não só a capital, mas todas as
regiões irão se mobiliar para dizer: “Sra. Keiko Fujimori, a senhora não nos
representa. Você foi derrotada, precisamente, em dezesseis regiões do sul do
país”, enfatizou Samillán.
<><>
Reconciliação sem justiça
Questionado
sobre a invocação da reconciliação por Keiko Fujimori, o presidente da
associação de vítimas foi categórico ao excluir qualquer possibilidade de
diálogo desde que as demandas por justiça e memória não sejam atendidas: “Não
haverá reconciliação enquanto o sangue de nossos filhos e entes queridos
continuar sendo derramado e enquanto não forem revogados. precisamente, essas
leis pró-crime aprovadas por seu partido político, que estão prejudicando as
investigações”, disse ele.
Organizações
de direitos humanos, associações de parentes e grupos sociais anunciaram que
manterão a mobilização como um direito constitucional e internacional diante do
que consideram um governo autoritário e ilegítimo, em defesa da memória
histórica e da justiça para as milhares de vítimas da repressão estatal no
país.
Fonte:
Sputnik Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário