quinta-feira, 30 de julho de 2026

Digitalização inspira o Sul Global: como a Índia encurtou em décadas o caminho da bancarização?

Com uma velocidade recorde, a Índia conseguiu incluir cerca de 500 milhões de pessoas no sistema bancário em menos de uma década. A medida, sem precedentes na história mundial, serviu de inspiração para outros países em desenvolvimento, a exemplo do Brasil, que viveu processo semelhante durante a pandemia.

No país que abriga a maior população do planeta, a implementação de qualquer política pública ou mudança estrutural é sempre mais complexa. Apesar disso, a Índia conseguiu integrar aproximadamente 500 milhões de pessoas ao sistema financeiro digital em menos de uma década, além de ter lançado, ainda em 2016, o UPI (Unified Payments Interface, ou Sistema Unificado de Pagamentos, na tradução do inglês), considerado a maior plataforma de pagamentos do mundo. Com quase 20 bilhões de transações mensais, o sistema serviu inclusive de inspiração para o Pix brasileiro.

Outra realização indiana é a inclusão de mais de 99% da população (quase 1,4 bilhão de pessoas) no sistema de identificação civil digital Aadhaar. Com isso, cada indiano possui um número de identificação único, a exemplo da Carteira de Identidade Nacional do Brasil, e, caso seja necessário alterar dados, como endereço ou nome, não é mais preciso comparecer a um órgão público. Além disso, o país já ultrapassou a marca de 1 bilhão de smartphones ativos e alcançou uma taxa de acesso à Internet de 70%.

Os números colocam a Índia como um dos pioneiros no avanço da infraestrutura pública digital em todo o mundo e a transformam em uma referência para o Sul Global. O analista de geopolítica Shobhan Saxena, correspondente no Brasil do jornal indiano The Hindu, afirma ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que isso tem ajudado a derrubar estereótipos sobre a Índia conhecidos mundialmente, além de se tornar um "grande cartão de visita" para a diplomacia do país.

"O país também deixou de ser apenas um exportador de mão de obra em tecnologia para virar um exportador de soluções públicas de tecnologia. Um exemplo é o India Stack, que não tem custo de licenciamento para nações da África e da Ásia e tem fortalecido imensamente o soft power da Índia. Isso também ajuda o Sul Global a construir os seus próprios sistemas digitais, sem criar dependência de big techs sediadas nos Estados Unidos […]. A Índia conseguiu consolidar sua liderança política entre os países em desenvolvimento, e também vejo que há bastante oportunidade para o Brasil ampliar a cooperação com Nova Deli em áreas como pagamentos digitais."

Para o especialista, a Índia também conseguiu assumir uma voz ativa nos discursos sobre a importância da tecnologia, inclusive em fóruns globais, como BRICS e G20. "Dentro do BRICS, defende a criação de redes para pagamentos internacionais, e, em vez de vender um produto fechado, a Índia promove um conserto [de alguma infraestrutura digital], para que cada nação tenha soberania sobre seus próprios trilhos digitais e garanta o desenvolvimento social", complementa.

<><> Digitalização pública e redução da pobreza

Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) revelam que a Índia conseguiu retirar mais de 415 milhões de pessoas da pobreza em 15 anos. Conforme Saxena, o desenvolvimento da infraestrutura digital pública foi crucial nesse processo e ajudou, inclusive, a reduzir a corrupção na gestão dos programas sociais, em um país que concentra quase 18% da população mundial.

"A grande revolução foi um sistema de transferência de benefícios sociais, o Direct for Beneficiaries. Antigamente, o dinheiro dos auxílios passava por dezenas de mãos, com muita burocracia, e parte dele se perdia no caminho por conta da corrupção. Hoje, a verba cai direto na conta do beneficiário e a ajuda chega com precisão cirúrgica a quem realmente precisa, protegendo famílias em situação de vulnerabilidade", diz.

Já com a criação do sistema de pagamentos digitais, Saxena diz que o comércio ganhou um novo impulso, já que elimina taxas e o aluguel de maquininhas de cartão. "Agora, um vendedor de rua ou um motorista de tuk-tuk utiliza o QR Code do UPI, que é o Pix da Índia. Esse sistema processa bilhões de transações todos os meses, sendo a maioria de valores baixos. Isso movimenta o comércio local, elimina a necessidade de troco e evita a circulação de grandes quantias de dinheiro em espécie, algo comum anteriormente."

O especialista cita dados da consultoria McKinsey, que prevê um aumento de até US$ 1 trilhão (R$ 5,1 trilhões) no produto interno bruto (PIB) somente com a digitalização, que, segundo ele, transformou uma população vulnerável em novos consumidores e agentes ativos de mercado. A pesquisadora do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC), da Escola de Guerra Naval (EGN), Maria Fernanda Császár concorda e aponta ao podcast Mundioka que, para além dos efeitos econômicos, esse processo amplia o acesso da população a um direito básico: a documentação civil.

