Digitalização
inspira o Sul Global: como a Índia encurtou em décadas o caminho da
bancarização?
Com uma
velocidade recorde, a Índia conseguiu incluir cerca de 500 milhões de pessoas
no sistema bancário em menos de uma década. A medida, sem precedentes na
história mundial, serviu de inspiração para outros países em desenvolvimento, a
exemplo do Brasil, que viveu processo semelhante durante a pandemia.
No país
que abriga a maior população do planeta, a implementação de qualquer política
pública ou mudança estrutural é sempre mais complexa. Apesar disso, a Índia
conseguiu integrar aproximadamente 500 milhões de pessoas ao sistema financeiro
digital em menos de uma década, além de ter lançado, ainda em 2016, o
UPI (Unified Payments Interface, ou Sistema Unificado de Pagamentos, na
tradução do inglês), considerado a maior plataforma de pagamentos do
mundo. Com quase 20 bilhões de transações mensais, o sistema serviu
inclusive de inspiração para o
Pix brasileiro.
Outra
realização indiana é a inclusão de mais de 99% da população (quase
1,4 bilhão de pessoas) no sistema de identificação civil digital Aadhaar.
Com isso, cada indiano possui um número de identificação único, a exemplo da
Carteira de Identidade Nacional do Brasil, e, caso seja necessário alterar
dados, como endereço ou nome, não é mais preciso comparecer a um órgão público.
Além disso, o país já ultrapassou a marca de 1 bilhão de smartphones
ativos e alcançou uma taxa de acesso à Internet de 70%.
Os
números colocam a Índia como um dos pioneiros no avanço da infraestrutura
pública digital em todo o mundo e a transformam em uma referência para o
Sul Global. O
analista de geopolítica Shobhan Saxena, correspondente no Brasil do jornal
indiano The Hindu, afirma ao podcast Mundioka, da
Sputnik Brasil, que isso tem ajudado a derrubar estereótipos sobre a Índia
conhecidos mundialmente, além de se tornar um "grande cartão de
visita" para a diplomacia do país.
"O
país também deixou de ser apenas um exportador de mão de obra em tecnologia
para virar um exportador de soluções públicas de tecnologia. Um exemplo é o
India Stack, que não tem custo de licenciamento para nações da África e da Ásia
e tem fortalecido imensamente o soft power da Índia. Isso também ajuda o
Sul Global a construir os seus próprios sistemas digitais, sem criar
dependência de big techs sediadas nos Estados Unidos […]. A Índia
conseguiu consolidar sua liderança política entre os países em desenvolvimento,
e também vejo que há bastante oportunidade para o Brasil ampliar a cooperação
com Nova Deli em áreas como pagamentos digitais."
Para o
especialista, a Índia também conseguiu assumir uma voz ativa nos
discursos sobre a importância
da tecnologia, inclusive
em fóruns globais, como BRICS e G20. "Dentro do BRICS, defende a criação
de redes para pagamentos internacionais, e, em vez de vender um produto
fechado, a Índia promove um conserto [de alguma infraestrutura digital], para
que cada nação tenha soberania sobre seus próprios trilhos digitais e garanta o
desenvolvimento social", complementa.
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Digitalização pública e redução da pobreza
Dados
da Organização das
Nações Unidas (ONU) revelam
que a Índia conseguiu retirar mais de 415 milhões de pessoas da pobreza em
15 anos. Conforme Saxena, o desenvolvimento da infraestrutura digital pública
foi crucial nesse processo e ajudou, inclusive, a reduzir a corrupção na gestão
dos programas sociais, em um país que concentra quase 18% da população mundial.
"A
grande revolução foi um sistema de transferência de benefícios sociais, o
Direct for Beneficiaries. Antigamente, o dinheiro dos auxílios passava por
dezenas de mãos, com muita burocracia, e parte dele se perdia no caminho por
conta da corrupção. Hoje, a verba cai direto na conta do beneficiário e a ajuda
chega com precisão cirúrgica a quem realmente precisa, protegendo famílias em
situação de vulnerabilidade", diz.
Já com
a criação do sistema de pagamentos digitais, Saxena diz que o comércio ganhou
um novo impulso, já que elimina taxas e o aluguel de maquininhas de cartão.
"Agora, um vendedor de rua ou um motorista de tuk-tuk utiliza o QR Code do
UPI, que é o Pix da Índia. Esse sistema processa bilhões de transações todos os
meses, sendo a maioria de valores baixos. Isso movimenta o comércio local,
elimina a necessidade de troco e evita a circulação de grandes quantias de
dinheiro em espécie, algo comum anteriormente."
O
especialista cita dados da consultoria McKinsey, que prevê um aumento de
até US$ 1 trilhão (R$ 5,1 trilhões) no produto interno bruto (PIB) somente com
a digitalização, que, segundo ele, transformou uma população vulnerável em
novos consumidores e agentes ativos de
mercado. A
pesquisadora do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC), da Escola de Guerra
Naval (EGN), Maria Fernanda Császár concorda e aponta ao podcast Mundioka que,
para além dos efeitos econômicos, esse processo amplia o acesso da
população a um direito básico: a documentação civil.
