Mudanças
climáticas: “O dano não termina quando a água baixa ou quando a fumaça diminui”
O Super
El Niño chegou com força ao Rio Grande do Sul, causando alagamentos e
evacuações de pessoas em zonas de risco, principalmente no Vale do Taquari,
onde o rio ultrapassou a marca de 21 metros no município de Lajeado. Nessas
condições, os cuidados com a saúde e as medidas preventivas contra possíveis
doenças são fundamentais. Recentemente, o Observatório de Clima e Saúde da
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) lançou uma nota técnica alertando para a
formação de um novo El Niño em 2026, com possibilidade de permanência até o
início de 2027. A publicação detalha possíveis impactos (como enchentes e
incêndios florestais) regionais de Norte a Sul, trazendo informações
importantes para a saúde da população. O documento reúne orientações técnicas
para autoridades e gestores públicos organizadas em quatro níveis de atuação:
atenção, alerta, emergência e recuperação. Em entrevista especial, concedida
por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, o coordenador do Observatório de Clima e Saúde Diego Xavier
comenta que além dessas medidas, há a necessidade da implementação de salas de
situação climática caracterizadas como “espaços intersetoriais de inteligência
para coordenação e decisão, ou seja: reúnem diferentes órgãos para analisar
riscos em territórios e não apenas por limites administrativos”.
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Confira a entrevista.
• Por que o El Niño deve ser tratado como
um fator de risco sanitário?
Diego
Xavier – O primeiro ponto é separar fenômeno climático, risco e desastre. O El
Niño modifica as probabilidades de chuva, seca e temperatura em diferentes
regiões, mas o dano à saúde aparece quando essas alterações encontram
populações expostas e territórios vulneráveis, com pouco saneamento, ocupação
de áreas de risco, infraestrutura precária e serviços públicos que já operam
sob pressão. Por isso, nós o tratamos como condicionante de risco climático e
sanitário, e não como causa única de todos os eventos extremos. No Sul, ele
pode favorecer chuvas intensas, inundações e deslizamentos; no Norte e em parte
do Nordeste, pode agravar a seca, calor, queimadas e insegurança hídrica. Cada
um desses cenários produz efeitos sanitários diferentes: traumas, doenças
transmitidas pela água, agravos respiratórios, desidratação, interrupção de
tratamentos e sofrimento mental. Reconhecer esse risco antecipadamente permite
que o SUS, a Defesa Civil, o saneamento e a assistência social se preparem
antes que o evento se transforme em desastre.
• Quais foram os principais impactos
observados na saúde da população com o El Niño de 2023-2024?
Diego
Xavier – O El Niño de 2023-2024 mostrou, de forma muito dura, os efeitos em
cascata que eventos climáticos podem produzir. No Rio Grande do Sul, as
inundações de 2024 afetaram, ainda no início da emergência, quase 850 mil
pessoas em 341 municípios e alcançaram 110 hospitais, estes dados estão
disponíveis no Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz. Houve mortes,
afogamentos, traumas, deslocamento de famílias, interrupção de serviços
essenciais, exposição à água contaminada e aumento do risco de leptospirose e
outras doenças infecciosas. Em outras regiões, especialmente na Amazônia, a
seca, a baixa dos rios, as queimadas e a fumaça comprometeram o transporte, o
abastecimento de água, o acesso aos serviços e a saúde respiratória e
cardiovascular. Ao mesmo tempo, a Região das Américas viveu a maior epidemia de
dengue de sua história, com mais de 13 milhões de casos em 2024. É importante
deixar claro que esses impactos não podem ser atribuídos exclusivamente ao El
Niño. Eles resultaram da combinação entre o fenômeno, o aquecimento global, as
condições do oceano Atlântico, outros sistemas atmosféricos e as
vulnerabilidades dos territórios. O aprendizado central é que o dano não
termina quando a água baixa ou quando a fumaça diminui: permanecem a
interrupção de tratamentos, o sofrimento mental, a perda de renda, o
deslocamento e a pressão prolongada sobre o SUS.
• Na nota técnica publicada pela UFSM e
pela Fiocruz, quais são as principais recomendações para enfrentar o El Niño
previsto para este ano?
