quinta-feira, 30 de julho de 2026

Colômbia dá 'cheque sem fundo' ao Equador ao retomar a exportação de energia ao país

Déficit equatoriano na produção de energia supera o total que poderia ser adquirido da Colômbia. Logo, a retomada do comércio de eletricidade apenas expõe o risco de dependência energética.

A Colômbia se prepara para retomar o comércio de energia com o Equador, cinco meses após suspender as exportações de eletricidade ao país, em decorrência de uma crise diplomática. Segundo o ministro de energia colombiano, Edwin Palma, a retomada será gradual e mira restabelecer a segurança energética mútua.

A medida vem em um momento crítico para o Equador. O país gera a maior parte de sua eletricidade por hidrelétricas e, nos últimos anos, vem enfrentando secas prolongadas que foram agravadas neste ano pelo fenômeno El Niño, reduzindo drasticamente os níveis dos reservatórios e causando apagões de até 14 horas.

A retomada, no entanto, pode não ser tão benéfica assim para o Equador, aponta Ghaio Nicodemos em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil.

Para o coordenador adjunto do Núcleo de Estudos de Atores e Agendas de Política Externa (NEAAPE) e pesquisador do Observatório Político Sul-Americano (OPSA), a medida dificilmente será suficiente, já que a Resolução 40.306, do Ministério de Minas e Energia da Colômbia, permite somente a exportação do excedente que os operadores privados têm disponível.

"O Equador e a Colômbia têm uma matriz energética parecida, o Equador com 85% de hidrelétrica e a Colômbia com 70%. Só que os dois países vêm enfrentando uma crise hídrica de escassez que compromete justamente a capacidade dos reservatórios", explica.

Além disso, ele aponta que o sistema de energia equatoriano está muito defasado em termos tecnológicos e, mesmo funcionando a pleno vapor, o país ainda teria um déficit na produção de energia de cerca de 1.100 a 1.300 megawatts. E a conexão que a Colômbia tem com o Equador permite uma exportação de, no máximo, um terço desse déficit.

"Então é uma solução temporária e é um cheque sem fundo, porque a Colômbia, hoje, na prática, não tem condição e não tem recursos o suficiente para atender essa capacidade toda."

Segundo ele, se não houver investimento na renovação e diversificação da matriz energética, incluindo fontes renováveis e seguras, o problema de dependência energética do Equador não será solucionado tão cedo.

"As soluções estão todas disponíveis no mercado hoje, mas dependem de vontade pública, de vontade política para executar um novo plano de planejamento energético para o Equador. E isso não está no horizonte."

Nicodemos, pesquisador de pós-doutorado em ciência política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ), pondera que a dependência energética de vários países da América do Sul é resultado da dificuldade enorme que a região tem para crescer economicamente.

Ele frisa que o desenvolvimento econômico e social real está na industrialização, ou seja, no investimento na indústria de transformação, e não na exportação de matéria-prima, que é o principal na região. Como resultado, embora muitos países sul-americanos sejam grandes produtores de petróleo, como é o caso do Equador, esse potencial energético não é transformado em capacidade de produção doméstica.

Pelo contrário, no país, quase um terço da capacidade energética está vindo de forma intermitente de fontes externas, é um país que está rifado ao risco por muito tempo, pois não é possível multiplicar a capacidade energética do dia para a noite. "É um despreparo cumulativo, uma série de erros que vão se acumulando."

"Na prática, a gente pode dizer o seguinte: a América do Sul, principalmente, produz energia para além daquilo que efetivamente demanda para consumir, só que ela produz como matéria-prima, como petróleo que vai para a exportação."

Juan Agulló, professor e pesquisador de economia, sociedade e política da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), explica que a dependência energética observada na América do Sul é a expressão de um problema global, já que no mundo todo houve um aumento exponencial na demanda por energia.

No recorte da América do Sul, ele afirma que o principal problema é que a lógica do continente é de exportação, que não mudou com o novo contexto de transição energética e digital, principalmente por conta dos lobbies de exportadores. Por isso, há interesse em não alcançar a autossuficiência energética.

"Porque os lucros, o benefício que eles têm vinculado à exportação de energéticos, à exportação de mineração, são tão grandes que eles têm uma influência gigantesca sobre os governos", aponta o especialista.