"O
Aadhaar é um sistema de biometria e identificação da população em um país muito
populoso e denso. Isso criava uma dificuldade muito grande para levar o Estado
a essas pessoas. Então, para solucionar esse problema, a tecnologia foi criada
ainda em 2009. O sistema também prevê a autenticação de serviços e veio
acompanhado de políticas de fomento à inclusão financeira, como a abertura de
contas bancárias. E, junto com a conectividade, a Índia também tem investido
muito em infraestrutura física, como redes de Internet", enfatiza.
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Parcerias com países de baixa e média rendas
De
acordo com a especialista, a Índia assinou pelo menos 23 memorandos de
entendimento nos últimos anos para cooperação ou implementação de sistemas
públicos digitais, a exemplo do UPI, que já funciona em outros oito países
graças a essas parcerias. E todos os beneficiados possuem uma característica em
comum: são países de baixa e média rendas, como Sri Lanka, Nepal, Butão e Ilhas
Maurício.
"Eles
têm se colocado como um modelo, como se fosse uma planta básica para a
integração, o que está muito alinhado à política externa do governo do
primeiro-ministro Narendra Modi. A Índia também tem reforçado a importância de
pensar a conectividade de forma segura e confiável, de desenvolver uma
infraestrutura digital pública resiliente e de ampliar a cooperação com
mercados digitais emergentes. Em maio deste ano, tivemos uma reunião virtual da
presidência indiana do BRICS em que foi apresentada uma nota conceitual sobre o
desenvolvimento conjunto das capacidades digitais dos países", declara.
Por
fim, Császár lembra que Nova Deli também se destaca cada vez mais no setor
de inteligência artificial, com um crescimento de 263% nas soluções
desenvolvidas desde 2016. Conforme a especialista, há ainda uma preocupação do
governo indiano com aspectos como ética, segurança e uso responsável da
tecnologia.
"É
interessante olhar para a inteligência artificial na Índia porque esse
desenvolvimento envolve tanto os bens digitais quanto a própria infraestrutura
material que vem sendo construída, como plantas para semicondutores e avanço
das tecnologias de hardware, que historicamente não eram o foco da Índia. O
país sempre teve uma atuação mais forte no desenvolvimento de software. Então
existe esse cuidado de pensar, novamente de forma holística, o desenvolvimento
da inteligência artificial no país", conclui.
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Tecnologia de ponta assume o protagonismo na China, diz
mídia asiática
Após a
estreia histórica da fabricante de chips de memória ChangXin Memory
Technologies (CXMT, na sigla em inglês) na Bolsa de Valores de Xangai, o preço
das ações surpreendeu o mercado, afirmou o Global Times.
De acordo com o portal de
mídia asiática, o aumento de mais de 465% no preço das ações da empresa em seu
primeiro dia de negociação, colocando-a no topo do mercado em valor de
mercado, envia um sinal inequívoco sobre uma mudança no modelo de
desenvolvimento da China.
O
artigo enfatiza que a CXMT alcançou a produção em massa independente de chips
de memória DRAM, desafiando o oligopólio de longa data de três gigantes
estrangeiros (Samsung, SK hynix e Micron).
Segundo
o jornal, o progresso da empresa em apenas uma
década não só demonstra a viabilidade da autossuficiência tecnológica, como
também ajudou a estruturar um amplo ecossistema de empresas fornecedoras
de equipamentos e embalagens no país, graças à rentabilidade de
investimentos de longo prazo.
Essa evolução transcende
o setor de
semicondutores, argumenta o Global Times, observando que uma história
semelhante está se desenrolando em áreas como computação avançada, software
industrial e novas energias. O artigo enfatiza que quase metade das dez
empresas mais valiosas da bolsa de valores chinesa agora pertence ao setor de
tecnologia, o que, na visão do jornal, reflete uma transição estrutural rumo a
um crescimento de alta qualidade focado na inovação doméstica.
Segundo
a publicação, o ímpeto do setor decorre do
alinhamento de políticas governamentais consistentes, capital industrial
paciente e uma força de trabalho altamente qualificada. O artigo argumenta que
essa sinergia entre o sistema financeiro e a economia real fornece a força
econômica necessária para que os fabricantes chineses reinvistam
continuamente em capacidade e tecnologia, fortalecendo as cadeias de
suprimentos domésticas contra as pressões da concorrência global.
Apesar
do entusiasmo nos mercados, o jornal também apela ao pragmatismo, observando a
natureza altamente cíclica do mercado de chips e apontando que
as restrições internacionais aos equipamentos de litografia EUV de próxima
geração representam um desafio considerável, sugerindo que o alto preço das
ações da empresa se deve, em parte, à euforia dos investidores com a
substituição de componentes domésticos.
Contudo,
a mídia afirma que o caminho da China rumo a uma economia impulsionada
pela inovação é irreversível, independentemente das flutuações do mercado de
ações.