"O Aadhaar é um sistema de biometria e identificação da população em um país muito populoso e denso. Isso criava uma dificuldade muito grande para levar o Estado a essas pessoas. Então, para solucionar esse problema, a tecnologia foi criada ainda em 2009. O sistema também prevê a autenticação de serviços e veio acompanhado de políticas de fomento à inclusão financeira, como a abertura de contas bancárias. E, junto com a conectividade, a Índia também tem investido muito em infraestrutura física, como redes de Internet", enfatiza.

<><> Parcerias com países de baixa e média rendas

De acordo com a especialista, a Índia assinou pelo menos 23 memorandos de entendimento nos últimos anos para cooperação ou implementação de sistemas públicos digitais, a exemplo do UPI, que já funciona em outros oito países graças a essas parcerias. E todos os beneficiados possuem uma característica em comum: são países de baixa e média rendas, como Sri Lanka, Nepal, Butão e Ilhas Maurício.

"Eles têm se colocado como um modelo, como se fosse uma planta básica para a integração, o que está muito alinhado à política externa do governo do primeiro-ministro Narendra Modi. A Índia também tem reforçado a importância de pensar a conectividade de forma segura e confiável, de desenvolver uma infraestrutura digital pública resiliente e de ampliar a cooperação com mercados digitais emergentes. Em maio deste ano, tivemos uma reunião virtual da presidência indiana do BRICS em que foi apresentada uma nota conceitual sobre o desenvolvimento conjunto das capacidades digitais dos países", declara.

Por fim, Császár lembra que Nova Deli também se destaca cada vez mais no setor de inteligência artificial, com um crescimento de 263% nas soluções desenvolvidas desde 2016. Conforme a especialista, há ainda uma preocupação do governo indiano com aspectos como ética, segurança e uso responsável da tecnologia.

"É interessante olhar para a inteligência artificial na Índia porque esse desenvolvimento envolve tanto os bens digitais quanto a própria infraestrutura material que vem sendo construída, como plantas para semicondutores e avanço das tecnologias de hardware, que historicamente não eram o foco da Índia. O país sempre teve uma atuação mais forte no desenvolvimento de software. Então existe esse cuidado de pensar, novamente de forma holística, o desenvolvimento da inteligência artificial no país", conclui.

¨      Tecnologia de ponta assume o protagonismo na China, diz mídia asiática

Após a estreia histórica da fabricante de chips de memória ChangXin Memory Technologies (CXMT, na sigla em inglês) na Bolsa de Valores de Xangai, o preço das ações surpreendeu o mercado, afirmou o Global Times.

De acordo com o portal de mídia asiática, o aumento de mais de 465% no preço das ações da empresa em seu primeiro dia de negociação, colocando-a no topo do mercado em valor de mercado, envia um sinal inequívoco sobre uma mudança no modelo de desenvolvimento da China.

O artigo enfatiza que a CXMT alcançou a produção em massa independente de chips de memória DRAM, desafiando o oligopólio de longa data de três gigantes estrangeiros (Samsung, SK hynix e Micron).

Segundo o jornal, o progresso da empresa em apenas uma década não só demonstra a viabilidade da autossuficiência tecnológica, como também ajudou a estruturar um amplo ecossistema de empresas fornecedoras de equipamentos e embalagens no país, graças à rentabilidade de investimentos de longo prazo.

Essa evolução transcende o setor de semicondutores, argumenta o Global Times, observando que uma história semelhante está se desenrolando em áreas como computação avançada, software industrial e novas energias. O artigo enfatiza que quase metade das dez empresas mais valiosas da bolsa de valores chinesa agora pertence ao setor de tecnologia, o que, na visão do jornal, reflete uma transição estrutural rumo a um crescimento de alta qualidade focado na inovação doméstica.

Segundo a publicação, o ímpeto do setor decorre do alinhamento de políticas governamentais consistentes, capital industrial paciente e uma força de trabalho altamente qualificada. O artigo argumenta que essa sinergia entre o sistema financeiro e a economia real fornece a força econômica necessária para que os fabricantes chineses reinvistam continuamente em capacidade e tecnologia, fortalecendo as cadeias de suprimentos domésticas contra as pressões da concorrência global.

Apesar do entusiasmo nos mercados, o jornal também apela ao pragmatismo, observando a natureza altamente cíclica do mercado de chips e apontando que as restrições internacionais aos equipamentos de litografia EUV de próxima geração representam um desafio considerável, sugerindo que o alto preço das ações da empresa se deve, em parte, à euforia dos investidores com a substituição de componentes domésticos.

Contudo, a mídia afirma que o caminho da China rumo a uma economia impulsionada pela inovação é irreversível, independentemente das flutuações do mercado de ações.