Diego
Xavier – A recomendação principal é muito objetiva: não esperar o desastre
acontecer para começar a agir. A nota propõe a ativação preventiva de salas de
situação climática e sanitária, a revisão dos planos de contingência para
enchentes, secas, queimadas e arboviroses e o reforço integrado das vigilâncias
meteorológica, hidrológica, ambiental, epidemiológica e assistencial. Também
recomendamos mapear antecipadamente áreas e unidades de saúde vulneráveis,
rotas de evacuação, abrigos, sistemas de captação e tratamento de água,
serviços de diálise, maternidades, instituições de longa permanência e outros
pontos críticos. É necessário acondicionar de forma segura e ágil
medicamentos, vacinas indicadas, testes,
equipamentos de proteção, soros de reidratação e demais insumos, além de
garantir alternativas de energia, água e transporte. A Atenção Primária tem
papel central nessa preparação. Ela deve atualizar cadastros, realizar busca
ativa e identificar pessoas que não podem ficar sem cuidado, como gestantes,
crianças pequenas, idosos, pessoas acamadas, pacientes em diálise, pessoas que
precisam de insulina e usuários de oxigênio domiciliar, por exemplo.
• O que são e como funcionariam as salas
de situação climática e sanitária recomendadas pela nota?
Diego
Xavier – As salas de situação são espaços intersetoriais de inteligência para
coordenação e decisão, ou seja: reúnem diferentes órgãos para analisar riscos
em territórios e não apenas por limites administrativos. Elas devem funcionar
permanentemente para integrar dados ambientais, meteorológicos, sanitários e
assistenciais. Sua atuação ocorre em quatro fases — atenção, alerta, emergência
e recuperação — e depende de dados territoriais, definição clara de
responsabilidades, reuniões regulares e autoridade para agir.
• Quais regiões brasileiras tendem a ser
mais afetadas pelo El Niño deste ano e quais impactos são esperados para a
saúde pública nos diferentes cenários do país?
Diego
Xavier – Na Região Sul, a tendência típica é de chuva acima da média,
especialmente na primavera, com maior probabilidade de tempestades, enxurradas,
inundações e deslizamentos. Para a saúde, isso significa preparar urgências e
hospitais para afogamentos e traumas, reforçar a vigilância de leptospirose,
hepatite A e doenças diarreicas, proteger o abastecimento de água e evitar a
interrupção de tratamentos e serviços essenciais. No Norte, o cenário mais
provável é de redução das chuvas, prolongamento da seca, calor, baixa umidade,
diminuição do nível dos rios e maior risco de queimadas. Os principais impactos
sanitários são escassez e contaminação da água, insegurança alimentar,
isolamento de comunidades, dificuldade de acesso ao cuidado, desidratação e
agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares pela fumaça. No
Centro-Oeste e no Sudeste, os efeitos tendem a ser mais variáveis e dependem da
atuação de frentes frias, da Zona de Convergência do Atlântico Sul e de outros
sistemas. Essas regiões precisam se preparar para extremos combinados: calor,
estiagem, queimadas, tempestades localizadas e arboviroses. Nada disso deve ser
lido como uma previsão determinística para cada município. Mesmo um El Niño
forte não produz o impacto típico em todos os lugares; por isso, a gestão deve
trabalhar com cenários, monitoramento local e gatilhos de ação.
• O SUS está preparado para enfrentar os
impactos do El Niño na saúde da população? Quais as recomendações para
fortalecer a atuação do sistema diante dos riscos associados a esse fenômeno
climático?
Diego
Xavier – Não é possível responder apenas com “sim” ou “não”. O SUS possui
enormes fortalezas: capilaridade territorial, Atenção Primária, vigilância
epidemiológica, laboratórios, assistência farmacêutica, urgência e experiência
acumulada em emergências. Mas a capacidade de preparação é muito desigual entre
os territórios, e muitas redes já trabalham no limite. Uma nova emergência pode
interromper serviços e gerar desassistência justamente onde a população mais
depende do sistema público. Fortalecer o SUS significa torná-lo climaticamente
resiliente. Precisamos identificar unidades instaladas em áreas sujeitas a
inundação ou isolamento, garantir água, energia, comunicação e rotas
alternativas, manter estoques estratégicos e organizar a redistribuição de
pacientes quando um serviço for atingido. Também é necessário integrar dados
climáticos, ambientais, entomológicos, epidemiológicos e assistenciais em
sistemas de alerta precoce. A Atenção Primária deve conhecer as
vulnerabilidades do território e manter contato com quem depende de medicação,
diálise, insulina, oxigênio ou acompanhamento contínuo. Hospitais e urgências
precisam prever aumentos simultâneos de traumas, infecções, crises
respiratórias, descompensações cardiovasculares e dengue grave. E essa não pode
ser uma agenda exclusiva da saúde: sem saneamento, habitação, drenagem,
proteção ambiental, assistência social e Defesa Civil, o SUS continuará
recebendo no fim da cadeia problemas produzidos por decisões tomadas em outras
áreas.
• Com base nos dados acompanhados pelo
Observatório de Clima e Saúde, quais transformações têm sido observadas na
saúde pública brasileira diante da intensificação dos eventos climáticos
extremos nos últimos anos?