Agulló considera que o Estado equatoriano errou ao não ter previsto a necessidade de investir em uma planta energética para não ficar dependente da importação de eletricidade, principalmente para garantir a vigilância do porto de Guayaquil, o maior do Equador.

"Para manter esse porto competitivo e um pouco como um porto dominante na área e como uma plataforma de atração de investimentos e de capitais etc., teria sido muito importante esse investimento em energia. Então, é completamente absurdo que o Estado equatoriano nunca tenha assumido essa necessidade."

<><> De la Espriella anuncia corte de relações da Colômbia com Cuba e Nicarágua

O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, anunciou, no último domingo (26/07), que vai romper relações diplomáticas com Cuba e Nicarágua. Ele também comunicou o fechamento de 14 embaixadas e 15 consulados a partir do próximo dia 7, quando vai suceder Gustavo Petro no cargo máximo do país.

“Em meu governo não haverá vínculo algum com tiranias“, disse Abelardo. “Em uma primeira etapa, fecharei as embaixadas da Argélia, Azerbaijão, Barbados, Cuba, Chéquia, Etiópia, Gana, Haiti, Hungria, Malásia, Nicarágua, Romênia, Senegal e África do Sul”, afirmou nas redes sociais.

“Quero ser muito claro, estas decisões não significam romper relações diplomáticas com esses países, e muito menos com esses organismos multinacionais”, salientou De la Espriella, lembrando que a determinação não inclui Cuba e Nicarágua.

O próximo presidente da Colômbia também prometeu unificar representações que, segundo ele, duplicam funções. Ele citou o caso de Paris, em que a Colômbia possui uma embaixada e um posto de representação na Unesco. Assim como em Roma, onde, além da embaixada na Itália, há a representação na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

“Cada peso que economizarmos em burocracia será um peso que poderemos investir em segurança, saúde, educação, infraestrutura e, sobretudo, oportunidades para os mais pobres”, disse De la Espriella. O seu governo já prometeu uma reforma fiscal na Colômbia. 

Por outro lado, o futuro presidente anunciou a reabertura da embaixada colombiana em Israel, que vai funcionar em Jerusalém. No mesmo sentido, De la Espriella vai suspender a instalação da embaixada na Palestina e a abertura de uma missão na Nigéria. Em rechaço ao genocídio israelense em Gaza, Gustavo Petro havia determinado a ruptura de relações diplomáticas com Israel.

Prestes a assumir o governo, De la Espriella também segue sustentando que a cidade de Barranquilla será a “sede permanente” da presidência, e que transformará a Casa de Nariño, atual sede do Poder Executivo, que fica em Bogotá, “em um museu aberto ao público”. Ele pretende assumir o cargo em uma cerimônia em Cali, mas a medida ainda precisa ser aprovada pelo Congresso colombiano.

¨      Pode o governo Fujimori se distanciar da China para fortalecer a relação do Peru com os EUA?

Keiko Fujimori assumiu a presidência do Peru nesta terça-feira (28), tendo os EUA como principal aliado e um ministro das Relações Exteriores alinhado a Washington. Especialistas ouvidos pela Sputnik indicam que, embora possa haver pressão para distanciar o Peru da China, a influência de Pequim na economia de Lima já está firmemente estabelecida.

Com a nomeação do jornalista e ex-candidato à presidência Carlos Espá como novo ministro das Relações Exteriores, a presidente eleita do Peru, Keiko Fujimori, começa a delinear a política externa de um governo cujo principal desafio será o equilíbrio geopolítico entre os EUA e a China.

<><> 'Inclinação a favor dos EUA'

Fujimori nomeou oficialmente o novo Ministro das Relações Exteriores durante uma coletiva de imprensa, apresentando-o como alguém que "assume a responsabilidade de liderar uma política externa moderna e profissional, visando fortalecer a presença do Peru no mundo". Ela também afirmou que o ministério se concentrará em "atrair investimentos e criar oportunidades" para os peruanos.

Espá, que antes de apoiar Fujimori no segundo turno das eleições foi candidato à presidência pelo partido Sí Creo, é advogado e jornalista de formação e fez parte do grupo de jovens intelectuais de tendência liberal que, no início da década de 1990, acompanharam o escritor Mario Vargas Llosa em suas incursões políticas.

Além disso, o futuro ministro das Relações Exteriores do Peru atuou por 15 anos como diretor de comunicação da Embaixada dos EUA em Lima. Ele só deixou o cargo em 2023, quando já planejava se candidatar à presidência.