Diante de um cenário internacional de obstáculos à globalização e barreiras comerciais cada vez mais complexas, o jornal conclui que o controle direto de tecnologias-chave é a única maneira de manter a estabilidade e a competitividade industrial do país a longo prazo.

<><> Alemanha está secretamente buscando vulnerabilidades na economia chinesa, revela mídia

A Alemanha está secretamente procurando vulnerabilidades na economia da China como parte dos preparativos para uma possível guerra comercial com Pequim, relata mídia norte-americana com referência a fontes.

"As autoridades alemãs estão secretamente à procura de vulnerabilidades na economia chinesa que poderiam explorar se a União Europeia se encontrasse em uma guerra comercial com a segunda maior economia do mundo", aponta a agência.

De acordo com os entrevistados, fluxos comerciais, cadeias de suprimentos e dados de empresas estão sendo analisados em Berlim para identificar onde Pequim depende de tecnologia alemã e europeia, componentes especializados e experiência industrial. E, em particular, como Pequim pode ser pressionada no caso de um confronto econômico.

No final de maio, um jornal americano informou que a Europa estava se aproximando de uma guerra comercial com a China, temendo uma ameaça existencial aos seus setores industriais devido ao influxo de produtos chineses baratos para o continente. Enquanto isso, em 21 de maio, o Ministério do Comércio chinês anunciou que a China retaliaria decisivamente se a UE começasse a impor restrições a empresas e produtos chineses.

¨      Gastos bilionários com IA acendem alerta do Fed sobre risco de pressão inflacionária, diz mídia

Investimentos bilionários em IA, de chips a data centers, já preocupam o Fed, que vê risco de pressão inflacionária enquanto big techs divulgam nesta semana projeções de gastos que podem moldar tanto o mercado quanto futuras decisões sobre juros.

A disparada dos investimentos em inteligência artificial (IA) deixou de ser apenas uma preocupação das big techs e de seus acionistas. O volume bilionário destinado a softwares, data centers, chips e minerais críticos já aparece no radar da Reserva Federal dos EUA (Fed) como possível fonte de pressão inflacionária nos Estados Unidos e, por extensão, em outras economias.

Segundo apuração de um portal de notícias no Brasil, o tema ganha força nesta semana, quando o Fed anuncia sua decisão de política monetária e gigantes como Meta (empresa proibida na Rússia por atividade extremista), Microsoft, Amazon, Apple, SK Hynix e Qualcomm divulgam resultados. Além de receita e lucro, o mercado acompanhará atentamente as projeções de gastos com IA, que vêm crescendo de forma acelerada.

Para investidores consultados pela mídia, o risco é que parte desses aportes não gere o retorno prometido. Para bancos centrais, o desafio é estimar quanto custará erguer a infraestrutura necessária para que os ganhos de produtividade da IA finalmente apareçam.

A ata mais recente do Fed já aponta que esse ciclo de investimentos pode elevar a inflação no curto prazo, uma vez que a expansão da IA aumenta a demanda por equipamentos, eletricidade, softwares e serviços, pressionando preços e custos energéticos.

Um relatório da divisão de pesquisa especializada em energia, tecnologia, clima e transição industrial de um famoso portal norte-americano, projeta que data centers podem quadruplicar o consumo de energia até 2035, chegando a responder por um quinto da eletricidade gerada nos EUA.

A equipe técnica do Fed citou a IA como um dos fatores que levaram à revisão para cima das projeções de inflação deste ano e do próximo. Além dos custos diretos, o banco central norte-americano avalia que o investimento empresarial pode manter a economia crescendo acima do potencial, tornando a inflação mais persistente.

Estimativas do Morgan Stanley, um dos maiores bancos de investimento do mundo, mostram a dimensão do movimento. Segundo suas estimativas, os gastos com data centers previstos para 2026 saltaram de US$ 575 bilhões (mais de R$ 2,9 trilhões) para cerca de US$ 850 bilhões (mais de R$ 4,3 trilhões), e o volume total de investimentos ligados à IA pode alcançar US$ 10 trilhões (aproximadamente R$ 51 trilhões) nos próximos anos.

O debate já entrou na política monetária. A ata do Fed indica que, se a demanda associada à IA sustentar a inflação, novos aumentos de juros podem ser necessários para reconduzir o índice à meta de 2%.

No Brasil, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, também acompanha o tema e avalia que a IA pode ser inflacionária na fase de construção, mas eventualmente desinflacionária quando a produtividade avançar.

Há, porém, a hipótese de que a tecnologia continue pressionando preços mesmo após amadurecer, devido ao alto custo de operação, energia, chips e mão de obra especializada. Parte desses custos pode ser repassada ao consumidor, inclusive via inclusão de novos serviços digitais nos índices de inflação, como ocorreu com streaming e aplicativos de transporte. Ferramentas de IA e serviços de nuvem podem ser os próximos itens a ganhar peso nas cestas de preços.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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