Diego
Xavier – O que observamos não é apenas um aumento na quantidade de ocorrências,
mas uma mudança de escala. A saúde pública está sendo obrigada a lidar com
eventos mais frequentes, intensos, sobrepostos e prolongados. Depois de uma
enchente, por exemplo, surgem lesões, doenças infecciosas, interrupções do
cuidado e, mais tarde, efeitos cardiovasculares e de saúde mental. Durante uma
seca com queimadas, aumenta a demanda por atendimento respiratório, mas também
podem faltar água, transporte e condições de funcionamento para a própria
unidade de saúde. É importante valorizar o fato de que conseguimos enxergar
parte dessa transformação porque o Brasil construiu sistemas públicos de
informação em saúde de enorme qualidade e uma tradição de dados abertos que
antecede até o debate contemporâneo sobre licenças de uso. Esses sistemas têm
problemas e sub-registros, como qualquer base produzida em situações
emergenciais, mas constituem um patrimônio do SUS. O desafio agora é integrar
essas informações às bases ambientais e climáticas e transformá-las em decisão
antecipada.
• Que doenças estão associadas aos eventos
climáticos extremos?
Diego
Xavier – Não existe uma única lista, porque cada tipo de evento produz
exposições diferentes. Em enchentes, temos inicialmente afogamentos, traumas,
choques elétricos, hipotermia e acidentes com animais peçonhentos. Nos dias e
semanas seguintes, aumentam os riscos de leptospirose, doenças diarreicas
agudas, hepatite A, tétano acidental, dermatoses, conjuntivites, infecções
respiratórias e surtos em abrigos. Nas secas e na escassez hídrica, aparecem
desidratação, doenças diarreicas por água insegura, insegurança alimentar e
agravamentos renais e cardiovasculares. Quando a seca favorece queimadas, a
exposição à fumaça agrava asma, bronquite, doença pulmonar obstrutiva crônica,
pneumonias, infarto e acidente vascular cerebral. Ondas de calor podem causar
exaustão térmica e insolação e agravar doenças cardiovasculares, renais e
respiratórias. Também precisamos considerar dengue, chikungunya, zika e, em
áreas endêmicas, malária; além de influenza,
Covid-19 e outras infecções respiratórias em ambientes coletivos. E há
uma dimensão frequentemente invisibilizada: luto, ansiedade, depressão,
violência, sofrimento mental e Transtorno de Estresse Pós-traumático. Os
eventos extremos também interrompem tratamentos e descompensam doenças
crônicas; portanto, o impacto sanitário vai muito além das doenças infecciosas.
• Qual é a correlação entre fenômenos
climáticos extremos e a proliferação de doenças tropicais, como dengue?
Diego
Xavier – A correlação existe e é bem documentada, mas ela é condicional e não
automática. Temperatura, chuva e umidade influenciam a sobrevivência, a
reprodução e a distribuição do Aedes aegypti, além do tempo de desenvolvimento
do vírus dentro do mosquito. Dentro de uma faixa térmica favorável, o
aquecimento pode acelerar o ciclo do vetor e aumentar a competência de
transmissão. Chuvas irregulares podem deixar recipientes com água parada e
multiplicar criadouros. A seca também pode aumentar o risco. Quando o
abastecimento se torna irregular, as famílias precisam armazenar água e, se os
recipientes não estiverem protegidos, criam-se locais de reprodução. Os ovos do
Aedes podem permanecer viáveis por mais de um ano em ambiente seco, o que ajuda
a explicar a rápida retomada da infestação quando a água retorna. Mas o clima,
sozinho, não explica uma epidemia. É preciso haver vetor, vírus circulante e
população suscetível. Urbanização desordenada, saneamento, coleta de resíduos,
mobilidade, circulação simultânea de sorotipos, imunidade populacional e
capacidade de controle vetorial também são decisivos. Há ainda defasagens entre
a alteração climática, o crescimento do mosquito e o aumento de casos. Por
isso, a informação climática deve entrar na vigilância como sinal antecipado de
risco, e não como explicação única ou previsão automática.
• Alguns pesquisadores afirmam que doenças
decorrentes das mudanças climáticas tendem a se intensificar nos próximos anos,
à medida que alterações ambientais favorecem a sobrevivência e a expansão de
vírus, bactérias e outros agentes infecciosos para regiões onde antes não
encontravam condições adequadas. Quais são os principais desafios para a saúde
pública diante desse cenário?