De toda forma, o futuro governo de Keiko Fujimori já fez gestos de reaproximação com os EUA, que enviaram uma delegação ao país sul-americano chefiada pelo subsecretário de Estado Christopher Landau .

A ligação entre Washington e Lima também estará nas mãos do embaixador dos EUA na capital peruana, Bernie Navarro, que descreveu a vitória eleitoral de Fujimori como "um novo amanhecer" e que, de seu cargo, tem sido muito crítico da presença econômica chinesa no país.

"É absolutamente claro que surgirá uma situação em que as relações com os EUA serão priorizadas", disse o analista internacional Manuel Bernales à Sputnik.

O especialista enfatizou que o próprio histórico do indicado ao Ministério das Relações Exteriores confirma essa "inclinação para os EUA", embora a relação entre os dois países não esteja imune à incerteza marcada pelos anúncios de tarifas do presidente Donald Trump. O exemplo mais recente é a tarifa de 12,5% imposta a algumas exportações peruanas, como parte de uma nova política de Washington contra o "trabalho forçado".

No entanto, a aposta nos EUA pode ter impacto nas relações entre o Peru e a China, que continua sendo o principal parceiro comercial e o principal investidor na economia do país sul-americano, no contexto de uma guerra comercial que incluiu fortes questionamentos da Casa Branca sobre a operação do porto de Chancay — construído pela empresa chinesa Cosco Shipping — que promete ser o principal centro de conexão da América do Sul com a Ásia.

<><> A disputa pelo Peru

Segundo Bernales, a importância dos investimentos do gigante asiático torna improvável que qualquer pressão potencial dos EUA possa interromper projetos de investimento ou rotas comerciais que já operam legalmente e com sucesso. "Como esses investimentos foram feitos dentro da lei e da Constituição, é lógico que os acordos com a China sejam respeitados, incluindo o investimento no porto de Chancay", observou ele.

Além disso, o analista destacou que o próprio Espá incluiu em seu programa de governo, durante sua candidatura à presidência, a necessidade de "trabalhar com todos os mercados", tanto com a China quanto com os países da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático), organização que reúne diversos parceiros comerciais importantes para o Peru, como Índia, Tailândia, Japão, Coreia do Sul e Indonésia, entre outros.

Carlos Aquino, economista e diretor do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade Nacional de San Marcos, concordou com a dificuldade que os EUA poderiam ter em interromper o fluxo comercial entre o Peru e a China, visto que "a China é o maior parceiro comercial e o maior investidor, e ambos os países também têm economias complementares".

"O mercado natural para os produtos de mineração, energia e alimentos do Peru é a China, e acredito que continuará sendo ainda mais importante, porque os EUA não podem oferecer um mercado alternativo para esses produtos", enfatizou.

Embora os Estados Unidos não possam se opor aos investimentos chineses já em andamento, poderiam aproveitar o novo alinhamento para tentar bloquear empreendimentos de capital chinês que estejam pendentes de avaliação ou que possam ser apresentados no futuro, explicou Bernales.

Nesse sentido, ele alertou que "em projetos que ainda não estão totalmente desenvolvidos, pode haver pressão para impedir sua execução ou para forçá-los a serem realizados com outros parceiros". Isso poderia acontecer, por exemplo, em potenciais investimentos estratégicos, como interconexões rodoviárias ou ferroviárias com o Brasil, que facilitem o comércio com a Ásia.

Aquino, por sua vez, opinou que, em última análise, poderia ser positivo se "os EUA e a China competissem pelo Peru", buscando ganhar terreno com investimentos significativos no país.

Por ora, ele acredita que o gigante asiático não mudará sua postura em relação ao Peru com a chegada de um novo governo. Pelo contrário, disse ele, Pequim poderá tentar "oferecer mais cooperação econômica" em áreas-chave, como a construção de estradas, portos ou aeroportos.

<><> Peru: vítimas da repressão estatal protestam contra retorno do fujimorismo

Horas após a instalação do governo de Keiko Fujimori, familiares de vítimas da repressão estatal no Peru, durante as décadas de 1980, 1990 e 2000, sob os governos de Alberto Fujimori, Dina Boluarte e José Jerí, reuniram-se em frente ao Palácio de Justiça em Lima para reivindicar a memória de seus entes queridos e expressar rejeição ao retorno do fujimorismo ao poder executivo.

