Mercuriocromo:
o remédio tóxico que quase todo mundo usava para machucados de crianças
Quem
foi criança na segunda metade do século 20 no Brasil certamente se lembra que
ralar os joelhos brincando de bola significava passar pela tortura de ter que
sentir uma pequena espátula plástica raspando no machucado com um remédio
vermelho — que muitas vezes ardia.
Comercializado
sob o nome de mercúrio cromo ou mercurocromo — que é o nome certo segundo
dicionários —, foi um antisséptico tópico amplamente popular. Tanto que
constava na maior parte dos lares brasileiros e era a primeira coisa que se
pensava no caso de primeiros-socorros para pequenas escoriações comuns a toda
infância.
O
remédio sumiu das prateleiras do país há 25 anos, quando uma resolução da
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a produção e a venda
desse tipo de produto porque havia mercúrio na fórmula. O metal é altamente
tóxico, mas nessas fórmulas, em tese, não havia um risco direto ao paciente.
"O
mercurocromo original tinha como princípio ativo a merbromina, que é um
composto organomercurial", explica o químico Adriano Andricopulo,
professor na Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de
Ciências.
"Portanto,
ele realmente continha mercúrio, mas não na forma de mercúrio metálico solto,
como nos antigos termômetros. O mercúrio fazia parte da própria estrutura
química da molécula."
O
professor afirma que a ideia da Anvisa ao retirar esse tipo de medicamento do
mercado fazia parte de uma política de redução da exposição da população ao
mercúrio.
"A
preocupação era especialmente importante quando o produto era aplicado
repetidamente ou sobre áreas extensas de pele lesionada, situação em que
poderia haver maior absorção", lembra o químico.
Ele
ressalta contudo, que quem um dia usou mercúrio em um machucado, não precisa se
preocupar, já que o contato por si só não significa exposição à intoxicação.
Na
época, segundo ele, a própria Anvisa explicou que o problema principal era
reduzir fontes desnecessárias e cumulativas de exposição.
A
decisão técnica foi um medida preventiva, baseada em estudos da relação entre
"benefício, eficácia e segurança". Além disso, já existiam
alternativas sem mercúrio para tratar pequenos ferimentos.
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Antes do antibiótico ser inventado
O
mercurocromo foi desenvolvido nos Estados Unidos em 1919 e, de lá, ganhou o
mundo como um antisséptico prático e acessível para pequenas lesões.
Seu
nome oficial é merbromina e a solução que costumava ser aplicada nos machucados
geralmente era uma diluição de 2% do composto, a base de mercúrio, em 98% de
álcool (daí o ardor) ou água.
O
cientista creditado como inventor do composto é o norte-americano Hugh Hampton
Young (1870-1945). Cirurgião e pesquisador, ele lecionava na Universidade Johns
Hopkins, em Maryland — foi nessa instituição que, com sua equipe, descobriu as
propriedades antissépticas da merbromina.
Por ser
simples e barata, a solução passou a ser recomendada por médicos ao redor do
mundo.
"É
importante lembrar que isso ocorreu antes da descoberta da penicilina [que
ocorreria em 1928] e muito antes dos antibióticos modernos. Naquela época,
prevenir infecções em pequenos ferimentos era um enorme desafio, e a merbromina
representou uma inovação importante", contextualiza o químico Andricopulo.
Mas a
partir dos anos 1990, seu uso passou a ser questionado. A própria medicina
passou a entender que havia soluções mais eficientes para desinfetar pequenos
machucados, como água e sabão.
Em
artigo publicado em 2011, o médico Drauzio Varella recorda que sua avó era
adepta do dito popular que apregoa "o que arde cura" e suas memórias
carregam uma mistura de sensação de ardor e joelhos pintados de vermelho quando
se lembra do futebol com os amigos da infância. A cada ralado, era mercurocromo
na certa.
"Sem
querer menosprezar a sabedoria da avó de ninguém — muito menos a da minha –, é
preciso dizer que, apesar de serem mulheres prendadas, prestimosas, que nos
encheram de carinho, nossas vovós não entendiam nada de bacteriologia",
escreve Varella.
O
médico explica: as bactérias mais agressivas podiam inclusive crescer dentro do
vidro da solução de mercúrio. E a tal pazinha plástica? Pincelava um machucado
e trazia para dentro do frasco bactérias prontas para sobreviverem até serem
"semeadas na ferida seguinte".
"A
conduta atual diante de esfolamentos, arranhões, cortes superficiais ou
profundos pode ser resumida em duas palavras: água e sabão! E mais nada",
escreveu Varella.
E essa
é a postura mais adotada atualmente.
"Água
e sabão se mostraram muitas vezes tão efetivos quanto esses antissépticos
locais. Percebemos que não faz muito sentido usar nenhuma substância porque
existem potenciais de irritação", diz o pediatra infectologista Renato
Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Pediatria.
<><>Proibição
do uso
A
pediatra Giulia Lima, pesquisadora no Boston Children's Hospital, nos Estados
Unidos, diz que apesar de serem muito populares, nunca foi comprovado que de
fato o uso dessas substâncias [à base de mercúrio] preveniam o desenvolvimento
de feridas.