Diego
Xavier – O primeiro desafio é acompanhar uma geografia de risco que está
mudando. O clima não “cria” vírus ou bactérias, mas pode tornar novos
territórios ambientalmente adequados para vetores e reservatórios, alterar
ciclos de transmissão e ampliar o contato entre pessoas, animais e agentes
infecciosos. Regiões que antes não conviviam regularmente com determinadas
doenças podem passar a registrar casos, e seus profissionais e serviços podem
não estar preparados para reconhecer o problema. Precisamos, então, de
vigilância epidemiológica, entomológica, ambiental e genômica integrada;
laboratórios capazes de identificar rapidamente agentes e sorotipos;
profissionais treinados para diagnóstico e manejo em novas áreas; e sistemas de
alerta que combinem dados de clima, vetores, notificações e capacidade
assistencial. Também será necessário manter financiamento e equipes de forma
contínua, porque a vigilância não pode funcionar apenas quando a epidemia já
está instalada. O desafio estrutural permanece sendo reduzir as
vulnerabilidades que transformam risco em doença: falta de saneamento, moradia
inadequada, insegurança hídrica e alimentar, degradação ambiental e acesso
desigual aos serviços. Não podemos enfrentar as epidemias do século XXI
mantendo vulnerabilidades urbanas e sociais do século passado. A adaptação
precisa proteger primeiro os territórios e grupos mais expostos, ou a crise
climática aprofundará desigualdades que já são muito grandes.
• Segundo informações da nota técnica da
UFSM e da Fiocruz, a Região das Américas registrou em 2024 a maior epidemia de
dengue da história, com mais de 13 milhões de casos, em um contexto marcado por
eventos climáticos extremos. Diante desse cenário, quais impactos sobre a saúde
da população podem ser esperados em decorrência do El Niño previsto para este
ano?
Diego
Xavier – Os mais de 13 milhões de casos registrados em 2024 devem ser vistos
como um alerta sobre a capacidade de combinação entre clima favorável, expansão
do vetor, circulação de vários sorotipos, população suscetível e
vulnerabilidade urbana. Esse número não significa que o El Niño produzirá
automaticamente outra epidemia da mesma dimensão, mas mostra o tamanho da
pressão que pode surgir quando esses fatores se alinham. É importante atualizar
o cenário: o fenômeno que, no momento da nota, ainda era previsto já está
estabelecido e tende a se fortalecer ao longo de 2026. Se houver calor
persistente, irregularidade de chuvas e problemas no abastecimento de água, diferentes territórios
poderão apresentar condições favoráveis à proliferação do mosquito. Ao mesmo
tempo, enchentes, secas e queimadas podem pressionar os mesmos serviços com
traumas, leptospirose, doenças diarreicas, crises respiratórias e
descompensações cardiovasculares. O maior risco, portanto, é a sobreposição de
emergências: uma rede atendendo dengue e, simultaneamente, respondendo a uma
inundação, à fumaça ou à interrupção de água e energia. Crianças, idosos,
gestantes, pessoas com doenças crônicas e comunidades com menor acesso aos
serviços tendem a sofrer os maiores impactos. A resposta adequada é antecipar
estoques, hidratação e classificação de risco, integrar vigilância climática,
entomológica e epidemiológica e agir sobre os criadouros durante todo o ano.
• Deseja acrescentar algo?
Diego
Xavier – É importante acrescentar que a comunicação de risco é o primeiro nível
de proteção. Não basta emitir um boletim dizendo que vai chover ou que a
temperatura aumentou. É preciso traduzir o alerta em orientação concreta:
quando sair de uma área de risco, como evitar água contaminada, quando procurar
atendimento, como armazenar água com segurança, como reduzir criadouros do
Aedes e como se proteger da fumaça e do calor. Essa comunicação precisa chegar
por agentes comunitários, rádios locais, escolas e lideranças, inclusive onde o
acesso digital é limitado. Também precisamos evitar duas armadilhas: o
alarmismo e a falsa segurança. O El Niño aumenta probabilidades, mas não
explica tudo e não produz o mesmo efeito em todos os lugares. Ao mesmo tempo, o
clima não pode servir de desculpa para a inação. Se sabemos que o risco
aumentou, cresce também a responsabilidade de planejar drenagem, proteger
encostas, garantir saneamento, preparar abrigos e fortalecer o SUS. Nós já
temos conhecimento, instituições, sistemas de informação e experiência
acumulada. O que falta é transformar previsão em decisão no tempo certo.
Eventos extremos tornam-se desastres quando encontram desigualdade,
infraestrutura insuficiente e ausência de preparação. Portanto, enfrentar o El
Niño é também enfrentar a desigualdade e proteger primeiro quem historicamente
sofre mais e demora mais para se recuperar.
Fonte:
Entrevista com Diego Xavier, para Luana de Oliveira e Patricia Fachin, em IHU

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