Diante
de um cenário internacional de obstáculos à
globalização e
barreiras comerciais cada vez mais complexas, o jornal conclui que
o controle direto de tecnologias-chave é a única maneira de manter a
estabilidade e a competitividade industrial do país a longo prazo.
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Alemanha está secretamente buscando vulnerabilidades na economia chinesa,
revela mídia
A
Alemanha está secretamente procurando vulnerabilidades na economia da China
como parte dos preparativos para uma possível guerra comercial com Pequim,
relata mídia norte-americana com referência a fontes.
"As
autoridades alemãs estão secretamente à procura de vulnerabilidades na economia chinesa que poderiam
explorar se a União Europeia se encontrasse em uma guerra comercial com a
segunda maior economia do mundo", aponta a agência.
De
acordo com os entrevistados, fluxos comerciais, cadeias de suprimentos e dados
de empresas estão sendo analisados em Berlim para identificar onde Pequim
depende de tecnologia alemã e europeia, componentes especializados e
experiência industrial. E, em particular, como Pequim pode ser pressionada no
caso de um confronto econômico.
No
final de maio, um jornal americano informou que a Europa estava se aproximando
de uma guerra comercial com a China, temendo uma ameaça existencial aos seus
setores industriais devido ao influxo de produtos
chineses baratos
para o continente. Enquanto isso, em 21 de maio, o Ministério do Comércio
chinês anunciou que a China retaliaria decisivamente se a UE começasse a impor
restrições a empresas e produtos chineses.
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Gastos bilionários com IA acendem alerta do Fed sobre
risco de pressão inflacionária, diz mídia
Investimentos
bilionários em IA, de chips a data centers, já preocupam o Fed, que vê risco de
pressão inflacionária enquanto big techs divulgam nesta semana projeções de
gastos que podem moldar tanto o mercado quanto futuras decisões sobre juros.
A disparada dos
investimentos em
inteligência artificial (IA) deixou de ser apenas uma preocupação das big techs
e de seus acionistas. O volume bilionário destinado a softwares, data
centers, chips e minerais críticos já aparece no radar da Reserva Federal dos
EUA (Fed) como possível fonte de pressão inflacionária nos Estados Unidos
e, por extensão, em outras economias.
Segundo apuração de um portal de
notícias no Brasil, o tema ganha força nesta semana, quando o Fed anuncia sua
decisão de política monetária e gigantes como Meta (empresa proibida na Rússia
por atividade extremista), Microsoft, Amazon, Apple, SK Hynix e Qualcomm divulgam
resultados. Além de receita e lucro, o mercado acompanhará atentamente as
projeções de gastos com IA, que vêm crescendo de forma
acelerada.
Para
investidores consultados pela mídia, o risco é que parte desses aportes
não gere o retorno prometido. Para bancos centrais, o desafio é estimar quanto
custará erguer a infraestrutura necessária para que os ganhos de produtividade
da IA finalmente apareçam.
A ata
mais recente do Fed já aponta que esse ciclo de investimentos pode elevar a
inflação no curto prazo, uma vez que a expansão da IA aumenta a demanda
por equipamentos, eletricidade, softwares e serviços, pressionando preços e
custos energéticos.
Um
relatório da divisão de pesquisa especializada em energia, tecnologia, clima e
transição industrial de um famoso portal norte-americano, projeta que data
centers podem
quadruplicar o consumo de energia até 2035, chegando a responder por um quinto
da eletricidade gerada nos EUA.
A
equipe técnica do Fed citou a IA como um dos fatores que levaram à revisão para
cima das projeções de
inflação deste
ano e do próximo. Além dos custos diretos, o banco central norte-americano
avalia que o investimento empresarial pode manter a economia crescendo
acima do potencial, tornando a inflação mais persistente.
Estimativas
do Morgan Stanley, um dos maiores bancos de investimento do mundo, mostram a
dimensão do movimento. Segundo suas estimativas, os gastos com data
centers previstos para 2026 saltaram de US$ 575 bilhões (mais de R$ 2,9
trilhões) para cerca de US$ 850 bilhões (mais de R$ 4,3 trilhões), e o volume
total de investimentos
ligados à IA pode
alcançar US$ 10 trilhões (aproximadamente R$ 51 trilhões) nos próximos anos.
O
debate já entrou na política monetária. A ata do Fed indica que, se a demanda
associada à IA sustentar a inflação, novos aumentos de juros podem ser
necessários para reconduzir o índice à meta de 2%.
No
Brasil, o presidente do Banco
Central,
Gabriel Galípolo, também acompanha o tema e avalia que a IA pode ser
inflacionária na fase de construção, mas eventualmente
desinflacionária quando a produtividade avançar.
Há,
porém, a hipótese de que a tecnologia continue pressionando preços mesmo após
amadurecer, devido ao alto custo de operação, energia, chips e mão de obra
especializada. Parte desses custos pode ser repassada ao consumidor,
inclusive via inclusão de novos serviços digitais nos índices de inflação, como
ocorreu com streaming e aplicativos de transporte. Ferramentas de IA e serviços
de nuvem podem ser os próximos itens a ganhar peso nas
cestas de preços.
Fonte:
Sputnik Brasil

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