E ela
acrescenta que a tintura vermelha, ao cobrir o machucado, acabava dificultando
que, em uma inspeção visual, se verificasse alguma possível complicação
posterior.
Andricopulo
acrescenta que produtos antissépticos fortes não são mais recomendados para
pequenas escoriações porque embora eliminem microorganismos, também podem lesar
células importantes para a cicatrização e retardar o reparo da pele.
"A
medicina evoluiu de uma abordagem centrada em desinfetar para uma abordagem
baseada em limpar adequadamente a ferida e preservar o processo natural de
cicatrização", compara o professor da USP.
Riscos
de intoxicação mesmo nunca foram um problema — a não ser que uma criança
ingerisse acidentalmente o conteúdo de um frasco ou algo assim.
Andricopulo
diz que apenas exposições a níveis muito altos da substância são capazes de
afetar o organismo de alguém — principalmente os rins e o sistema nervoso.
Mas
passou a ser considerado também o potencial cumulativo do mercúrio no meio
ambiente e a virada dos anos 2000 foi um período em que houve uma certa
conscientização no meio científico sobre a necessidade de reduzir ao máximo as
possibilidades de que esse metal fosse se espalhando pelos solos e rios.
"Descartes
de remédios com mercúrio podiam contaminar terra, água e outros animais,
aumentando a concentração do mercúrio no ambiente, que poderia retornar ao ser
humano em forma de alimento", pontua Lima. "Não fazia sentido
manter."
Em
1998, a entidade norte-americana Food and Drug Administration (FDA)
reclassificou o mercurocromo como substância não mais considerada de uso
seguro.
Pouco
tempo depois, o medicamento foi banido das farmácias dos Estados Unidos. Outros
países foram adotando parâmetros semelhantes.
"A
proibição no Brasil seguiu determinações da Organização Mundial de Saúde",
afirma a bióloga Ionara Rodrigues Siqueira, professora de farmacologia na
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A OMS
entendia o problema como algo mais coletivo do que individual, segundo
Siqueira. Era uma estratégia tanto de proteção do indivíduo, por conta da
toxidade direta dos compostos, quanto do ambiente, já que o mercúrio pode ser
bioacumulado, transferido nos passos da cadeia alimentar.
Com a
proibição, ficou apenas na memória "o carinho e o assopro dos pais para
aliviar o ardido", comenta o farmacêutico Fabio Leonardo Mora, autor do
projeto memorialístico Farmacêutico das Antigas, que costuma trazer também
histórias de medicamentos antigos nas redes sociais.
"Essas
soluções marcaram gerações, nos pátios de escola e nos cuidados."
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Alternativas contemporâneas
Do
ponto de vista da química medicinal, o mercurocromo é um excelente exemplo de
como um medicamento pode ser considerado inovador em uma determinada época e,
décadas depois, ser substituído à medida que o conhecimento científico evolui e
produtos com melhor relação entre eficácia e segurança são desenvolvidos.
Hoje em
dia existem no mercado alternativas ao antigo mercurocromo. No lugar das
problemáticas pazinhas, as formulações costumam ser aplicadas por meio de um
spray borrifador — evitando os riscos de contaminação cruzada.
Das
antigas marcas que continham mercúrio na fórmula, restou o nome comercial
Merthiolate, que era também onipresente em farmacinhas domésticas do século
passado.
Desenvolvida
em 1927, tinha uma formulação diferente do mercurocromo — mas também continha
mercúrio.
"Embora
muitas pessoas confundam ambos, eles eram medicamentos diferentes. O
mercurocromo tinha como princípio ativo a merbromina, enquanto o Merthiolate
continha timerosal, também chamado de tiomersal", explica Andricopulo.
"Os
dois eram compostos organomercuriais, ou seja, moléculas que continham mercúrio
em sua estrutura química. O Merthiolate […] se tornou um dos antissépticos mais
utilizados no mundo durante boa parte do século 20", acrescenta.
Se o
nome comercial existe ainda hoje, a formulação é outra. Agora o produto tem em
sua composição um antisséptico chamado clorexidina, um produto químico
sintético.
"Durante
décadas, o timerosal foi amplamente comercializado como agente antimicrobiano
em diversos produtos, incluindo soluções antissépticas tópicas, pomadas para
cortes, sprays nasais, colírios, espermicidas vaginais e tratamentos para
assaduras" enumera a farmacêutica Tânia Alves Amador, professora na UFRGS.
Ela
acrescenta, contudo, que desde o início dos anos 1930 estudos indicavam que a
substância "não apenas falhava como agente antimicrobiano, mas também
apresentava graves riscos de toxicidade para os seres humanos".
"As
coisas evoluíram. Os antissépticos a base de mercúrio foram descontinuados e a
clorexidina veio como alternativa mais segura, menos poluente ao meio ambiente
e menos irritante ao paciente", analisa Kfouri.
Mas
para ralado e machucado comum, os especialistas são unânimes: precisa apenas de
água e sabão
"E
qualquer sabão serve. Não precisa ser antibacteriano nem nada especial. Isso
não faz diferença", garante Lima.
Fonte:
BBC News Brasil

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