Associações culturais, sociais e políticas realizaram um ato simbólico no Alameda Paseo de los Héroes, portando fotos das vítimas, velas e faixas. Eles denunciam que Alberto Fujimori, comandantes militares e policiais foram condenados por graves violações de direitos humanos, incluindo desaparecimentos forçados, execuções extrajudiciais, tortura e esterilizações forçadas.

Raúl Samillán, presidente da Associação de Parentes Vítimas dos Massacres dos Anos de 2022 e 2023, disse à teleSUR que a chegada de Keiko Fujimori representa um revés para a justiça no país e que eles não reconhecerão sua autoridade: “é muito lamentável que a Sra. Keiko Fujimori, fraudulenta e ilegitimamente, tenha assumido o poder”, afirmou.

“Nós, como sulistas e vítimas do governo da Sra. Dina Boluarte e da Sra. Keiko Fujimori, não vamos reconhecê-la. Não vamos permitir que essa senhora pise na terra onde, infelizmente, o sangue dos nossos filhos, de nossos entes queridos, ainda está sendo derramado”, declarou.

<><> Revogação de leis

Os organizadores sustentam que não pode haver reconciliação sem a revogação das chamadas leis pró-crime que, segundo eles, foram aprovadas pelo tribunal da Fuerza Popular, partido de Keiko Fujimori, dificultando o acesso à Justiça e protegendo os responsáveis por abusos cometidos pela Polícia Nacional e pelas Forças Armadas.

“A primeira coisa que essa Sra. Fujimori deveria fazer é, precisamente, revogar todas as leis pró-crime que foram legisladas e aprovadas pelo seu partido, Força Popular”, declarou Samillán.

Ele recordou que, durante os governos de Alberto Fujimori, Dina Boluarte e José Jeri, houve desaparecimentos forçados, execuções extrajudiciais e tortura, pelos quais a liderança de Fujimori foi internacionalmente condenada por graves violações de direitos humanos.

<><> Controle do Senado e a ruptura do equilíbrio de poderes

Samillán também se referiu à eleição da presidência do Senado, vencida no dia anterior pelo fujimorismo. Segundo ele, isso afeta seriamente o equilíbrio entre poderes no país, consolidando a impunidade: “infelizmente, ainda há traidores no país que se vendem por algumas moedas e vemos, precisamente, que o Senado entregou isso, em bandeja de prata, à Sra. Keiko Fujimori, o que vai nos impossibilitar de encontrar justiça”, alertou.

No entanto, Samillán expressou esperança de que a Câmara dos Deputados, onde existe uma coalizão de partidos democratas, possa promover leis que punam os  responsáveis pelas violações.

<><> Calendário de protestos

As organizações anunciaram uma série de atividades no âmbito dos feriados nacionais para expressar sua rejeição a nova presidente. Após a vigília de segunda, em 28 de julho, ocorreu uma marcha nacional, com concentração principal em Lima às 10h, durante a mensagem de Keiko Fujimori à nação. O ato incluirá o aceno da bandeira como gesto simbólico de resistência. Nesta quarta-feira, 29 de julho, eles promoverão o desfile alternativo: “Do povo para o povo”.

“Amanhã será um dia importante em que todo o Peru, não só a capital, mas todas as regiões irão se mobiliar para dizer: “Sra. Keiko Fujimori, a senhora não nos representa. Você foi derrotada, precisamente, em dezesseis regiões do sul do país”, enfatizou Samillán.

<><> Reconciliação sem justiça

Questionado sobre a invocação da reconciliação por Keiko Fujimori, o presidente da associação de vítimas foi categórico ao excluir qualquer possibilidade de diálogo desde que as demandas por justiça e memória não sejam atendidas: “Não haverá reconciliação enquanto o sangue de nossos filhos e entes queridos continuar sendo derramado e enquanto não forem revogados. precisamente, essas leis pró-crime aprovadas por seu partido político, que estão prejudicando as investigações”, disse ele.

Organizações de direitos humanos, associações de parentes e grupos sociais anunciaram que manterão a mobilização como um direito constitucional e internacional diante do que consideram um governo autoritário e ilegítimo, em defesa da memória histórica e da justiça para as milhares de vítimas da repressão estatal no país.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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